Porque estamos a deixar desaparecer a Educação de Adultos?

Precisamos de um sistema de ensino dinâmico para enfrentar os desafios de um mercado de trabalho em constante mudança. A falta de investimento na educação de adultos não é boa economia - poupa custos hoje à custa de amanhã.

Quem afirma isto é Matthew Bevington num artigo publicado no passado mês de Abril na revista Inglesa “The New Statesman”.

Estando centrado na realidade inglesa, julgamos que as questões colocadas se ajustam igualmente à realidade portuguesa.

De acordo com dados do governo divulgados no início de abril, o número de alunos adultos caiu para 10,8 % em 2014/15, traçando uma descida a longo prazo. Isto não é surpreendente, dado que as Escolas Superiores Educação Vocacional (further education colleges) tiveram um corte de 27% nos últimos cinco anos, segundo os diretores destas escolas, com cortes de cursos e com investimentos de construção cancelados. A falta de investimento na educação de adultos não é boa economia - poupa gastos hoje à custa de amanhã.

A tragédia na educação de adultos é dupla. Em primeiro lugar, isso afeta as pessoas para quem a educação de adultos é um dos únicos meio realistas de melhorar as suas competências, vencimentos e qualidade de vida - desproporcionalmente as mulheres, as pessoas com deficiência, as famílias monoparentais e os provenientes de famílias negras e de minorias étnicas Para eles, o fim da educação de adultos diminui a sua capacidade de entrar ou progredir no mercado de trabalho.

Em segundo lugar, a continuação do desempenho da baixa produtividade no Reino Unido pode, em parte, ser atribuída à desadequação das competências e à falta de dinamismo; ou, como o Banco da Inglaterra friamente coloca, a "impedimentos na circulação de capitais e de trabalho para os seus usos mais produtivos". Revitalizar a educação de adultos seria um passo na direção certa.

De acordo com a McKinsey, uma empresa de consultoria, a igualdade de género no local de trabalho poderia aumentar o PIB na Europa Ocidental em até 25%, sendo um aspeto importante as mulheres alcançarem a paridade da taxa de emprego com os homens. No Reino Unido, a taxa de emprego das mulheres é cerca de 10 % inferior à dos homens. Além do mais, a taxa de emprego das pessoas com deficiência é um miserável 47,2%, a taxa de emprego de negros e minorias étnicas é de cerca de 10% inferior à da média nacional e o emprego de pais de famílias monoparentais também está diminuída.

Este é um grave desperdício de talento, e o efeito no PIB da redução das barreiras a todos os grupos excluídos seria ainda maior do que os números da paridade de género

A educação de adultos foca-se precisamente nestes grupos. oferece aprendizagem flexível e acessível que as pessoas com necessidades de acolhimento de crianças ou de saúde precisam para reentrar no mercado de trabalho e/ou melhorar suas competências. Muitas vezes os cursos ocorrem em tempo parcial e à noite, tornando-os percursos educativos mais amigáveis do que outros, como os cursos de graduação ou muitos estágios.

John Holford, professor da educação de adultos na Universidade de Nottingham, argumenta que tem havido uma mudança prejudicial na oferta de educação de adultos desde a década de 1990. "O financiamento tem sido cada vez mais limitado para aqueles que estão no início da idade adulta que seguem predominantemente caminhos vocacionais", diz ele. Essa mudança levou a uma abordagem estreita e parcial que subutiliza o potencial do setor. As pessoas em todas as faixas etárias, especialmente aqueles sub-representados no mercado de trabalho, precisam de um acesso fácil a um sistema de educação ao longo da vida, em qualquer etapa que dele necessitem.

Há também razões mais gerais que justificam investir na educação de adultos. Na esteira da crise da empresa Tata Steel, se os governos não são capazes ou estão dispostos a resgatar indústrias, então precisamos de um sistema de ensino dinâmico para formar os trabalhadores e para que eles e as suas comunidades tomem as rédeas do seu futuro. Não ter uma estratégia industrial é uma coisa, mas não ter uma estratégia educativa para limitar os danos é imperdoável.

Nos dias de hoje, o desemprego ainda afeta desproporcionalmente antigos centros industriais, em parte por causa do falhanço que se seguiu ao declínio industrial, de atender às diversas necessidades educacionais dessas populações. A taxa de desemprego mais recente no Nordeste da Inglaterra, por exemplo, é de 8,6% (em comparação com 4,1% no Sudeste). Se esta fosse a taxa nacional seria visto pelo que ela é - completamente inaceitável e um desperdício desastroso de potencial humano.

Em termos de baixa produtividade, é consequência de muitos fatores difíceis de localizar. Um fator é a inadequação das competências - por exemplo, os licenciados trabalham em empregos que não exigem graus, excluindo os trabalhadores menos qualificados desses lugares. A resposta não é limitar os números de licenciados, mas alargar radicalmente o ensino pós-obrigatório de tal forma que os trabalhadores de todos os níveis possam atualizar as suas formações e moverem-se de forma mais fluida entre as posições.

A educação de adultos exige investimento para ter efeito a longo prazo no mercado de trabalho que é desesperadamente necessário. Os gastos atuais de apenas 0,5% da despesa total, é o equivalente a apenas 6,5% do orçamento da educação (educação de adultos é financiado através do Departamento de Negócios, Inovação e Competências) Isto é lamentável, considerando os retornos potenciais.

O custo do não investimento será um mercado de trabalho que, continuamente, não consegue ajustar competências com as vagas, no qual trabalhadores pouco motivados ficam presos nas ocupações e onde aqueles que estão em indústrias em declínio não podem assumir o controlo de suas próprias vidas e que, pelo contrário, são deixados à mercê dos mercados em constantes mudanças.

A educação de adultos não é uma panaceia para o mercado de trabalho, mas tem como alvo os grupos que mais precisam de entrar na força de trabalho. Pense do défice de 10% das mulheres em relação aos homens, nos 25% do défice das pessoas com deficiência, nos 10% do défice das famílias monoparentais, nos 17% do défice das minorias étnicas. Estes são os défices que têm de ser ultrapassados.

Artigo de Matthew Bevington publicado na revista New Statesman

Pode ler o artigo em inglês aqui: There is radical potential in revitalising adult education – why are we letting it disappear?

Quem é Matthew Bevington

Matthew Bevington é um escritor freelance, formado pelo Ruskin College de Oxford e membro do “Green Party”. Os temas sobre o que escreve revelam particular interesse pela política do Reino Unido, o meio ambiente e cultura. Tem trabalhos publicados em diversas publicações como “The Ecologist”, “LeftFootForward”, e “The Fabian Review”.

Sobre a New Statesman

The New Statesman é uma revista de política e cultura publicada em Londres. Fundada como uma revista semanal de política e da literatura em 1913, é reconhecida pelas suas políticas progressistas, pelo seu ceticismo, pensamento livre e inteligente, variedade e qualidade da sua escrita.

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