Educação de Adultos na Assembleia da República

A Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República organizou, no passado dia 21 de Junho, a conferência “Educação de Adultos e Aprendizagem ao Longo da Vida: Melhores Oportunidades, Melhor Economia”.

Divulgamos aqui excertos de alguns documentos associados ao evento – contributos, apresentações, ligação ao registo vídeo da conferência e um artigo publicado no jornal Expresso.

- Contributo de Filomena Amorim, Coordenadora do Centro Qualifica Arrábida, Agrupamento de Escolas Lima de Freitas

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De acordo com a experiência destes últimos quatro anos, os adultos procuram a qualificação por razões muito semelhantes entre si:

- a entidade empregadora exige qualificações superiores às já obtidas;

- há concursos públicos a que só podem concorrer se tiverem mais qualificações;

- há possibilidade de progressão na carreira;

- em situação de desemprego, percebem que a qualificação é uma vantagem.

Estas razões abarcam um número reduzido de adultos, pois nem todas as empresas promovem a qualificação ou a progressão. A própria formação profissional deveria apontar para a qualificação. Os adultos empregados frequentam Formação Modular avulsa, sem que esta se insira num plano mais alargado. Os Centros Qualifica podem ajudar o adulto a perceber o melhor caminho e a desenhar um percurso formativo. Contudo, é imprescindível que:

Ponto 1- seja do conhecimento da população em geral que existe esse serviço;

Ponto 2 - seja do conhecimento das empresas de que este serviço é uma mais-valia na planificação da formação dos recursos humanos.

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- Contributo Direção Nacional do Sindicato dos Educadores e Professores do Ensino Básico

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Nos estabelecimentos prisionais, o ensino profissional seria uma ótima iniciativa pelo fato de lhes incumbir ferramentas de trabalho, valores, etc., que lhes forneceriam uma inclusão na sociedade, aquando da sua saída para o exterior.

Grande parte dos nossos reclusos é analfabeta e não possui outra "habilitação" que não seja a do crime. Assim sendo, urge recuperar estes indivíduos profissionalmente de modo a que estejam aptos a exercer uma profissão na sociedade e a poderem abandonar o crime.

Por outro lado, o que se aprende aquando da aquisição da habilitação para exercer qualquer profissão não fornece ensinamentos para toda a vida sem que haja necessidade de formação ao longo da profissão, portanto ao longo da vida.

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- Contributo João Jaime Pires

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Num País como o nosso, na cauda da Europa em termos económicos, desperdiçar o capital de experiência acumulada que cada adulto transporta consigo é luxo a que não nos podemos permitir. Para contrariar este desperdício, é necessário dar a essa experiência acumulada ao longo da vida um enquadramento formativo adequado. Mais do que um imperativo económico, trata-se de um imperativo que diz respeito ao reconhecimento da dignidade humana. É à escola que cabe esse papel. Se o cumprir, não servirá apenas de arma de arremesso contra o défice das qualificações dos adultos mas permitirá também, devolver a esperança a milhares de adultos que anseiam antes do mais por uma nova oportunidade para se libertarem do ciclo de fatalidade que os empurra para a precariedade ou para o desemprego temporário ou duradouro, para a pobreza ou mesmo para a exclusão social.

Certamente teremos de reinventar um novo modelo de educação para adultos não tão colado ao modelo escolar. Mas, para o fazer, temos que nos deixar inquietar verdadeiramente pela questão que formulei de um modo simples: Educação (de Adultos), para que vos quero? Esta semana, a Escola Secundária de Camões, está a recordar o professor e pedagogo, Mário Dionísio, cujas interrogações no pós 25 de abril de 74 inspiraram a minha interrogação inicial “Educação (de Adultos), para que vos quero?”, e passo a citar:

“Podemos manter a “escola” à parte da nossa própria aventura, num universo impermeável à constante recriação que em nós mesmos operamos, nos nossos laboratórios ou nos nossos ateliers, nas nossas ruas? Poderemos, sobretudo, aproveitar para esse universo imaginário partes isoladas da batalha e da conquista que se processa nos nossos laboratórios, nos nossos ateliers, nas nossas ruas, rejeitando as alterações globais que elas implicam? Isto é poderemos não ceder? E poderemos ceder sem ceder até ao fim?”

