Debate: Turismo cultural

Debate: Turismo culturalHá um grande acordo entre os três intervenientes do debate desta edição. Portugal é um país riquíssimo em termos de turismo cultural. Não é por acaso que o nosso país está entre os que têm mais património mundial classificado pela Unesco. Quais são as novas tendências nesta área? O que é que nos falta? Que formação é necessária? O que e como se aprende? Qual o papel das autarquias? Estas e outras questões são abordadas no debate que se segue.

Moderador Rui Seguro Fotografias Miguel Baltazar

Como podemos motivar as pessoas para, além de retemperar as forças nas férias, motivarem-se para adquirir novos conhecimentos, para uma curiosidade cultural?

Gabriela Botelho – Costumo dizer que muita gente viaja para o exterior, mas devia começar por Portugal. Portugal é um país riquíssimo, ainda mais do ponto de vista cultural. Em termos de turismo cultural temos imensos pontos fortes, não é por acaso que Portugal está entre os países que têm mais património mundial classificado pela Unesco, de centros históricos a monumentos, a paisagens culturais, uma panóplia enorme de atracções turísticas, patrimoniais e culturais que a maioria dos portugueses não conhece. Eu própria, que tenho andado, nos últimos anos, a bater terreno de norte a sul, estou constantemente a descobrir coisas novas, a nossa própria história, a nossa própria identidade como povo.

Vou dar uma experiência que este fim-de-semana tive, numa terra não muito longe, a Batalha. Passei lá o fim-de-semana e vim com uma alma lusitana renovada, com espírito para estes desafios. É na nossa história e na nossa identidade que temos de buscar, muitas vezes, a força para o futuro. Aconteceu-me isto recentemente com a visita à Batalha, onde fui ver o CIB, Centro de Importação da Batalha de Aljubarrota, que está interessantíssimo e acho que todos os portugueses deviam lá ir, para além do Mosteiro da Batalha, que é sempre muito interessante aprofundarmos.

Cláudia Gomes – Achei muito interessante a definição de turismo de uma investigadora brasileira. Ela procurou a origem da palavra turismo e a primeira referência que aparece, é “Tour” de origem hebraica, vem no livro dos números e significa a tal viagem de descoberta. Quando falamos no turismo, é sempre a tal viagem de descoberta em que nos deslocamos à terra do outro para aprender o outro com todos os seus valores, o seu património, a sua identidade, o que acaba por ser enriquecedor para nós, porque vimos com uma nova visão sobre os outros e acabamos por gostar da nossa. Muitas vezes, ao ver outra cultura, acabamos por dar valor à nossa.

Se partimos à descoberta do nosso país, todas as regiões têm a sua identidade; não podemos comparar um minhoto com um algarvio, nem uma vila como Ponte de Lima com Reguengos de Monsaraz, temos de fazer com que o turismo cultural se recorra de certos instrumentos para se valorizar e se mostrar e explicar e aproximar das pessoas. Só olharmos para os monumentos não chega, é preciso que eles nos sejam explicados, é preciso que quase se possa tocar neles para os aprender e ver melhor.

Gabriela Botelho – Vou falar um pouco sobre o CIB porque é fantástico, faz-nos vivenciar e quase retroceder alguns séculos e quase ver, a pessoa está no espaço onde se desenrolou a acção.

Cláudia Gomes – Essas recriações históricas são um recurso muito actual que é a interpretação do património. A interpretação do património vai usar as recriações históricas, usa os roteiros, fala com as populações locais, uma série de estratégias para nos pôr lá, para nos fazer questionar. Já que estamos a falar para formadores de adultos, existe uma série de mitos que vêem certos espaços ou só para crianças ou só para elites. Isso é completamente descabido: é para todos, o nosso património é comum.

