Novas oportunidades com novos caminhos

Texto Guiomar Belo Marques | Fotografias Paulo Figueiredo

Após seis anos de experiência a reconhecer, validar e certificar competências aos três níveis do Ensino Básico, os Centros Novas Oportunidades preparam-se para alargar as suas próprias competências para a certificação do 12º Ano. Uma perspectiva que seduz os profissionais envolvidos, tanto quanto lhes provoca alguns receios e apreensões.

Tudo vai ser uma surpresa”, diz Catarina Pires, coordenadora do Centro Novas Oportunidades da responsabilidade da ADEIMA (Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos). Olhando para trás recorda o caminho desbravado quando, em 2001 lhe coube em tarefa iniciar metodologias e lógicas de aferição até então inéditas em Portugal. Sem duvidar da validade das suas próprias competências e capacidades sente que, de certo modo, fez um pouco de história no seu pioneirismo profissional, e sorri ao relembrar os muitos momentos de hesitação e de dúvida, de como o intercâmbio de experiências com alguns dos pouquíssimos centros iniciais foi de uma importância valiosa na superação das inseguranças inevitáveis a quem se lança num percurso jamais trilhado.

Agora, que irá novamente cortar o capim do preconceito e desenvolver, também ela, novas competências e voltar a impor, tal como há seis anos, a recusa do facilitismo forçado para a obtenção de metas numéricas, já se sente menos assustada.

Por isso, afirma com à-vontade que o Centro que coordena “não cumpriu as metas estabelecidas, porque não era possível certificar o número pretendido de pessoas, tendo em conta a nossa população. Só conseguimos cumprir no ano passado porque fomos melhorando o nosso trabalho, aumentando as nossas parcerias, burilando as nossas técnicas. No fundo, aperfeiçoámos a gestão da equipa, os horários, a articulação entre formadores e profissionais de RVC e aumentámos a nossa capacidade de dar resposta às necessidades. Quando há uma boa articulação entre a entidade parceira e o Centro, a capacidade de resposta também aumenta”.

Graças, provavelmente, a esta evolução este Centro já certificou cerca de 1000 adultos desde a sua criação, encontrando- -se vários outros em vias de certificação.

Uma nova etapa

Integrando o grupo de 31 centros que iniciaram o processo relativo ao nível secundário, recebeu, num curto espaço de tempo, e sem que para tal tivessem tido necessidade de realizar qualquer tipo de acção local, mais de 600 inscrições. Perante uma tão grande procura, numa primeira fase a preocupação centra-se na metodologia a adoptar de imediato para realizar a triagem inicial. O facto de terem devidamente identificados cerca de vinte adultos com competências para uma certificação de nível Secundário, que apenas puderam receber a do Básico por aquela não existir, sugeriu a possibilidade de iniciar o processo com este grupo. “Pensámos que poderia ser injusto relativamente às demais pessoas, mas depois concluímos que em tempo útil esta seria a melhor opção.

É que a triagem tem de ser diferente, a começar pelo facto de o dossier passar agora a ser um portefólio, uma vez que todo o registo é elaborado e apresentado de outro modo, recorrendo à metodologia de projecto. O adulto tem de saber identificar as suas dificuldades para depois discutir com a equipa técnica o seu processo”, explica Catarina Pires. Mas não só. Agora, em vez das anteriores quatro áreas, as competências terão de ser desenvolvidas e demonstradas em três domínios que concorrem para um conjunto mais lato de saberes: Cidadania e Profissionalidade; Sociedade, Tecnologia e Ciência; e Cultura, Língua e Comunicação. Salientando a maior autonomia exigida, esta coordenadora acrescenta que é ainda necessário que cada indivíduo reflicta outros saberes mínimos, como o domínio de uma língua estrangeira e da informática, a par de uma outra postura nas relações inter-pessoais.

Entre as muitas questões que a equipa técnica teve de equacionar, salienta-se a metodologia a seguir na organização da própria equipa. “Ainda não sabemos se vamos dividir-nos em duas sub-equipas, ou reforçar a que temos, alargando-a, para termos capacidade para fazer frente aos dois graus”, afirma, adiantando que esta é actualmente composta por dois formadores, três profissionais de RVC, uma funcionária administrativa, uma coordenadora e um director.

