Entrevista a Luís Rothes

Luís RothesVamos valorizar as competências dos adultos, mas sempre assumindo que são insuficientes

Luís Rothes gosta de se definir como um optimista moderado. Nesta entrevista à Aprender ao Longo da Vida, ele considera que a massificação da educação de adultos promovida pela iniciativa Novas Oportunidades é um património conquistado que deve ser valorizado. Mas não esquece o desafio de articular o que foi feito com outras áreas de intervenção. E adverte para o risco sério de ficarmos dependentes, quase em exclusivo, dos programas comunitários.

Entrevista de Rui Seguro | Fotografias de Miguel Baltasar

Nunca houve um investimento tão grande do Estado na Educação de Adultos. Quase poderíamos dizer que estamos numa das primeiras fases de massificação da educação de adultos. Que pensa desta realidade?

Acho que a quantidade é uma das dimensões da qualidade de qualquer intervenção política na área da educação, mas não esgota os critérios que a afirmam. Acolho essa massificação que agora se verifica, com a iniciativa Novas Oportunidades, com muito bom grado. Significa que estamos a conseguir densificar a intervenção neste campo e a conseguir chegar à pequena freguesia.

É um património conquistado que deve ser valorizado. Os desafios mais interessantes são pensar como vamos conseguir, valorizando aquilo que foi feito, articulá-lo com outras áreas de intervenção da educação de adultos para que se perca essa sensação de que há muitas coisas que estão a ser negligenciadas, subestimadas. Penso que esse é um desafio futuro, mas parece-me estar perfeitamente ao nosso alcance. Vivemos muito um certo pensamento utópico, que é inerente ao trabalho na educação de adultos, e às vezes criamos a ideia de que estamos sempre muito aquém do que seria desejado. Penso que é positivo pensarmos essa utopia, termo-la sempre presente, olharmos criticamente aquilo que fazemos; mas também devemos ver o que aí há de positivo e é suporte para o trabalho que é necessário ver realizado. Desse ponto de vista, tenho uma leitura positiva, estamos melhor agora para vencer os desafios que temos pela frente do que estávamos antes dessa massificação.

Como vê a evolução da articulação entre o Reconhecimento de Competências e os Cursos EFA?

Se partimos daquilo que se desencadeou a partir de 2005, das Novas Oportunidades, temos alguns problemas e desafios a vencer, e um deles tem exactamente a ver com essa articulação entre os processos de reconhecimento e validação, e os percursos formativos em que os adultos estão envolvidos.

Creio que temos de evoluir no sentido de pensar que todos os adultos têm competências, vamos valorizar essas competências, reconhecê-las, validá-las mas, simultaneamente, temos sempre de assumir que são competências insuficientes, sempre! Nesse sentido, acho que os percursos em que adultos estão envolvidos, a partir do contacto que têm com as Novas Oportunidades, têm de ser encarados como processos em que há reconhecimento de competências, validação parcial dessas competências, mas também articuladas com a construção de projectos de vida que sejam também projectos de formação.

Isso é um desafio importante. Até porque se não o fizermos nem sequer vamos conseguir avançar na validação, sobretudo ao nível do secundário. A dificuldade que estamos a verificar nos processos de reconhecimento e validação no secundário só são ultrapassáveis com o reforço desta lógica de validação parcial, e que é complementar com processos de formação.

Quando os Cursos EFA começaram, eram essencialmente realizados por organizações locais. Neste momento, temos uma situação completamente diferente.

A questão interessante é pensarmos que essas lógicas de apropriação são, quer no início do processo quer hoje, plurais. Tanto no início do processo como agora, encontramos essas várias lógicas de acção presentes no campo de educação e formação e na forma como os Cursos EFA são desenvolvidos. Admito que o peso destas diferentes lógicas de acção se vá alterando, creio que nós, muito provavelmente com esta massificação, estaremos a reforçar lógicas que são muito de prevenção social, com tudo o que isso significa.

Também admito que, em alguns casos, se esteja a alargar uma certa lógica meritocrática de ver os Cursos EFA. Creio que essas duas lógicas se estarão neste momento a reforçar e admito também que, com esta massificação, outras lógicas que tinham algum peso se possam estar a diluir, como sejam as mais associadas ao desenvolvimento local. Mas não quero também afirmar que se tenham diluído de todo, por exemplo esta lógica de desenvolvimento local. Parece-me expectável que se estejam a reforçar essas lógicas da prevenção social e essas lógicas meritocráticas, nalgum caso, isso admito que sim.

Como vê a entrada do mundo escolar nos Cursos EFA?

