Idosos e Rádio Online: Quando os Opostos se Atraem

Constatamos que os idosos são quem menos ouve rádio. E são muitos destes que estão isolados, que vivem em aldeias do interior do país e enfrentam a solidão. O que poderá conduzir a este nível baixo de audiências? Será o facto de a maior parte das rádios optar por uma programação mais comercial, mais vocacionada para os mais jovens e não possuir muitos programas que possam interessar aos idosos? Terá chegado o momento em que é necessário repensar a programação das rádios e até mesmo a sua estrutura e debater a necessidade de criação de rádios comunitárias que possam retratar os problemas desta comunidade específica?

São estas questões e o desafio, que Lénia Rego faz no artigo publicado na revista Comunicando da responsabilidade do Grupo de Trabalho de Jovens Investigadores da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação).

Lénia Rego no seu artigo intitulado Idosos e Rádio Online: Quando os Opostos se Atraem, pretende analisar a relação entre os idosos e a rádio. Através de uma investigação-ação participativa pretende envolver um grupo de idosos na criação de uma rádio online, para estudar os impactos desta ação na intensificação de relações interpessoais, na socialização e no entretenimento, contribuindo para um envelhecimento ativo. É também objetivo da investigação analisar a relação existente entre os idosos e a rádio em geral, que tipo de influência é que esta tem ou teve na sua vida e no seu quotidiano.

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A Rádio na era do digital

A rádio mudou com o aparecimento da Internet. Esta última foi considerada por muitos como a invenção que marcou o século XX, pois permitiu criar um novo modelo comunicativo. Com o aparecimento desta nova forma de transmissão de informação e conteúdo, formou-se aquela que Castells (2004) apelidou de “Galáxia Internet”, que sucedeu à “Galáxia Gutenberg”, apresentada por McLuhan.

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A Internet trouxe com ela a possibilidade da interatividade. O indivíduo passou a ser protagonista, tornou-se um sujeito capaz de proceder às suas próprias escolhas, contribuindo para a criação de um espaço virtual. Já é comum surgirem operadores de canais de televisão por cabo onde o consumidor se torna produtor, controla a emissão em direto ou a gravação e visualiza os programas que já foram emitidos e que lhe interessam. Uma interatividade que se estende a outros meios de comunicação. Os podcasts permitem que os ouvintes possam escutar ou visualizar um programa de rádio ou televisão sempre que desejem. Já não é preciso assistir a um programa no imediato, pois pode ser consultado posteriormente de acordo com a disponibilidade e interesse do indivíduo. E é esta capacidade de criar, modificar e construir que também é possibilitada com a rádio online. Pelas suas características únicas, este meio de comunicação permite que o ouvinte forme uma opinião sobre os mais variados assuntos e que a transmita em direto nos fóruns que são muitas vezes colocados à sua disposição. Criam-se opinion makers, algo que só foi possível com a reinvenção da rádio. O ouvinte deixa de ser um mero espetador, um mero recetor e passa a ser também emissor. Participa na dinâmica da rádio, ao mesmo tempo que esta participa na vida da comunidade ao transmitir os seus acontecimentos (Oliveira, 2011:80). Há novas linguagens e novos públicos

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Conclusão

Ser idoso numa sociedade da informação pode ser um desafio. Os mais novos nasceram rodeados pela tecnologia e, por isso, encaram-na como uma parte natural da sua existência, mas o mesmo não acontece com os mais velhos. O digital impera nas comunidades atuais. A Internet expandiu-se e já chega aos quatro cantos do mundo. Urge implantar medidas que permitam a aproximação dos idosos das novas tecnologias, para que não sejam excluídos e marginalizados desta sociedade.

A criação de uma rádio online criada por e para idosos pretende contribuir para a diminuição deste fosso. Um projeto que visa sensibilizar os idosos para a necessidade de apostarem num envelhecimento ativo e melhorarem a qualidade de vida, combaterem o isolamento e a solidão, criando um bom relacionamento interpessoal com os restantes indivíduos participantes no estudo e promovendo o seu desenvolvimento integral. A rádio pode ser uma companhia para quem está preso, para aqueles que estão acamados no hospital, para quem vive sozinho. Torna-se numa companhia dentro de casa, mas também dentro do carro, num barco ou até mesmo em plena rua, com utilização de aparelhos de última geração. E é esta vertente que a torna distinta dos outros meios de comunicação e importante numa sociedade cada vez mais envelhecida e onde há cada vez mais idosos isolados. Dados da edição de 2016 dos “Censos Sénior”40 realizados pela GNR (Guarda Nacional Republicana) mostram que, dos 43.322 idosos sinalizados, há 26 mil que vivem sozinhos, mais de 4.600 que vivem isolados, mais de 3.000 que vivem sozinhos e isolados e mais de 9.600 que se encontram em situação de vulnerabilidade devido a limitações físicas e/ou psicológicas. Resta-nos levantar uma questão: a rádio ainda pode ser encarada como meio de combate ao isolamento, à solidão?

Lénia Rego nasceu em 1979 em Viana do Castelo. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior, mestre em Ciências da Comunicação-vertente Informação e Jornalismo pela Universidade do Minho e doutoranda em Ciências da Comunicação também na Universidade do Minho. Foi jornalista e colaborou com várias rádios, jornais e televisão.

PDF do artigo: Idosos e Rádio Online: Quando os Opostos se Atraem

http://www.revistacomunicando.sopcom.pt/ficheiros/20160706-artigo9.pdf

A Revista Comunicando Volume 5, Número 1 está disponível aqui:

http://www.revistacomunicando.sopcom.pt/edicao/107

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