Mudar de vida

Texto Guiomar Belo Marques | Fotografias Miguel Baltazar

Com uma actividade dirigida para a promoção de projectos de intervenção social, as mulheres em situação de risco têm sido um alvo prioritário na sua acção, alargada, melhorada e, principalmente, menos isolada graças ao projecto Motivar os Adultos Para a Aprendizagem (MAPA). A experiência do Centro Comunitário de Inserção da Caritas Diocesana de Coimbra só peca por não abranger mais gente.

Aos 41 anos de idade, Paula Chaves pode gabar-se de ser uma verdadeira sobrevivente. Com uma diabetes que lhe atazana a vida, havendo mesmo quem não compreenda como ainda está viva, é avó de quatro netos e mãe de cinco filhos que nasceram fruto da sua relação com dois homens que fizeram questão de nunca a tratar bem. Muito pelo contrário. Quando nasceu a filha mais nova, agora com 13 anos, Paula ia ao Centro Comunitário buscar o leite que faltava em sua casa e acabou por criar laços com as técnicas.

Carente de afectos e de apoios, Paula entregou-se à prostituição depois de ter percebido que, por mais voltas que desse, o dinheiro que ganhava como empregada de balcão e nas limpezas não chegava para alimentar tantas bocas, até porque os dois homens que lhe fizeram os filhos intercalavam estadias na cadeia com o desemprego. “Andei sete anos nessa vida. Como eu ia casar como meu marido, o pai dos meus filhos fez queixa de mim e foram-me buscar os miúdos”.

Um dia, numa acção reivindicativa pela obtenção de uma casa camarária que lhe desse um tecto, montou uma tenda à porta da igreja e ali se manteve durante oito dias. De caminho, deu uma entrevista para a televisão para reclamar contra o facto de o Governo Civil não querer deixar as prostitutas trabalhar. Ficou famosa e ganhou o gosto de assumir a sua vida tal qual ela é e foi. Afinal, que mais poderá acontecer-lhe?
E a vergonha é sentimento que não lhe ocorre sequer sentir, tendo em conta a realidade nua e crua do que tem sido a sua vida. Depois das entrevistas que lhe deram os seus minutos de fama, tornou-se impensável arranjar um emprego decente: passou a ser a prostituta que dava entrevistas e cuja cara famosa lhe franqueou a porta do emprego.

“Decidi vir para aqui”, explica, referindo-se ao Centro. “Almoçávamos, davam-nos 210 euros, e como sou uma pessoa que aprende depressa, aprendi várias coisas. Fazíamos um pouco de tudo: bordávamos, íamos para a cozinha… Agora sei meter fechos, fazer bainhas, tudo!” Como muitas outras mulheres, “largou” os estudos quando estava no 6º ano, que não chegou a concluir, por ter saído de casa e engravidado.
Na sua passagem pelo Centro, começou a fazer RVCC, mas não concluiu. “Gostava muito de vir para aqui”, recorda agora Paula, “do convívio com as outras e até com as doutoras. Mas os dias em que vinha a Dr.ª Benedita (a psicóloga) eram os que me interessavam mais. É uma pessoa que, quando fala connosco, a gente acalma, a voz desce, aquilo que ela nos diz é mesmo… Nem sei explicar. Eu até sou uma pessoa que sei falar com as pessoas, as pessoas é que não sabem lidar com as outras. Essas sessões eram para a gente saber lidar com a nossa vida. Há pessoas que têm de aprender a viver em sociedade e a não se comportarem como bichos”.

Desenvolver competências lúdico-recreativas

“Sempre trabalhámos com uma população de mulheres em risco, no enquadramento da luta contra a pobreza. Em 2000 fez-se um acordo atípico com a Segurança Social e nasce o Centro”, explica Cláudia Dias, licenciada em Serviço Social e directora técnica. “O nosso objectivo principal é o desenvolvimento das competências lúdico-recreativas e temáticas. São mulheres que não sabem como funcionar com as doenças associadas ao estilo de vida que têm, não sabem cozinhar, limpar, etc., nem gerir conflitos. A maioria vem por iniciativa própria ou encaminhada pelos serviços. Fazemos duas ou três entrevistas antes de entrarem, e depois há um compromisso assinado relativo ao funcionamento. Quando não têm meios de subsistência recebem um subsídio de 210 euros e têm direito ao almoço, já que o horário a que ficam obrigadas é das 9h30 às 17h30”.

Uma vez integradas, é dado início ao Projecto de Vida de cada mulher. Muitas são orientadas para Formação Profissional, em particular no caso das mais jovens. No Centro é desenvolvido com todas elas o treino de competências, particularmente no que se prende com a criação de condições para o acesso a uma vida mais condigna, sabendo orientar-se e adquirir uma profissão.

Neste contexto, o MAPA (Motivar os Adultos Para a Aprendizagem), segundo Cláudia Dias, “deu-nos a possibilidade de parar um bocado e poder observar um pouco a realidade. Por outro lado, como vivemos sempre um bocadinho isolados e sozinhos nas problemáticas, o MAPA também nos trouxe a enorme vantagem de ter possibilitado o contacto com outras instituições, trocar avaliações, questionários e experiências. Já antes fazíamos actividades formativas e púnhamos grande cuidado na elaboração da História de Vida, mas com o MAPA foi possível perceber a importância da reflexão sobre estas problemáticas”.

A importância da assertividade

Benedita Palmeiro desempenha um papel fundamental no contexto em que se processa o trabalho deste Centro. Psicóloga, ela é a ouvinte serena dos dramas destas mulheres, cabendo-lhe a tarefa essencial de desenvolver treino de competências pessoais com o grupo e acompanhar individualmente cada uma. Embora já ali trabalhe há vários anos, foi graças ao MAPA que pôde dedicar mais tempo à instituição, passando a integrar o quadro de pessoal. “Já tinha alguma experiência com estes grupos de mulheres em risco e quando me pediram que viesse trabalhar alguns aspectos com este grupo, aceitei. Inicialmente era um grupo muito conflituoso e, portanto, surgi aqui para procurar treinar esta competência social de saberem ser assertivas. Vêm de meios onde há conflito, o que, nalguns aspectos, pode nem ser tão negativo, mas têm de aprender a lidar com as situações”.

Como metodologia, Benedita partiu das experiências que elas tinham, para, de forma holística, atingirem a competência pretendida. “O grande objectivo era o de elas poderem percepcionar a vida de um modo diferente, e de poderem escolher, de terem uma perspectiva de ser humano como gente activa. Mas, sobretudo, fez-se um trabalho muito prático, recriando as problemáticas, trazendo-as para aqui e trabalhando-as”.
A psicóloga salienta que teve a preocupação de trabalhar prioritariamente com o grupo coisas muito concretas como o gesto, o tom de voz, a manutenção de um contacto visual. “O MAPA ajudou a alterar alguns aspectos e a proporcionar a auto-avaliação do desempenho e das sessões. Este Centro é um Centro de passagem, razão pela qual o tempo de permanência é muito variado, podendo ser de uns meses ou um ano. O MAPA veio valorizar este tipo de trabalho que era uma coisa muito discreta. O facto de sair daqui e ser analisado por outras pessoas veio valorizar e ajudar-nos a reflectir de um modo diferente. Mas continuámos sempre nesta linha de orientação, na formação não formal”.

Entre as mulheres que integraram o primeiro grupo, duas ou três foram fazer formação profissional, outras integraram o mundo do trabalho e houve também as que continuam a ser beneficiárias do Rendimento Mínimo, mas de um modo ou de outro, o contacto vai-se mantendo e o percurso destas mulheres vai sendo acompanhado. “Já aconteceu termos aqui várias gerações, com mães, filhas, tias, o que nos vai permitindo ir sabendo o que se passa”. Como Paula, por exemplo, que não perde uma oportunidade de ali voltar para uma visita ou por uma necessidade urgente de conversar com Benedita.

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