Aprender a Promover a Saúde ao Longo da Vida

Texto: António Cardoso Ferreira (médico de saúde pública). Ilustração: Luís Miguel Castro

“Aprender ao Longo da vida” é um bom mote para falar da promoção da saúde, na perspectiva do “aprender fazendo”/”aprender vivendo”/”aprender a ser mais”.

“A saúde é a capacidade de cada homem, mulher ou criança para criar e lutar pelo seu projecto de vida pessoal e original em direcção ao bem-estar.”
Christoph Djours

A visão do “aprender” aparece-nos muito mais larga do que quando se refere apenas ao que se julga saber através da leitura dos livros, pois passa necessariamente por conscientizar, corporizar, saborear, sonhar, criar, aceitar limites e construir mudanças em interacção com os outros e com o ambiente que nos rodeia, avaliando e reformulando os passos que damos. Será este, afinal, o projecto de vida que cada um de nós e cada comunidade poderão desenvolver em direcção a um bem-estar que nunca será completo, porque somos limitados, mas que, por isso mesmo, é dinâmico, e aponta para um futuro que ultrapassa a nossa própria morte.

Pensar Saúde

Nascemos trazendo connosco uma energia potencial e um conjunto de limitações, assentes na nossa carga genética, à espera do desenvolvimento que decorrerá da nossa relação com os outros, com o mundo e com a história.

Podemos dizer que a saúde é então uma semente que faz parte de nós, desde o início, um recurso para enfrentar os desafios da vida, se for devidamente regada e adubada, dia a dia.

Uma vez, em conversa com um grupo de pastores da Serra da Estrela, e lembrando-me das caminhadas de vários dias que eles faziam nos tempos de transumância, levando os rebanhos para pastos muito distantes, ocorreu-me comparar a saúde a uma cabaça com água fresca, que cada pastor costumava levar consigo, procurando não a esvaziar nunca até encontrar uma nova nascente onde pudesse enchê-la de novo.

Penso que a comparação resultou, na medida em que abre a porta para a ideia de que está nas nossas mãos promover o nosso potencial de saúde, através dos nossos comportamentos, em vez de nos limitarmos a “invocar Santa Bárbara quando ouvimos os trovões”, isto é, em vez de reduzirmos a relação que temos com a nossa própria saúde apenas a uma correcção dos desequilíbrios resultantes das doenças e acidentes que nos atinjam. Infelizmente, as próprias políticas de saúde, neste país aparentemente desenvolvido, têm-se centrado quase só nos tratamentos e pouco tem sido investido na saúde como um bem a promover. Claro que há bastantes situações em que surgem problemas de saúde condicionados por factores que são independentes dos nossos comportamentos. No entanto, mesmo em relação a essas situações, a nossa capacidade para enfrentá-las e corrigi-las depende em grande parte da forma como promovemos a nossa saúde.

Por outro lado, actualmente, as principais causas de morte e incapacidade prematuras nos países desenvolvidos (doenças cardiovasculares, cancro, causas violentas, doenças sexualmente transmissíveis, toxicodependências, etc) têm a ver com a prática de comportamentos de risco em que se despreza a importância do potencial de saúde. Por isso mesmo, os grandes investimentos económicos no diagnóstico e tratamento de doenças têm tido resultados bastante fracos no que respeita à relação custo-benefício.

Falemos pois da saúde que, da semente à nascença, se pode tornar uma árvore frondosa por dentro de cada um de nós, através do desenvolvimento de competências partilhadas com os outros, da longa aprendizagem a partir da vida, escolhendo caminhos, avaliando resultados, saboreando prazeres que nos expandem, sonhando mudanças e tentando construí-las em comunidade e em diálogo com a natureza que nos sustenta.

Promoção da saúde – Que práticas

Os princípios acima enunciados pretendem apenas constituir um enquadramento, no contexto do qual gostaria de apontar algumas estratégias em que acredito e referir sinteticamente meia dúzia de experiências significativas na minha própria aprendizagem em torno dos processos de promoção da saúde.

Curiosamente, ao pensar nestas experiências, verifico que escolhi exemplos que decorreram entre 1975 e o presente, mas que na sua maioria dizem respeito às duas primeiras décadas.

Aqueles que estão mais por dentro dos investimentos que as políticas de saúde e educação têm vindo a efectuar no âmbito da promoção da saúde junto de crianças, jovens e comunidades locais, decerto concordarão com a referência de que, nos últimos anos, este investimento tem vindo a decair, e que outras prioridades têm vindo a preencher o seu lugar em ambos os ministérios ...

