Debate UTI

Uma velhice activa, portadora de sabedoria

debate_utis.jpg

A primeira Universidade da Terceira Idade apareceu numa universidade tradicional em 1974, mas só mais recentemente é que ficaram reunidas as condições para a criação deste tipo de estruturas em grande quantidade. É que hoje o número de pessoas que envelhece, e a esperança de vida são claramente maiores: em 1975 morria-se aos 70 anos, hoje morre-se aos 90. Além disso, hoje a maior parte das pessoas que se reforma, no mínimo sabe ler e escrever. A Revista Aprender ao Longo da Vida debate neste número as Universidades da Terceira Idade com Carlos Consiglieri, Maria da Graça Pinto e Luís Jacob.

Em Portugal é indiscutível o sucesso das Universidades da Terceira Idade. Elas continuam a proliferar e ainda mais importante: elas nascem das iniciativas das próprias pessoas, sem o apoio do Estado. Como justificam este sucesso?

Carlos Consiglieri - Posso relatar a minha experiência. Há cinco anos para cá tenho estado ligado a cinco ou seis entidades nesta área e portanto tenho uma visão um pouco precisa desta realidade. De qualquer maneira, quero dizer que o aparecimento destas estruturas – chamo-lhes assim porque há entidades que têm o nome de academias, outras escolas e, portanto, para não haver realmente uma confusão, prefiro chamar-lhe estruturas – veio ao encontro de uma necessidade, e pode dizer-se que resultou de duas coisas importantíssimas que foram as medidas de pré-reforma e reforma que se vieram a estabelecer na sociedade portuguesa, no momento em que muita gente, ainda válida, se viu em situações de desocupação. Ora essas pessoas ainda têm uma atitude activa, querem participar, têm a noção da importância da cultura, da prática lúdica, do desporto, de actividades, de passeios, de convívios.
Do confluir destas duas situações, ocorreu este “boom” a que estamos a assistir. Estamos no início de um processo que vai muito longe. É verdade que talvez haja necessidade de se fazer alguma regulamentação, de reflectir em encontros nacionais à volta desta questão.
Não quero dizer que não tenha uma grande satisfação em estar na RUTIS (Rede de Universidades da Terceira Idade) e esta tem respondido sempre, pronta e muito simpaticamente, aos nossos anseios, mas penso que o debate tem de ir mais longe, tem de ser mais amplo e partir das organizações e não das estruturas do Estado, na perspectiva de arregimentar, de estruturar. Isto tem de ser obviamente criativo. Tem de ser livre, ter um crescimento que esteja em confluência com o desejo das pessoas.
E é muito fácil levá-las a esta situação. Por exemplo, a UNISBEN (Universidade Internacional de Benfica) está na área de Lisboa onde não havia nenhuma estrutura. Havia uma universidade já com vários anos, mas as pessoas acorreram de maneira pronta, e posso dizer que os telefonemas são diários e para o próximo ano já temos mais de cem alunos e as inscrições só vão abrir em Setembro. Há uma vontade, um desejo de participar, mas a estrutura de recepção, a estrutura de resposta tem de ser também aberta. Não se pode dizer aos utentes, “Veja os horários que estão afixados e escolha o que quiser”. Isto é talvez o pior que se possa fazer, na minha leitura. O que se tem de fazer é desde logo o encaminhamento de cada pessoa, dando-lhe aquela relação humana que essas estruturas devem ter. Na nossa universidade temos dois dias por semana em que não damos aulas. Um dia é só para visitas. Organizam-se grupos e vão para a rua, vão passear, conviver. Outro dia é só para debates. Debates sobre as matérias, debates sobre os professores, debates sobre temas, debates com pessoas que não são os professores.

Maria da Graça Pinto - Há uma coisa que é preciso realçar com uma certa veemência: estamos perante um grupo muito heterogéneo. As formações são diferentes, as experiências são diferentes, os saberes são diferentes, o que eles procuram é diferente. Esta população tem outras exigências, busca outras coisas e acho que a oferta tem muito de ir ao encontro do que eles procuram. E o facto de este tipo de experiência e de iniciativas cativar, vai muito ao encontro do facto de, parte dessas pessoas, ter entrado na reforma. Até ali tinha estado activa e depois há aquela transição para um isolamento. E eles sabem que parar é morrer. Querem estar activos, do ponto de vista físico e do ponto de vista mental. Em Espanha, os Governos Autónomos subsidiam as pessoas que querem frequentar estas actividades.

