Entrevista a António Câmara

Entrevista a António Câmara
A Aprendizagem requer esforço, mas tem de ser feita com gosto e motivação

Entrevista de Rui Seguro Fotografias de Paulo Figueiredo

Vencedor do Prémio Pessoa 2006, director-executivo da YDreams, professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, António Câmara acredita que a capacidade de pensar livremente, a capacidade de crítica, a capacidade de gestão do tempo e a autonomia, são coisas que em Portugal falham absolutamente. Neste momento está entusiasmado com o projecto FABRICARTE, um conceito que o apaixona e que vai permitir que as pessoas possam materializar as suas ideias.

António CâmaraTendo em conta a sua experiência como professor universitário e a ligação a uma das empresas mais inovadoras criada em Portugal, quais devem, na sua opinião, ser as competências actuais?

Se analisarmos a educação em termos globais, verifica-se que há diferenças abissais, basicamente na evolução ao longo da vida, das pessoas que saem de um número muito limitado de escolas, comparadas com as outras. A educação nessas escolas preza vários elementos fundamentais, mais associados à formação do que à informação, e que infelizmente não estão presentes na maioria dos currículos universitários e secundários, em todo o mundo e em particular em Portugal.
E porque é que isso acontece? Porque a educação foi baseada na criação de uma autonomia, na criação de uma cultura de base humanista extremamente forte, e também de uma cultura científica, mas sobretudo na capacidade de as pessoas se adaptarem e aprenderem ao longo da vida. E essas características não estão presentes, infelizmente na maior parte dos cursos em Portugal, porque esses cursos privilegiam a informação acima de tudo. Há um conjunto de cadeiras que temos de aprender, aprendemos normalmente sempre pelo mesmo método, temos de estudar, temos de ir a exame, somos testados no exame e passamos ou não passamos.
Há excepções, de vez em quando temos alguns projectos, mas a grande maioria das cadeiras é baseada em exames. É um ensino baseado em infecção. Somos infectados, e chegamos ao exame e testamos a infecção. E como é uma infecção, geralmente gera anticorpos, e esses anticorpos impedem-nos de aprender ao longo da vida.
Como é óbvio, as pessoas que saem da universidade preparadas desta forma têm naturais dificuldades para se adaptar à evolução constante. O sociólogo Richard Sennett diz: é o espectro da inutilidade. A pessoa chega à meia-idade e está absolutamente fora, não tem as capacidades que são requeridas para se adaptar a uma evolução tecnológica constante, e é basicamente inútil; e a maioria dessas pessoas são libertadas das empresas. Li numa estatística que este ano vamos ter no desemprego 40 mil gestores de meia-idade.
Atingimos o espectro da inutilidade e isso causa problemas sociais gravíssimos. Em Portugal, temos outro problema social que é uma bomba, o insucesso escolar dos 16 aos 24 anos, mais de metade não acaba a escola. Isso obriga a repensar a educação inicial e a ter programas de educação ao longo da vida.
Nunca fomos educados para pensar criativamente. Temos imensos talentos criativos, apesar da escola, e não por causa da escola. Quando eu andava no Técnico, desisti de ir às aulas, porque achei que se fosse consumia todo o meu tempo e de uma forma não inteligente. Achei que era muito melhor jogar ténis e ir ao cinema. Hoje, quando sou professor, é irónico que eu seja professor na universidade, na primeira aula digo: se não querem vir às aulas não venham, vão jogar ténis, vão ao cinema, aprendem mais.
Mas isso é um ponto importante. As competências, a capacidade de pensar livremente, a autonomia, a capacidade de crítica, a capacidade de gestão do tempo, é algo que em Portugal falha absolutamente. Todos os miúdos holandeses, no equivalente ao 3º ano, têm uma cadeira chamada “processo” onde inclusive se treinam a gerir reuniões. Em Austin, na Dell, todas as salas de reunião têm um aviso: nenhuma reunião nesta empresa pode durar mais do que 50 minutos, nenhuma reunião pode ter lugar antes das 8.30 ou às 18h, cada reunião tem de ter uma agenda, tem de ter um coordenador, tem de ter uns princípios, tem de ter um followup. Se é preciso discutir mais assuntos marca-se outra reunião.
Em Portugal, temos horas sem fim de reuniões e a falsa ideia de que isso é que é trabalhar. E para chegarmos à conclusão de que é preciso um código, a melhor forma de fazer isso era escrever um livro, que está traduzido, “O que não se aprende na escola”.
E, obviamente, há as competências mais específicas dos cargos. Uma pessoa é programador e passa a gestor de projectos, tem de aprender sobre gestão de projectos. São essas duas importantes componentes, a formação base que uma empresa como a nossa tem de dar, e depois a formação específica.
Eu sei que o Governo tem o programa Novas Oportunidades, e que está atento a essa situação, mas é algo que, por exemplo, as universidades deviam fazer de forma muito mais pró-activa. Nos Estados Unidos a maior parte das universidades tem um fortíssimo programa de educação ao longo da vida.

