Adultos que Abandonaram Precocemente a Escola

As pessoas que abandonaram precocemente a escola sem completar o ensino secundário ou obter uma qualificação têm um risco mais elevado de desemprego, exclusão social e pobreza. Existem muitos motivos para que os jovens abandonem prematuramente a escola: problemas pessoais ou familiares, dificuldades de aprendizagem, problemas sociais e/ou financeiros. Outros fatores relevantes são o ambiente escolar e as relações professor-aluno.

Divulgamos aqui, em português, uma reflexão de Paul Downes da Dublin City University sobre a necessidade de uma estratégia de "afiliação assertiva" para envolver adultos que abandonaram precocemente a escola.

O abandono escolar precoce é o tema de julho em foco na EPALE (Plataforma eletrónica para a educação de adultos na Europa. Nesta plataforma pode encontrar, para além da reflexão que divulgamos aqui, outros artigos relacionados com este tema.

Estabelecer uma ponte para o fosso de credibilidade: a necessidade de uma estratégia de "afiliação assertiva" para envolver adultos que abandonaram precocemente a escola

Existe a necessidade de questionar quão credíveis são muitas das abordagens que visam alcançar grupos marginalizados na Europa, incluindo os adultos que abandonaram a escola precocemente. Por vezes, as intervenções parecem basear-se na ideia de que folhetos, sites, cartazes e outras formas de informação serão suficientes para envolver grupos "difíceis de alcançar". Está Implícito nessa terminologia que, quando tais grupos marginalizados não são alcançados por essas abordagens dependentes da informação, eles são desinteressados e, portanto, "difíceis de alcançar". No entanto, precisamos de questionar a própria abordagem comunicativa, em vez de culpar os indivíduos que não são atraídos por essa "informação".

Precisamos de algo mais do que campanhas de informação

Há uma grande diferença entre informação e tornar o envolvimento significativo. Precisamos de estratégias de divulgação para preencher esse espaço e alcançar os adultos com abandono escolar precoce. Muitos dos que abandonaram cedo a escola sentem uma forte desconfiança no sistema educacional (e possivelmente na sociedade) que falhou com eles. As suas memórias da escola podem ser dolorosas, seja devido a conflitos com professores que contribuíram para os colocar fora do sistema, ou por experiência de fracasso ou de bullying na escola.

Um objetivo primordial a atingir deve ser a melhoria da confiança – confiança entre os que abandonaram a escola e o sistema precocemente, confiança nos pontos fortes e as capacidades dos que abandonaram a escola precocemente, confiança que existe um sistema educacional mais flexível e que responde ao indivíduo se eles retomarem a educação formal.

Tal como anteriormente, para muitos dos que deixaram cedo o sistema de educação, mais escola não é uma escolha apelativa para lhes ser colocada no menu de opções.

Três perguntas-chave que devemos fazer

As abordagens de comunicação baseadas na informação colocam o foco na questão o quê. Mas precisamos de nos concentrar nas questões de onde, como e quem:

- A pergunta onde interroga sobre a localização a partir da qual o abandono escolar precoce está envolvido.

- A questão como interroga sobre a forma como é que se está a comunicar com a pessoa.

- A questão Quem não quer apenas perguntar acerca de necessidades específicas da pessoa que está a ser visada, mas também pergunta quem é a pessoa que está a comunicar com quem abandonou precocemente a escola.

Em algumas abordagens na Europa, há reconhecimento da questão onde, quando se referem à necessidade de uma abordagem de divulgação comunitária. Os serviços estão localizados em locais de fácil acesso e culturalmente familiares para alcançar os que estão nas margens da sociedade. Tais abordagens de alcance comunitário reconhecem a importância da localização e também o lugar onde a pessoa sente que pertence. Os centros comunitários de aprendizagem ao longo da vida oferecem um modelo de divulgação comunitária para envolver aqueles cujas necessidades não foram atendidas no sistema escolar.

A ênfase das abordagens de divulgação à questão do como, é dada pela atenção a um processo de diálogo entre quem abandonou precocemente a escola e os membros da equipa do "sistema". Enquanto que as abordagens dependentes da informação assumem um fluxo de informação unidirecional do sistema para o indivíduo passivo, um processo de diálogo é nos dois sentidos. A abordagem precisa de ser interpessoal, relacional, contextual e pragmática. Esta abordagem de alcance relacional requer diálogo com indivíduos e grupos. Deve envolver-se com as histórias e o mundo do significado dos indivíduos que se quer alcançar. Discussão exige compreender como é que o voltar a envolver-se com o sistema educacional pode atender as necessidades do indivíduo, as circunstâncias da vida e também ajudar a superar as barreiras do reencaminhamento que o indivíduo e seus colegas possam experimentar. Muitas vezes, uma mensagem sobre os benefícios do re-envolvimento com a educação ganha credibilidade a nível local através do boca a boca entre amigos e colegas de comunidades marginalizadas. Isto está a ser cada vez mais reconhecido também para o acesso a questões de ensino superior.