Quanto às estratégias a desenvolver, temo-nos vindo a afastar cada vez mais das velhas

intervenções expositivas e pontuais para muita gente, injectando saberes que se esquecem facilmente porque não chegam a ser tocados nem saboreados na própria vida das pessoas.

Também me vou afastando dos slogans e lições em que se tenta impor os caminhos dos “não” que alimentam medos e geram proibições.
Em vez disso, vão-se multiplicando as estratégias de promover a saúde “porque sim”, pelo caminho positivo de procurarmos ser mais livres, mais solidários e mais felizes, pois só a vivência desse caminho positivo e a esperança de conseguirmos ir ainda mais longe podem constituir para nós uma referência forte que nos leve a pôr de lado o que contraria a liberdade, a solidariedade e a alegria.

Aljustrel – Animação Comunitária

Em Aljustrel, entre 1975 e 1982, fiz parte da equipa do Centro de Saúde que desenvolveu diversas iniciativas de promoção de saúde com base em equipas por freguesia, professores, membros da Junta de Freguesia e alguns voluntários. Procurávamos sobretudo estar atentos ao que as escolas, as famílias ou a comunidade sentiam necessidade de promover, e não tanto aos critérios nascidos da nossa leitura técnica dos problemas existentes.

Uma experiência que me marcou, por exemplo, foi a Assembleia de Freguesia de Messejana, que, a partir de determinado momento, decidiu reunir regularmente de forma alargada, envolvendo os profissionais de saúde e educação, bem como os membros da comunidade local, distribuindo funções que iam desde a vigilância da água ou da iluminação pública à recolha de críticas e propostas relativas à satisfação das necessidades da população face aos serviços da autarquia, do Centro de Saúde, do apoio aos idosos, etc, tornando-se aquelas reuniões um fórum de intercomunicação e de promoção de iniciativas conjuntas.

Paredes de Coura – Saúde e Desenvolvimento das Crianças

No Concelho de Paredes de Coura, entre 1982 e 1987, a equipa do Centro de Saúde, de que fiz parte, identificou como prioritário o problema das deficientes condições de saúde e desenvolvimento de competências psicossociais em relação às crianças, antes da sua entrada para a escola, muitas delas dispersas por lugares sem cobertura por Jardim de Infância e entregues a si próprias enquanto os pais trabalhavam.

Nasceu assim um Projecto (“À descoberta do ser criança no meio rural”) apoiado por uma Associação então criada (OUSAM), impulsionada sobretudo por vários profissionais de saúde e da educação. Este Projecto constitui aliás uma das primeiras experiências portuguesas de educação de infância itinerante, em que se deu atenção especial às iniciativas comunitárias, à comunicação com pais e avós, e à promoção da saúde a partir da realidade de que se ia tomando consciência, sendo de sublinhar que a Associação e o Projecto continuam bem vivos ainda hoje.

Distrito da Guarda – Alimentação Saudável

No Distrito da Guarda, funcionou durante algum tempo uma equipa interdisciplinar que se designou como Grupo Intersectorial para a Alimentação, e cuja actividade foi sobretudo importante entre 1988 e 1993.

De entre as iniciativas de promoção da saúde realizadas por este grupo, com a participação de serviços da saúde, educação, segurança social e associação de pais, são de salientar o “Projecto das Sementes”, com distribuição de sementes para desafiar a criação de pequenas hortas escolares, valorizando-se alimentos com importância nutritiva; o “Projecto do pão”, envolvendo padeiros, profissionais de saúde, professores e alunos na divulgação do pão como alimento e na promoção do fabrico de pão como alimento e na promoção do fabrico de pão com mais fibras e menos sal.

Um outro projecto promovido também por este grupo chamou-se “Eu sei comer ... e tu?” e teve a participação de dezenas de escolas e jardins-de-infância do distrito; o desafio foi o de cada escola ou jardim promover pelo menos uma iniciativa comunitária em torno da alimentação (festas, exposições, sessões de debate, pesquisas sobre os hábitos alimentares em relação com a cultura local, etc.). O grupo promotor aliou a este desafio a distribuição de materiais de apoio e disponibilizou a colaboração de vários técnicos. Como resultado das iniciativas realizadas publicou-se um livro e promoveu-se uma exposição itinerante que percorreu depois todo o distrito, servindo ela própria de pretexto para encontros de convívio, encenações, festas e jogos tendo a alimentação como tema central.

Três Experiências no Concelho de Gouveia

Desde 1987, integro a equipa do Centro de Saúde de Gouveia, e parece-me interessante referir aqui três experiências em áreas diferentes.

