Educação de Adultos em Inglaterra: Tempos Desafiantes

Texto Barbara Merrill (Universidade de Warwick, Reino Unido) | Tradução Daniela Silveira

A educação de adultos em Inglaterra é muito diversificada, abrangendo um leque complexo de actividades e de sectores subsidiados pelo Estado, empresas, organizações comunitárias e de voluntários.

Historicamente, tem raízes nos movimentos sociais do século XIX e início do século XX, como os sindicatos, correntes militantes da educação de adultos e organizações como o Mechanics Institute. Estas iniciativas dirigiam-se então a adultos (homens) da classe trabalhadora. No início do século XXI, a educação de adultos, de uma maneira geral, divide-se entre a de tradição radical e o novo “funcionalismo” promovido pelo Governo.
Uma oferta de vasta diversidade e os inúmeros prestadores de educação de adultos tornam difícil, como afirma Legge (1982), definir com precisão o que é a educação de adultos no Reino Unido ou a percepção que se tem dela. Toda a compreensão, por parte de qualquer pessoa, é moldada pelas diferentes ideologias, perspectivas e práticas. As interpretações variam muito entre, por exemplo, os educadores radicais de adultos, que defendem finalidades sociais e de mudança na formação de adultos, e os empregadores, estes preocupados com a questão das competências e com as aprendizagens profissionais/económicas que reforcem o seu papel na economia global. No entanto, toda a oferta de educação de adultos enquadra-se na aprendizagem ao longo da vida, que tem sido um ponto forte e central no discurso do Governo Neo-Trabalhista (“New Labour”).

Abordagem economicista

A abordagem do actual Partido Trabalhista à aprendizagem ao longo da vida é predominantemente economicista, com o fim de melhorar a posição competitiva do Reino Unido num mundo globalizado. Existem, acessoriamente, algumas preocupações com aspectos sociais, uma vez que a aprendizagem ao longo da vida é vista como uma ferramenta importante no combate à exclusão social e na promoção da inclusão social.

A abordagem do Governo à educação de adultos é hoje fortemente criticada pela esquerda. A aprendizagem ao longo da vida, de acordo com o Governo, é vista como uma solução para problemas educativos, sociais e políticos (Coffield, 1999). A nova linguagem associada à aprendizagem ao longo da vida em Inglaterra evita conceitos e palavras como “pobreza” e “pobre”. Como salienta J. Field (1), o aspecto social contém também um objectivo escondido, que corresponde a “dar uma resposta humanística aos temores da classe média em relação aos pobres” (2006: 122). A actual política do governo sobre educação de adultos e aprendizagem ao longo da vida reflecte, como observou Giddens (em 1991), uma tendência para a individualização da sociedade e da educação. Este facto implica uma mudança da aprendizagem colectiva para processos individualizados, em que os adultos têm de ser responsáveis pela sua própria aprendizagem. A linguagem da aprendizagem também reflecte, em algumas instituições, e em especial nas escolas de estudos continuados, (“Further Education Colleges” ou instituições pós escolaridade obrigatória), a lógica do marketing, com os estudantes a serem denominados cada vez mais como clientes ou utentes. A aprendizagem ao longo da vida também se tornou uma expressão da moda, a ponto de alguns departamentos de universidades terem alterado o seu nome, de “educação permanente” para “aprendizagem ao longo da vida” e os professores terem passado a chamar-se professores de aprendizagem ao longo da vida. Apresentamos, em seguida, um esboço do que está a acontecer na educação de adultos em Inglaterra (a situação na Escócia é ligeiramente diferente).

Entidades Promotoras de Educação de Adultos em Inglaterra

Desde a Lei Quadro da Educação, de 1944, que o maior providenciador de educação de adultos tem sido o Estado, principalmente através de escolas de estudos continuados (“Further Education Colleges”). No final dos anos 90, estes estabelecimentos de ensino tinham-se tornado um promotor chave de uma educação de segunda oportunidade para adultos, de acordo com a Lei de 1992, segundo a qual as autarquias locais perderam o respectivo controlo, sendo então introduzidos novos regimes de financiamento. Nesta altura, os adultos eram mais de 80% dos alunos em programas apoiados por fundos públicos (Unwin, 1999). Os programas FEC cobrem um espectro completo, desde as competências básicas até ao ensino superior (este, em parceria com as universidades).

No entanto, o novo regime favorece em demasia os estudos de natureza profissional ou relacionados com o mundo do trabalho, sendo alguns organizados em parceria com empresas locais, uma vez que assim se garantem financiamentos e se aplica a política governamental em matéria de aprendizagem ao longo da vida. Os programas direccionados para adultos marginalizados e grupos comunitários estão, consequentemente, afectados por problemas de sustentabilidade. (Hyland e Merril, 2002).

