A CONFINTEA vista da cozinha: viva o carimbó

A CONFINTEA vista da cozinha: viva o carimbóRelato de quem trabalhou na ‘cozinha’ de uma CONFINTEA marcada, de um lado, pelo fato de ser a primeira realizada no hemisfério sul e, de outro, gestada numa conjuntura de múltiplas crises, a ameaça cada vez mais presente de aquecimento global e do colapso do sistema financeiro mundial acompanhado por uma profunda recessão econômica.

Texto Timothy D. Ireland, UNESCO/UFPB

A organização de uma conferência internacional nunca é tarefa fácil, uma CONFINTEA menos ainda: esta, por ser conferência intergovernamental (categoria II na classificação da UNESCO), já nasce complexa, regida por um conjunto de regras e procedimentos formais (sem falar em questões cerimoniais e de segurança) que lhe confere importância e, ao mesmo tempo, impõe certa rigidez e limita as possibilidades de inovação.

O relato apresentado aqui não pretende avaliar o impacto da VI CONFINTEA, realizada em Belém do Pará, Brasil, nem comparar os seus resultados e processos com os da CONFINTEA anterior, realizada em Hamburgo (será que, no futuro, Belém terá o mesmo status que Paris quando comparada com Tóquio?).

Não pretende tampouco narrar o longo processo formal de sua preparação, com as antecedentes mobilizações nacionais e conferências regionais, nem contar as anedotas dos seus bastidores (as vísceras de um complexo corpo multilinguístico, multicultural e de lógicas bizantinas). Pretende, muito modestamente, tentar externar a lógica de uma parte da organização do evento, que provavelmente os participantes não enxergaram de fora. É o relato de quem trabalhou na ‘cozinha’ de uma CONFINTEA marcada, de um lado, pelo fato de ser a primeira realizada no hemisfério sul, num país emergente e numa região tropical e, de outro, gestada numa conjuntura referenciada por múltiplas crises, a ameaça cada vez mais presente de aquecimento global e do colapso do sistema financeiro mundial acompanhado por uma profunda recessão econômica. E isso, sem mencionar a pandemia de gripe H1N1, temida à época internacionalmente!

A organização desse tipo de conferências merece uma rápida explicação. A responsabilidade pela promoção das CONFINTEAs é da UNESCO. A Conferência Geral da Organização delegou ao Instituto para Aprendizagem ao Longo da Vida (UIL), em Hamburgo, como centro especializado em aprendizagem e educação de adultos, a responsabilidade pela organização do evento. Por meio de um acordo (Host Country Agreement) o governo do país anfitrião responde pela infra-estrutura da conferência. Por sua parte, o governo brasileiro, por intermediação do Ministério da Educação, estabeleceu parcerias com a Representação da UNESCO no Brasil (conhecido carinhosamente como UBO – UNESCO Brasilia Office) e o Governo do Estado do Pará, representado principalmente pela Secretária Estadual de Educação (SEDUC/PA), que formaram a coordenação nacional e criaram o comitê organizativo local. É desse processo organizativo que vamos falar aqui.

Contudo, antes disso, as questões mais prementes eram: em qual cidade brasileira realizar a CONFINTEA e como escolher o anfitrião? De início foi decidido que seria numa cidade das regiões norte ou nordeste. Após convidar todos os Estados das duas regiões a enviarem propostas, a cidade de Belém foi selecionada. Apresentava um excelente centro de convenções, um forte compromisso com a educação de jovens e adultos, uma rede hoteleira adequada, e, acima de tudo, Belém, no coração da região amazônica, exemplifica um dos maiores desafios mundiais: a promoção do desenvolvimento humano a partir de paradigmas de sustentabilidade, um dos principais temas da conferência.

As críticas não tardaram em chegar, resumidas na pergunta: por que escolher uma cidade tão distante da ‘civilização’ (de São Paulo, do Rio, de Brasília, etc.) e de difícil acesso? A resposta foi a de que segurança, conforto e bem-estar dos participantes seriam critérios sempre presentes, porém, seria inconcebível realizar uma CONFINTEA ‘pasteurizada’ no Brasil – pelo contrário, a Amazônia possui uma diversidade cultural, linguística, étnica e ecológica como poucos lugares no mundo e são esses os desafios que a aprendizagem e educação de adultos têm de abraçar.