Situações particulares

Nada impede que um adulto pretenda candidatar-se a uma certificação de nível secundário, possuindo apenas, como grau académico formal, o 1º ciclo do Básico. No entanto, Catarina considera essa possibilidade como pouco provável. Especulando um pouco, e sem que todavia detivesse um balanço exacto quanto ao perfil escolar dos candidatos inscritos, arriscou adiantar que provavelmente muitos não terão condições para uma certificação, “e deverão ser encaminhados para outras soluções, ou seja, penso que inicialmente iremos ser procurados por uma nata, tal como aconteceu com o 9º Ano, quando arrancou, e depois, a pouco e pouco, irão surgir outras pessoas”.

Debruçando-se mais especificamente nas questões que se prendem com esta nova realidade a coordenadora deste Centro explica que existe alguma ansiedade e apreensão relativamente ao modo como o trabalho irá decorrer, mas também faz questão de salientar que “esta inovação tem virtudes e vai ser um desafio. Há alguma insegurança, tanto da equipa como da coordenadora, que sou eu, mas com a formação que recebemos em Abril, pudemos perceber os limites e ganhar alguma segurança. Sabemos aquilo que pode ser feito e aquilo que deve ser feito e pensamos que isto também vai obrigar a equipa a crescer, a alargar os seus horizontes e conhecimentos, no fundo, vai obrigar-nos a também desenvolver as nossas próprias competências. Mas vai ser uma incógnita, porque vamos ter de perceber melhor como tudo irá processar-se. Se me perguntarem se é suficiente o que tivemos em termos de formação, respondo que não, que sentimos que temos necessidade de mais, mas vamos tentando contornar essa questão mantendo-nos em contacto com alguns dos outros Centros com os quais desde sempre tivemos mais afinidades e com os quais trocamos permanentemente ideias e experiências ”.

Paula Costa e Susana Couto, respectivamente formadora e profissional de RVC, partilham as apreensões, mas também o entusiasmo perante este novo desafio. “É um salto muito grande, mas pensamos que o perfil dos adultos que iremos encontrar será igualmente muito diferente”, refere Paula, acrescentando que “este referencial vai muito de encontro à sociedade global”. Idêntica convicção tem Susana, que espera confrontar-se com pessoas muito diferentes e “muito mais exigentes. Portanto, para nós, além de ser uma oportunidade de crescimento profissional, é-o também de crescimento pessoal. Vamos ter de aprofundar os nossos próprios conhecimentos”. O mais “assustador” para estas duas técnicas “é a possibilidade de não haver grande hegemonia nas exigências de cada Centro”.

Particularidades de um Centro em ambiente escolar

Também para os técnicos do Centro Novas Oportunidades nascido e criado no Centro de Formação de Professores Arrábida, sedeado na Escola Secundária Lima de Freitas, em Setúbal, a experiência de outros Centros tem sido um apoio fundamental. Um dos primeiros “CRVCC” a arrancar, a seguir aos seis pioneiros, além do coordenador e de uma funcionária administrativa, conta apenas com quatro profissionais de RVC, já que os seis a oito formadores que ali trabalham funcionam apenas a tempo parcial. “Com o trabalho que temos é manifestamente insuficiente”, considera o coordenador, António Gonçalves. Para fazer frente às exigências que a introdução da certificação de nível Secundário impõe, está previsto alargar a equipa de formadores.

Para equilibrar a equipa, tem sido orientação deste Centro aliar a experiência docente de alguns formadores com a disponibilidade inerente aos jovens licenciados. “Todas as pessoas que cá estão têm habilitações na área da Educação e eram professores”, esclarece António Canhão, director do Centro de Formação Profissional. “Daí termos ido buscar jovens recém saídos da Faculdade, ainda não formatados, digamos assim, ao sistema escolar”. Mas a opção por formadores que são simultaneamente professores está a levantar um outro tipo de problemas: com a nova imposição que impede estes docentes de acumularem funções, a opção mais provável destes também formadores será ficarem nas escolas às quais têm vínculo.

