Desenvolvimento Sustentável e Aprendizagem ao Longo da Vida
A aprendizagem ao longo da vida dirige-se actualmente para o desenvolvimento de competências visando a competitividade empresarial sendo sufocada a defesa de retaguarda da finalidade social da educação, em grande parte, pelas exigências de metas de gestão por parte dos executores polÃticos.
O discurso dominante sobre o Desenvolvimento Sustentável tornou-se um complemento para esta abordagem económica e é incapaz de reconhecer os limites para a sustentabilidade ecológica, e muito menos as exigências da justiça social e ambiental.
A aprendizagem ao longo da vida precisa de ser capaz de responder às necessidades de aprendizagem dos grupos envolvidos na luta, bem como gerar diálogos com esses grupos, os conhecimentos especializados e a aprendizagem societal mais ampla.
Este é o tema do artigo de Eurig Scandrett da Universidade Queen Margaret em Edimburgo na Escócia, de que divulgamos parte em português.
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Aprendizagem ao Longo da vida
As conceções atuais da aprendizagem ao longo da vida orientam-se tendencialmente para interpretações economicistas contra interpretações humanistas. O relatório Leitch (para saber mais sobre este relatório ler este artigo publicado no nosso site: "Custos da Literacia") começa por referenciar as implicações económicas de um baixo nÃvel de competências e as mudanças demográficas para argumentar a favor de uma aprendizagem ao longo da vida que seja melhor a proporcionar aos adultos as competências que os empregadores precisam para competir num mercado global. A inclusão social é conseguida através do emprego e a competitividade através do aumento da produtividade. A crÃtica a esta abordagem vem tendencialmente do argumento humanista liberal que afirma que a educação tem um valor intrÃnseco, ou que a inclusão social exige cidadania democrática. Defende a finalidade social da educação contra a aprendizagem ao longo da vida instrumental.
No entanto, esta distinção pode servir para reforçar uma dicotomia entre o económico e o social, cada um com os seus próprios campos de conhecimento, competências e cultura que podem ser desenvolvidos através da aprendizagem/educação. Mesmo nas suas formas mais fracas, o Desenvolvimento Sustentável enfatiza a integração do económico, social e ambiental e, portanto, pode proporcionar, potencialmente, uma oportunidade para reinjectar fins sociais nos objetivos económicos e humanizar a economia.
Muitas interpretações teóricas de educação ou aprendizagem para o Desenvolvimento Sustentável apoiam-se nas crÃticas pós-estruturalistas e pós-modernas do positivismo para defender a existência de múltiplas fontes dos conhecimentos parciais numa sociedade de aprendizagem. Estes reconhecem os diversos contextos em que a aprendizagem ocorre, desde a educação formal à aprendizagem acidental, e destacam as oportunidades de aprendizagem em situações complexas com incomensuráveis epistemologias. No entanto, também tendem a desligar esses conhecimentos da história e a ignorar os interesses sociais de que estão embebidos. Argumenta-se que uma compreensão mais dialética de diversos exemplos de aprendizagem formal e informal pode reconhecer a complexidade e a incomensurabilidade sem abandonar um compromisso ético com a justiça social e ambiental.
Em particular, assim como os impactos de uma economia não sustentável se distribuem de forma desigual, também são desiguais as fontes de conhecimento e de práticas para a sua transformação. As lutas pela justiça ambiental, que expõem as falhas na economia e que incorporaram os interesses de suas vÃtimas, têm uma vantagem epistemológica. O desafio da aprendizagem ao longo da vida é criar oportunidades para o diálogo com esses movimentos, e as ferramentas para isso podem encontrar-se nas tradições ricas da educação popular, da educação ao longo da vida e da educação radical de adultos.
O que Ettore Gelpi escreveu da educação ao longo da vida, quando a atual onda de globalização estava no inÃcio, aplica-se bem à aprendizagem ao longo da vida hoje.