Escolhida a sede, partimos para formar o comitê organizador. O comitê nasceu com uma missão incômoda: como conciliar o tema (“aprendizagem e educação de adultos”), o lema (“Vivendo e aprendendo para um futuro viável – o poder da aprendizagem de adultos”), o local, a conjuntura geral de crise e a organização interna da Conferência?

Três princípios básicos terminaram se impondo para orientar as decisões: respeito pela cultura de sustentabilidade, pela participação democrática e solidária e pela indissociabilidade entre educação e cultura. Assim, a receita básica para a Conferência emergiu do forno coletivo.

Em âmbito nacional, o UBO, o Ministério da Educação e alguns outros Ministérios, com destaque para o Ministério de Relações Exteriores, já estavam bem articulados. Em Belém, representantes do Governo do Estado, da Prefeitura, das duas universidades públicas (estadual e federal) e de outros órgãos públicos formaram sete grupos de trabalho – cerimonial, cultura, segurança, logística, universidades, comunicação e ambientalização. Os desafios: como preparar a infra-estrutura da conferência de tal maneira que seria possível minimizar a agressão ao meio ambiente da cidade; como fazer da organização da conferência um processo democrático e participativo e, ao mesmo tempo, sem ferir o seu status de conferência intergovernamental, como permitir uma participação mais ampla aproveitando as novas tecnologias de comunicação e, por último, como fazer da cultura uma parte integral do programa da CONFINTEA? Perpassando tudo, havia o desejo de fazer do processo organizativo um profundo processo de aprendizagem coletiva – a procura da coerência entre forma e conteúdo!

Na busca pela cultura de sustentabilidade da conferência, adotamos algumas medidas mais corretivas que inovadoras. Um eficiente sistema de inscrição on-line para as delegações nacionais, articulado com uma boa base de dados, minimizou o uso de correio e papel. Durante a conferência os delegados receberam um pen-drive no kit para diminuir a costumeira montanha de papel e fotocópias. O local do evento - Centro de Convenções da Amazônia – HANGAR - oferecia acesso à internet gratuitamente por meio de wi-fi e computadores espalhados pelo prédio. Cada participante também recebeu um squeeze para água, no afã de reduzir aquele constante fluxo de copos de plástico. Até os ministros presentes na Conferência fizeram a sua parte – em lugar de carros individuais colocamos vans executivas à disposição.

Simbologia sempre desempenha um papel necessário numa conferencia internacional. No dia de abertura, os participantes VIPS plantaram espécies de árvores nativas da região amazônica no complexo administrativo do HANGAR. Mais 156 árvores – uma para cada delegação nacional – completaram o que será conhecido como O Bosque das Nações. Um inventário da emissão de gases de efeito estufa (GEE) em toneladas de CO2 gerados pela Conferência foi convertido em um número estimado de árvores nativas regionais a serem plantadas para minimizar o impacto de aquecimento global. Os organizadores locais da VI CONFINTEA estão preparando o plantio adicional de 144 espécies nativas, para compensar a emissão de GEE durante os quatro dias do evento. Cada delegação foi convidada a plantar o número de árvores nativas regionais em seus próprios países, proporcional ao tamanho da delegação e à distância percorrida.

Argumentos de que a Confintea é elitista não são estritamente verdade. O processo Confintea, em contraponto ao evento Confintea, demanda estratégias amplas de mobilização e discussão. No Brasil, a mobilização abarcou encontros estaduais, regionais e nacional. Ao levantarmos a bandeira da participação democrática e solidária, não foi com a intenção de criticar, mas a de buscar meios para viabilizar que o maior número de pessoas pudesse acompanhar (sem intervir) as discussões e deliberações da conferência. Assim, organizamos a transmissão on-line para pontos de recepção no Estado do Pará e para qualquer pessoa, em qualquer parte do Brasil ou do mundo, acompanhar o evento pelo seu computador. Como componente local da transmissão, as universidades programaram o que ficou conhecido como a Confintea Ampliada. Além de poder acompanhar as mesas redondas e palestras, foram organizadas duas mesas redondas sobre EJA nos países africanos de língua portuguesa e nos países latino-americanos, aproveitando a presença dos delegados na cidade.