Concentremo-nos na questão "quem", especialmente em adultos com mais de 24 anos

Um dos principais aspetos negligenciados por muitas abordagens de envolvimento com os marginalizados que abandonam o sistema precocemente é a pergunta quem – quem é a pessoa que comunica com quem abandonou o sistema escolar precocemente? Tem uma afinidade cultural com essas pessoas? Vivem na mesma localidade, partilham uma etnia, classe social e/ou religião comuns? Em que base essa pessoa será confiável por pessoas que podem ter sido deixadas de lado com frequência pelo sistema educacional? Existem exemplos europeus isolados de sensibilidade ao "quem". Por exemplo, o projeto sueco, Unga in, que agora é levado a cabo pelo projeto UNGKOMP, empregou mediadores que eram da mesma origem étnica daqueles que tentavam alcançar para os envolver em iniciativas de emprego e educação. Da mesma forma, os mediadores ciganos (romani) no município de Sofia (Bulgária) são muitas vezes da própria comunidade cigana.

Outra dimensão da questão "quem" funciona no contexto do objetivo principal da UE2020 de reduzir o abandono escolar precoce para 10% na UE. O foco desse objetivo principal é a faixa etária dos 18 a 24 anos. Isso levanta a questão de um vazio estratégico ao nível da UE por se concentrar no abandono escolar precoce dos que têm mais de 24 anos. Para se trabalhar com as necessidades deste grupo de pessoas pode ter de se adotar uma abordagem de divulgação distinta da que é relevante para os menores de 25 anos.

Os que deixaram a escola precocemente e que têm mais de 25 anos, estão longe de ser um grupo homogéneo. Nos documentos de política da UE relativos à aprendizagem ao longo da vida e à educação de adultos existe um reconhecimento notável e consistente sobre a importância da educação não formal. O que é menos claro é como está em vigor, a nível da EU, uma visão estratégica para o envolvimento com as diferentes necessidades das pessoas com mais de 25 anos que deixaram a escola sem os níveis básicos de escolaridade para uma participação ativa na sociedade. Para os adultos vulneráveis à marginalização também pode ser necessário que os serviços de educação incluam um foco mais forte na saúde mental e no apoio ao abuso de substâncias. Para o fazer, os centros de aprendizagem ao longo da vida que visam atrair jovens que abandonaram a escola, podem necessitar de maior integração com serviços multidisciplinares relacionados com a saúde como parte de um modelo de "balcão único" num local comum.

Um modelo para abordar as questões-chave

Abordar as questões de onde, como e quem requer um modelo de divulgação assertiva para envolver os adultos que abandonaram precocemente a escola na Europa, um modelo que seja relacional, face a face e centrado nas necessidades do cliente individual. Uma tal abordagem de divulgação assertiva não aborda apenas questões anteriormente identificadas do onde, como e quem, mas adota uma abordagem de divulgação individual e pró-ativa para envolver os que estão nas margens da sociedade. Fundamentalmente parte de onde a pessoa está, centrada nas necessidades da pessoa.

Exemplos de questões-chave a serem incorporadas num modelo estratégico de divulgação assertiva de uma organização:

- Definiu as horas de divulgação tendo em atenção as necessidades do grupo-alvo?

- A sua organização adota, explicitamente, na sua estratégia de divulgação, um princípio de inclusão, ou seja, que o serviço se deve adaptar à pessoa que o consultou e incentivar essa pessoa a envolver-se?

- A equipa da sua organização toma medidas para avaliar por que é que uma pessoa pode não ser capaz de se envolver com os serviços de divulgação, e adaptar o serviço para superar esses desafios?

- Tem um processo para adaptar o serviço quando uma pessoa que o consultou pode não se envolver com o serviço de divulgação?

Não se está perante lacunas de informação, mas sim perante lacunas em estratégias e modos de comunicação. Não podemos assumir que as organizações estão dispostas ou conscientes da necessidade de ampliar as suas estratégias de divulgação. As abordagens de divulgação não devem ser reduzidas a retórica ou slogans. Elas devem abordar claramente as questões de adequação de onde, como e quem como parte de uma estratégia proactiva e assertiva de divulgação.

Paul Downes é Diretor do Educational Disadvantage Centre, Dublin City University, Professor Titular de Educação (Psicologia), St. Patrick's College, Dublin City University, Membro do Comitê de Coordenação da Rede Europeia de Peritos sobre os Aspetos Sociais da Educação e Formação (NESET II) (2015)

Artigo disponível em inglês aqui: http://ec.europa.eu/epale/en/blog/bridging-credibility-gap-need-assertive-outreach-strategy-engage-adult-early-school-leavers

Muito está a ser feito na UE para prevenir e reduzir o abandono escolar precoce. Os Estados-Membro estão a tomar medidas para apoiar os alunos, famílias e professores na promoção do sucesso educativo para todos os aprendentes.

Site da EPALE em português: https://ec.europa.eu/epale/pt

E site da EPALE em inglês: https://ec.europa.eu/epale/en 

 

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