As caminhadas Há cerca de dez anos, a Escola Secundária de Gouveia promoveu, com o apoio do Centro de Saúde, uma Semana da Saúde, no “mês do coração”, e decidiu concluir esta iniciativa com a realização de uma caminhada pela serra, aberta à comunidade local. Foi este o ponto de partida para a criação de um grupo promotor de caminhadas cuja actividade regular se estendeu durante cerca de quatro anos, envolvendo muitas pessoas de diferentes gerações, valorizando-se o exercício físico, a relação com a natureza e o convívio entre crianças, jovens e adultos.

O grupo promotor veio entretanto a dissolver-se, mas a Escola Secundária e outras entidades continuam a organizar caminhadas de vez em quando.

Educação sexual ao nível das crianças O Centro de Saúde tem cooperado com escolas do 1ºciclo e jardins-de-infância no âmbito da educação sexual das crianças.

Em alguns locais tem sido possível realizar iniciativas com continuidade, envolvendo as crianças e respectivos pais, promovendo a comunicação entre todos, integrando a sexualidade com outros aspectos da vida afectiva e relacional, e ajudando os pais a sentirem-se capacitados para intervir de forma adequada face às questões com que se confrontam nesta matéria.

Os jovens face à saúde e à prevenção de comportamentos de risco O Grupo Aprender em Festa (GAF) é uma associação nascida em Gouveia há uns quinze anos, que assume como finalidade a animação do desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

Através dela, e em articulação com o Centro de Saúde, escolas e outros espaços, alguns de nós têm vindo a aprender caminhos para animação com jovens, nomeadamente em relação à promoção da saúde.

Neste percurso, demorámos bastante tempo até ultrapassar a fase em que promovíamos iniciativas e nos frustrávamos a seguir porque os jovens não lhes davam a continuidade que desejávamos. Entretanto, hoje já podemos dizer que partilhamos com bastantes jovens diversos projectos, e temos até a alegria de ver que alguns desse jovens vão animando grupos informais, novas associações ou até empresas com impacto entre a juventude. O investimento em processos formativos, ajudando a desenvolver as potencialidades de jovens animadores de outros jovens terá sido um importante passo neste caminho.

As estratégias que têm vindo a constituir o principal suporte na animação com jovens, visando a promoção da saúde e a prevenção de comportamentos de risco, assentam sobretudo no valor do favorecimento da comunicação inter-pares, na interacção em equipas, nos jogos com simulação de situações, na ponderação dos riscos que vale ou não a pena correr, na responsabilização por iniciativas, na reflexão e avaliação conjunta sobre os resultados conseguidos, na ligação estreita entre o lúdico e o pedagógico e na valorização dos afectos, da solidariedade, da criatividade e da relação com a natureza.

Nos últimos anos, muitas destas iniciativas do GAF com jovens têm estado integradas no Projecto Animabué, no âmbito do Plano Municipal de Prevenção das Toxicodependências.

Tentativa de síntese, pela mão da poesia

Como sintetizar, em jeito de conclusão, as ideias e relatos aqui apresentados em torno da promoção da saúde?

Creio que a abordagem poética é o melhor caminho para esta síntese, porque associa palavras e silêncios, imagens e imaginação, realidade e sonho.

A poesia é afinal também uma energia potencial, à espera que nos deixemos embeber por ela e nos libertemos das amarras que nos condicionam, descobrindo novos caminhos do olhar, do sentir, do fazer e do sonhar.

A minha tentativa de síntese é então a de juntar aqui dois fragmentos de poemas que escrevi à procura de “pensar saúde”:

Saúde será talvez
Uma mulher que ri
Enquanto atravessa a tarde
Em passadas largas e firmes

Saúde poderá ser
O voo sereno do pássaro
Por sobre a planície verde

Saúde será também o riso transparente da criança
A melodia da chuva a encher a terra
A ternura das mãos a moldar o barro
O roçar dos pincéis na tela colorida
E todo o trabalho
Que produz saber e transforma o mundo

A saúde é como uma semente
Que nasce connosco
Pequenina
E cresce devagar
À medida que aprendemos
A regá-la e cuidar dela

Dizemos então
Pessoa, cidadão, comunidade
Saúde, educação, ecologia
Liberdade, paz, desenvolvimento
Consciência, afecto, interacção
Alegria e bem-estar e mais-ser

Depois fazemos tranças com estas palavras
E elas dançam por dentro dos nossos corpos
Palavras geradoras de mudança
Pontas de dedos tacteando
A fresta de sol que surge
Quando a esperança se entorna pelo mundo
Como se fosse uma janela
Que começa a abrir-se devagar.

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