Parece-me incorrecto pensar que todas as escolas entram da mesma forma nestas iniciativas. Não entram – em cada escola, em muitos casos, está presente mais do que uma lógica de acção que se combina de uma forma às vezes mais tensa, outras mais fácil. Mas parece-me que não haverá grandes dúvidas de que, com a entrada da escola, há um certo reforço dessa lógica meritocrática. Esta forma de encarar os Cursos EFA valoriza muito o mérito, o esforço individual, valoriza muito os conteúdos que devem ser transmitidos, persegue a avaliação de uma forma ainda muito selectiva, encara o formador numa lógica de transmitir saberes que estão associados à escola; e portanto admito que estas lógicas se reforcem com o peso crescente das escolas neste campo.

É um processo engraçado porque, apesar de os professores que estão agora envolvidos nos Cursos EFA serem professores novos, que não viveram os cursos nocturnos de antigamente, nota-se uma saudade do tempo em que os alunos do ensino nocturno eram alunos que se esforçavam, que se empenhavam, que estudavam muito, que é um tempo que hoje já não faz nenhum sentido, porque o tipo de adultos que nessa altura se envolvia nesses processos não tem nada a ver os adultos que hoje se envolvem.

Com tudo isto, com a entrada da escola haverá o reforço dessa lógica mais meritocrática mas quero também deixar claro que conheço muitas escolas em que isso não acontece, em que se combina com outras lógicas. O facto de a escola entrar não condena que as coisas sejam assim, mas reforça a probabilidade de isso acontecer.

Mas não corremos o risco de a escola reproduzir com os adultos um modelo dirigido aos jovens, que já por si, vem sendo largamente contestado?

Creio que é um problema central neste campo. Não podemos subestimar o facto de esta expansão do campo da educação e formação de adultos ter sido muito recente, e o facto de ser muito recente significa que tivemos de ir buscar entidades, profissionais, responsáveis cuja formação não foi feita neste campo.

Este campo constrói-se com o recurso a áreas adjacentes, nuns casos muito viradas para a área social. Estão envolvidas no campo da educação de adultos entidades, pessoas, profissionais que vieram de uma área de intervenção numa lógica de prevenção social, e que trazem para este campo lógicas e perspectivas que foram construídas nesse campo como trouxeram, sobretudo nesta ultima fase, com as Novas Oportunidades, as lógicas que estão presentes nas escolas.

Isso é uma realidade que nem sei se seria fácil evitar, porque a expansão rapidíssima que se fez deste campo teve de recorrer a áreas adjacentes com as lógicas que aí estavam presentes. O problema que temos é uma falta de tradição consolidada na educação de adultos, de reflexão construída neste campo, com lógicas de trabalho consolidadas e isso é indesmentível, não tenho a menor dúvida que esse risco existe.

Vamos sempre bater nesse ponto fraco. Na sua tese faz uma análise da evolução da educação de adultos em vários países e quando chegamos à realidade portuguesa os resultados são sempre débeis.

Sou um optimista moderado e creio que há, apesar de tudo, um aspecto interessante no que tem acontecido nos últimos anos e sobretudo no que aconteceu a partir de 1998, com o Grupo de Missão e depois com a ANEFA, que é o facto de se estar a construir um campo profissional com jovens que fizeram a sua socialização profissional neste campo.

Isto hoje já é uma realidade com muito significado, são pessoas que fizeram essa socialização profissional de uma forma rápida, acelerada, com os riscos que isso também comporta mas que, apesar de tudo, não vieram de outras áreas, construíram-se nesta área. Neste momento estão a fazer pós-graduações, e portanto também admito que estejam a fazer processos de reflexão sobre as próprias práticas que estão a desenvolver. Isso é que nos pode dar alguma esperança em termos futuros. Vejo aqui um problema, que é o facto de estarmos a focalizar muito a intervenção da educação de adultos em áreas que conduzem à certificação escolar, seja através de processos de reconhecimento e validação, seja através de processos de formação. Significa que esta socialização profissional tem sido, continua a ser, afunilada nesta área da certificação.

Só ganharíamos em termos estes profissionais, estas entidades envolvidas noutro tipo, noutras áreas tradicionais de intervenção da educação de adultos. Mas, para isso, ninguém se iluda, terá de significar uma aposta política clara, a existência de programas destinados a promover esse tipo de práticas não-formais de educação de adultos. Se isso for feito, se construirmos esta articulação entre este campo, com muitos jovens, que têm estado mais vocacionados para a certificação, com outras áreas de intervenção, isso pode alterar muito do que acontece neste momento, isso é que me dá esse optimismo moderado, mas esse optimismo.

