A aprendizagem acontece na interacção, entre a pessoa e o mundo social

Etienne Wenger

Entrevista Rui Seguro e Madalena Santos | Fotografias Paulo Figueiredo | Tradução Daniela Silveira
 

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O suíço Etienne Wenger, 55 anos, pensador independente, consultor, autor e orador – como ele mesmo se define no seu site (http://www.ewenger.com/) – é mais conhecido pela sua actividade em torno das comunidades de prática e gosta de se apresentar como um teorizador da aprendizagem social. Nesta entrevista dada no ano passado à Aprender ao Longo da Vida, Wenger diz que vivemos num tempo em que há cada vez mais influência e ênfase no indivíduo, mas, ao mesmo tempo, o conhecimento está a tornar-se tão complicado que ninguém consegue agir sozinho.

Desde que, em 1991, começou a escrever sobre Comunidades de Prática, até aos dias de hoje, como vê a evolução deste conceito?

Quando começámos a usar este conceito de comunidade de prática para falar de aprendizagem, da forma tradicional de aprendizagem dos aprendizes, e olhávamos para diferentes casos de aprendizagem, reparámos que à volta de um mestre havia sempre uma comunidade e, muitas vezes, a aprendizagem não estava a acontecer directamente do mestre. Ele era muitas vezes uma figura distante, por isso muitas aprendizagens estavam a acontecer entre os aprendizes.

Assim surgiu o termo comunidade de prática. Para falar desse contexto, onde a aprendizagem de um recém-chegado era quase como uma viagem para dentro da comunidade, transformávamo-nos em membros conforme íamos deixando de ser aprendizes iniciados, para sermos um membro e, eventualmente, mestre.

Foi assim que, de início, o conceito de comunidade de prática foi articulado. Desde aí temo-lo visto em circunstâncias muito diferentes, quando não há qualquer tipo de aprendizagem formal. Vimo-lo nos recreios das escolas, vimo-lo muito nas organizações onde, olhando para elas do ponto de vista de uma comunidade de prática, podemos ver estruturas que muitas vezes não são formalmente reconhecidas na organização. É uma forma diferente de ver como é que o conhecimento existe dentro de uma organização. Os gestores gostam disso, porque não é só analítico, é também uma forma de ajudar a aprendizagem numa organização. Uma das coisas que se pode fazer é começar a apoiar estas comunidades a fazer o seu trabalho.

A web também abriu o campo para as comunidades, de uma forma incrível. Porque, de certa forma, o conceito de comunidade de prática está muito bem alinhado com a forma como a web funciona. Ligamo-nos às pessoas não porque vivem na nossa rua ou porque trabalham no nosso piso, mas porque estão interessados em interagir e aprender connosco. Por isso a web adequa-se muito bem às comunidades de prática, e penso que é uma das razões pelas quais o conceito tem suscitado tanto interesse. Adequa-se muito bem quer às novas formas de funcionamento das organizações – que se ligam horizontalmente, não só pelas hierarquias –, quer também pela forma como as novas tecnologias funcionam, permitindo estabelecer ligações com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, desde que exista um potencial de aprendizagem na interacção.

Há grandes comunidades de prática que não teriam sido possíveis na nossa formulação original. Vimo-las mover-se muito dinamicamente, abrindo as suas fronteiras de uma forma que não teria sido possível no caso das comunidades localizadas geograficamente, tal como eram no início.

Outra coisa que vimos, algo melindroso e que eu não tinha previsto, é o quanto as pessoas podem fazer para começar uma comunidade. Para nós, no início, foi mais um conceito analítico para ver se a aprendizagem estava ou não a acontecer no mundo. Mas as pessoas de negócios não querem conceitos analíticos, querem saber o que podem fazer. E o que aprendemos é que há formas de apoiar as comunidades de prática e formas de as gerir sem demasiada burocracia. Mas, mais do que eu esperava, vi formas de as organizações melhorarem ou apoiarem o desenvolvimento das comunidades de prática, de patrocinar o desenvolvimento às comunidades de prática. E como sabemos, isso é uma grande evolução e uma grande surpresa.

