O Património não é o Culto das Coisas Antigas

O nº 19 da revista Dirigir&Formar é dedicada ao «Património Cultural», reunindo um conjunto de textos com diferentes perspetivas que pretendem promover a reflexão sobre uma temática cuja compreensão é tão importante para o aumento da consciência dos valores que fundam a nossa cidadania, especialmente nos dias que correm na Europa.

Esta edição da revista abre com uma entrevista ao Coordenador Nacional do AEPC, Professor Guilherme d’Oliveira Martins, que refere que “o património, não é o culto das coisas antigas. O património é a vida de hoje”.

Divulgamos aqui parte desta entrevista bem como parte do artigo “Um Olhar sobre a Gastronomia Enquanto Património Imaterial” incluídos nesta revista editada pelo IEFP, que é distribuída em suporte papel, mas que também está disponível online.

Entrevista a Guilherme de Oliveira Martins

O Património não é o Culto das Coisas Antigas

Entrevista da jornalista Rita Vieira

O património não é o culto das antigualhas, não é o culto das coisas antigas. O património é a vida de hoje. Trata-se de um conceito dinâmico. Quem o diz é Guilherme de Oliveira Martins. O coordenador nacional do Ano Europeu do Património Cultural defende ainda que é essencial preservar e respeitar a diversidade cultural numa altura em que há tantas incertezas e ameaças na Europa. E, alerta, «não estamos vacinados contra a intolerância».

Dirigir&Formar: O objetivo do Ano Europeu do Património Cultural é o de sensibilizar para a história e os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade europeia. Que importância tem a decisão da União Europeia de consagrar 2018 como o ano do Património

 Cultural numa altura em que há tantas incertezas e ameaças na Europa?

Guilherme de Oliveira Martins: A escolha do ano deve-se exatamente às grandes dúvidas e às grandes incertezas que vivemos na Europa e a um sentimento que muito nos preocupa, que é o medo do outro e o medo do diferente. Jacques Delors, que foi durante dez anos presidente da Comissão Europeia, insiste muito na necessidade de considerar para a União Europeia alguns objetivos que são absolutamente essenciais. O primeiro é o de criar um espaço de paz e segurança. Não nos podemos esquecer que a União Europeia nasce depois da Segunda Guerra Mundial e da situação trágica que matou milhões de pessoas, em circunstâncias que eram imprevisíveis até então. Em segundo lugar, a ideia de desenvolvimento sustentável. Perguntar-me-á: mas a ideia de desenvolvimento sustentável tem alguma coisa a ver com património? Tem tudo, uma vez que o património é uma noção dinâmica. O património é aquilo que recebemos das gerações anteriores e aquilo que transmitimos às gerações futuras. Etimologicamente, património transmite uma noção de movimento, uma noção não estática. Ora, só seremos fiéis relativamente àquilo que recebemos dos nossos antepassados se pudermos ter um valor acrescentado. Essa é a razão pela qual quando falamos do património, falamos da preservação da diversidade cultural. A Europa não pode esquecer as suas raízes – não nos podemos esquecer de onde vimos, de quem somos, para onde vamos –, mas não esquecer as nossas raízes significa considerar que as raízes são múltiplas. Portugal, por exemplo, é um melting pot, ou seja, tem várias influências, daí a nossa hospitalidade. Uma sociedade só pode ser hospitaleira se conhecer os outros e se estiver habituada a recebê-los como algo natural. Muitas vezes, o que nós infelizmente vemos é o receio da diferença, o receio da diversidade e a consideração da identidade como algo fechado. Ora, uma identidade fechada é uma identidade morta.

D&F:  A Convenção-Quadro do Conselho da Europa relativa ao Valor do Património Cultural na sociedade contemporânea foi assinada em Faro, em 2005. Um dos objetivos era refletir sobre a noção de património cultural comum e construir um conceito de responsabilidade partilhada – envolvendo o património construído e material, o património imaterial e a criação contemporânea. O que foi feito daí para cá? Mudou alguma coisa?

G. O. M.: Mudar, mudou. Eu sou suspeito porque fui eu que fiz o trabalho de coordenação do Conselho da Europa que conduziu à assinatura, em outubro de 2005, dessa Convenção, que entrou em vigor no dia 1 de junho de 2011.