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- Contributo Associação Nacional de Professores

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Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), baseados no Censos de 2011, há cerca de meio milhão de analfabetos em Portugal, sendo 130 mil com idades entre os 15 e 65, ou seja 5,2% da população portuguesa.

Nesta perspetiva o país tem de fazer uma maior aposta no conhecimento, alargar o acesso à educação e formação, promover ambientes de aprendizagem para todos, assegurando qualificações de elevado valor, promovendo a igualdade de oportunidades de aprendizagem, através da criação de políticas regionais e locais, com a colaboração e cooperação das escolas e autarquias. Aquisição de aprendizagens formais e competências na área:

✓ Competências básicas em conteúdos didáticos (Português, Matemática e História). O saber ler, escrever e contar, são, como nos diz, e bem, Silva, D.S (2008), são saberes básicos que potenciam a aprendizagem/conhecimento;

✓ Tecnologias da Informação e Comunicação, a literacia é fundamental num mundo global;

✓ Área de línguas (metalinguísticas);

✓ Aplicação e desenvolvimento de boas práticas e de instrumentos/ferramentas para o aperfeiçoamento pessoal e profissional;

✓ Aplicação e desenvolvimento de métodos de aprendizagens centrados nos aprendentes e baseados em e nos seus problemas reais contextualizados;

✓ Criação de estruturas para a aprendizagem de competências transversais (colaboração com empresas com o objetivo de reforçar a empregabilidade);

✓ Definição criteriosa de instrumentos de avaliação de conhecimentos e competências;

✓ Criação de uma plataforma digital para a educação e formação de adultos, para registo de práticas, troca de informações, ideias entre os formadores e/ou docentes para uma melhor formação da população referida;

✓ Avaliação contínua das práticas desenvolvidas, com vista a certificação de conhecimentos e competências, por parte de uma entidade reguladora; (credibilização do processo) Assim, urge implementar, com clareza, uma verdadeira e real educação, formação e aprendizagem, adaptado aos atuais modelos heuréticos com a criação de um sistema de educação de adultos.

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- Contributo Vice-Presidente da FENEI, António Pedro Tojo

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Como solicitado, deixamos algumas sugestões sobre a temática:

- currículos adaptados à "história" de cada aluno, jovens e adultos —levantamento do percurso, interesses e necessidades de cada um e do grupo/turma;

- construção dos projectos a partir da cultura local, articulando a educação formal com a não formal;

- os Centros Qualifica deverão ter mais autonomia do que a prevista no programa, na criação e desenvolvimento de projectos próprios;

- discriminação positiva, incluindo ao nível dos recursos humanos, nas regiões desfavorecidas, para que a médio e longo prazo deixe de ser necessária essa mesma discriminação por deixarem de existir regiões desfavorecidas;

- parcerias com as instituições locais;

- reais incentivos às escolas, instituições e empresas, numa visão integrada, enquadrados não só nas necessidades do mercado de trabalho, mas acima de tudo nas necessidades de desenvolvimento sustentado do país e de todas e cada uma das suas regiões.

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- Apresentação do Dr. Alberto Melo [formato PDF]

Falta Cumprir a Educação de Adultos em Portugal

Relativamente à Educação de Adultos, o nosso país encerra um mistério de muito difícil explicação. Portugal patenteia, desde tempos remotos, taxas de analfabetismo só comparáveis a países do 3° Mundo (estimando-se hoje ainda em 5% ou seja meio milhão de pessoas) e revela, hoje ainda, níveis muito baixos de escolarização e de qualificação das pessoas adultas — com cerca de 60% da população activa sem uma qualificação secundária ou superior (contra 23% da média europeia). E, no entanto, a educação e formação de adultos nunca foi assumida como prioridade política e nem sequer como eixo de uma política pública adequada, articulada, coerente, abrangente e duradoura.

