Porque é que o Nosso Futuro Depende das Bibliotecas, da Leitura e de Sonharmos Acordados

A literacia é mais importante do que nunca, neste mundo de textos e e-mails, um mundo de informação escrita. Precisamos de ler e escrever, de cidadãos globais que leiam facilmente, compreendam o que estão a ler, percebam as subtilezas e sejam capazes de se fazer entender.

Precisamos de cidadãos letrados. Não me interessa — não acredito que seja importante — se os livros são em papel ou digitais, se está a ler um pergaminho ou a deslizar pelo ecrã. O que importa é o conteúdo.

Neil Gaiman, um autor britânico de contos, romances, banda desenhada, proferiu uma palestra para a Reading Agency, em 2013, (ver texto ‘Incentivo à Leitura’ publicado no nosso site).

Este artigo completo encontra-se no seu livro ‘O Que se Vê da Última Fila’ recentemente publicado em português (Edições Elsinore). Divulgamos aqui alguns excertos desse artigo.

As pessoas letradas leem ficção e a ficção serve para duas coisas. Em primeiro lugar, é uma droga que serve de porta de entrada à leitura. O impulso para se saber o que vai acontecer a seguir, de virar a página, a necessidade de prosseguir, mesmo que seja duro porque alguém está em perigo e tem de se saber como é que tudo vai acabar é um impulso muito poderoso. E obriga o leitor a aprender novas palavras, a pensar em coisas que nunca tinha pensado, a avançar. A descobrir que a leitura é, em si, um prazer. Assim que percebemos isto, estamos no caminho para ler seja o que for. E a leitura é fundamental. (…)

Em segundo lugar, a ficção ajuda a criar empatia. Quando vemos televisão ou um filme, vemos coisas a acontecerem a outras pessoas. A ficção em prosa é algo que construímos a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação e em que a pessoa sozinha, usando a imaginação, cria um mundo, povoa-o e observa-o com outros olhos. Experimentam-se sensações, visitam-se lugares e mundos que de outra maneira nunca conheceríamos. Aprendemos que toda a gente que por aí anda é também uma pessoa. Ao lermos, somos outras pessoas e ao regressarmos ao nosso mundo voltamos ligeiramente diferentes. A empatia é uma ferramenta para integrar as pessoas em grupos, para nos permitir que sejamos mais do que indivíduos ensimesmados. À medida que lemos, descobrimos algo que é muito importante para a forma como lidamos com o mundo. E é isto: O MUNDO NÃO TEM DE SER ASSIM. AS COISAS PODEM SER DIFERENTES.

(…)

A informação tem valor e o valor da informação certa é enorme. Ao longo da história da humanidade, vivemos tempos de escassez de informação. Dispor da informação necessária foi sempre importante e teve sempre algum valor: quando semear, onde encontrar as coisas, os mapas e as histórias. A informação era algo valioso e aqueles que a detinham ou que a conseguiam obter podiam cobrar pelo serviço. Nos últimos anos, passámos de uma economia de escassez de informação para uma economia movida pelo excesso de informação. (…) A literacia é mais importante do que nunca, neste mundo de textos e e-mails, um mundo de informação escrita. Precisamos de ler e escrever, de cidadãos globais que leiam facilmente, compreendam o que estão a ler, percebam as subtilezas e sejam capazes de se fazer entender. As bibliotecas são, na verdade, os portões do futuro.

Precisamos de cidadãos letrados. Não me interessa — não acredito que seja importante — se os livros são em papel ou digitais, se está a ler um pergaminho ou a deslizar pelo ecrã. O que importa é o conteúdo. Um livro também é o seu conteúdo e isso é importante. É através dos livros que os mortos comunicam connosco. A forma de aprendermos lições com aqueles que já não se encontram entre nós, a forma que permitiu à humanidade desenvolver-se a si mesma, avançar, fazer do conhecimento algo progressivo e não apenas a repetição das coisas que já se sabem. Certas narrativas são mais antigas do que a maioria das nações, narrativas que sobreviveram às culturas e aos edifícios em que foram contadas pela primeira vez.

(…)

