A crise económica e a formação de base PDF Imprimir e-mail
08-Nov-2009
Este artigo escrito por Paul Bélanger analisa a crise económica actual e considera que os dois ou três próximos anos serão decisivos para o futuro das redes comunitárias e dos sistemas públicos de educação de adultos. A fase actual e o consequente despertar dos actores económicos e governamentais para a necessidade de elevar o nível geral de competências de base da população adulta são cruciais.
Paul Bélanger pertence ao Centre de Recherche et de Développement sur l’Éducation Permanente, CIRDEP/UQAM, Quebeque (Canadá) , foi Director do Instituto UNESCO para a Educação de Adultos e o responsável pela organização da CONFINTEA V em 1977.

Embora já importante, a procura de formação geral entre a população adulta está a conhecer uma subida significativa em todas as regiões do mundo. Por toda a parte, no Sul como no Norte, o domínio das competências de base tornou-se um direito e um instrumento indispensável para assegurar os restantes direitos – o direito ao trabalho, à saúde, à água, à alimentação de base pela melhoria da economia de subsistência, em suma, à qualidade de vida – assim como o respeito pela dignidade humana, pela inteligência… qualquer que seja o lugar do planeta onde nos encontremos.
No Sul, enquanto 750 milhões de pessoas continuam ainda privados de qualquer formação de base, a alfabetização dos adultos tornou-se uma aspiração social de primeira linha. É bom saber que os objectivos 3 e 4 da campanha mundial da Educação para Todos, objectivos que referem explicitamente a alfabetização de adultos, foram – após e apesar da Declaração de Dacar de 1999 – efectivamente esquecidos pela maioria dos países e das organizações de cooperação internacional, incluindo a Agência Canadiana de Desenvolvimento Internacional (ACDI).

É importante que a próxima Conferência Internacional sobre Educação de Adultos, CONFINTEA VI, a realizar em Dezembro no Brasil, adopte propostas visando corrigir esta marginalização da formação de base dos adultos.
No Norte, a alfabetização dos adultos é também essencial porque a economia de amanhã, quando sair desta crise prolongada, já não será a mesma. Mais de um terço da população activa dos países industriais avançados, com excepção dos países nórdicos, não dominam as competências de base. O nível e a qualidade de vida não poderão manter-se caso este estado de coisas ainda persista em 2011. Contrariamente ao que sucedia ontem, está em queda livre a percentagem de postos de trabalho que não exijam um bom domínio da comunicação escrita, regra de três, facilidade de cálculo mental, rudimentos de uma segunda língua e uma qualificação profissional de base. Tornou-se necessária uma elevação acelerada das competências básicas da população empregada ou à procura de emprego.
O tsunami da crise actual vai reduzir, em todos os países industriais avançados, o número de empregos não qualificados disponíveis. O nível mínimo exigido de competências de base está a subir. Basta visitar os locais de trabalho para o constatar. Aí poderão ver os encarregados de fazer entregas equipados com telescriptor e GPS, os vigilantes responsáveis por transmitir os seus relatórios por via electrónica, as operárias numa cadeia de produção a vigiarem e a reprogramarem várias vezes ao dia o painel de controlo do seu posto de trabalho, as vendedoras e vendedores nos grandes armazéns a desempenhar funções de aconselhamento, os trabalhadores da manutenção a operar em armazéns hoje transformados por uma produção “just in time” e uma gestão informatizada dos stocks, os operários metalúrgicos ou de pasta de papel a controlar as respectivas actividades transformadoras diante de três monitores e dois teclados. Tudo isto sem esquecer os pais de jovens inscritos no novo programa de ensino secundário ou ainda as pessoas idosas cujo único meio económico de manterem contacto com a família e o mundo passa pela informática.

Nas economias ditas em emergência, na Ásia e América Latina, os países possuem, apesar das desigualdades e dos desníveis entre áreas urbanas e áreas rurais, uma população activa cada vez mais instruída. Encontram-se agora à altura de se substituírem às nossas empresas tradicionais nos têxteis, plásticos, metalurgia, mobiliário, papel e muitos outros sectores.
Não tenho dúvidas. Quando sairmos da presente crise, as empresas que serão florescentes e os serviços e comércios que continuarão a enfrentar a concorrência deverão esse sucesso à introdução de novas tecnologias, a uma informatização dos postos de trabalho, a uma reorganização mais flexível do trabalho no seu interior e à difusão da capacidade de iniciativa por todos os níveis da sua estrutura. Tudo isto significa, para uma grande parte da população adulta, um acréscimo marcado das exigências em termos de competências chave.
É preciso também compreender bem que a tendência demográfica corrente que se regista na Europa, no Japão e na América do Norte, reduzindo a entrada de jovens no mercado de trabalho, torna mais difícil, se não impossível, a antiga estratégia de responder por novas contratações às necessidades de força de trabalho qualificada. Para retomar a expressão dos gestores de recursos humanos, as empresas terão que “contar com a prata da casa”, isto é, com os trabalhadores no activo, os quais deverão dominar as novas competências exigidas. Deste modo, os assalariados que receiam ser despedidos vão querer, desta vez numa base individual, melhorar as suas qualificações de base.
É agora o momento para se proceder à elevação da formação de base para uma percentagem importante da população, no seio da geração dos adultos. Esperar pela próxima geração levaria 30 anos e não se pode esperar tanto tempo.