Luís Jacob - Porque é que as Universidades da Terceira Idade cresceram tanto? A primeira apareceu dentro de uma numa universidade tradicional em 74. Porque é que entre 1975 e 2001 só surgiram 15 UTI’s? Porque não estavam reunidas as condições para isso. Que condições são essas? O envelhecimento da população em 2000 é quantitativo e qualitativo. É quantitativo o número de pessoas que hoje envelhece, e a esperança de vida é claramente maior, em 75 morria-se aos 70 anos hoje morre-se aos 90, ganhou-se 10/15 anos. As pessoas que em 75 morriam, eram analfabetas ou por lá perto. Hoje em dia não, a maior parte das pessoas que se reforma, no mínimo sabe ler e escrever.
Por isso houve uma massa crítica que não existia em 75, em 80 e em 90 e hoje claramente existe. Depois, há o papel dos meios de comunicação, hoje as Universidades da Terceira Idade são conhecidas. Felizmente, desde 2000, a própria comunicação social começa a olhar para os seniores não já com aquela imagem do velhinho no lar, mas também como pessoas, activas e com potencial. Toda a movimentação através da comunicação social é boa para as universidades, sempre que sai uma notícia sobre a UTI ou sobre as universidades, nós somos contactados por alguém que quer criar uma universidade. As universidades seniores são um modelo muito simples de criar, precisa de uma sala, precisa de professores voluntários, precisa de um grupo de pessoas e avança. Não é burocrático, ao contrário de todos os outros projectos, tem uma estrutura altamente informal e isso faz com que em pouco tempo se crie uma universidade.
Depois, a própria existência de uma RUTIS, que tem um modelo. Das 106 estruturas que existem, metade teve algum apoio da RUTIS.
Em relação à questão que a Maria da Graça colocou sobre a Espanha. Há três modelos, as aulas da terceira idade, as universidades populares e as universidades da terceira idade. As universidades populares são abertas a toda a gente, qualquer pessoa pode lá ir e aprender. São fortemente financiadas pelos governos autónomos. Temos as aulas da terceira idade que é o nosso modelo de universidade da terceira idade, professores voluntários, sem certificação, etc. São as aulas da terceira idade. Há cerca de 500 em Espanha. Depois temos as universidades da terceira idade, que são desenvolvidas pelas universidades tradicionais, que se aproximam um bocadinho do modelo da Universidade do Porto.

Maria da Graça Pinto - Mas penso que não têm essa limitação de exigirem uma licenciatura.

Luís Jacob - Algumas têm, outras não. Mas têm um nível de habilitações. Pode não ser licenciatura. Enquanto as aulas da terceira idade são como as nossas, qualquer pessoa é bem vinda, as ligadas às universidades da terceira idade têm algum tipo de limitações. Qual é a grande diferença entre elas? É a parte social, ou a parte educativa, ou seja: as aulas nas universidades da terceira idade em Portugal são acima de tudo uma resposta social, visam tirar as pessoas de casa, combater o isolamento, visam pôr as pessoas activas, participativas. O grande objectivo é promover a inclusão social seja de que forma for, seja através da pintura, do teatro, da visita, tirá-las de casa e pô-las activas. Os programas universitários para adultos destinam-se a um grupo de pessoas, restrito, com uma formação superior, em que as pessoas vão mais par um aumento de conhecimentos.

Carlos Consiglieri - Criamos universidades mas temos de ter a certeza de que o que estamos a fazer tem algum mérito e tem algum controle. No caso da universidade Unisben fizemos protocolos com a Escola Superior de Educação de Benfica, com a Escola Superior de Comunicação Social de Benfica e com outras universidades, como psicologia no “campus” universitário. Fizemos protocolos e vêm fazer-nos inquéritos, cada um com os seus métodos, cada um com os seus objectivos, e que depois nós cruzamos com os resultados, para saber o que estamos a fazer.
No ano lectivo passado, fizemos quatro inquéritos destes, o que nos dá uma garantia e uma série de informações sobre o que corre bem e o que corre mal, sobre o interesse das pessoas. Fizemos inquéritos extensos aos alunos que estavam também a fazer trabalhos para a sua própria universidade. Penso que é importantíssimo, nesta fase, ter alguns elementos, o feedback daquilo que é o nosso trabalho e esse método pode ser extremamente útil: pôr turmas, disciplinas, grupos ao serviço dessas universidades. Os resultados ajudam-nos muito. Este ano, por exemplo estamos a modificar e estruturar certas e determinadas coisas, práticas e conteúdos.
Tivemos, por exemplo, com a Faculdade de Psicologia e com um grupo de teatro da Faculdade de Psicologia, jogos com os grupos de pessoas com idade superior a 55 anos. Foi feita uma série de questionários e depois aulas práticas na própria Faculdade de Psicologia. Constituímos vários grupos que vieram de lá interessadíssimos por essas práticas. Fizemos um protocolo com o teatro de Almada levando as pessoas em camioneta ao teatro e falando com os actores, eles explicando as encenações. Criando, portanto, uma prática real. Tudo isto são formas de avaliarmos o nosso próprio trabalho e o desenvolvimento das nossas aulas.