Os FEC também representam uma importante via para o ensino superior através dos seus Cursos de Acesso. Estes programas, que oferecem toda uma gama de disciplinas, possibilitam aos adultos, que estão há muito tempo fora do sistema educativo e que podem ter poucas ou nenhumas habilitações, atingir o nível exigido para a entrada no ensino superior. No entanto, ultimamente, os fundos governamentais têm sido cada vez mais centrados em jovens adultos, o que é visto como um investimento económico. Em 2006, foi publicado um Livro Branco do Governo sobre Ensino Pós Obrigatório para Adultos (“Further Education”), o Relatório Foster. Aqui, o destaque é efectivamente dado aos jovens adultos (19 aos 25 anos), enfatizando a necessidade de os subsidiar para estudarem até ao nível 3 (ou seja, até à conclusão do secundário ou entrada na universidade). A prioridade está no desenvolvimento de competências e na empregabilidade. Mas, de qualquer forma, a criação de um Fundo de Educação de Adultos irá ajudar os alunos mais velhos, em especial com os seus custos correntes.

As instituições de ensino superior são também importantes prestadores de educação de adultos, disponibilizando cursos certificados pré-universitários e formação profissional, assim como cursos de licenciatura, a tempo parcial ou tempo inteiro. Contudo, o que está em funcionamento é um sistema dual, uma vez que a maioria dos adultos a estudar para uma licenciatura se encontram nas “novas” universidades (criadas depois de 1992), constituindo, em algumas destas instituições, mais de metade da população estudantil, ao contrário do que sucede nas universidades tradicionais e de elite; este facto tem consequências para eles no mercado de trabalho. A Universidade Aberta (“Open University”), uma organização independente, também é uma via muito procurada pelos estudantes adultos que querem obter um diploma através do ensino a distância.

Historicamente, a Associação para a Educação dos Trabalhadores (“Workers’ Education Association”), criada no início do século XX, desempenhou um papel crucial na educação de adultos do Reino Unido. Com os anos, afastou-se de uma educação não formal para uma mais formal, à medida que o movimento se profissionalizou e se submeteu a medidas de financiamento público mais rígidas. É uma organização voluntária e o seu financiamento é, portanto, uma questão crucial. A Associação está dividida em distritos através do Reino Unido, cada um com o seu próprio programa e os respectivos organizadores-tutores. Tem mantido a sua missão de objectivo social e continua direccionada a homens e mulheres da classe trabalhadora. Os colégios residenciais de educação de adultos, como Ruskin e Northern College, são instituições independentes com fortes ligações ao movimento sindical. Proporcionam cursos de longa ou curta duração para adultos com poucas ou nenhumas qualificações e para os que procuram uma segunda oportunidade. Instituições como Ruskin e Northern College têm uma tradição radical. A missão do Northern College, por exemplo, define-se do seguinte modo: “Deve providenciar oportunidades para a transformação de indivíduos e comunidades e promover mudanças sociais através da disponibilização de uma educação de adultos da mais elevada qualidade, tanto residencial como inserida na comunidade”. Os Colégios Ruskin e Northern também reflectem a tradição da educação de adultos e da educação comunitária no Reino Unido, que se têm centrado no desenvolvimento comunitário e na educação para a acção sob influência dos trabalhos de Tom Lovett e Paulo Freire.

J. Field defende que há agora também uma educação de adultos em emergência, que está ligada ao consumismo e à identidade pessoal, tal como “viagens de estudo, centros de fitness, clubes desportivos, centros de património histórico, manuais terapêuticos de auto-ajuda... redes electrónicas...” (p. 55).

Outros órgãos governamentais têm impacto e influência na educação de adultos. O papel do Conselho de Aprendizagem das Competências (“Learning Skills Council”) em Inglaterra, por exemplo, é melhorar o nível das competências da população activa, para tornar a Inglaterra mais competitiva. Os adultos podem obter informação e aconselhamento sobre cursos através do instrumento informático Learndirect. A Inspecção da Educação de Adultos (actualmente em fase de mudança) tem a responsabilidade de assegurar a qualidade da oferta da educação de adultos em Inglaterra e no País de Gales.

Quem participa

A aposta na aprendizagem ao longo da vida proporcionou oportunidades mais diversificadas e flexíveis para a educação de adultos, mas há indicações de que alguns grupos não beneficiaram delas e que as desigualdades na educação aumentaram (Field, 2006). Classe, sexo, etnia e idade continuam a ser barreiras à participação. Um inquérito de 2006 sobre participação na aprendizagem em família, na comunidade ou Estado, levado a cabo pelo Instituto Nacional de Educação Permanente e de Adultos (“National Institute of Adult and Continuing Education”, NIACE), indica que, apesar dos subsídios governamentais, pouco mudou nos últimos dez anos. 42% dos inquiridos referiram que estavam ou tinham estado recentemente envolvidos em educação-formação, comparando com 40% em 1996, mas a diferença é na mudança que houve em direcção a aprendizagens mais centradas no emprego . Houve um aumento da participação na faixa dos 45-54 anos, mas uma diminuição no grupo acima dos 65. Em relação ao grupo social, verifica-se uma subida dos trabalhadores manuais qualificados, de 33% em 1996 para 41% em 2006, mas as classes média e profissional ainda dominam. Há, no entanto, pouca diferença na participação por parte de homens (40%) e mulheres (43%).