A Influenza (gripe) A acrescentou uma variável inesperada. A partir da decisão prudente, em maio de 2009, de o governo brasileiro adiar a conferência como medida cautelar frente à pandemia (como os nossos dedos nos traem – escrevi ‘pandemônio’ antes de me corrigir!), tivemos, com efeito, que desfazer a organização para maio, re-fazer para dezembro e, assim, na prática, foi como organizar duas conferências seguidas. Porém, ao retomar as atividades da coordenação nacional e do grupo organizador local, a capacidade e determinação coletivas de superar o revés transpareceram-se.

Os grupos de trabalho e as plenárias formaram o espaço para a tomada de decisões e para diversos níveis de articulação com os governos (estadual e municipal) e a sociedade civil local. Questões como segurança exigiam complexa coordenação de diferentes níveis de agentes e atores – polícia federal, polícia militar, polícia civil, polícia rodoviária, guarda civil, etc. – cada um com suas respectivas atribuições e hierarquias. Transporte e rotas precisavam ser planejados com os mínimos detalhes junto à Secretaria de Trânsito da Prefeitura, sempre articulada com a Polícia Rodoviária que faria a escolta dos VIPS. Discussões sobre cerimonial tendem a ocupar um tempo desproporcional enquanto se decide quem terá direito a discursar e por quantos minutos (no fundo uma discussão fútil porque VIPS, por serem VIPS, tendem a se sentir no direito de falar sem restrições temporais), em que ordem as VIPS falariam e quem iria sentar em qual lugar. Alimentação, saúde, transporte, hotéis, interpretação simultânea, sinalização adequada, vistos de entrada, são todos motivos para noites mal dormidas. Sem mencionar, por mais boa vontade que exista, a complexidade de articular vários níveis de governo, diferentes ministérios e secretarias, tendências e partidos políticos, governo e sociedade civil.

No espírito da participação democrática, ficou projetado que o enorme salão de exposições, com quase 70 stands, constituiria um espaço para a troca de informações e experiências educacionais sem o direito a comercialização. Era obrigatório formalizar a solicitação de stand por meio de um sistema web especialmente desenvolvido para essa finalidade e todos os pedidos foram submetidos à coordenação nacional para aprovação. Pesavam na análise um vínculo estreito com a aprendizagem e educação de adultos e um equilíbrio entre regiões, entre pedidos nacionais e internacionais, entre governos e o terceiro setor. A organização oferecia aos expositores um estande padronizado sem cobrança de taxas.

Em mais uma expressão da Confintea Ampliada, duas oficinas de leitura foram organizadas em uma escola pública. A oficina serviu ao mesmo tempo para lançar um livro de leitura: O pequeno livro das grandes emoções, preparado especialmente para neoleitores, cujos primeiros usuários foram 60 jovens e adultos de Belém matriculados em classes de EJA da rede estadual. As oficinas foram conduzidas por uma das duas organizadoras do livro, ela mesma uma autora de livros para esse público, e ganhadora do Prêmio Jabuti em 2009. Na primeira noite, a oficina recebeu uma visita da Princesa Laurentien dos Países Baixos, que, como Enviada Especial da UNESCO, tem defendido a bandeira da alfabetização como direito humano fundamental.

Uma conferência internacional, em que mais de 150 paises participam, exige um pequeno exército de pessoas formadas para oferecer serviços de informação e apoio aos delegados. Coube a nós descobrir como fazer dessa necessidade uma oportunidade de formação e inclusão para jovens universitários das duas universidades públicas, sem correr o risco de explorar o trabalho estudantil. No inicio de 2009, 204 estudantes com domínio de uma língua estrangeira foram selecionados para um curso, inicialmente previsto para durar quatro meses, de formação para o evento, com encontros semanais a cada sábado. O curso visava aperfeiçoar a capacidade lingüística dos jovens, bem como oferecer-lhes acesso a outra língua estrangeira, além de tratar de temas amplos como relações internacionais, políticas educacionais para jovens e adultos, a história das CONFINTEAS, o papel da UNESCO e outras agências internacionais, diversidade cultural, cidadania crítica, história da cidade e da região e temas práticos voltados para a hospedagem, alimentação, geografia da cidade, como receber, segurança, saúde, etc. Palestras foram proferidas em inglês, espanhol e francês. Os estudantes – monitores bilíngües – receberam uma bolsa. Com o adiamento da Conferência, o curso foi estendido por mais dois meses.