Carlos Mamede – Não queria fazer propaganda do tal CIB, mas este é um exemplo concreto disso mesmo. Temos junto de uma outra unidade da Fundação Inatel um centro muito parecido com este, do ponto de vista da atractividade, da explicação, da capacidade de juntar, aliciar e ensinar tanto adultos como jovens, que é o Centro de Interpretação da Pesca da Baleia, na Ilha das Flores. Eu vi-o nascer. O sítio onde está instalado eram uns tanques da apanha da baleia, que agora estão tapados. Era uma fábrica, enganchavam as baleias, sangravam-nas e cortavam-nas, levavam lá para dentro as postas de gordura e era ali que faziam o tratamento da gordura de baleia. Como está não se percebe muito bem, não se tem a noção de como aquilo era.

Cláudia Gomes – Isso é uma falha, tem de recriar a coisa quase como se eles tivessem saído de lá hoje de manhã.

Carlos Mamede – Também achei. Ao contrário do CIGMA, onde a Fundação Inatel tem um protocolo, vamos lá em viagem, tanto idosos como jovens. E é extraordinário, porque tanto os jovens como os idosos saem de lá fascinados pelo espectáculo e pela aprendizagem.

Gabriela Botelho – Uma questão mais vasta é o papel das experiências no turismo. Vivemos numa época de um turismo de experiências, levadas aos mais diversos níveis, tentando levar a pessoa a participar naquilo que vai ver. Em termos gastronómicos, os hotéis estão a desenvolver muito este conceito das experiências. Os hotéis levam as pessoas que assim querem ao mercado comprar o peixe, escolher as hortaliças, num prato que depois são convidadas a aprender com os chefes e a confeccionar aquilo que vão almoçar ou jantar.

Carlos Mamede – Quando tem a ver com a natureza, está associado a um segmento muito mais amplo de pessoas. O Inatel tem um acordo com a Associação de Agricultura Biológica e um dos objectivos é assegurar que os clientes dos nossos hotéis venham cultivar produtos biológicos que são depois servidos nas refeições dessas mesmas pessoas.

Queria pôr uma pedrinha neste entusiasmo. Estando de acordo com o que foi dito acerca do turismo cultural e designadamente desta parte dos Centros de Interpretação, vale a pena dizer que os bons centros custam muito dinheiro e corremos o risco da sua banalização. Conheço alguns exemplos de Centros de Interpretação que são cabanas sem qualquer espécie de interesse, que não explicam. Como não há dinheiro, em vez de um verdadeiro Centro de Interpretação fazem uma pequena sala de exposição e chamam-lhe Centro de Interpretação. A experiência que tenho é frustrante nesse ponto de vista.

Cláudia Gomes – Mas eu vou discordar de si. A interpretação do património nem sempre precisa de um edifício arquitectónico. Quando fazemos um roteiro turístico no meio de uma serra, basta pôr uns painéis exemplificativos da flora, da fauna ou da cultura.

Toda a gente acha que é preciso um edifício, megalómano e excêntrico para aquilo ser bem concebido e ser um sucesso. Mentira. Aquilo muitas vezes é um pólo de lóbis que estão lá adormecidos, não fazem nenhumas actividades didácticas. A interpretação do património está onde ele acontece e interpretar o parque natural é no parque natural, não é rua x. Existe uma série de ideias preconcebidas que executamos mal. A interpretação de património não precisa de muito dinheiro, basta um guia turístico local.

Um dos melhores Centros de Interpretação que temos em Portugal é o parque geológico de Arouca, uma casinha em xisto integrada na paisagem, muito bem concebido, ganhou já prémios internacionais do sector, é um projecto singelo e está fenomenal, não é avultado em termos monetários e tem uma equipa didáctica, de pedagogia, muito boa; mas falha numa coisa, na promoção.

Gabriela Botelho – O problema é que os produtos turísticos, as atracções turísticas, têm de ser vendidas de uma forma global. Por exemplo, porque é que o caso da Batalha está, neste momento, a ter êxito? Porque há ali um conjunto de intervenientes com peso. É preciso não esquecer que o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota tem como mecenas a Fundação Champalimaud, o Banco Espírito Santo, a Fundação Gulbenkian, os melhores mecenas de Portugal. Há ali uma componente financeira muito forte. O que há de interessante é um envolvimento dos privados com o público, entre a Câmara Municipal e até as câmaras limítrofes.