Não podemos esquecer que os contributos que a educação de adultos trouxe para o próprio pensamento educativo foram contributos que resultaram muito do facto de ter sido um campo com um lastro imenso de experiência no campo dessa educação não-formal. E trouxe muitos contributos para todas as outras áreas da educação. Só podemos continuar a enriquecer este campo se reforçarmos esse lastro, se considerarmos este lastro e enriquecermos a nossa reflexão em torno dessas práticas não formais, com tudo o que isso significa e que conhecemos, que é a valorização das experiências dos adultos, que é o carácter dialógico das práticas que desenvolvemos, que é o considerar a vida quotidiana das pessoas como os contextos mais interessantes para que os processos de formação se realizem. Todo esse património que construímos e consolidamos, é um património que tem agora de se estender a estes novos profissionais que estão envolvidos neste campo.

Nos últimos anos houve uma grande preocupação em certificar os Cursos EFA. Não considera que essa preocupação foi excessivamente valorizada em detrimento de uma educação mais preocupada com uma dimensão social?

Concordo consigo. Uma coisa de que consegui aperceber-me no estudo, é que houve várias fases de adesão aos cursos EFA. Inicialmente, o Grupo de Missão e depois a ANEFA chamaram aquelas entidades que tinham esse tal lastro de intervenção no campo da educação de adultos e que trouxeram para os Cursos EFA essa visão que tínhamos consolidado. Mas é bom não nos iludirmos, muito rapidamente esses Cursos EFA foram promovidos por entidades que não tinham experiência na educação de adultos, entidades de cariz social, empresas de formação, que recorreram, em muitos casos, a professores, em que todas as outras lógicas foram estando presentes.

E aí está o grande problema, a educação de adultos em Portugal, mesmo depois do 25 de Abril, foi sempre muito dicotómica. Tivemos meia dúzia de entidades, grupos muito limitados que faziam intervenções na área da educação de adultos mas já com grande suporte de reflexão teórica, programática; e depois a iniciativa social no campo da educação de adultos, sendo meritória, é uma iniciativa de pequenas associações, muitas vezes muito periféricas que, desenvolvendo um trabalho interessante, é muito pouco reflectido.

Quando os Cursos EFA surgem só pudemos contar, mesmo no Grupo de Missão e depois na ANEFA, com um pequeno núcleo de entidades. Sempre que procurámos estender a intervenção, inevitavelmente tivemos de ir buscar entidades e pessoas cujas lógicas de intervenção são diversas. Isso era inevitável, acho que não tínhamos grandes alternativas e a única forma de escapar a isto é assegurar um leque amplo de programas e de intervenções, aí sim, podemos ir consolidando em todo este campo estas lógicas diversas e estes contributos que fomos concretizando. O desafio passa por aqui e tem de haver um esforço muito sistemático para promover essas dimensões não formais. Creio muito francamente que se não o fizermos estamos a condenar o esforço que estamos agora a realizar para certificar adultos.

Quando digo que é preciso articular cada vez mais processos de reconhecimento e validação com processos de formação, não quero com isto dizer processos de formação certificada – o que é preciso é articular o envolvimento de adultos em experiências educativas mais diversas, que depois serão possivelmente validadas no contexto dos processos de RVC. Conhecendo o que se passa noutros países, caminharemos inevitavelmente para isso.

Também não podemos esquecer que o nosso país tinha um desafio distinto do dos outros países desenvolvidos. Temos uma circunstância de uma população adulta com níveis de qualificação escolar absolutamente catastróficos. Nesse sentido, percebo que haja esta ênfase na certificação, é um desafio que era imprescindível, e quero ver, com esse meu optimismo moderado, o lado positivo dos resultados destes esforços, mesmo quando os processos se realizam de forma que não é a que mais me agrada. Verifica-se, e os dados mostram isso sem a menor discussão, que as pessoas que passam por esses processos ficam com uma vontade de continuar percursos educativos – uma coisa absolutamente fascinante. Muitas vezes significa passar para etapas seguintes dos percursos de certificação escolar, mas em muitos casos não. As situações de pessoas que passaram por esses processos e desde aí começaram a ler regularmente, ou que foram aprender línguas estrangeiras... Este tipo de situações parece-me certa, o problema é como potenciamos isto, o que significa, em articulação com a rede existente, criar essas novas vias, essas novas soluções. Aí estaremos a conseguir fazer uma revolução na aprendizagem em Portugal.

(Pode ler a entrevista completa na edição da revista em pdf)

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