Educação de adultos no Canadá: Tradições históricas, situação actual e cenários futuros

Educação de adultos no Canadá: Tradições históricas, situação actual e cenários futurosO Canadá é uma nação oficialmente bilingue e multicultural, onde a educação é, em grande parte, de jurisdição regional, ao ponto de ser um dos poucos países do mundo sem um Ministério de Educação a nível nacional. Em vez disso, há um Conselho de Ministros de Educação – estabelecido em 1967 – que constitui um fórum para os ministros regionais da educação discutirem assuntos de interesse mútuo, e representa, à escala internacional, o sector da educação.

Texto de Daniel Schugurensky, Educação de Adultos e Desenvolvimento Comunitário, Instituto de Estudos de Educação de Ontário, Universidade de Toronto

Embora a maioria dos serviços educativos, nos ensinos básico e secundário e no ensino superior, seja da responsabilidade das Províncias, o campo da educação de adultos caracteriza-se por uma combinação de programas regionais e federais. O Canadá gasta cerca de 7% do seu produto interno bruto em educação, sendo a oferta de educação e formação bastante diversificada. Num relatório recente, de 2004, a Comissão Canadiana para a UNESCO identificou três desafios-chave no estudo da educação de adultos no Canadá: a relação incerta entre os conceitos de aprendizagem ao longo da vida e educação de adultos, uma falta de clareza acerca dos passos a dar uma vez aceite a necessidade de aprendizagem ao longo da vida e a grande variedade de aspectos que assume a educação de adultos no Canadá.

Todos os anos e por todo o país, as caixas de correio enchem-se de folhetos e catálogos de milhares de cursos de educação contínua, destinados ao desenvolvimento pessoal e profissional e enviados por quase tantas instituições quanto se possa imaginar, desde conselhos escolares, YMCA/YWCA , igrejas, bibliotecas, centros comunitários, organizações não governamentais, sindicatos, empresas privadas e grandes corporações. Entre os inúmeros fornecedores de serviços de educação de adultos, os de maior projecção são as entidades empregadoras e as instituições educativas. As instituições de educação pública oferecem cerca de três quartos dos programas e de um quarto de todos os cursos. As entidades empregadoras organizam um em cada cinco cursos e perto de um terço dos cursos relacionados com o emprego. Frequentemente, os empregadores providenciam diversas formas de apoio: pagam propinas e tutorado a 55% dos empregados registados num programa e a 85% dos inscritos num curso. Também pagam os materiais e oferecem licenças pagas e disponibilizam instalações a um grande número de formandos. A formação em sala de aula é ainda o método dominante, adoptado por todos os organizadores de cursos, embora as novas tecnologias de aprendizagem – tal como a internet – estejam a ser cada vez mais utilizadas pelos estudantes . Como parte dos programas de apoio à imigração, o governo canadiano disponibiliza, de forma gratuita, programas de instrução linguística, em francês e em inglês, para os adultos recém-chegados.

Em termos de tendências de participação, a mais recente Pesquisa Internacional sobre Literacia e Conhecimentos dos Adultos (ALSS) indica que 49% da população adulta do Canadá se tinha inscrito numa ou mais formas organizadas de educação e formação de adultos, incluindo programas, cursos, workshops, seminários e outras ofertas educativas, em dado momento durante o ano lectivo. As pessoas com níveis mais baixos de literacia, salários mais baixos e níveis educativos mais baixos eram as que apresentavam menores probabilidades de participação nas ofertas de educação de adultos. Por outro lado, quanto mais alto for o nível educacional dos respectivos pais, maiores são as probabilidades dos indivíduos participarem em educação e formação de adultos. Os respondentes nascidos no Canadá tinham mais probabilidades de participar em educação e formação de adultos do que os imigrantes. As pessoas mais jovens participavam com mais frequência na educação e formação de adultos. As taxas de participação entre homens e mulheres eram praticamente iguais (OCDE e Estatística Canadiana 2005).

Se, para além dos programas de educação de adultos, considerarmos também a educação informal intencional, mais de 80% dos adultos canadianos dizem ter passado, em média, mais de 12 horas por semana em actividades de aprendizagem informal intencional, relacionadas com emprego, tarefas domésticas, trabalho voluntário comunitário e/ou outros interesses gerais. A filiação num sindicato tem um impacto significativo sobre o nível de participação dos trabalhadores assalariados, tanto na educação formal como na aprendizagem informal. Por exemplo, os trabalhadores sindicalizados têm entre 25 e 89% mais probabilidades de participar em programas de aprendizagem certificados do que os colegas não sindicalizados.