"O caminho desde o conceito de educação ao longo da vida até à sua concretização é caracterizado por lutas na vida social e nas instituições educativas em áreas tais como: o tipo de relação entre a educação formal e não-formal, ou seja dialética ou dependente; o contributo para atividades educativas de tais educadores não docentes tais como movimentos culturais, sociais e polÃticos; os critérios para avaliar a eficácia do sistema educativo, tanto interna como externamente; a dimensão até onde é encorajada a auto-aprendizagem, especialmente a de carácter coletivo".
Ao longo dos últimos 20 anos têm existido muitos exemplos de aprendizagem para o desenvolvimento sustentável, nomeadamente o alargamento da consciência pública, a educação formal, o desenvolvimento comunitário, a sociedade civil, a formação profissional, a educação sindical e a aprendizagem em movimentos sociais. Apesar de vários exercÃcios de mapeamento e avaliação, parece existir pouca investigação sistemática sobre os impactos totais de diferentes formas de aprendizagem ao longo da vida sobre a transição para o Desenvolvimento Sustentável. Apesar de exemplos de boas práticas, não parece que estes exemplos tenham contribuÃdo grandemente para uma sociedade de aprendizagem para o Desenvolvimento Sustentável, em grande parte porque as contradições nos interesses sociais incorporados nessas práticas de aprendizagem ao longo da vida não são adequadamente confrontadas. Em contraste, devem ser salientados exemplos, incluindo a investigação atual nos movimentos de justiça ambiental, para explorar até que ponto é que ocorre a aprendizagem que pode levar à transformação da economia que o Desenvolvimento Sustentável exige.
Oportunidades
O conteúdo do currÃculo da aprendizagem ao longo da vida para o desenvolvimento sustentável emerge, provavelmente, não dos empregadores ou de provedores de educação, mas dos conflitos sociais. Enquanto existe um número crescente de conflitos militares entre estados e grupos poderosos decorrentes da competição por recursos escassos, os conflitos sociais suscetÃveis de proporcionar recursos culturais valiosos para a aprendizagem ao longo da vida são os que ocorrem enquanto conflitos de interesses e posições contraditórias dentro das comunidades, entre as classes, nos locais de trabalho, devido a migrações e em ordens de género. Os educadores devem estar preparados para responder de forma imprevisÃvel e uma estratégia de aprendizagem ao longo da vida para o Desenvolvimento Sustentável terá necessidade de facilitar este processo.
Os atores sociais em tais conflitos aprendem de diversas formas, mas não totalmente desestruturadas. Evidências sugerem que conhecimento e competências podem decorrer de oferta educativa formal, se for projetada adequadamente, mas também do contato com 'educadores' informais que podem ser atentos académicos, dirigentes sindicais, funcionários públicos, trabalhadores comunitários, especialistas de legislação e sites.
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Conclusão
Atualmente a aprendizagem ao longo da vida dirige-se para o desenvolvimento de competências visando a competitividade empresarial com uma defesa de retaguarda da finalidade social da educação sufocada, em grande parte, pelas exigências de metas de gestão por parte dos executores polÃticos. Isso serve os interesses de uma economia global dominada pelo neoliberalismo e pela interferência das relações de mercado em todos os aspetos da sociedade. O discurso dominante sobre o Desenvolvimento Sustentável tornou-se um complemento para esta abordagem económica e é incapaz de reconhecer os limites para a sustentabilidade ecológica, e muito menos as exigências da justiça social e ambiental. No entanto, as contradições desta trajetória económica que proporcionam uma importante fonte para os curricula, emergem frequentemente nos conflitos sociais, mais seriamente mas não exclusivamente, nos paÃses do Sul. A aprendizagem ao longo da vida precisa de ser capaz de responder à s necessidades de aprendizagem dos grupos envolvidos na luta, bem como gerar diálogos com esses grupos, os conhecimentos especializados e a aprendizagem societal mais ampla.
Para saber mais sobre Eurig Scandrett ver aqui:
Pode ler o artigo completo em inglês aqui:
Lifelong learning for ecological sustainability and environmental justice
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