Mas como é que as pessoas que estão nos próprios locais conseguem ser veículos promotores da própria cultura e como conseguimos sensibilizar as pessoas a ir à procura dessa cultura? É mais fácil comprar um pacote numa agência de viagens...

Gabriela Botelho – Há o turismo de massas, de autocarro, e há o turismo de lazer. Esse é o que toda a gente quer porque é o melhor turismo que se pode ter. Estou habituada a trabalhar e a falar com pessoas que estão num segmento alto, que não querem turismo de autocarro à porta, querem turismo individual, de lazer. São turistas com preocupações culturais, preocupações ambientais.

Na captação de um bom turista é preciso que haja um conjunto de infra-estruturas já montadas. Até há uns anos muita gente não ia de propósito à Batalha só para ver o Mosteiro ou se ia, ia de passagem, na viagem ao Porto. O que gostei de ver e é assim que se começa a traçar um destino, o hotel vende cultura mas também vende saúde e bem-estar, com a preocupação de ter um SPA, uma preocupação gastronómica. Ou seja, as pessoas vão ao monumento durante o dia mas ao fim da tarde podem lanchar, jogar uma partida de ténis ou de golfe. Isto tem de ser um produto integrado para atrair um determinado tipo de pessoas e sobretudo prolongar a estadia. É o mais interessante para uma região, que a pessoa não passe só por lá mas que durma e fique numa estadia de mais de uma noite.

Mas reconhece que há determinado tipo de destinos que são periféricos.

Gabriela Botelho – Os Açores, por exemplo, estão longe, são a região mais periférica da Europa e a Ilha das Flores é o ponto mais ocidental.

Cláudia Gomes – Mas temos de começar por um ponto de partida, fazer só uma coisa e deixar um ilha isolada não vai trazer turistas, isso é uma ilusão. É o que acontece em muitas terras do interior, metem-se em projectos de turismo rural que só por si não bastam, é preciso infra-estruturas que combinem entre si e se complementem de modo a seduzir o turista.

Carlos Mamede – Acho importante, independentemente de nós gostarmos daquilo a que na Fundação Inatel chamamos auto-férias, as férias individuais escolhidas pelo cliente de acordo com o destino que deseja e com o figurino, continuo a achar que tem grande relevância a organização de viagens sobretudo em estratos com menos capacidade financeira e estratos mais frágeis, por exemplo os chamados seniores, os chamados jovens.

Nós desenvolvemos um programa de turismo juvenil que envolveu, só no Verão, 1500 jovens, ficaram todos alojadas na Fundação Inatel, para o ano vamos fazer exactamente o mesmo programa com 5000 nas férias da Páscoa e nas férias do Verão e o sucesso é enorme e são programas que não são apenas de lazer, são educativos e ao mesmo tempo de lazer, não têm só uma função de desenvolvimento económico das regiões onde estão porque eles não estão fechados dentro do hotel, mas tem também uma função educativa clara, assumida, que é extremamente importante.

Quando falamos em destinos falamos destes Centros de Interpretação, falamos da visita a monumentos megalíticos. Independentemente de estar de acordo com o que disseram acerca da importância da construção complexa do produto turístico e do destino turístico. Não há dúvida nenhuma que organizações como a Fundação Inatel são extremamente importantes nesse desenvolvimento. A principal concorrente da Fundação Inatel no que respeita às viagens não são os operadores turísticos, não são as agências de viagens, são as autarquias, porque não há Junta de Freguesia que não organize uma viagem, todas as Juntas gostam de ter o seu autocarro.

Gabriela Botelho – Precisamos de um maior mediador, e o Inatel e as Juntas de Freguesia acabam por ser esse agente, esse veículo de ligação entre o visitante e o local. Isso e tão importante como fazer um projecto turístico de excelência.

(Pode ler o debate completo na edição da revista em pdf)

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