Embora entre os educadores de adultos canadianos não haja uma definição universalmente aceite de educação de adultos, a maioria deles adopta a longa definição da UNESCO, aprovada em 1976. Em termos práticos, a educação de adultos no Canadá é, geralmente, entendida como um sector que inclui todos os programas educativos para adultos, que estão fora do sistema educacional pós-secundário. Isto engloba uma grande diversidade de programas, tais como literacia, educação básica de adultos, aquisição de uma segunda língua, programas de aprendizagem, workshops, aprendizagem no local de trabalho e uma enorme variedade de cursos de curta duração, que cobrem quase todas as áreas possíveis de actividade humana. No Canadá anglófono, os termos mais frequentemente utilizados são educação de adultos, educação contínua, educação ao longo da vida e educação vocacional. O termo “andragogia” (popularizado por Malcolm Knowles nos anos setenta) é mais comum no Canadá francófono, ao ponto de a Universidade de Montreal ter o seu Departamento de Psicopedagogia e Andragogia. Em alguns casos, a educação de adultos é conceptualizada como um campo estreitamente associado ao do desenvolvimento comunitário. Por exemplo, a Universidade de Toronto tem um programa de pós-graduação em Educação de Adultos e Desenvolvimento Comunitário.

Alguns aspectos chave da educação de adultos no Canadá

Examinando a história dos últimos cem anos da educação de adultos no Canadá, podem identificar-se várias iniciativas históricas e inovadoras. Entre elas, encontram-se os Institutos de Mulheres (1897), a Universidade Frontier (1899), a Comissão de Planeamento Conjunto (1947), a Comissão Nacional de Cinema (1939) e a experiência do ‘Desafio para a Mudança’, na Ilha do Fogo, na Terranova (1967). Olhando para essa história e para os desenvolvimentos subsequentes, destacam-se, pelo menos, quatro características:

1. Ligações muito próximas com movimentos sociais locais;
2. Um papel activo no movimento internacional de educação de adultos;
3. Parcerias criativas com o Estado em programas inovadores de grande escala, que promovem a cidadania democrática;
4. Uma atenção especial para com as populações imigrantes.

Em primeiro lugar, o campo da educação de adultos no Canadá tem sido visto tradicionalmente (embora não de forma exclusiva) quer como um movimento social de direito próprio, quer como um importante contributo para o avanço de movimentos sociais progressistas. Entre os muitos projectos de educação de adultos ligados aos movimentos sociais, a iniciativa mais importante e influente desenvolvida no Canadá foi, provavelmente, o Movimento Antigonish. Este movimento começou, oficialmente, em 1928, como um modesto projecto de extensão da Universidade de S. Francisco Xavier, coordenado pelos Reverendos Moses Coady e Jimmy Tompkins, ambos fazendo parte da tradição do ‘evangelho social’ dentro da Igreja Católica (o equivalente canadiano da teologia da libertação latino-americana). O projecto estava baseado em Antigonish, Nova Escócia, uma das regiões mais pobres do país, numa época de profunda recessão económica e de altas taxas de desemprego. Em breve, a região assistiu ao desenvolvimento de centenas de cooperativas, mutualidades de crédito, círculos de estudo, jornais comunitários e materiais educativos. Pode atribuir-se o sucesso do Movimento Antigonish à forma como os seus membros souberam combinar, de forma criativa, os princípios e práticas da educação de adultos com os princípios e práticas do movimento cooperativo. Hoje, as lições retiradas da experiência do Movimento Antigonish são transmitidas às gerações mais novas de educadores de adultos pelo pessoal e voluntários do Instituto Coady, localizado em Antigonish, Nova Escócia. Juntamente com as alianças tradicionais com sindicatos e cooperativas, o movimento canadiano de educação de adultos estabeleceu, recentemente, alianças com outros movimentos sociais, tais como o ambientalismo e o feminismo.

Em segundo lugar, o Canadá deu alguns contributos importantes para o movimento internacional de educação de adultos. O educador de adultos canadiano Robby Kidd, por exemplo, teve um papel preponderante nas actividades da UNESCO, no final dos anos cinquenta, assim como na criação do Conselho Internacional de Educação de Adultos (ICAE), em 1972. O sucessor de Robby Kidd no ICAE, Budd Hall , e o educador popular do Quebeque, Paul Bélanger, desempenharam ambos um papel crucial para garantir a sobrevivência do ICAE e a vitalidade das suas organizações regionais durante as décadas seguintes, e apoiaram a publicação do jornal deste Conselho, Convergence, entre outros esforços de comunicação. Kidd, Bélanger e Hall também ajudaram a disseminar as abordagens de educação popular e as metodologias de investigação-acção participativa, por todo o mundo. Durante a década de noventa, Paul Bélanger desempenhou um importante papel graças à sua posição na UNESCO , ao assegurar a inclusão de organizações não governamentais na Quinta Conferência Internacional de Educação de Adultos , que teve lugar em Hamburgo, em 1997. De igual modo, vários centros canadianos de educação de adultos, como o Centro de Educação Transformadora de Toronto , têm trabalhado internacionalmente, numa colaboração próxima com grupos afins, como a rede dos Institutos Paulo Freire, espalhados pelo mundo, e em iniciativas progressistas internacionais, como o Fórum Social Mundial e o Fórum Mundial de Educação.