Das intervenções e artigos seus que li, surge quase sempre uma ideia, quase diria uma palavra mágica que abre tudo – motivação.

Acho que há muito a aprender em Portugal. Onde é que há maior motivação nas escolas, em Portugal? Nas escolas de música, um miúdo que esteja a aprender música vai faltar? Não lhe passa pela cabeça.
O mesmo se passa no desporto. Os miúdos gostam de fazer desporto a sério. Eu tenho um filho de 12 anos, não lhe passa pela cabeça faltar a um treino. Quanto a ir para a escola todos os dias, há uma questão no ar em aberto. Acho que é bom aprender com essas escolas. Porque é que essas escolas são motivadoras e as outras não?
Acho que um dia o ensino vai mudar radicalmente, e começa a haver experiências nesse sentido. Tem havido várias ao longo do tempo e a questão está no balanço. Apesar de tudo, a escola foi bem sucedida a formar profissionais durante anos e anos, com o ensino por infecção; e depois houve uma tentativa de mudança radical em detrimento das disciplinas e agrediu-se as disciplinas e há toda a discussão sobre esse tema. E há a linha dura, que acha que devemos ter exames de 4ª classe, que os exames devem ser mais apertados, que devem chumbar mais pessoas. E há outra linha contrária, que muitas vezes está no outro extremo.
Como em todas as coisas, tem de haver bom senso. As pessoas têm de aprender. Eu acho que muito para além dos exames. Os exames devem ser só testar o que a pessoa sabe e não testar aquilo que não sabe - que é basicamente o que acontece. Isso é um fenómeno muito típico na universidade portuguesa. Tem de haver um misto, o ensino tem de ter estas duas componentes, as disciplinas e a verdade científica, se existe verdade científica, mas depois também toda a componente de formação; e nesta, motivação e crítica.
Quando eu chego a uma aula, a primeira coisa que tenho de fazer é motivar os alunos, é pô-los à vontade, vamos explorar, mas tentem ver isto de uma forma diferente e muitas vezes subversiva. Esta atitude falta em geral na escola e nas pessoas. Mas o truque é olhar desta forma para a experiência no ensino. Sempre encarei o ensino assim. E aprendi muito com o desporto e a lógica da música, o puro gozo que as pessoas têm que ter quando aprendem.

Mas se na escola a motivação é difícil, para as pessoas adultas não o será mais?

É muito mais difícil, porque as pessoas estão em circunstâncias familiares muitas vezes complicadas e pessoais. A vida é muito mais complexa. O nível de energia é menor, há mais solicitações, sem dúvida. Quais são as experiências ao longo da vida mais bem sucedidas? São aquelas que retiram as pessoas do ambiente normal e as colocam em ambientes confortáveis e estimulantes. Todas as pessoas adorariam, no seu campo, ir para um sítio fantástico e aprender com pessoas fantásticas.
Na universidade tentámos fazer experiências ao longo da vida, mas eram aulas ao fim da tarde, as pessoas tinham que atravessar a ponte, correr, depois jantavam tarde, quem vai fazer isso? Mas se olharmos para a nossa Faculdade de Economia, da Nova, que tem os cursos de Gestão e que são num palácio no meio de Lisboa e tem uns coffee breaks óptimos e uns almoços óptimos, aquilo é um sucesso. Muito tem a ver com a qualidade da experiência. Essa qualidade da experiência acaba por ser motivante. E esse é o desenho da experiência que é verdadeiramente importante.
O actual presidente da universidade da Virgínia fez um estudo sobre a educação no mundo em 1988, quando já se antecipava a chegada da Internet. Foi um estudo fantástico e chegou à conclusão de que o futuro da universidade era ser um conjunto de pares. Portanto, o resultado final daquilo era: com a Internet vai haver muito menos experiências nas aulas, mas o ensino vai sofrer uma transformação fantástica, podemos ir para os bares e falar com os professores e ter os meios todos de projecção e interacção, mas estamos num bar, estamos eventualmente a ouvir música, estamos num ambiente estimulante. Acho que um dia as universidades terão algumas salas de aulas e serão esplanadas.

A Internet está a mudar muita coisa em relação ao acesso ao conhecimento. Mas lembro-me que disse várias vezes que resiste às tecnologias, e também que quando passou por Boston, o espaço era tão estimulante que nem precisava ler. Como encara a relação das pessoas com a máquina e a importância do convívio?