Maria da Graça Pinto - É evidente que há transmissão de conhecimentos mas há, sobretudo, um grande intercâmbio de saberes. Os meus alunos fizeram uma visita a Salamanca e viram a quantidade de alunos que existia num dos anfiteatros. Na altura disse-lhes, se compararem um pouco vão ver que não podem estar tão sossegadinhos na cadeira se estiverem em Salamanca num anfiteatro com tanta gente. De facto, eles são muito activos. É realmente uma recolha de conhecimentos mas é também uma troca de conhecimentos. Eles estão sempre a interpelar o próprio saber, daí a importância que têm as experiências, as trocas de saberes – é o que está em jogo, no fundo.

Uma questão que levanta sempre alguma crispação é a da terminologia. Universidades ou Academias, Terceira Idade ou Sénior. A pergunta que eu vos dirijo é a seguinte: Isto é uma questão importante? A má escolha da designação tem criado barreiras à sua implementação?

Maria da Graça Pinto - Penso que a terminologia começou metaforicamente. Um grupo de pessoas de idade foi assistir a uma coisa que estava a ser feita com jovens, e é bem provável que alguém tenha dito: “temos aqui a universidade da terceira idade”, e a partir daí ficou o termo. Sou professora catedrática, sou de uma universidade tradicional, e não me aflige absolutamente nada. Se assusta alguns, assusta os menos informados. Este termo é mundial, criticado em todo o sítio. É evidente que passou nalguns sítios a instituto, academia, para tirar esse peso da universidade. Quanto à terceira idade, também é um termo que está a mudar. No fundo o que isto significa é a evolução do movimento em si.

Luís Jacob - É muito curioso. As mais antigas chamam-se todas universidades da terceira idade, as mais novas, já são todas universidades séniores.

Carlos Consiglieri – Quando se está a falar em academia, há um sentido mais elitista da sua composição inicial. Não sei se essas pessoas pensam que academia é um termo mais pomposo e mais emblemático do que universidade. Falando com aquelas academias, em Lisboa, sinto essa ideia, mas está a desvanecer-se. Provavelmente vai perder força nos próximos tempos.

Luís Jacob - Eu penso que o nome Universidade pode afastar, mas, nesse caso, estou de acordo com a Graça. Pode ser por ignorância, mas acima de tudo atrai.
Notei muito isso quando fui a Almeirim. Quando as pessoas usavam a t-shirt ou a pasta, a dizer Universidade Sénior de Almeirim. “Eu vou para a universidade” – isso é uma coisa espectacular para a auto-estima. Na Nazaré, as pessoas que andam na universidade são as senhoras ligadas à pesca. Há pouco tempo fui ao encerramento de um curso e elas próprias tinham uma parábola que os directores da universidade não conheciam a gozar umas com as outras, “então tu vais para a universidade, tu és uma peixeira, andas a vender peixe e andas na universidade. Mas eu ando na universidade para aprender.” Gosto mais do termo universidade para universal, aberta a toda a gente, aberta a pessoas que não têm dinheiro, aberta a pessoas que não têm habilitações. Gosto muito do termo universidade.
Os alunos das universidades e o próprio funcionamento das universidades da terceira idade, embora haja um padrão mais ou menos igual, é muito, muito heterogéneo. Temos universidades claramente elitistas. Temos a universidade da Nazaré – mais popular que a universidade da Nazaré é difícil – ou a do Gavião ou a de Serpa. São universidades em que a maior parte dos alunos tem poucas habilitações. Vamos para o Porto, e temos universidades claramente elitistas.

Carlos Consiglieri - As universidades que são elitistas perdem. Mas não há que tomar nenhuma atitude em relação a isto. É deixar desenvolver, e quem quiser chamar academias chama. Na prática é um falso problema.

(Pode ler o debate completo na edição em papel deste número.
Se é sócio e está registado pode ter acesso integral à revista em pdf - ver revista completa na coluna da direita desta secção)

 

Tópicos: Tags: