Não Saber Ler, Escrever, Contar ... e Trabalhar

A iliteracia diz respeito aos adultos que foram escolarizados mas que não têm as competências básicas necessárias para ler, escrever e calcular para serem autónomos em situações simples de sua vida diária.

Em 2005, uma primeira pesquisa em França revelou a extensão desse fenómeno: 3 100 000 pessoas entre os 18 e os 65 anos enfrentam a iliteracia.

Em 2013 foi criada a ANLCI - L'Agence nationale de lutte contre l'illettrism, que é um grupo de interesse público que reúne os decisores e os parceiros da sociedade civil envolvidos na prevenção e luta contra a iliteracia.

Hervé Fernandez concebe e implementa, há vários anos e desenvolvendo todos os anos mais parcerias, os programas da ANLCI dos quais é diretor.

Transcrevemos aqui parte de uma entrevista que deu à revista on-line Metis.

 

Não saber ler, escrever, contar ... e trabalhar

Entrevista a Hervé Fernandez por Danielle Kaisergruber

Como se mede a iliteracia em França? Quais são os dados mais recentes sobre as pessoas em situação de iliteracia e as pessoas com fraco domínio das competências básicas?

Para medir a iliteracia, é necessário ter ideias claras e não confundir esse problema com o analfabetismo que diz respeito a pessoas que nunca foram escolarizadas ou que  não falam a nossa língua e não aprenderam francês. No início dos anos 2000, ultrapassámos uma etapa importante quando todos os parceiros com sensibilidades muito diferentes reunidos pela ANLCI concordaram numa definição comum: a iliteracia diz respeito aos adultos que foram escolarizados em França e que não têm as competências básicas necessárias para ler, escrever e calcular para serem autónomos em situações simples de sua vida diária. Ler, escrever, contar, é óbvio para a maioria de nós, mas não para aqueles que não conseguem ler uma ordem de trabalho ou segurança, fazer um cálculo simples, preencher um formulário on-line. Todos os que foram escolarizados pensam que o sabem fazer mas, por não terem adquirido solidamente a leitura, escrita, cálculo, ou por falta de os usarem e manterem presentes ativos, alguns adultos encontram-se hoje numa situação de iliteracia. Todos falam francês porque foram à escola no nosso país. Em 2005, uma primeira pesquisa nacional revelou a extensão desse fenómeno: 3 100 000 pessoas entre os 18 e os 65 anos enfrentam a iliteracia. A mesma pesquisa reeditada em 2012 indica uma diminuição significativa mas ainda com 2 500 000 pessoas afetadas (7% das pessoas entre 18 e 65 anos), porque a iliteracia não é uma fatalidade, é possível sair dela.

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Hervé Fernandez

A luta contra a iliteracia exige inovações: as pessoas em questão têm adotado, com frequência, estratégias de evasão de modo a não revelarem as suas falhas e essas pessoas não têm forçosamente desejos de "voltar para a escola". Como fazer?

As boas práticas que identificamos ensinam-nos que é melhor partir das situações de trabalho, das tarefas que as pessoas realizam, do que elas gostariam ou deveriam fazer sem a ajuda dos outros, para identificar o peso dos saberes de base mobilizados na execução do seu trabalho. Propomos mudar o "centro de gravidade" das pessoas para as situações de trabalho. Para isso é necessário garantir um bom envolvimento do enquadramento de proximidade no processo e de o sensibilizar, se necessário. O diagnóstico inicial não se deve concentrar nas capacidades de cada um, mas nas situações profissionais, a fim de atualizar a parte dos saberes básicos que precisam de ser dominados. Para conseguir isso, propomos às OPCAs (Les organismes paritaires collecteurs agréés (ver aqui: https://www.paritarisme-emploi-formation.fr/instances-paritaires/opca/les-opca ) e às empresas que utilizem o referencial de competências-chave em situações profissionais que desenvolvemos. As soluções de formação devem em seguida basear-se numa avaliação das capacidades das pessoas para apreciar o que já sabem e o que precisam dominar para serem mais independente. No que diz respeito à formação em si, as ações bem-sucedidas são aquelas que contextualizam a aprendizagem, com base nos documentos realmente utilizados na empresa. Isso requer frequentes ir e vir entre as equipas pedagógicas e a empresa, porque é preciso garantir que os adquiridos na formação são reinvestidos no posto de trabalho.

É precisamente este método que apresentamos quando cooperamos com centros de formação de aprendentes que decidem reforçar o conhecimento básico dos jovens que acolhem.

Mais recentemente, em setembro de 2017, houve um importante evento organizado pela ANLCI "A Cidade das práticas - Soluções contra a iliteracia": o que recorda particularmente? Descobriu inovações? "Boas práticas"? Isso inspira novas orientações estratégicas para o ANLCI?

Este encontro nacional encerrou um programa que realizamos em todos os territórios e que permitiu identificar e disseminar boas práticas na luta contra a iliteracia. Foram publicados sete guias práticos para atuar nas empresas com base nessas soluções. Eles foram transmitidos durante os encontros realizados em todas as regiões no final de 2016 e em Lyon, em setembro de 2017, como parte das Jornadas Nacionais de Ação contra a iliteracia. Todos esses recursos estão disponíveis online num site específico.

Os guias de ação fornecem respostas concretas às questões mais frequentes: como oferecer formação personalizada para trabalhadores que não dominam as competências básicas? Como apoiar os trabalhadores em dificuldade com as competências básicas no seu percurso profissional? Como facilitar o acesso à certificação CléA - Certificat de Connaissances et de Compétences Professionnelles para pessoas em situação de iliteracia? Como, ao nível de um território, garantir os percursos profissionais dos trabalhadores mais vulneráveis no contexto das mudanças económicas? Como sensibilizar e formar a supervisão das autoridades locais para melhorar a gestão dos agentes em dificuldade com as competências básicas? Como cuidar das situações de iliteracia das pessoas inseridas na atividade económica?

O programa de intercâmbio de boas práticas permitiu-nos destacar as soluções originais propostas às pessoas confrontadas com a iliteracia que desejam ter carta de condução. Também aproveitamos esta oportunidade para fazer evoluir o método de intervenção que disponibilizamos ao CFA, concentrando-se mais na alternância, na ligação entre a situação do trabalho e a reaquisição dos saberes de base. Denominámos esta nova abordagem "Aprender de maneira diferente através do trabalho".

Os parceiros sociais criaram o CléA para certificar as competências de base e formar, se necessário: como é que isso se relaciona com a longa luta contra a iliteracia?

O estabelecimento pelos parceiros sociais de uma certificação que reconhece o domínio de uma base de conhecimento e competências básicas é um grande progresso e atende a uma expectativa expressa há muito tempo pelos atores investidos na luta contra a iliteracia. No entanto, a CleA não é um dispositivo, mas uma certificação. A questão que precisamos responder coletivamente é dupla:

- Em que é que esta certificação é oportuna para o sucesso do projeto da pessoa ou da empresa? Nós vemos aí uma questão de acompanhamento muito importante porque as pessoas confrontadas com a iliteracia estão muito distantes dos códigos de formação e o conselho que lhes pode ser proposto é crucial. Tal como acontece com qualquer certificação, a ligação entre projeto e reconhecimento deve ser sólido.

- Com os dispositivos que podem ser mobilizados (regiões, conta pessoal de formação, plano de formação, licença individual de formação, contrato de profissionalização ...), como formar pessoas em situação de iliteracia para que elas ganhem domínio pleno das competências de base sancionadas pelo certificado CleA?

O certificado CleA é, portanto, um horizonte. A nossa responsabilidade coletiva é garantir que o maior número de pessoas confrontadas com a iliteracia que desejam alcançar esse objetivo tenham as melhores oportunidades de sucesso através da formação. As boas práticas que identificamos na Normandia mostraram claramente que é possível.

(…)

Sobre a Agência Nacional de Luta Contra a Iliteracia:

L'Agence nationale de lutte contre l'illettrisme é um grupo de interesse público que reúne os decisores e os parceiros da sociedade civil envolvidos na prevenção e luta contra a iliteracia para lhes propor um quadro de trabalho comum: garante a medição da iliteracia da população (pesquisas nacionais realizadas em parceria com o INSEE), coordena as ações de prevenção e luta contra a iliteracia a nível nacional e regional, reunindo os Responsáveis Regionais, os Reitores, os Presidentes de conselhos regionais e departamentais em torno de planos de luta contra a iliteracia e disponibiliza, a todos os que atuam, ferramentas e guias de boas práticas para os ajudar a construir soluções eficazes. A ANLCI federou o grupo de 67 grandes organizações da sociedade civil que receberam o rótulo "Agir em conjunto contra a Iliteracia, grande causa nacional 2013", concedido pelo primeiro-ministro. Ela garante em cada ano a implementação dos Dias Nacionais de Ação contra a Iliteracia no 8 de setembro.

Para saber mais:

Relatório em francês: rapport Illettrisme 20 décembre 2013

Em: http://www.metiseurope.eu/ne-pas-savoir-lire-ecrire-compter-et-travailler_fr_70_art_30642.html

 

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