Entrevista Sanjit Bunker Roy

Barefoot College: mudar a própria vida e as relações na comunidade

Entrevista: Rui Seguro | Fotografias: Paulo Figueiredo


Quando, há mais de 30 anos, Sanjit Bunker Roy se confrontou com a fome devastadora que mata milhares de pessoas no Estado indiano de Bihar, encontrou também a sua vocação.

Não ficaria na cidade mas sim no campo, com o povo das aldeias. Desde a fundação do Work and Research Centre em 1972, Bunker Roy tem vivido em Tilonia, uma vila num dos estados maiores, mais secos e mais pobres da India, o Rajasthan. Mais conhecido como o Barefoot College 1, o Centro treinou várias gerações de aldeões sem qualificações formais, transformando-os em trabalhadores de saúde, coordenadores solares, mecânicos e professores nas suas comunidades. Bunker Roy tem a convicção de que as soluções para os problemas rurais se encontram na comunidade. Devido aos seus inúmeros esforços, mais de 100 mil pessoas em 110 vilas têm agora o acesso a água potável, instrução, saúde e emprego.

Na conferência ao ouvi-lo falar acerca do Barefoot College pareceu-me tudo muito simples e fácil mas ao visitarmos o site do Barefoot College podemos observar a dimensão da estrutura e a coerência do projecto que revela uma grande complexidade.

Toda a preparação que é necessário haver para se chegar ao ponto de parecer fácil é demorada. Preparar a comunidade para ser capaz de perceber que pode proporcionar um serviço e uma mais-valia a todos leva muito tempo, e cometem-se muitos erros. Aprendemos com estes processos. Por isso o Barefoot College, para ser capaz de produzir estes resultados, levou cerca de 10, 15 anos de preparação. E conquistou uma mudança de mentalidade. Levar as pessoas a compreender que são capazes de o fazer por si próprios levou muito tempo e obrigou a muitas experiências. Sei que fiz com que parecesse fácil, mas levou 20 anos de preparação!

Acha possível que a filosofia deste projecto ocorra noutro tipo de comunidades?

Penso que o know how do Barefoot College terá um impacto enorme em comunidades muito pobres de todo o mundo. Aldeias pobres, inacessíveis, retrógradas, negligenciadas em todo o mundo. É aí que teremos um maior impacto. A partir do momento em que chegamos a aldeias maiores, pequenas cidades, há uma “química” totalmente diferente. Os chamados especialistas dir-lhe-ão como pode ser feito. Temos muitas pessoas no governo que dizem que esta não é a forma de o fazer e há muitas pessoas que resistem a qualquer ideia inovadora.

Mas não é este o caso das aldeias muito remotas, que adoram ideias novas que lhes trazem um sentido de participação em todo o processo. E não se sente essa participação em grandes cidades e vilas. Por isso, a abordagem do Barefoot College só pode ter o máximo impacto em comunidades, em aldeias muito pequenas, remotas e inacessíveis, rurais. E há centenas de milhar destas aldeias pelo mundo.

Este projecto só é possível em comunidades que não estão contaminadas pela civilização global, capitalista, individualista?

A maior parte destas comunidades com que trabalhamos é composta de pessoas que não têm acesso a jornais, não sabem ler nem escrever, não podem comprar televisores, não podem ir a cidades vizinhas porque vivem uma existência de trabalhar para comer, baseada na sua própria sobrevivência. Por isso temos situações onde há comunidades que dependem umas das outras. Essa dependência deveria ser rectificada e é neste aspecto que penso que a abordagem do Barefoot College foi capaz de capitalizar toda esta questão de solidariedade, de pessoas a trabalhar em conjunto, de se unirem, partilharem, de dependeram umas das outras.

Fala muito sobre o “depois do processo”. Mas, depois do processo, não é apenas a iluminação, a água, é também a mudança das mentalidades, das relações entre as pessoas. O que é que muda?

O mais importante, especialmente na Índia, onde existe um sistema de castas, é que estamos a identificar pessoas de castas muito baixas para providenciar um serviço geralmente associado a pessoas de castas mais altas. O simples facto de uma pessoa de uma casta muito baixa ter adquirido uma capacidade de que toda a vila necessita e usa, muda todo o padrão de relações entre os ricos e os pobres, entre as castas altas e baixas, entre homem e mulher.

No momento em que adquirem essa capacidade, toda a relação muda. E muda para melhor, porque agora esta pessoa tem mais auto-estima, mais respeito por si própria e mais auto-confiança. E isto dá-lhe o poder de ser capaz de mudar as relações como ele quer. Mas este não é o trabalho do Barefoot College. O trabalho do Barefoot College é levá-lo a um patamar em que ele tenha a confiança e a competência de ser capaz de mudar a sua própria vida e as relações em toda a sua comunidade. Por isso houve muitas mudanças na comunidade da aldeia devido à nossa intervenção. Treinar um engenheiro solar, ou treinar um engenheiro hidráulico, dá mais poder às comunidades das aldeias e às mulheres, de modo a serem capazes de mudar os seus modos tradicionais.

Não deve ser fácil acabar com um tipo de relações como o das castas na Índia...