Durante o período da conferência, esses monitores bilíngües atuaram na recepção de delegados no aeroporto, nos hotéis, nos museus e no próprio Hangar, informando, direcionando, apoiando, sob a coordenação dos grupos de trabalho a quem foram alocados. Ajudaram a lembrar que em muitos países em desenvolvimento são os jovens que povoam os programas e projetos de educação de ‘adultos’, ao tempo em que alegraram o ambiente com a sua energia, sorrisos, bom humor, irreverência e curiosidade frente ao desconhecido.

A programação cultural interna e externa foi planejada para expressar a rica diversidade cultural da região, para interagir com a cidade e criar outro mecanismo de participação democrática, para criar um diálogo entre a cultura popular e erudita e entre as diferentes linguagens culturais – música, dança, folclore, poesia, teatro – e, acima de tudo, para dialogar com os debates sobre a aprendizagem e educação ao longo da vida como um componente indissociável e inegável do processo de desenvolvimento humano e social e da busca da liberdade.

Internamente, as apresentações ocupavam espaços temporais e espaciais integradas à geografia comum da conferência – a escada, o restaurante, o auditório principal, os espaços de circulação, a entrada e saída e até o ‘fumódromo’. Criavam um ambiente em que as pessoas se sentiam acolhidas e confortáveis, questionadas e acalmadas, surpreendidas e ‘estranhadas’. Um ambiente propício para o diálogo e debate.

Externamente, a cidade abria as portas dos seus acervos e patrimônios históricos, religiosos e culturais para os visitantes. Os horários dos principais museus foram estendidos para facilitar a visita dos delegados depois do término diário da Conferência. Os participantes receberam um ‘passaporte’ para visitar gratuitamente o parque ecológico Mangal das Garças. A vida noturna cotidiana da cidade oferecia um leque de opções gastronômicas, etílicas e boêmias. O carimbó esquentava as noites que a brisa da Baia do Guajará tentava esfriar.

Na última noite, ao encerrar a Conferência, o Cortejo da Diversidade Cultural cimentou esta integração da cidade com a diversidade linguística e multiculturalidade dos participantes da CONFINTEA. Quase mil artistas da cidade de Belém e da região desfilaram informalmente, embalando os presentes nos sons, cores, cheiros, ritmos e sabores de uma noite encantada, milagrosamente sem chuva, levando-os pela Cidade Velha para o píer e os shows finais da Banda do Arraial do Pavulagem e do Cordel do Fogo Encantado. O evento CONFINTEA terminava e o processo ganhou novas inspirações.

Ao refletir sobre esse processo interno da CONFINTEA, tenho uma enorme vontade de sair da cozinha e sentar-me de novo junto aos comensais. Descobri que, apesar de todos os seus encantos, a cozinha é o lugar onde menos se alimenta e onde mais se trabalha. Agora, só me resta esperar a CONFINTEA VII.

Nota:

Carimbó: género musical de origem indígena. O seu nome, em tupi, refere-se ao tambor com o qual se marca o ritmo, o carimbó. Surgido em torno de Belém na zona do Salgado e na Ilha de Marajó, passou de uma dança tradicional para um ritmo moderno, influenciando a lambada e o zouk.

Destaques

Seria inconcebível realizar uma CONFINTEA ‘pasteurizada’ no Brasil – pelo contrário, a Amazônia possui uma diversidade cultural, linguística, étnica e ecológica como poucos lugares no mundo e são esses os desafios que a aprendizagem e educação de adultos têm de abraçar.

No dia de abertura, os participantes VIPS plantaram espécies de árvores nativas da região amazônica no complexo administrativo do HANGAR. Mais 156 árvores – uma para cada delegação nacional – completaram o que será conhecido como O Bosque das Nações.

Uma conferência internacional, em que mais de 150 paises participam, exige um pequeno exército de pessoas formadas para oferecer serviços de informação e apoio aos delegados. Coube a nós descobrir como fazer dessa necessidade uma oportunidade de formação e inclusão para jovens universitários.

Externamente, a cidade abria as portas dos seus acervos e patrimônios históricos, religiosos e culturais para os visitantes. Os horários dos principais museus foram estendidos para facilitar a visita dos delegados depois do término diário da Conferência.

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