Pode falar-nos, baseado na sua experiência, sobre as dificuldades de incentivar o conceito de comunidades de prática nas empresas?

Há todo o tipo de dificuldades, e não devemos pensar apenas em empresas – todo o tipo de organizações estão interessadas em comunidades de prática. Mas o primeiro e principal obstáculo que se encontra é o tempo. As pessoas dizem “já estou a trabalhar a tempo inteiro” então a questão é, “podemos organizar a comunidade de uma forma em que a sua actividade seja algo de valor para os seus membros e que eles sintam que é um bom investimento do seu tempo”?

Muitas vezes, num contexto organizacional e de empresas, temos de nos certificar de que a comunidade tem um valor elevado para as pessoas e que lhes poupa tempo tanto quanto lhes ocupa tempo – essa é a parte mais melindrosa. Depois, também há a questão de como se integra uma rede horizontal como uma comunidade de prática na estrutura vertical que existe na organização e, por isso, de certa forma, o que tem de se fazer para se interagir e integrar como organização formal é dissociar a gestão do controlo. A gestão tem uma função num contexto de comunidades de prática, mas não é uma função de controlo, porque se arruina uma comunidade se se começa a microgeri-la e a dizer-lhe o que fazer.

Um aspecto importante da comunidade é que os seus membros são responsáveis pelo processo de aprendizagem, e usam as suas práticas e experiências como currículo de aprendizagem e não como a agenda de um outro. É muito importante, é aqui que, para algumas organizações, isto se torna um pouco sensível, porque assim que uma coisa funciona mais ou menos, a organização diz: esta é a regra, é assim que funciona. É uma questão de tempo, de utilização dos recursos e também uma questão de ouvir. Nalgumas organizações não há o hábito de ouvir a voz da comunidade, mas é muito importante investir tempo na comunidade para que a sua voz faça diferença.

Há um tempo dos membros, mas o também há um tempo extra de uma ou mais pessoas que actuam como líderes da comunidade, e, para as organizações, é um pouco vulgar que se comece a apreciar o valor de alguém cujo trabalho é cuidar de uma comunidade. Algumas organizações estão a aprender o valor de alguém que faz isso e estão dispostas a dizer: “ok, nós vamos investir 10 ou 20% da sua actividade na gestão da comunidade dos seus pares”. É um novo entendimento.

Vivemos em Portugal uma situação em que as pessoas estão a ser pressionadas para uma forma de encarar as suas vidas muito individualista e competitiva. Neste contexto cultural, como é que a ideia de aprender participando numa comunidade de prática faz sentido e pode ser útil?

Há um conflito, não há dúvida... Mesmo dentro de uma organização, as pessoas competem pelo reconhecimento, pelas melhorias. Por isso, nas comunidades encontra-se sempre uma mistura um pouco desconfortável entre competição e colaboração. Ambas estão sempre presentes. Não é porque somos uma comunidade que a dimensão competitiva desaparece. Até na comunidade mais colaborante encontra-se sempre um elemento de competitividade, por exemplo sobre “a minha reputação como membro”.

Mas há também a noção nas comunidades de que o mundo se está a tornar muito complicado para alguém poder afirmar que tem o conhecimento absoluto de qualquer campo. Em qualquer área, as coisas acontecem tão depressa que as pessoas precisam umas das outras. É interessante, porque vivemos num tempo em que há cada vez mais influência e ênfase no indivíduo, mas, ao mesmo tempo, o conhecimento está a tornar-se tão complicado que ninguém consegue agir sozinho.