Penso que temos responsabilidades para com o futuro. Responsabilidades e obrigações para com as crianças, para com os adultos em que essas crianças se irão tornar, para com o mundo em que irão viver. Todos nós, enquanto leitores, escritores ou cidadãos, temos obrigações. Pensei em identificar aqui algumas dessas obrigações. Penso que temos a obrigação de ler por prazer, seja em locais públicos ou privados. Se lermos por prazer, se os outros nos virem a ler, então aprendemos, exercitamos a nossa imaginação. Mostramos aos outros que ler é bom. Temos a obrigação de apoiar as bibliotecas. De frequentar as bibliotecas, de incentivar os outros a frequentá-las, de protestar contra o encerramento de bibliotecas. Se não damos valor às bibliotecas então não damos valor à informação, à cultura, à sabedoria. Estamos a silenciar a voz do passado e a arruinar o futuro. Temos a obrigação de ler em voz alta aos nossos filhos. De lhes lermos coisas de que eles gostem. De lhes lermos as histórias de que já estamos cansados. De fazermos vozes, de as tornarmos interessantes e de não deixar de lhes ler só porque eles já sabem ler sozinhos. Temos a obrigação de usar esse tempo de leitura em voz alta como forma de fortalecer os laços que nos unem, um tempo em que não estamos a olhar para o telemóvel, em que pomos de parte as distrações do mundo. Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: de procurarmos o significado das palavras e de como as utilizar, de comunicarmos de forma clara, de dizermos aquilo que queremos dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem ou fazer de conta que é uma coisa morta digna de reverência, mas devemos usá-la como uma coisa viva, que flui, que pede emprestadas certas palavras, que permite que, com o passar do tempo, os significados e as pronúncias se alterem. Nós, os escritores — todos os escritores, mas em especial os que escrevem para crianças — temos uma obrigação para com os nossos leitores: é a obrigação de escrever a verdade, o que é especialmente importante quando contamos histórias passadas em lugares imaginários sobre pessoas que não existem, de perceber que a verdade não está no que acontece mas no que isso nos diz sobre quem somos. Afinal de contas, a ficção é a mentira que diz a verdade. Temos a obrigação de não aborrecer os nossos leitores, de fazer com que eles sintam a necessidade de virar a página. Afinal de contas, a melhor cura para um leitor relutante é uma história que ele não consiga parar de ler. E ao mesmo tempo que temos de dizer aos nossos leitores coisas verdadeiras e de lhes dar armas e armaduras e de lhes transmitir os ensinamentos que nós próprios colhemos na nossa curta estadia neste mundo verdejante, temos a obrigação de não pregar, de não dar sermões, de não lhes darmos à força ensinamentos morais e mensagens previamente digeridos como fazem os pássaros quando dão alimentos às crias depois de os mastigarem. E temos a obrigação de nunca, em qualquer circunstância, escrever para as crianças coisas que nós próprios não gostaríamos de ler. Temos a obrigação de perceber e reconhecer que, enquanto escritores para a infância, o nosso trabalho é importante, porque se fizermos asneira e escrevermos livros aborrecidos que afastem as crianças da leitura e dos livros estaremos a encurtar o nosso próprio futuro e a reduzir o delas. Todos nós — adultos e crianças, escritores e leitores — temos a obrigação de sonhar acordados. Temos a obrigação de imaginar. É fácil pensar que ninguém pode mudar as coisas, que vivemos num mundo em que o peso da sociedade é enorme e que o indivíduo é pouco mais que coisa nenhuma: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que os indivíduos estão sempre a mudar o seu mundo, o futuro é feito pelos indivíduos e fazem-no imaginando que as coisas podem ser diferentes. Olhe à sua volta: estou a falar a sério. Pare por um instante. Olhe para esta sala em que nos encontramos. Vou referir algo tão óbvio que, por vezes, nos esquecemos disso. É isto: tudo aquilo que vê, incluindo as paredes, foi, a certa altura, imaginado. Alguém pensou que seria mais fácil sentarmo-nos numa cadeira em vez de nos sentarmos no chão e imaginou uma cadeira. Alguém teve de imaginar uma maneira de eu estar aqui a falar em Londres sem que estivéssemos a apanhar chuva. Esta sala e todas as coisas que aqui estão, e todas as restantes coisas neste edifício, nesta cidade, só existem porque as pessoas as imaginaram, vezes sem conta. Sonharam acordadas, refletiram, construíram coisas que não funcionavam lá muito bem, descreveram coisas que ainda não existiam a pessoas que se riam delas.

E então, no tempo certo, conseguiram fazê-lo. Os movimentos políticos, os movimentos pessoais, começam todos com alguém a imaginar uma outra forma de viver. Temos a obrigação de tornar as coisas belas, de não deixarmos um mundo mais feio do que aquele que encontrámos. (…) Certa vez perguntaram a Albert Einstein como é que poderíamos tornar os nossos filhos inteligentes. A sua resposta foi tão simples como sensata: «Se quiserem que os vossos filhos sejam inteligentes», disse, «leiam-lhes contos de fadas. Se quiserem que sejam ainda mais inteligentes, leiam-lhes mais contos de fadas.» Ele percebia o valor da leitura e da imaginação. Espero que sejamos capazes de dar aos nossos filhos um mundo em que eles leiam, em que lhes leiam, em que imaginem e compreendam. Obrigado por me ouvirem.

Palestra de Neil Gaiman na READING AGENCY, 2013

 

EDIÇÃO ORIGINAL

Título The View From the Cheap Seats

EDIÇÃO ELSINORE

Título O Que se Vê da Última Fila

Tradução Bruno Vieira Amaral

ISBN 978-989-8864-20-8

1ª edição outubro de 2017

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