Em terceiro lugar, o movimento canadiano de educação de adultos tem sabido, ao longo da sua história, construir parcerias inovadoras com o Estado, visando a concepção e implementação de programas que promovam o desenvolvimento de uma cidadania informada, crítica e engajada. Um dos contributos mais interessantes neste aspecto foi o Fórum Nacional da Rádio Rural, que começou em 1941, como um projecto conjunto da Associação Canadiana de Educação de Adultos (CAAE) e da Corporação Canadiana de Emissão (CBC) . Este processo evoluiu para o Fórum de Cidadãos, tendo continuado durante mais duas décadas na televisão nacional. O Fórum de Cidadãos consistia numa emissão semanal que analisava, sob diferentes perspectivas, tópicos controversos. Os temas eram abordados através da colocação de uma questão motivadora e da apresentação de argumentos contrastantes, a fim de gerar uma discussão informada e equilibrada. Depois da emissão, os grupos locais deliberavam sobre o tópico, assistidos por um guia de debate, produzido pela educadora de adultos Isabel Wilson e distribuído antecipadamente. Entre as centenas de temas assim apresentados para deliberação estavam os prós e os contras da censura, do profissionalismo no desporto, da educação religiosa nas escolas públicas, das greves, da necessidade de disciplinar a juventude, da educação progressista, da política de imigração, do planeamento centralizado, do envolvimento político dos sindicatos e da obrigatoriedade de tratamento para os alcoólicos. Actualmente, a tradição do Fórum de Cidadãos no Canadá continua por via das Assembleias Regionais de Cidadãos para a reforma eleitoral. Nestas assembleias, cidadãos escolhidos ao acaso, representando diferentes estatutos socioeconómicos e ocupações, encontram-se regularmente, durante quase um ano, para avaliar o actual sistema eleitoral, saber mais sobre alternativas implementadas em outras jurisdições, deliberar sobre as forças e fraquezas de cada uma delas e elaborar uma proposta que possa ser aceite ou rejeitada pelo conjunto dos cidadãos em referendo regional.

Em quarto lugar, desde a segunda metade do século XIX, o Canadá vem adoptando políticas que promoveram o acolhimento aos recém-chegados e atraíram imigrantes de todos os continentes. No entanto, nos últimos vinte anos, deu-se um aumento dramático das taxas de imigração, quando chegaram ao Canadá mais de duzentos mil novos imigrantes por ano. Só entre 1991 e 2001, o Canadá recebeu um total de 2,2 milhões de imigrantes e refugiados, o que constituiu o maior fluxo imigratório de qualquer período da sua história (Estatística Canadá 2003). Actualmente, mais de 18% da população canadiana nasceu no estrangeiro, uma proporção inferior apenas à da Austrália (onde 22% nasceram no estrangeiro) e certamente mais elevada que a dos Estados Unidos, onde esta percentagem é de 11%. Nos últimos cem anos, a educação de adultos no Canadá tem dado resposta a esta imigração em massa, oferecendo uma variedade de serviços e programas que visam uma integração bem sucedida dos recém-chegados na vida económica, social e política da sociedade anfitriã. Historicamente, a maioria destes programas concentrou-se na formação linguística e na integração económica. Em 1971, o Canadá tornou-se o primeiro país do mundo a adoptar uma política oficial de multiculturalismo. Esta política inspirou programas e serviços de apoio a associações étnicas e culturais e de ajuda aos indivíduos, tendo em vista superar as barreiras à sua total participação na sociedade canadiana. Em 1982, a Carta de Direitos e Liberdades reconheceu o Canadá como um estado constitucional multicultural. Hoje, uma multiplicidade de agências de educação de adultos fornece um leque muito vasto e variado de serviços e programas, para os novos imigrantes.

Considerações finais
Num relatório recente sobre educação de adultos no Canadá, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) observou que:
O Canadá tem muitos programas de que pode orgulhar-se e muitos modelos em educação de adultos que são fonte de inspiração para as entidades formadoras, tanto no Canadá como noutros países. A enorme dimensão do país, as variações entre Províncias e a presença de iniciativas regionais e federais demonstram que este país possui um vasto capital de experiências e de inovação. (OCDE 2002, 8).