É óbvio que a Internet é fantástica. Para nós, é indescritível pensar que há 13 anos em Portugal, qualquer pessoa, para ter acesso ao conhecimento produzido na altura, tinha de se meter num avião. Aos miúdos da escola nem lhes passa pela cabeça que há 14 anos, se queriam fazer um revisão de literatura tinha de ir a Londres. É fantástico, hoje em dia, estarmos em qualquer lado e podermos ter acesso a toda a informação.
Obviamente quando digo que resisti imenso aos telemóveis, como resisto ao Messenger, é porque são factores de interrupção. Isso é contraproducente em relação à produtividade. A fase da vida em que fui mais produtivo foi aquela em que tirava um dia por semana para não fazer nada. Era um luxo.
Na altura era só professor universitário, uma carreira única de que tenho imensas saudades, tinha um dia por semana sem fazer nada. E ao longo do dia as ideias brotavam. Era natural, eu pensava, era estimulado, aliás o Google tem isso como política: numa semana os empregados só trabalham quatro dias e têm um dia para não fazer nada, mas fazer o que lhes apetece, que pode ser nada. Mas, para não fazer nada, não se pode ter interrupções. É impossível estar um dia inteiro a responder a 20 telefonemas, a 10 e-mails e estar no MSN. É impossível. Não se produz. Acho que esse é o lado negro das tecnologias.
Em relação aos ambientes, tem a ver com algo muito importante, que é a informação por osmose. Isso é muito curioso, porque acontece não só na parte profissional, tradicional, como até no desporto. No MIT - Massachusetts Institute of Technology, em Boston, tem-se acesso aos melhores indivíduos do mundo, todos os dias, em qualquer área. Quando eles falam, falam muitas vezes de coisas que ainda nem sequer publicaram. É completamente diferente estar aqui em Portugal, onde estamos a ler um livro já publicado e se calhar já foi desenvolvido há seis, oito ou se calhar há mais meses.
Esse ambiente é de tal forma estimulante, que nem é preciso ler, eu estou ali a ouvir o que está a ser criado no mundo. Em Portugal não temos esse ambiente, temos uma dispersão das escolas. Enquanto na maior parte dos países há os campus universitários, aqui não, está tudo disperso. Essa dispersão não ajuda à informação por osmose. Mesmo aqui no campus só o facto de haver cantina e as pessoas se encontrarem lá já é um factor decisivo. É por isso que todo este edifício é baseado em espaços totalmente abertos, de forma a que a interacção seja máxima. Se as pessoas querem trabalhar a sério e não conseguem fazê-lo aqui, podem fazê-lo em casa, mas aqui há esta enorme vantagem.
Penso que se passarmos isto para a escala urbana, um exemplo típico é a praça. Se vai às cidades europeias com praças, as antigas, aí é que as pessoas se encontravam e falavam. Uma das coisas criticas que hoje temos no novo urbanismo português é que esquecemos as praças. Onde estão as praças? Fenómeno idêntico é o ambiente estimulante. É dez vezes mais estimulante uma praça do que uma avenida.

Mas não acha que convívio é algo que se está a perder?

Um dos problemas da Internet é esse: os miúdos, hoje em dia, preferem fazer jogos online com miúdos do mundo inteiro a estarem fisicamente com outras pessoas. É óbvio que o convívio está a perder-se. Agora em Austin descobriram um novo conceito de centro comercial: the domain, isto é o futuro. Basicamente é uma rua com duas praças e lojas e cafés. Foi a reinvenção do passado, é muito curioso, toda a gente adora. É deprimente.

Umas vezes alterna algum optimismo com um certo pessimismo.

Portugal é um país, como todos os locais na Terra, que tem os pontos positivos e os pontos negativos. De facto, temos uma história péssima. Se olharmos para os últimos tempos, é trágico. Estamos a melhorar nos últimos 30 anos, mas a nossa herança é dramática. Trezentos anos de inquisição, 50 anos de um regime obscuro. Incrivelmente difícil sair do espartilho mental que estes séculos nos criaram.
Muitas vezes sinto que criámos um sistema absolutamente napoleónico, em que a face mais visível é a justiça portuguesa, mas que ainda está presente em vários outros sectores da sociedade, disfarçados por alguns fenómenos que dão esperança para o futuro. O multibanco! O multibanco é um salto qualitativo, é um oásis. Quando eu olho para o país assim, fico deprimido mas tive sempre o privilégio de ar aulas a uma juventude incrivelmente idealista, que são os engenheiros do ambiente. Aí fico optimista. Continuo a dar aulas só para me encher de optimismo. Chego à aula e vejo alunos que querem mudar o mundo. E por constatar que temos uma enorme vantagem, somos um país pequeno, é muito mais fácil mudar um país pequeno do que mudar um país enorme.
Começamos a ter a mente colectiva apontada na direcção certa, e de uma forma quase consensual e, a partir daqui, as coisas podem acontecer. Se olharmos para a Finlândia, tinha tudo, estava com a mente certa, mas teve uma sorte enorme com a Nokia que apostou nos telemóveis quando eles eram impraticáveis. E dois anos depois, a União Europeia aprova um standard e a Nokia explode. A Nokia é metade do produto interno bruto da Finlândia. E foi inteligente, ajudou a criar um ecossistema de empresas incrivelmente robustas. Nós podemos não ter a sorte da Nokia, mas podemos ter acesso a várias empresas, provavelmente não tão grandes como a Nokia, mas que todas elas vão ter um impacto na sociedade portuguesa. Não sou só eu a pensar isso, há muitos colegas que vêm da universidade e criaram empresas e têm pelo menos esse sonho e, como dizia o meu professor Rómulo de Carvalho, o sonho comanda a vida.

(Pode ler a entrevista completa na edição da revista em pdf)

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