Mudou a própria conceção, o próprio entendimento. Antes de mais, passou a existir uma ideia dinâmica de património, considerando o património construído – as edificações –, o património artístico e arqueológico – o material –, aquilo que designamos como as pedras mortas, e o património imaterial, o património intangível, aquilo que consideramos serem as pedras vivas, como as tradições, as línguas, os hábitos e costumes e a gastronomia.

Depois temos também as paisagens, a imagem do país, a imagem da realidade que nos cerca e, por fim – e isto é completamente novo –, a relação com a criação contemporânea. Isto é particularmente importante uma vez que o património está sempre em atualização, em mudança.

D&F: Defende precisamente isso, que devemos acabar com esta ideia «estática e passadista» do património?

G. O. M.: Sim. Aliás, no livro que acabo de publicar, Ao Encontro da História – O Culto do Património Cultural, começo por dizer que o património não é o culto das antigualhas, não é o culto das coisas antigas. O património é a vida de hoje.

D&F: Nesse livro diz também que ter memória é respeitarmo-nos...

G. O. M.: Exatamente, e quando digo que a memória é respeitarmo-nos significa, naturalmente, irmos à essência

O património não é o culto das coisas antigas

daquilo que é essa relação entre o património, a herança e a memória. A criação contemporânea significa que, nas nossas cidades, as questões do urbanismo são muito

 importantes, assim como a questão do diálogo que tem que se estabelecer entre aquilo que fazemos de novo e aquilo que recebemos. Tudo isso é algo extraordinariamente importante nesse conceito dinâmico de património.

D&F: Quais são os principais desafios que o património cultural enfrenta?

G. O. M.: Antes de mais o desafio político, de respeitarmos as diferenças, de as aceitarmos, de compreendermos que as identidades não podem fechar-se sobre si. Perguntar-me-á: mas isso parece uma realidade óbvia. Não é tão óbvia assim. Quando olhamos em volta na Europa, nalguns casos que nos preocupam, a noção de identidade torna-se numa ideia fechada, estática, uma ideia de autossuficiência. Uma identidade tem sempre de ser uma realidade aberta. E no caso português, sobretudo, é preciso recusarmos um certo fatalismo de atraso, de marginalidade. Para os portugueses, falar de identidade é particularmente fácil em virtude da grande riqueza do nosso património e do facto de termos tido no nosso território uma encruzilhada fantástica de várias influências. Mas não estamos vacinados contra a intolerância, não estamos vacinados contra o chauvinismo.

(…)

Artigo

Um Olhar sobre a Gastronomia Enquanto Património Imaterial

Luís Lavrador, professor da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra

A importância da formação nas escolas de hotelaria e turismo

É apenas em 2003 que a UNESCO reconhece o «património cultural imaterial». Falamos das práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – juntamente com os instrumentos, objetos, artefactos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante do seu património cultural. Tal património, que é transmitido de geração em geração, deverá constantemente ser recriado pelas comunidades e grupos em função do seu ambiente, da sua interação com a natureza e da sua história, gerando um sentimento de identidade em continuidade e contribuindo deste modo para promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana. É neste quadro que a gastronomia se insere.

De então para cá, a gastronomia tem sido cada vez mais valorizada por todos os quadrantes da nossa sociedade, em particular como fator de identidade étnica, estando hoje a viver-se uma autêntica «loucura» à sua volta. Bem sabemos que esta explica quase tudo o que é deste e do outro mundo, que desconhecemos. E ainda bem que assim é! Finalmente, a gastronomia salta para a ribalta cultural, social e até política! Bem sabemos que, além disso, o universo gastronómico, pelas suas características diferenciadoras, virtualidades de espelho cultural e como fator de sustentabilidade territorial, constitui-se como um património poderoso e estratégico de que o turismo se apropriou como atrativo, gerando valor em rede nos sítios visitados.