Assim, penso que precisamos de ver onde é que eles se cruzam, onde é que há possibilidade para a comunidade e o indivíduo serem mutuamente benéficos. Não acho que seja preciso pensar em termos de um ou outro, não devemos pensar na comunidade como “eu sacrifico a minha individualidade em relação à comunidade”. Não, a comunidade também me serve e faz-me mais competitivo, porque melhora o meu conhecimento, porque melhora a minha capacidade de evoluir, porque posso partilhar com a comunidade se acho que é ou não uma boa ideia. Precisamos de ver a comunidade como servindo o indivíduo, mesmo sendo competitivos uns com os outros, porque eles são competitivos uns com os outros dentro da comunidade. É um ponto sensível, mas é uma questão de equilibrar os dois. Acho que não vamos encontrar uma solução porque é pura competitividade do indivíduo, é como erguer uma parede contra a guerra, é difícil construir recursos em comum.

Nesse sentido, e pensando na pessoa, ou no grupo de pessoas que têm a responsabilidade ou o papel de gerir a organização: eles precisam estar muito conscientes desse conflito?

Isso é muito importante, porque uma organização, num contexto de competitividade, deve poder recompensar, deve poder reconhecer que alguém que está a “cuidar” da comunidade está a fazer um serviço muito importante, mesmo que não esteja, de uma forma directa, a trazer clientes ou a trazer um ganho mensurável. A organização tem de reconhecer que há aí um conflito.

Como é que as comunidades vivas, ao desenvolverem, ao partilharem e ao melhorarem as suas práticas se tornam um elemento chave da aprendizagem?

Acho que sempre houve um elemento chave, mas o que estou a tentar dizer é que se se começar a pensar que o conhecimento existe no mundo, não só nos livros ou na internet, mas existe no “campo” das comunidades, então o elemento chave da aprendizagem é: como é que se gere a nossa trajectória através destas comunidades às quais pertencemos?

Uma das maneiras de encarar a aprendizagem ao longo da vida é pensar em navegar a nossa vida através do campo de diferentes comunidades. Nalgumas podemos ser um membro pleno, porque é aí que reside a nossa identidade e queremos aprender essas práticas; noutras comunidades, vamos apenas visitar, ou talvez entrar um pouco e sair. Nalgumas comunidades, precisamos de sair, porque se tornam prisões. Parece que precisamos de ar fresco, de alguma coisa diferente. É uma forma social de pensar na gestão da aprendizagem, e não apenas uma forma cognitiva de “o que é que entra na minha cabeça?” E penso que, na realidade, no século XXI, a questão de “como é que eu navego no mundo?” vai ser mais difícil, mais importante para as pessoas do que a de “posso ter acesso a isto ou aquilo?”. O acesso à informação vai ser cada vez menos problemático do que a gestão de quem eu sou e como devo direccionar as minhas escolhas. Há tantas escolhas… Por exemplo, eu poderia pertencer a cem comunidades e a minha grande questão de aprendizagem é “onde é que eu estou, o que estou a fazer e onde pertenço?” Isto está a reformular a aprendizagem ao longo da vida de uma forma meramente cognitiva, “o que é que eu ponho na minha cabeça?” para uma que pergunta: “Onde é que eu interajo, onde encontro os meus pares?”

Como vê o papel das comunidades de prática na escola e na formação profissional?

Se se pensar na escola tradicional, ela tem sido o local de aprendizagem, mas se abandonarmos essa ideia, a aprendizagem acontece em qualquer lugar em todo o mundo, qual é o papel da escola? Talvez o papel da escola seja de aconselhamento, que diga: “talvez deva fazer um curso aqui, talvez aqui haja um curso para si, ou talvez o melhor seja ir passar 6 meses ao Japão”. É compreender a trajectória, e assim ajudar a pessoa a gerir essa viagem de aprendizagem, em vez de dizer “temos este e este curso”. As escolas, até agora, estiveram centradas nos currículos, penso que as escolas se tornarão mais relevantes se conseguirem desviar este enfoque no material curricular para tomarem parte de um percurso significativo no mundo do conhecimento.

(Pode ler a entrevista completa na edição da revista em pdf)

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