Genealogia dos Conceitos de Educação de Adultos PDF Imprimir e-mail
08-Jan-2012

 Capa do livro

Genealogia dos Conceitos de Educação de Adultos
Genealogia dos Conceitos em Educação de Adultos:
Da Educação Permanente à Aprendizagem ao Longo da Vida
– Um estudo sobre os fundamentos político-pedagógicos da prática educacional
Rosanna Barros

Rosanna Barros, autora do livro que, agora, é objeto desta recensão crítica, é professora adjunta da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve, na qual é diretora do Curso de Educação Social, membro da Comissão Coordenadora do Mestrado em Educação Social e Coordenadora da Área Científica de Educação Social. É Investigadora Integrada do CIEd – Universidade do Minho – e Investigadora Colaboradora do CIEO – Universidade do Algarve. A autora é licenciada em Antropologia Social e Cultural, mestre em Sociologia do Desenvolvimento e da Transformação Social, ambos pela Universidade de Coimbra, é pós-graduada em Direitos Humanos e Democratização, pela mesma universidade, e em Desenvolvimento Comunitário, pela Universidade de Sevilha. É doutora em Educação, pela Universidade do Minho.
O seu livro aqui recenseado é provido de um forte, e nunca oculto, posicionamento político da autora relativamente à prática educacional, em geral, e à prática educacional de adultos, em particular, entendida em todas as suas dimensões. Rosanna Barros recusa a possibilidade de existência de um olhar despolitizado sobre os conceitos críticos e pedagógicos do campo da educação de adultos, alertando, de forma muito sustentada, para o processo de “ressemantização política” (p. 20) que, nas últimas décadas, tem atingido o quadro crítico e conceptual da educação de adultos e assumindo-se como defensora de uma educação de adultos em contracorrente, em que as prioridades sejam a apologia da democracia solidária e a transformação social em benefício de cada ser humano e da sociedade, em geral.
A obra organiza-se em duas partes: na I Parte, a autora aborda analiticamente questões de heurística na Educação de Adultos, estabelecendo um mapa (inter)nacional dos conceitos e fundamentos educacionais gerais. Nessa análise, a autora define os conceitos de educação, formação, aprendizagem, ensino e desenvolvimento como os nucleares na área global da educação e estabelece entre eles ordens de relação preferenciais que devem ser conceptualmente contextualizadas a bem da clarificação do conceito de educação de adultos, até porque “os conceitos servem … a comunicação” (p. 21). No que se refere à educação de adultos, em particular, os conceitos centrais são os de adulto/adultez, experiencial, formal, não formal e informal.
Rosanna Barros sublinha, nesta I Parte, a “metamorfose discursiva”, a “flutuação terminológica” e a “insuficiente teorização” (p. 40) como os principais fatores responsáveis pela manipulação discursiva a que a identidade da educação de adultos tem sido sujeita.
Na II Parte, a autora aporta a genealogia dos conceitos em Educação de Adultos, percorrendo e problematizando (inter)nacionalmente perspectivas político-filosóficas estruturantes do setor. Assim, a autora problematiza aqueles que considera serem os binómios conceptuais fundamentais na educação de adultos, nomeadamente, educação permanente, sociedade da aprendizagem, organização qualificante e aprendizagem ao longo da vida, lançando a dúvida de que a educação cumpra atualmente a sua dupla missão de, por um lado, potenciar o enraizamento de cada indivíduo à ordem social que o precede e, por outro, impulsionar a transformação do indivíduo e da sociedade.
  Barros refere que, apesar de a educação de adultos, entendida na sua tridimensionalidade, ser inerente à vida do ser humano e, por isso, a todos os tempos e a todos os espaços, a definição de um conceito de educação de adultos é historicamente recente, estando vinculado à formação e ao desenvolvimento dos sistemas de educação escolar ocidental modernos, sobretudo a partir da revolução francesa, em que os Estados abraçam a missão de alfabetizar e formar profissionalmente as pessoas. No entanto, são as agências organizadas da ONU, principalmente a UNESCO, que, depois da II Guerra Mundial, sistematizam o conceito e criam as condições para que este se constitua como um campo específico da educação, o qual virá a ser fortemente afetado por “perspectivas teóricas e disciplinares sobre as metodologias das práticas da educação de adultos” (p. 96) e por “perspectivas políticas e filosóficas sobre as ideologias dos discursos da educação de adultos” (p. 96).