Por estas razões, a maior parte dos países pós-industriais, neste período de crise, estão a apoiar políticas e programas de formação de base para adultos, suportando-os com políticas activas de emprego. É o caso, entre outros, da Alemanha, Austrália, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Japão. Estes países, e o Canadá também, já tinham participado, nos anos 90 e no início deste século, aos inquéritos internacionais sobre literacia. Foi mesmo na sequência destes inquéritos que a Suécia, apesar de possuir uma taxa de analfabetismo mais baixa que nos outros países, adoptou, logo em 1997, uma iniciativa nacional financiada com mais de mil milhões de dólares para permitir que, cada ano e durante 5 anos, 100.000 pessoas beneficiassem de uma licença remunerada de 12 meses para elevarem as suas qualificações de base.
Não só na Suécia, mas também e cada vez mais nos outros países industriais avançados, os governos e outros actores económicos têm consciência que as empresas, e também os adultos no activo, têm necessidade de antecipar situações críticas, elevando o seu nível de qualificação de base. Adoptam-se políticas activas de emprego que permitem aos desempregados utilizar este período de inactividade para se formarem, fomenta-se a formação de base no local de trabalho e criam-se condições que permitem às pessoas empregadas prosseguir a sua formação.

A literatura internacional nesta matérian (1) sublinha vários obstáculos que se colocam aos adultos empregados que decidem, com ou sem acordo do respectivo empregador, promover as suas competências de base. Entre outros, podemos mencionar o medo de falhar, a dificuldade de se organizarem para gerir a difícil conciliação entre trabalho-família-formação, a falta de informação ou ainda a inexistência de serviços acessíveis de aconselhamento e de orientação para poderem tomar as melhores decisões.  
Contudo, se os obstáculos são bem reais, as vantagens ainda o são mais, tanto para as pessoas como para as organizações. Para as pessoas, a formação alarga o acesso aos empregos disponíveis, melhora as condições de trabalho, diminui a segregação e permite uma maior autonomia no trabalho. Para as organizações, a formação leva a um acréscimo de produtividade, uma diminuição do absenteísmo e da taxa de erros na produção, assim como a uma aquisição mais rápida de novas competências por parte do pessoal.
No contexto da crise que conhecemos e da súbita expansão de políticas activas de emprego, os dois ou três próximos anos serão decisivos para o futuro das redes comunitárias e dos sistemas públicos de educação de adultos. A fase actual e o consequente despertar dos actores económicos e governamentais para a necessidade de elevar o nível geral de competências de base da população adulta são cruciais. O modo como as redes de formação, e especialmente as redes de alfabetização de adultos, responderão a estas questões, a atenção que lhes darão e a sua determinação para darem os seus contributos às acções que o contexto actual requer vão influenciar grandemente o seu futuro nos próximos quinze anos.
É preciso também lembrar que a procura de formação geral nos países desenvolvidos, tal como nos países em desenvolvimento, não está exclusivamente ligada ao trabalho. Isso foi assinalado recentemente em Lyon, em Fevereiro de 2009, por ocasião de uma conferência internacional da UNESCO sobre alfabetização nos países francófonos. Foi então sublinhado que também os pais procuram equipar-se melhor a fim de apoiarem os seus filhos na escola, em matemática, francês e inglês. As competências de base em saúde tornaram-se uma condição incontornável da eficácia do funcionamento de um sistema universal de cuidados de saúde. O conjunto da população adulta quer receber também uma formação de base em informática e melhorar as suas competências de base, a fim de comunicar com o exterior e inserir-se na sociedade das novas tecnologias. Alhin Byll Cataria, presidente da ADEA (Associação para o Desenvolvimento da Educação em África), sublinhou, nessa mesma conferência, que a alfabetização, enquanto instrumento de comunicação e de partilha de conhecimentos, deve fazer parte de todas as componentes da educação. E lembrou que o desenvolvimento de ambientes letrados se tornou, no dia a dia de hoje, uma condição indispensável para que o objectivo da Educação para Todos, incluindo para todas as pessoas adultas, seja atingido. E isso significa o acesso à comunicação escrita (acessibilidade aos media, à informação pública e aos livros) na língua materna e ainda o acesso a uma comunicação escrita compreensível produzida pelas instituições.
Sim, a formação de base encontra-se numa viragem importante do seu desenvolvimento. O acesso a uma formação de base, ao nível definido por cada sociedade como obrigatório, não pode admitir qualquer descriminação em função da idade das pessoas. Está em causa um direito fundamental, mas também um dos investimentos públicos mais rendíveis e duradouros entre todos os possíveis.
Não é apenas a economia que não conhece fronteiras. A vigilância sobre os direitos fundamentais, entre os quais o direito à educação de base, também atravessa todos os continentes.

Epílogo:
Como facilitar então a participação dos adultos empregados na formação de base?
Da literatura internacional, podem retirar-se algumas grandes recomendações:
- A necessidade de acções de sensibilização à procura de formação de base e à expressão dessa procura;
- O recurso a serviços personalizados de acolhimento, referência, aconselhamento e acompanhamento;
- A contextualização das acções de alfabetização e a participação nas decisões de todas as partes envolvidas;
- A adopção de medidas para facilitar o acesso à formação de base no local de trabalho, como o tempo partilhado, a alternância, a licença remunerada para educação-formação;
- A oferta de actividades de formação segundo horários adaptados à maioria dos adultos (este público - os adultos empregados que se inscrevem à noite e ao fim-de-semana - está em plena expansão nos Estados Unidos);
- A importância de um acompanhamento durante e após a formação.  
(Bélanger & Daniau, 2008, p. 34)

In Revista “à lire en ligne”, nº 15, Primavera 2009, pp. 25-26
www.fcaf.net/alire

(1) Ver P. Bélanger e S. Daniau, La formation dans les petites et moyennes entreprises: pratiques et modèles novateurs. Synthèse bibliographique internationale, Montreal, CIRDEP, UQAM, 2008.

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