A sina de Aprender

Andreas MullerOs Roma são um povo nómada tradicional. Vieram originalmente do norte da Índia e podem agora encontrar-se por todo o mundo, embora a sua maioria se encontre na Europa. Durante séculos, os Roma têm sido conhecidos como “ciganos”. Muitos consideram o termo cigano como pejorativo e preferem, portanto, que se use a palavra Roma, que significa ser humano. Muitos Roma falam uma forma de Romanes, uma língua estreitamente relacionada com as línguas indo-europeias modernas que se falam na Índia.

Na Noruega, não são mais de uns 500. Muito poucos terão completado o nível de ensino secundário inferior e nenhum tem qualquer título educativo formal superior a esse. Actualmente, mostram vontade de começar aprendizagens que lhes permitam uma melhor integração na sociedade.
Quem lê a imprensa norueguesa, tem rapidamente a impressão de que existem grandes desacordos e conflitos permanentes entre os vários clãs familiares que constituem o povo Roma. O que, até certo ponto, corresponde à verdade. Os ciganos, ou Roma, como preferem ser conhecidos, são um povo multicolor e emocional. Encontram-se numa situação difícil, pois querem preservar as suas características específicas e, ao mesmo tempo, fazer parte da sociedade global. Por outras palavras, têm que enfrentar desafios significativos. E as suas necessidades são particularmente elevadas no que se refere à educação formal e estrutural.

Aos Roma também se chama o Povo da Viagem e constituem um povo sem país. Todos os anos, encetam as suas viagens. Em tempos mais recentes, tornou-se cada vez mais difícil reproduzir esta prática. Encontram resistências e hostilidade por toda a parte para onde vão e, em muitos locais, vêem a entrada recusada em terrenos de acampamento. Viajam, geralmente, em grupos de 20-30 e todos os que constituem cada um destes grupos se encontram estreitamente relacionados. Quando estão em movimento, o chefe do grupo garante que cada membro recebe uma tarefa específica. Uma dessas tarefas é a responsabilidade pela educação das crianças durante a deslocação. Com frequência, cabe à mesma pessoa esta tarefa, anos após ano, o que faz dela um docente dentro do seu próprio meio.
Viajar é uma parte muito importante da sua cultura. Durante estas viagens, fazem comércio para ganhar dinheiro. Formam redes e é assim que os jovens encontram os seus parceiros de vida. Também se preocupam muito com a religião e muitos dos seus encontros colectivos estão associados a eventos religiosos.
Na Noruega, existem duas organizações Roma. Andreas Muller tem 50 anos e é Vice-Presidente de uma delas, a Norsk Romeforening ou Associação Roma Norueguesa. Encontrámo-lo em casa, com a esposa, Marina, e a filha mais jovem, Jamaica. É amigável e prestável e mais do que disponível para falar sobre as relações do povo Roma com a educação.
“Temos que começar a aprender agora”, diz Andreas, “É difícil fazer parte de uma sociedade moderna sem ser capaz de ler e escrever. Muitos de nós gostariam de ter um emprego a sério, mas não é fácil quando não sabem ler nem escrever. Tal como a maioria das outras pessoas, queremos ser independentes e possuir o nosso rendimento próprio. Queremos ser donos das nossas casas como toda a gente. E sem esquecer que precisamos imenso de saber o que fazer para começar e manter negócios na Noruega. É realmente importante para nós lidar com esta questão, alguma coisa tem que ser feita urgentemente quanto ao nível de educação da nossa gente”, afirma muito sério. “A maioria dos Roma, actualmente, está a receber subsídios do Estado. E, quando se está muito tempo a viver de subsídios, há sempre o risco de não se conseguir sair mais deste sistema. Tornamo-nos escravos sociais”, afirma Andreas. “Não se pode continuar assim”, sublinha.
Embora não tenham qualquer tipo de educação formal, digamos assim, sabem fazer imensa coisa. Quando viajam, estão envolvidos em várias formas de comércio. Por exemplo, vender tapetes ou afiar facas e outros utensílios. As mulheres Roma também vendem as suas artes de ler a sina. Portanto, são bons em aritmética mental prática. Mas, se lhes dermos uma folha de papel e pedirmos para fazer nela os mesmos cálculos, já não são capazes.
As competências que possuem são acarinhadas e passam de geração para geração. O modo de transmissão faz-se através de exemplos práticos, de canções e músicas e muitas vezes de histórias.
A Cidade de Oslo lançou um projecto de formação para adultos Roma, apoiado por verbas do Estado, em Outubro de 2007. A chefe do projecto, uma antropóloga social chamada Cecilie Skjerdal, utiliza métodos educativos alternativos, evitando assim a prática anterior de tratar este grupo étnico como mero “grupo-alvo”. A finalidade é construir um dispositivo educacional que ajude esta minoria a criar respeito pelas suas tradições e ponha em evidência, dentro de um contexto moderno, o respectivo povo e a sua cultura.
Por outras palavras, trata-se de um programa educativo especificamente desenhado. O programa é inteiramente voluntário e não implica qualquer forma de ambiguidade. Os participantes encontram um docente com experiência no trabalho com pessoas analfabetas ou com iliteracia funcional. Os destinatários são especialmente jovens adultos, provavelmente com filhos a frequentar a educação escolar primária e secundária inferior. O programa desenvolveu-se em colaboração com as próprias organizações dos Roma na Noruega. Um comité de coordenação supervisiona todo o processo, sob a égide do Departamento de Assuntos Culturais e Educação da Cidade de Oslo. Este comité também apoia as escolas onde haja alunos de origem Roma. O projecto de educação de adultos para Roma é considerado um dispositivo complementar. A longo prazo, espera-se que, se os pais tiverem competências básicas, poderão melhorar as capacidades dos seus filhos nos níveis da educação formal. A iniciativa da Cidade de Oslo revela o compromisso público para ajudar a conservar a cultura Roma como uma minoria na Noruega.

Tor Erik Skaar, in InfoNet 06.01.2010
 

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