Assim, a autora concebe a sua reflexão sobre as práticas e os discursos em educação de adultos a partir das dimensões émica e ética, indagando sobre a relação entre o saber e o poder no campo da educação de adultos, ao longo dos tempos. Centrando a sua análise nos binómios conceptuais de educação permanente e de aprendizagem ao longo da vida, Rosanna Barros apresenta-os como paradigmas educativos radicalmente opostos ao nível das suas géneses históricas e políticas, ao nível do papel, da missão e da intencionalidade que lhes são atribuídos, mas também ao nível da visão do mundo que existe e do mundo que se quer que exista.
A autora começa por demarcar claramente duas épocas, caracterizadas por visões político-filosóficas diferentes: uma primeira, na última metade do século XX, que intitula de dourada, e que é caracterizada pela expansão mundial de práticas de educação de adultos, de acordo com a perspectiva da educação permanente, e acompanhada por elevados índices de crescimento económico nos países ricos. A outra época, à qual a autora chama negra, rapidamente substitui a de ouro, e é caracterizada pela perspectiva da aprendizagem ao longo da vida. É de salientar que as duas perspectivas atribuem papéis e missões manifestamente contraditórias à educação de adultos: se a primeira desabrocha enquanto tentativa de defesa do bem comum através da edificação de uma sociedade de aprendizagem (p. 182), a segunda surge nos anos oitenta e afirma-se quase de forma hegemónica do ponto de vista teórico e conceptual no início do século XXI, como estratégia de defesa dos interesses privados através da estruturação de uma sociedade cognitiva (p. 182). No que à aprendizagem ao longo da vida diz respeito, podemos afirmar sem reservas que esta representa uma visão da sociedade em que imperam, ao contrário do que é divulgado, o desprezo do potencial educativo dos ambientes em que os indivíduos e os grupos se inserem, assim como a depreciação da educação informal em função das modalidades formal e não formal, e a consequente fragmentação entre as três dimensões educativas. Estas características são apontadas pela autora como agentes de subversão educativa deliberada.
Barros acautela o leitor para o facto de a opção política por um ou por outro paradigma educativo ter implicações bem distintas, mas igualmente sérias, na vida dos indivíduos e da sociedade: enquanto a educação permanente é legatária de uma tradição de manancial crítico fundado nas correntes de pensamento marxista e neo-marxista, e se eleva a partir dos ideais democráticos e da defesa dos direitos humanos, a aprendizagem ao longo da vida é descendente de uma tradição tecnocrática e gestionária alicerçada na escola de pensamento funcionalista. Enquanto a educação permanente pretende que o ser humano se construa como cidadão e sujeito ator do seu processo existencial, a aprendizagem ao longo da vida pretende convertê-lo em objeto. A pessoa já não interessa enquanto cidadã, mas enquanto consumidora de qualificações e competências, o que a coloca ao serviço da lógica economicista e de mercado. Assim, enquanto a primeira se assume, na sua essência, autêntica e transformadora, a segunda, sendo-o na sua aparência, apenas pretende a todo o custo (custo do trabalhador) o aumento da eficácia da atividade produtiva, a gestão da força de trabalho, a prevenção da conflitualidade social e a promoção da adaptabilidade da pessoa através do desenvolvimento de competências.
Ora, se a verdadeira prática de educação de adultos é a que se entende não como fim, mas como meio de consciencialização, que conduzirá à acção transformadora e libertadora, a aprendizagem ao longo da vida não pode ser considerada como tal, já que ela não promove nem deseja a reflexão, a problematização e a comunicação. No seu âmago, o paradigma da aprendizagem ao longo da vida procura, por todos os meios ao seu alcance, impedir o ser humano de realizar a sua vocação ontológica de ser, assegurando-se de que este é um filiado não crítico, que não oferece qualquer resistência ao atentado pessoal e social de que é vítima. Se nos lembrarmos de que vivemos numa altura em que o consenso neoliberal apregoa o crescimento e a estabilidade económicos alicerçados na redução de custos laborais, saberemos que agora, mais do que nunca, é importante cultivar a consciência crítica e questionar a atual distribuição social de poder.