Ao mesmo tempo, nas últimas décadas, o campo da educação de adultos no Canadá, tal como em muitas outras partes do mundo, foi afectado pelos ventos convergentes do neo-conservadorismo e do neo-liberalismo . Esta tendência produziu vários impactos inter-relacionados. Primeiro, provocou cortes orçamentais significativos no sector, com a eliminação de muitos programas e a privatização de serviços. Segundo, “afunilou” os debates sociais, políticos e económicos, colocando o foco na eficiência de custos, em estratégias de recompensa e castigo e nos mecanismos de controlo que apenas medem certos resultados. Terceiro, fez o relógio andar para trás várias décadas, no que diz respeito a vantagens sociais, direitos e cidadania. Quarto, esta tendência marginalizou as tradições humanistas e emancipadoras na educação de adultos, colocando a ênfase no desenvolvimento de competências e na formação profissional. Em último lugar, mas não de menor importância, seja a nível do discurso ou da concepção e implementação de políticas, ocorreu uma transferência de responsabilidades – mas não dos recursos necessários – para níveis inferiores do governo e para os alunos individualmente considerados, com uma concomitante demissão de responsabilidades por parte do Estado, em relação à oferta de oportunidades educativas para os cidadãos mais vulneráveis. Na verdade, o relatório oficial canadiano para a CONFINTEA VI (a ter lugar no Brasil, em 2009) observa que o primeiro desafio a ser abordado pela educação de adultos no Canadá, nas próximas décadas, será chegar às pessoas mais necessitadas de oportunidades educativas, mas que permanecem sub-representadas nos programas oferecidos e, consequentemente, na força de trabalho e na sociedade. Entre esses grupos estão os aborígenes, os imigrantes, os trabalhadores mais velhos, os adultos com rendimentos mais baixos, os portadores de deficiência e as pessoas que possuem baixos níveis de escolaridade (Conselho de Ministros da Educação, Canadá 2008).

Face a este contexto, confrontam-se num futuro próximo dois grandes cenários da educação de adultos no Canadá. Um dos cenários é a continuação da orientação neoliberal, com mais cortes orçamentais, privatização de serviços, encerramento de programas que não estejam alinhados com o mercado e o crescimento de programas destinados às classes média e alta. O outro cenário possível é um regresso à tradição social-democrata do Estado canadiano, com expansão de programas e um equilíbrio entre objectivos económicos e sociais. No primeiro cenário, caracterizado por mais capitalismo de mercado, a educação de adultos irá certamente concentrar-se na formação e reciclagem da força de trabalho e na promoção do espírito empresarial. No segundo cenário, caracterizado por uma maior democracia e igualdade de oportunidades, o sector humanista e progressista da educação de adultos terá maiores probabilidades de gerar parcerias interessantes e inovadoras com o Estado e a sociedade civil. Em ambos os cenários, o sector radical da educação de adultos deverá continuar o trabalho conjunto com os movimentos sociais e as organizações de base.
Outono de 2008

Daniel Schugurensky é o coordenador do programa de pós-graduação de Educação de Adultos e Desenvolvimento Comunitário, no Instituto de Estudos de Educação de Ontário da Universidade de Toronto. Actualmente, as suas áreas de investigação incluem as dimensões pedagógicas da democracia participativa, a aprendizagem nos movimentos sociais e participação cívica de imigrantes.

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1 Associação Cristã Masculina/Associação Cristã Feminina.
2 Rubenson, Kjell (2001). Demand and Supply of Adult Education and Training, in Albert Tuijnman (ed.) Learning a Living: A Report on Adult Education and Training in Canada. Human Resources Development Canada (ed.) e Rubenson, Kjell & Judith Walker (2006) The Political economy of adult learning in Canada, in Tara Fenwick, Tom Nesbit & Vruce Spence (eds.), Contexts of Adult Education: Canadian Perspectives. Toronto: Thompson.
3 Raykov, Milosh & David W. Livingstone (2003). Canadian Apprenticeship and Effect of Union Membership Status: Trend Analysis 1991-2002. Centre for the Study of Education and Work, Department of Sociology and Equity Studies, OISE/UT. http://lifelong.oise.utoronto.ca/papers/rRaykovPaper.pdf
4 Ver entrevista com Budd Hall em “Aprender ao Longo da Vida”, nº 4, Maio 2005.
5 Foi Director do Instituto da UNESCO para a Educação, sediado em Hamburgo e especializado na Educação de Adultos.
6 CONFINTEA V.
7 The Transformative Learning Centre: http://tlc.oise.utoronto.ca
8 Selman, Gordon, Mark Selman, Michael Cooke & Paul Dampier (eds.) (1998). Terms and Functions, in The Foundations of Adult Education in Canada. Toronto: Thompson Educational Publishing Inc.
9 Fenwick, Tara, Tom Nesbit & Bruce Spencer (eds. 2006). Contexts of adult education: Canadian perspectives. Toronto: Thompson Educational Publishing, Inc

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