Obstáculo subjectivo, que a pouco e pouco vai sendo ultrapassado, é o modo como a comunidade escolar no seu todo olha para a actividade desenvolvida pelo Centro. “Quando o centro arrancou, em 2002, a recepção por parte da comunidade docente não foi muito positiva”, explica António Canhão. No entanto, com o andar da carruagem e a clarificação sobre o que era esse bicho-de-sete-cabeças designado por RVCC, a má vontade foi-se esboroando, mas não desapareceu. Razão pela qual Rui Fabião, vice-presidente do Conselho Executivo da escola, afirma que a relação entre o Centro e a Secundária Lima de Freitas “não é tão boa quanto seria desejável”. Para este professor, que soube entender esta outra missão, tendo nela participado como formador e dando agora a sua ajuda no trabalho do novo referencial, “o trabalho que aqui está a ser feito é muito importante e estava a faltar. Faz sentido e ainda não teve, em termos de escola, o reconhecimento que seria importante ter. Acho até que a escola pode ter ainda muito a aprender, nomeadamente no modo como se trata a Matemática. Ainda há resistências e preconceitos, por existir desconhecimento, por ainda dominar a ideia de que o conhecimento só pode ser transmitido segundo os modos em que a escola o tem feito. Mas a miscigenização poderá dar-se”.

O caminho faz-se andando

À semelhança do Centro de Matosinhos, também neste se vive agora expectativa e uma procura das melhores metodologias a seguir. A experiência desenvolvida antes apetrechou, mas esta nova etapa reveste-se de peculiaridades específicas, inerentes às novas competências-chave. “Estamos a fazer o caminho caminhando”, reflecte António Gonçalves. “A nível do Básico, quando começámos já havia seis Centros a funcionar e que nos ajudaram. Neste momento, estamos a dar início ao 12º Ano e a complexidade de estrutura do referencial é diferente. Por isso, actualmente, já estamos numa segunda fase, porque enquanto não estivermos a trabalhar com os adultos não vamos conseguir percepcionar como fazer”.

Antes mesmo de a campanha governamental começar, já as inscrições “choviam” neste Centro, que chegou a ter mais de mil pré-inscritos. Para fazer uma primeira selecção, decidiram começar, desde logo, a trabalhar com as pessoas que estavam mais próximas do percurso escolar, para as reencaminhar para a via escola. Os anteriormente certificados com o 9ºAno e que apresentavam condições para o 12º seguiram o seu caminho, alguns deles optando pelo exame ad hoc de acesso à Universidade, pelo que não foram repescados. Por isso, começaram por trabalhar com pouco mais de cem pessoas (números de finais de Maio), naquilo a que chamam a fase de “envolvimento emocional”.

Estamos ainda a receber pessoas que têm um pouco mais de percurso escolar para alem do 9º Ano e ainda não recebemos ninguém com menos do que isso. Estamos, portanto, ainda a avaliar se as pessoas devem seguir outra solução ou ficar aqui”, especifica o coordenador.

Para melhor aferirem o percurso de cada um e quais as mais adequadas soluções que se lhe apresentam em função do seu património pessoal, é-lhes pedido que escrevam uma avaliação biográfica. “Através desse texto, avaliamos a capacidade do adulto para desenvolver as competências do referencial 12º e para construir o seu portefólio. Depois, a equipa reúne e elabora um plano de intervenção individualizado. Vamos fazendo por levas. Se este método funcionar minimamente, seguiremos com ele até ao fim do ano, senão, teremos que fazer alterações. Entretanto, estamos a entrar na segunda fase. Criámos uma plataforma na Net para o adulto poder funcionar com ela. Quem tiver formação em TIC, receberá uma formação breve, e quem não a tiver fará uma extra-escolar”. E pensando naqueles que não possuem computador em casa, foi aberta a possibilidade de acederem a esta ferramenta no próprio centro, ou em qualquer dos demais com os quais este funciona em parceria.

Um outro passo é o portefólio reflexivo”, adianta Miguel Silva, formador de Matemática e TIC, “ou seja, vão trabalhar aquilo que irá ser o portefólio em si.”

Assumimos claramente que ainda estamos na fase de pensar. Vamos concluindo uma etapa , reflectimos, e prosseguimos para outra”, conclui António Gonçalves.

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