Partilhar o Património Cultural - mas moldado a que identidade?

2018 é o ano do Património Cultural Europeu. No entanto, os primeiros resultados de investigação também destacam questões de poder e de privilégio. A questão é: ‘qual’ é a identidade europeia apresentada ao longo do ‘Ano Europeu do Património Cultural’?

Qualquer forma de herança cultural é sempre resultado de um processo de negociação (social) em que muitos fatores devem ser considerados como, por exemplo, a economia. O ano temático oferece a muitas instituições na educação de adultos a oportunidade de apresentar formas de património cultural europeu.

Estas são algumas das ideias discutidas pelo investigador alemão Florian Grawan, no artigo ‘Partilhar o Património Cultural - mas moldado a que identidade?’ publicado na revista Elm (European Lifelong Learning Magazine).

Continuamos assim a divulgar textos que nos parecem importantes para debater sobre como é que a Educação de Adultos pode abordar o Património Cultural no âmbito do Ano Europeu do Património Cultural.

Desde 1983 que a Comissão Europeia define um tema específico para um determinado ano civil. Em 2018, o tema é o património cultural (https://europa.eu/cultural-heritage/european-year-cultural-heritage_pt)

Sob o título ‘Partilhar o Património Cultural’, o ano temático da Comissão visa moldar a Identidade Europeia apoiando instituições e projetos tanto na educação de adultos como na academia.

A UNESCO, um dos principais parceiros, procura uma ampla abordagem do fenómeno. Existem formas de edifícios e ambientes culturais construídos ou naturais, conhecidos como património tangível. Muitos locais bem conhecidos fazem parte da lista do Património Mundial da UNESCO, como o Mar de Wadden, na Alemanha. Por outro lado, no entanto, os recursos culturais intangíveis, como as artes ou competências e tecnologias tradicionais, também fazem parte dessa forma de compreender o património cultural.

Foi destinado um financiamento de 8 milhões de euros a nível europeu para apoiar projetos selecionados no domínio cultural. A União Europeia também financia projetos de investigação no domínio do património cultural (https://ec.europa.eu/programmes/creative-europe/), num programa denominado Horizonte 2020 (https://ec.europa.eu/programmes/horizon2020/).

O foco do ano temático está no potencial de uma ‘Cultura Europeia’ partilhada em contraste com estruturas sociais heterogéneas. Além disso, pretende mostrar que as formas de herança cultural tanto locais como europeias são partes integrantes do potencial de desenvolvimento social e económico mútuo na Europa.

Perspetivas interdisciplinares na investigação patrimonial

Consequentemente, em várias universidades europeias, o património cultural tornou-se um tema de investigação fundamental.

Um exemplo de um projeto de investigação, “O património cultural como um recurso? Construções concorrentes, usos estratégicos e múltiplas adoções durante o século XXI”, pode ser encontrado na Universidade de Leibniz na Alemanha, onde também trabalho num subprojecto com foco em processos educativos.

O projeto examina o campo complexo do património cultural a partir de uma perspetiva interdisciplinar e de múltiplos ângulos, tais como formas de património cultural em zonas urbanas (Barcelona, Manchester, Wroclaw e Berlim) e rurais (Wendland, Alemanha), focando a investigação em áreas específicas e grupos multiétnicos.

Além disso, o termo ‘património cultural’ é abordado em situações educativas. Isso é feito para desenvolver conceitos para a didática inclusiva, de forma a dar ao maior número de pessoas a oportunidade de experienciar a sua herança do passado e de a preservar para o futuro.

Património, privilégio e poder

Os primeiros resultados da investigação realçam questões de poder e privilégio, visando entender melhor como pode ser interpretada a construção de uma ‘Identidade Europeia’ num Património Partilhado.

Qualquer forma de herança cultural é sempre resultado de um processo de negociação (social), em que muitos fatores devem ser considerados como, por exemplo, a economia. O ano temático oferece, portanto, a oportunidade a muitas instituições na educação de adultos de apresentar formas de património cultural europeu.

