Eixo 5 (Contexto Informal)

Eixo 5 (Contexto Informal)

Há aprendizagens informais que são acidentais, mas há muitas que são intencionais

António Fragoso – Escola Superior de Educação de Faro

 

 

António Fragoso começou por citar dados disponíveis no site do INE sobre um estudo realizado em 2003. “Neste inquérito, entenderam que as aprendizagens informais, eram aquelas que decorrem de actividades relacionadas com o trabalho, a família, a vida social o lazer etc., mas que decorrem geralmente fora do estruturas institucionais, num ambiente em que as pessoas podem organizar, de uma forma livre, e estruturar também livremente as suas aprendizagens sem nenhum tipo de imposição.” Para António Fragoso, é disto que falamos, quando falarmos de aprendizagens informais. “É óbvio que há muitas aprendizagens informais que são perfeitamente acidentais mas que também há muitas que são intencionais.” António Fragoso cita alguns dados interessantes: 51% das pessoas utilizaram pelo menos um dos métodos de aprendizagem informal. Trinta e cinco por cento dessas pessoas solicitou ajuda e/ou esclarecimento a familiares, amigos ou colegas mas intencionalmente com o objectivo de melhorar conhecimento, 33% das pessoas procurou apoio em material impresso como livros técnicos, jornais, revistas especializadas, etc, 24,8% para o mesmo fim utilizaram CDrom ou outros materiais educativos de difusão, 18% utilizaram a Internet como fonte de pesquisas várias, o que é um número razoável, 19,4% visitaram lugares destinados à transmissão de conteúdos educativos, e por último 10,5% participaram em actividades cívicas ou de voluntariado.

“Pessoalmente”, diz António Fragoso, “o que acredito é que temos dado pouca importância a este tipo de aprendizagens informais. E, como lhe damos pouca importância, muitas vezes por não nos apercebemos do significado que isto possa ter para as pessoas que se cruzam todos os dias connosco nos autocarros, nas ruas, etc.”

António Fragoso passou a falar sobre as vantagens das aprendizagens informais e como é que elas podem ajudar os cidadãos.

“Em primeiro lugar, há sempre que realçar que quando as aprendizagens são informais, elas estão totalmente imersas nas estruturas do quotidiano e portanto não colocam muitos dos obstáculos que têm que ver ou com a separação de certas formas de criar conhecimento ou com as eternas situações de separação entre teoria e pratica que têm sido problemas recorrentes da educação formal e até de certo ponto de vista nalgumas actividades não formais. “

O segundo e mais importante factor para António Fragoso, é que as situações de aprendizagem informal respeitem os ritmos e as formas mais adequadas para cada pessoa. “A pessoa pode fazê-lo ao seu próprio ritmo sem prejuízo de sentir qualquer tipo de imposição nesse sentido criando assim um contexto que funciona como uma espécie de espaço livre onde as pessoas se podem organizar e aproveitar cada uma dessas formas mestras de aprendizagem, de acordo com a sua situação particular e de acordo com a sua situação de vida.”

António Fragoso não concorda com a ideia de que tudo o que é aprendizagem é bom. É como se não houvesse más aprendizagens. Se as pessoas aprendem, isso, quase que per si, é uma coisa fantástica. “Não partilho desta opinião, acho que há muitas aprendizagens que fazemos no dia a dia que não facilitam a construção de pessoas criticas, pessoas mais emancipadas. Muitas aprendizagens mostram que não reclamar os nossos direitos é mais sensato. Como chamaremos nós a estas aprendizagens? Com certeza nada de muito positivo mas apenas aprendizagens que forçadas pelos contextos sociais económicos, culturais, etc. não nos tornam nem pessoas mais críticas nem mais humanas.” Há aqui um desafio fundamental para as instituições que trabalham nesta lógica: ao mesmo tempo que conseguem trabalhar em contextos informais, conseguem mesmo assim atingir alguns objectivos de propiciar às pessoas aprendizagens que funcionem como uma mais valia, seja no sentido humano seja no sentido de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Para António Fragoso, a cidadania é uma área óptima para trabalhar em termos informais. Falar sobre a cidadania pode ser importante nalguns contextos, mas basicamente é uma questão de vivências e é todos os dias e no quotidiano que se sente na pele os problemas que existem ou não existem de cidadania. Porque não trabalhar a cidadania a partir de um contexto informal quiçá depois tentando atingir dimensões mais sistémicas?

Para finalizar, António Fragoso perguntou: quem são ao agentes ou as pessoas que sistematicamente têm desenvolvido este tipo de projectos? “Basicamente, creio que todas as associações que, tentando desenvolver as suas acções em contextos que podem ser até não formais, vão compreendendo que podem juntar imensas dimensões, algumas das quais de carácter puramente informal, e com isso construir um projecto que possa, globalmente, contribuir para o desenvolvimento local, ou que possa melhorar a vida das pessoas ou ter alguns intuitos de transformação estrutural. E é óbvio que grande parte das associações que conheço experimenta neste momento grandes dificuldades e que na maioria das vezes são quase forçadas a inventar exercícios de criatividade fantásticos para descobrir fontes de financiamento onde elas não existem. Não sou apologista da velha ideia de termos que reclamar por mais intervenção estatal. Mas gostava que o Estado ao menos reconhecesse em alguém, nalguma estrutura a competência para ser parceiro, e para ser dialogante. Eu gostaria que deste Encontro saísse alguma coisa com legitimidade para exigir que nós sejamos ouvidos.”

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