 Por conseguinte, a autora afirma que a disseminação da aprendizagem ao longo da vida, a qual é, indubitavelmente, “a perspectiva político-filosófica dominante neste início de século” (p. 150), significa a destruição efetiva dos ideais da educação permanente e um empobrecimento do campo da educação de adultos já que, nesta perspetiva, a educação de adultos é equacionada como apenas mais um serviço em prol do consumo, perdendo, assim, todo o cariz de base comunitária e popular. Desta maneira, assistimos à substituição do paradigma da educação permanente, o qual impele “à salvaguarda da democratização da sociedade … e à transformação social, cuja finalidade tem sido ao longo do tempo a de contribuir para criar comunidades mais esclarecidas e sociedades que sejam tendencialmente mais justas e mais livres” (p. 185), por um outro – o da aprendizagem ao longo da vida – que instrumentaliza o ser humano em todas as suas dimensões, transformando-o em títere da lógica neoliberal e individualista. A pessoa e a sociedade querem-se, assim, destituídas do seu carácter político, atuante e interventivo. Ao invés de se ajustarem os pressupostos e interesses da economia para que estes possam servir o interesse humano, obriga-se o ser humano a ajustar-se à lógica da economia para que este possa servir os pressupostos e interesses económicos. A pessoa é, assim, sufocada na sua essência.
Prescinde-se da educação permanente, que busca a construção de uma sociedade em que todos, independentemente da sua idade ou situação face ao emprego, aprendem com todos e em que as instituições, suportadas por um Estado responsável pelas suas políticas nacionais, trabalham em relação na defesa do bem comum, da solidariedade e da emancipação social, em favor da aprendizagem ao longo da vida, a qual direciona a sua ação dita educativa apenas para a população em idade ativa, pretendendo enclausurar a pessoa na ordem social existente, não lhe reconhecendo autonomia para pensar e atuar de forma heterodoxa. De acordo com esta perspectiva, as instituições trabalham em não relação, de forma isolada, no resguardo de interesses privados e de acordo com políticas que, apesar de serem aplicadas ao nível nacional, são definidas ao nível transnacional.
A autora afirma, por isso, o desejo de que a verdadeira utopia se cumpra: não é uma utopia sinónima de intangibilidade, mas aquela que encontra o seu significado no anseio de alcançar uma realidade democrática e igualitária, na qual ninguém fique impossibilitado de realizar o seu potencial humano. Nesta busca pela utopia, os construtores teórico-pedagógicos críticos são imprescindíveis. Principalmente, ouso dizer, os do mundo ocidental em geral, e da Europa, em particular, os quais têm muito a fazer. Atualmente, e devido a toda a conjuntura política, social e económica, não podemos aceitar a educação de adultos que nos é proposta pelas organizações ocidentais, pois também elas definiram os seus programas com base nas imposições dos mercados de investimento, também elas se contentam com uma sociedade em que os insolventes e os pobres não sejam demasiados (de acordo com os seus critérios), mas sejam os necessários para manter o sistema a funcionar. E, assim, corremos o risco de prepararmos as pessoas para o mercado de trabalho, mas não as prepararmos para a vida; ensinarmos as pessoas a ler, a escrever, a dominar as tecnologias e a competir, mas não as ensinarmos a serem solidárias, colaborativas, éticas e sensíveis à pessoa do outro, o que terá consequências nefastas na construção de uma sociedade que, cada vez mais, é menos igualitária, pacífica e feliz.
Por conseguinte, na Conclusão do seu livro, Rosanna Barros afirma, com mestria e sensibilidade, que “a luta contra o neoliberalismo terá de ser feita … também pela via do simbólico, ou seja, pela reconstrução do pensamento político-pedagógico em moldes teórico-conceptuais que contribuam colectivamente … para desnaturalizar as novas/velhas formas de opressão e desmistificar a consciência da realidade” (p. 192). Neste sentido, esta publicação é incontestavelmente um contributo importante para todos os que se preocupam com o presente e o futuro da educação de adultos: não só apresenta uma discussão profunda sobre a influência da globalização neoliberal nas conceções educativas veiculadas por diversas organizações internacionais de naturezas distintas, como a ONU ou a OCDE, como também questiona as consequências a nível humano (individual e social) que daí advêm, lançando um repto de resistência discursiva e educativa a todos os que subscrevem a urgência da adoção de uma “construção teórico-pedagógica crítica, elaborada e convocada no campo da educação de adultos” (p. 186).

Dezembro de 2011.
Dora Valério Luís
Centro Comunitário de Estoi, Algarve.

Autora: Rosanna Barros
Editora: Chiado Editora
Colecção: Compendium
Tema: Educação
Ano: 2011
Livro de capa mole
Páginas: 220 págs
ISBN 9789896971960 
Preço: €14.00

 

 
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No próximo dia 13 de Dezembro, entre as 14,30h e as 17,30h, no Anfiteatro 1 – Francesinhas 1 do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa) o primeiro dos seminários sobre Educação da População Adulta do projeto Pensar a Educação em Portugal 2015.
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