Educação de Adultos na Prática

Apesar da aposta do Governo no sentido de mercantilizar a educação de adultos, podem encontrar-se na educação continuada (FEC), superior e comunitária exemplos de boas práticas, que procuram reforçar o poder das pessoas e das comunidades. Educadoras feministas de adultos têm tido influência em criar cursos sobre estudos das mulheres, que são muitas vezes de base comunitária e destinados a mulheres da classe trabalhadora. Os Colégios de Further Education deram a muitos adultos marginalizados, com poucas ou nenhumas qualificações, a oportunidade de regressar ao ensino, e alguns deles seguiram o seu percurso de aprendizagem até ao ensino superior (Gallacher et al, 2000). Para estes adultos, os FEC proporcionam um ambiente educativo, em contexto local, acessível e flexível. Muitos possuem centros pró-activos (“outreach”) na comunidade, como forma de motivar os estudantes marginais. Por exemplo, um FEC em Edimburgo abriu um centro no rés-do-chão de uma torre de habitação social, onde dá cursos de informática em ambiente informal. No ensino superior, alguns programas de licenciatura destinam-se especificamente a adultos, tais como os part-time e os “2+2”. Na Universidade de Warwick, os cursos de licenciatura 2+2 permitem aos adultos da classe trabalhadora (muitos dos quais são mulheres e mães solteiras) entrar no ensino superior com poucas ou nenhumas qualificações. Algumas pesquisas indicam que frequentar o ensino superior transforma a identidade e a imagem própria(2).

Olhando para o futuro

Recentemente, passou a considerar-se a educação de adultos, em Inglaterra e no Reino Unido em geral, como mais um bem de compra e venda, o que se reflecte na individualização da aprendizagem e na promoção da responsabilidade e escolha individuais, enquanto o Estado de Providência continua a declinar. O Governo Trabalhista continuou a tradição iniciada na conservadora era Thatcher. A educação tornou-se aprendizagem, o que minimizou o aspecto político da educação (Crowther e Martin, 2006). A educação de adultos em Inglaterra tornou-se, nos últimos anos, mais diversificada, flexível e abrangente na sua natureza. É, como Edwards (1997) a descreve, “uma charneca(3)”. As fronteiras entre aprendizagem formal e não formal e entre educação pós secundária e superior esbatem-se.

Há também uma separação entre as raízes radicais da educação de adultos, que defendem a educação com fins sociais, de cidadania e de transformação, e a preocupação trabalhista com competências, aptidões e educação-formação profissional. O documento do Governo trabalhista “A Era da Aprendizagem” (“The Learning Age”), publicado em 1998, transmitia uma visão da aprendizagem ao longo da vida que valorizava os benefícios da aprendizagem em relação à sociedade civil, família, comunidade e local de trabalho. Agora, centra-se muito mais no último aspecto e na necessidade de se obterem competências e qualificações.

Também existem contradições na política do Governo, ao pretender, por um lado, que as pessoas participem na aprendizagem ao longo da vida enquanto, por outro, vai reduzindo as oportunidades na educação de adultos não-formal e cultural, e mais importante ainda, vai agravando os custos financeiros da participação no ensino pós secundário e superior. Para os que têm baixos rendimentos ou vivem abaixo do limiar da pobreza, esta é uma barreira à participação, o que vai contra a vontade do Governo de inclusão social (Gallacher et al, 2000). Este ano também se verificou uma diminuição dos subsídios para cursos de educação de adultos, que tradicionalmente motivavam pessoas adultas a regressar aos Colégios de ensino pós secundário (FEC). A educação de adultos em Inglaterra tem de reencontrar o seu caminho e regressar às suas raízes e valores, como uma educação de adultos de finalidade social, capaz de envolver as pessoas não só num sentido económico mas também social e cívico.

1 Field. J (2006) Lifelong Learning and the New Educational Order. Stoke-on-Trent, Trentham Books.
2 Ver, por exemplo, Johnston. R. & Merrill. B. (2005) From Old to New Learning Identities: Charting the Change for Non-Traditional Adult Students in Higher Education, in Bron. A., Kurantowicz. E., Salling Olsen, H. & West. L., Old and New Worlds of Adult Learning, Wydawnictwo Naukowe, Wroclaw, Polónia.
3 No original, “moorland”; in Edwards. R. (1997) Changing Places?: Flexibility, Lifelong Learning and a Learning Society. London, Routledge.

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