No entanto, certos atores, como o Comité do Património Mundial da UNESCO, estão envolvidos em moldar o financiamento e, assim, em avaliar o valor de uma certa perceção da construção de uma ‘Identidade Europeia’. Isso mostra que o património cultural e a sua valorização também são sempre uma questão de poder.

No mundo globalizado, o património cultural atua como um ponto âncora para as afiliações sociais em vários níveis, mas, ao mesmo tempo, é um ponto de demarcação para algo interpretado como ‘estrangeiro’. Assim, as várias formas de herança cultural servem como recursos para determinar dinâmicas sociais tais como integração e exclusão.

Surge uma questão: por que é que certos grupos individuais têm mais poder que outros para moldar e experienciar ar suas formas de herança?

A exposição de artefactos das antigas colónias (alemãs) no Humboldt Fórum (Berlim) é um bom exemplo. Neste caso particular, existem muitas vozes críticas de grupos minoritários (negros) sobre se esses artefactos devem ser melhor identificados como ‘arte roubada’. Neste ponto, é crucial observar a conexão direta entre património cultural e sociedade.

De quem é a herança?

Rodney Harrison, professor britânico de Estudos do Patrimônio no University College de Londres (UCL), defende que o património cultural não deve ser visto apenas como tangível ou intangível. Ele sugere uma abordagem mais reflexiva, acrescentando os termos património cultural ‘oficial’ e ‘não oficial’.

Com esta adição, é possível perceber quais as práticas culturais que são autorizadas pelo Estado ou que se referem a alguma forma de legislação. Em contraste, existem muitas práticas culturais, tradições ou edifícios ‘não oficiais’, que não estão sob proteção legislativa, embora tenham uma grande relevância para certos grupos minoritários e não sejam familiares na sociedade em geral.

Em 1999, Stuart Hall, uma das figuras fundadoras da British Cultural Studies, realizou uma palestra na Conferência Nacional intitulada ‘De quem é o Património Cultural?’, na qual argumentou sobre muitas ocasiões em que a história foi mantida afastada de grupos minoritários.

Na sua apresentação, referiu principalmente a presença dos ‘negros britânicos’ e aconselhou que estes ‘pontos cegos’ deveriam ser preenchidos adicionando a sua herança à memória coletiva da história britânica, dando-lhes assim mais poder para preservar a sua herança.

No entanto, essas críticas não diminuem a importância de se partilharem valores europeus comuns, como a diversidade, a tolerância e o diálogo intercultural, como é o objetivo durante o tema anual europeu.

No que diz respeito à área de educação de adultos, no entanto, esses pontos de vista críticos ajudam a ter em mente que existem muitas formas não oficiais de património cultural – tangíveis e intangíveis – que não estão amplamente representadas na acumulação de projetos na sequência da promoção do ‘Património Partilhado’.

O património dos grupos minoritários europeus também deve ser levado em consideração ao construir a ‘Identidade europeia’, de modo que sirva de ponto de ancoragem na União Europeia para tantas pessoas quanto possível.

Trata-se então da questão: qual é a Identidade europeia que é apresentada ao longo do Ano Europeu do Património Cultural?

 Em: http://www.elmmagazine.eu/articles/sharing-heritage-but-shaping-whose-identity/

 

Florian Grawan é um investigador associado no Departamento de Educação Profissional e de Adultos na Universidade Leibniz de Hanôver, na Alemanha. É Coordenador Científico do local de investigação interdisciplinar diversitAS (Diversidade - Migração - Educação) e Assistente de Projeto no projeto conjunto 'CHER - O património cultural como recurso? [...] '. A sua investigação concentra-se em Estudos da Diversidade, Estudos Críticos do Património (cultural) e Teoria do Racismo. Contato: florian.grawan@interpaed.uni-hannover.de

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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