Eixo 2 - Contexto Escolar

Eixo 2 - Contexto Escolar

A escola é importante desde que abandone tentações totalizantes

Luís Rothes - Escola Superior de Educação do Porto


Luis Rothes começou por sublinhar o papel das escolas, designadamente das públicas, na educação e formação de adultos, que considerou importante, desde que as escolas compreendam que a aposta na educação de adultos se tem de fazer em múltiplos planos e não apenas promovendo a obtenção de diplomas escolares.

“Mas a educação de adultos não se esgota aí, há outros planos que estão já estabilizados, e razoavelmente aceites, em que é necessário apostar.” É preciso pensar que contributo as escolas poderão dar nesses diferentes planos. Por exemplo, na promoção da posse e uso de competências de literacia, podendo não conduzir à obtenção de um diploma escolar. Ou no contributo da escola aos processos de animação comunitária para o desenvolvimento.

Ainda assim, diz Luís Rothes, há o perigo de cair em dicotomias empobrecedoras: uma é a idealização da escola, considerando-a decisiva para se fazer a educação de adultos, acentuando desta forma a pressão escolarizante sobre o sistema; a outra é cair no oposto, negando qualquer contributo das escolas, recusando o papel fundamental de centenas de milhares de técnicos, de espaços físicos, de oportunidades disponíveis no sistema escolar público que podem ser mobilizadas.

“Creio que a escola tem um papel importante a desempenhar desde que abandone as suas tentações totalizantes, e na condição de reconhecer que o sistema educativo não formal sempre teve, tem ainda e continuará a ter um papel decisivo na educação de adultos.”

Luís Rothes passou então a discutir as inovações que ocorreram em Portugal, na última década, nas formas de proporcionar aos adultos a oportunidade de conseguirem diplomas escolares. Para ele, a ANEFA teve, nesta área, duas iniciativas importantes: a criação do sistema de RVCC e o lançamento dos Cursos EFA.

O que foi criado teve o mérito fundamental de tornar a educação de adultos mais próxima das pessoas. “Conseguiu- se criar uma rede extensa, heterogénea, uma rede geograficamente dispersa, com impacte nas zonas urbanas, periurbanas e rurais. E de uma forma extremamente rápida.”

Outro aspecto sublinhado por Luís Rothes foi ter-se conseguido uma aproximação às condições de vida e de trabalho das pessoas.

Um terceiro aspecto destacado por Luís Rothes foi o facto de ter-se constituído um campo importante de educação e formação de adultos, com uma rede de pessoas envolvidas nesta área, em equipas bastante jovens e muito qualificadas. “Hoje temos, espalhados por todo o país, profissionais qualificados e jovens que, de resto, se socializaram profissionalmente nesta área e são um contributo fundamental para o seu futuro.”

Outro aspecto ainda sublinhado por Luís Rothes: conseguiu-se finalmente desencadear processos de educação que conduzem ao diploma escolar, que atraem os adultos e lhes criam uma empatia com a formação. “O mais notável nas dezenas e dezenas de cursos EFA que visitei é ser confrontado sistematicamente com a pergunta: ‘Quando é que nos é dada a possibilidade de fazer o secundário? Eu quero continuar a estudar’. Quando pensamos naqueles processos absolutamente inacreditáveis que chamavam os adultos para, à esmagadora maioria, dizer: ‘Você não é capaz!’, e fazemos a comparação, verificamos uma diferença extraordinária.”

Os resultados são compensadores. Na região norte, nos últimos quatro anos, 83% dos adultos que frequentaram cursos EFA foram certificados. Nas outras regiões, a situação é próxima.

Para Luís Rothes, é inevitável pensar o que se pretende para o futuro. E começar a fazer exigências. Uma primeira é qualificar o trabalho que nele é desenvolvido. O que significa, antes de mais, consolidar e qualificar os promotores EFA. “Temos de estabilizar equipas, estabilizar financiamentos, temos de criar projectos que permitam conciliar a candidatura a formações com a estabilidade de um projecto institucional, o que significa obviamente garantir a estabilidade do financiamento dessas iniciativas.”

Um outro aspecto fundamental é que haja entidades com projecto de educação e formação de adultos. “Uma entidade que se envolve tem de ter um compromisso claro com este campo, tem de ter uma reflexão programática sobre a educação de adultos, não pode apenas fazer um trabalho que acha giro e interessante, para o qual até há financiamentos…” É preciso consolidar o projecto educativo e isto significa clarificar referências programáticas e sobretudo assumir compromissos com a democracia, com o desenvolvimento, com a justiça social, com a participação. “Se não, vamos ter entidades que respondem a tudo o que tem financiamento:

há financiamento ali, vamos ali, tem financiamento acolá, vamos acolá… E isto é indiscutivelmente um risco.”

Luís Rothes apresentou uma última preocupação: a intervenção do Ensino Superior nesta área. Sublinhou um risco: quando as universidades e os politécnicos começam a ter dificuldades em ter alunos, surge uma repentina apetência pelos novos públicos. Para Luís Rothes, as Universidades e os Politécnicos são equipamentos públicos que existem espalhados por todo o território nacional e é fundamental que apostem na educação e formação de adultos. Mas se o Ensino Superior quiser responder a estes novos públicos vai ter de pensar novos processos de acesso, vai ter que pensar novos processos de organizar a formação, novos dispositivos de acompanhamento pedagógico, novos processos de classificação e de avaliação dos seus alunos.

Para concluir, Luís Rothes reafirmou que o novo impulso que é preciso dar ao campo da educação e formação de adultos necessita de uma agência pública central capaz de mobilizar todo este campo. Mas ou é uma agência estritamente ligada às questões da educação de adultos, ou é abafada pelas suas outras áreas de intervenção. Ou assume o papel de pensar novas soluções ou, então, vai tornar-se apenas em mais um dispositivo burocrático que só complica e que não facilita, de maneira nenhuma, o trabalho que desenvolvemos.

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