Não, só se pode lidar com o sistema de castas se se tiver uma estrutura de apoio exterior para ser capaz de mudar o sistema do lado de dentro. E o facto de o Barefoot College ser deliberadamente identificado com pessoas de castas mais baixas, mulheres, pessoas fisicamente incapacitadas, viúvas, todas estas pessoas são marginalizadas pelo povo das aldeias.

No momento em que as identificamos e as mudamos, por lhes dar uma ferramenta e por treiná-las nessa capacidade, estamos a dar-lhes as oportunidades de se desenvolverem por si próprias. As relações nas aldeias alteram-se, que é o que nós queremos, o que nós promovemos. A mudança ocorre.

Quando fala da experiência das colheitas de água pluvial e da energia solar, parece existir uma grande diferença.

Na água usa-se o conhecimento tradicional, mas a energia solar é uma tecnologia nova.

As comunidades da Índia sempre respeitaram o sol. Secam os vegetais ao sol, respeitam o sol. Têm rituais, festivais que celebram o sol, por isso não é nada de novo respeitar o sol. O sol é respeitado pelo poder que tem. Em todas as classes sociais, o sol tem um papel crucial para secar os alimentos, a comida, tudo é o sol.

Da transição de usar o sol para secar, para cozinhar e para comer, à electricidade, não é um salto tão grande. A única condição que temos é que eles devem controlar a tecnologia, geri-la e dominar o processo. Mantendo-a para si e não estando dependentes do exterior. É isso que faz a diferença: usar tecnologias tradicionais numa forma diferente, para os fazer ver que conseguem gerir, dominar e controlar essa tecnologia. Não acho que seja assim tão diferente da sua forma de vida, é apenas uma nova ferramenta que agora têm.

Que condições são necessárias para que as pessoas aprendam no Barefoot College?

É preciso ter uma mente aberta, abrir os horizontes, querer aprender, criar um ambiente para que as pessoas possam sentir que aprendem. Não estamos a obrigá-las, não estamos a intimidá-las, estamos a criar um ambiente em que as pessoas podem aprender ao seu próprio ritmo. Alguns levam seis meses, outros um ano. Não temos pressa, não há tempo limite para aprender ou para desaprender. Por isso, o ritmo é o da pessoa que está a aprender a ferramenta.

No que nos diz respeito, aprender é uma acto de fé, uma capacidade, um questionar, um elemento de curiosidade, um elemento de querer mudar. Tudo isto faz parte do processo de aprender e desaprender das pessoas, todos aprendem juntos, aprendem diferentemente, mas aprendem juntos.

Esta é uma forma muito diferente de o fazer, não estamos a aprender só por aprender, para ter um certificado, até porque não há certificado, não há diploma.

Ninguém o obtém. Por isso não é competitivo, é não violento, é muito estimulante, as pessoas podem aprender ao seu próprio ritmo e tempo. Há muitos tipos de aprendizagem que estamos a promover, não é o aprender dos livros, é o aprender fazendo.

Em vários textos do vosso projecto é dito que o Barefoot College é um espaço para aprender e desaprender. Que quer dizer com desaprender?

Tudo o que se aprendeu na universidade.

Mas estas pessoas não estão na universidade?

Estas pessoas estão na aldeia, mas têm algumas superstições, algumas tradições, alguns pontos de vista sobre como a sociedade funciona numa aldeia. Têm de desaprender isso, porque trazer superstições quando estão a aprender alguma coisa sobre tecnologia pode estabelecer-se alguma ligação com as tradições deles, mas não se podem desenvolver novas tecnologias à custa de algo que têm na aldeia. Por isso, têm de desaprender muita da bagagem que trazem com eles, das sociedades e das comunidades.

Por exemplo, têm de desaprender o abuso que fazem das mulheres – isso é muito tradicional, eles acham que as mulheres não deviam aprender a consertar uma bomba de mão – é assim que a mente deles funciona e têm de desaprender isso. É claro que um homem e uma mulher são iguais, têm o mesmo conhecimento e as mesmas capacidades e a mesma possibilidade de se tornarem engenheiros.

Penso que isto dá continuidade à ideia de que o aluno é professor e o professor é aluno...

É a pessoa que está encarregada de todo o processo que é o mestre, mestre/orientador, ele ainda é um padre no templo mais próximo, ainda é aceite como padre, mas também é um óptimo engenheiro e une as duas coisas: une a religião, a espiritualidade com a tecnologia e é uma óptima combinação. E porque ele é padre tem imensa paciência, é muito tolerante, e é esse o espaço que ele criou para os seus pupilos aprenderem. Ele é muito gentil, não é opressivo, não é demasiado exigente e é disso que se precisa para criar esse espaço onde pessoas que são analfabetas, semianalfabetas, com baixa auto-estima, sejam capazes de aprender. E é assim que se desenvolve a auto-estima.

Num espaço em que se incentiva a inovação.

A capacidade de criar, de fazer algo fora dos nossos hábitos, fazer algo que nunca foi tentado e que é uma nova terapia para eles. Assim sendo, eles precisam de um apoio para serem capazes de o fazer. E é isto que nós oferecemos.

(Pode ler a entrevista completa na edição da revista em pdf)

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