De facto, a lição que retiramos da nossa história é que não houve, em contraste com outras nações, o necessário consenso, social e político, sobre a necessidade e a urgência de se promover um acesso generalizado, democratizado, à cultura e à educação. Esta falta de consenso tem sido uma constante, ao longo dos últimos séculos e nos últimos 40 anos. Pode ilustrar-se com a sucessão de medidas e de contramedidas, de reformas e de contrarreformas, que ocorreu desde meados do século XVIII até aos nossos dias. Na época do Iluminismo, Portugal foi dos primeiros países a criar os "Estudos Menores", uma educação elementar, dita para todos. Para todos, sim, à excepção, como constava do decreto real, dos "empregados nos serviços rústicos e nas artes fabris" (que seriam, decerto, mais de 90% da população portuguesa de então). Nesta mesma altura, era D. José aconselhado por Ribeiro Sanches (um famoso iluminista) a não promover as letras nas aldeias, "caso não quisesse vê-las desertificar rapidamente".

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Documentos extraídos da página:

http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheEvento.aspx?BID=105466

 

Pode assistir ao registo vídeo de toda a conferência numa gravação do Canal Parlamento aqui:

http://www.canal.parlamento.pt/?cid=2073&title=conferencia-parlamentar-educacao-de-adultos-e-aprendizagem-ao-longo

 

Divulgamos ainda o artigo publicado no caderno de Economia do Jornal Expresso de 24 de Julho de 2017

Educação de adultos em São Bento

Professores e políticos debateram "economia da educação" 

 

Foi a primeira de uma série de conferências, esperam os organizadores, sobre a educação de adultos e a aprendizagem ao longo da vida em Portugal, um tema que a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência levou esta semana ao Parlamento, por considerar uma prioridade na inclusão social, nos tempos da revolução tecnológica e da dessincronia entre as competências profissionais e as necessidades do mercado de trabalho.

Talvez o desfasamento exista porque "continua a faltar uma política pública que não se restrinja ao âmbito profissional mas que saiba integrar todas as pessoas adultas", sugeriu Alberto Melo, presidente da Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente, um dos oradores da conferência "Educação de Adultos e Aprendizagem ao Longo da Vida: Melhores Oportunidades, Melhor Economia". Com "menos recursos" do que no tempo do Programa Novas Oportunidades (de que descendeu o atual Qualifica), no qual foram gastos €470 milhões entre 2008 e 2012: as ambições são mais contidas. Mas João Couvaneiro, da Agência Nacional para a Qualificação e Ensino Profissional, lembrou que "55% dos adultos em Portugal não concluíram o Ensino Secundário" e "a taxa de participação de adultos em ações de aprendizagem ao longo da vida é de 9,6%". "Está próxima da média europeia, mas queremos melhor", defende.

"As exigências crescentes do mercado de trabalho", por um lado, e a pressão gerada pela robótica ou pela inteligência artificial, referidas por Fernando Lima, vice-presidente do Departamento de Engenharia e Gestão do Instituto de Superior Técnico, fazem com que uma das prioridades dos decisores e agentes de educação seja "definir que formações são necessárias", sem esquecer a leitura, nas diversas plataformas, como base formativa no tempo da "economia do conhecimento", frisou Teresa Calçada, coordenadora do Plano Nacional de Leitura. Incluir na agenda o conceito de "economia da educação" é, por isso, uma necessidade mais do que atual, considera Pedro Silva Martins, ex-secretário de Estado do Emprego (entre 2011 e 2013).

R.B. economia@expresso.impresa.pt 

Dizem os Partidos

"Tem de passar pela qualificação e não apenas pela certificação" Laura Magalhães

Deputada do PSD

"O sucesso escolar dos filhos passa pela qualificação dos pais"

Susana Amador Deputada do PS

"Ouve-se falar de mercado, formação e necessidades e pouco em educação, sociedade e direitos"

Joana Mortágua Deputada do BE

"As empresas não reconhecem essas mais-valias [alcançadas através de programas como o extinto Novas Oportunidades]

Ana Rita Bessa Deputada do CDS-PP

"Os maiores de 65 anos não podem ver o direito à educação negado"

Ana Mesquita Deputada do PCP

 

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