O campo de ação do património gastronómico é de tal modo amplo e fundamental para definir o contexto humano que se torna impossível, neste curto e despretensioso artigo, analisar toda a sua amplitude significativa. Assim, vamos tão-só relevar o papel das escolas que o ensinam, o inovam e transmitem. Estas, que no seu sério e silencioso labor (por vezes desconsiderado!), e sem que ninguém dê conta, têm sido as responsáveis por conduzirem ao «alarido» em que a gastronomia se vê hoje envolvida. Não falta quem (indivíduos e instituições) procure arrecadar para si os louros para tamanho êxito gastronómico em Portugal. Saliento, com muito agrado, que ainda não vi qualquer escola reivindicar tal triunfo, o que seria da maior justiça se o fizesse. Mas não... uma atitude que se não estranha pois, nestes santuários do saber, o mais relevante, o que maior motivação gera e o foco para onde convergem todas as energias, é ensinar diariamente os aprendizes a transformarem o «saber-fazer» em conhecimento útil para as pessoas.

Embora muitos possam não o reconhecer, a grandeza e a arma do sucesso de tais instituições em que, por vezes, a pedagogia e a economia dos afectos, pedra angular para se alcançar todo e qualquer sucesso, se suplanta à técnica, assume-se na simplicidade e no recato dos profissionais que aí trabalham. Ensinar gastronomia é ensinar a ler-se e a ler o outro, naquilo que cada um tem de próprio. Todavia, no meio de tanto «alvoroço», estes que ao longo de mais de meio século têm ensinado e animado tantos a saberem cuidar deste património vivo e dinâmico a dar os seus frutos, não deviam ser esquecidos, como se a sua «missionação» de pouco ou nada valesse. A mão amiga, sábia e forte que dispensam na nobre missão de cultivar mulheres e homens para centrar a gastronomia como um desígnio nacional devia ser mais reconhecida para que as profissões a esta associadas também o fossem.

Não temos dúvidas de que a cadeia de valor que hoje resulta de uma gastronomia séria, autêntica, genuína, identitária, diferenciadora e singular, renovada e ativa, sustentável e competitiva, de curta pegada ecológica e variada, esteticamente desejada e com futuro, se deve em particular ao árduo trabalho desenvolvido diariamente nos alfobres vocacionais que são as escolas. Bem sabemos que ainda não se chegou a qualquer porto, nem isso é o desejado. A ambição dos «marinheiros», autênticos «sacerdotes» do bem-fazer, é continuarem a remar, com a energia de sempre, rumo à excelência, que é o lema segundo o qual todos, nestes organismos, se reveem.

Nas escolas ensina-se que a gastronomia é um discurso comum a todos sobre o prazer da mesa e, como parte integrante da cultura, está implicada na apreciação do pulsar do mundo, no que este tem de positivo e negativo, o que hoje se tornou uma paixão devido a muitas contribuições, como a dos media. Enquanto espaço crítico, criativo e comunicacional, a escola valoriza a diversidade. Sempre assim foi, pois sabemos que já os antigos egípcios, judeus, gregos e romanos viajavam em busca de uma gastronomia que lhes proporcionasse semelhantes sensações.

(…)

Outros artigos que poderá ler neste número:

- O património não é o culto das coisas antigas

- Ano Europeu do Património Cultural: 2018 será apenas o começo

- Turismo cultural em ano europeu do património

- O património natural como potencial de desenvolvimento sustentável

- Sintra, memória e património – a diacronia do discurso histórico

- Cinco anos de património mundial no Ano Europeu do Património Cultural

- A língua portuguesa no mundo – o hoje e o futuro

- Da licenciatura ao mestrado, conservação e restauro de materiais pétreos

- O património natural como potencial de desenvolvimento sustentável

- A língua portuguesa no mundo – o hoje e o futuro

- Da licenciatura ao mestrado, conservação e restauro de materiais pétreos51

Poderá ler aqui todos os artigos do Nº 19 da revista Dirigir & Formar

D&F n.º 19 (PDF)

D&F n.º 19 - eBook (ePub)

D&F n.º 19 Separata (PDF)

D&F n.º 19 Separata - eBook (ePub)

Também poderá ler todos os números da revista D & F - Revista para Gestores e Formadores aqui: https://www.iefp.pt/publicacoes-iefp

A revista D & F - Revista para Gestores e Formadores, resulta da fusão das revistas Dirigir e Formar.

Os destinatários da revista são os quadros e chefias intermédias, os gestores e dirigentes de empresas, os profissionais ligados à educação-formação, os professores e os estudantes destas áreas.

 

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