Os consensos do momento PDF Imprimir e-mail
17-Fev-2009
A exposição mediática actual que gozam os quase 500 centros Novas Oportunidades, bem como a filosofia de ver nesses centros a porta de entrada para todos os adultos que desejam beneficiar das ofertas públicas de educação de adultos, trouxe-nos outro tipo de consequências. Para o «público» a educação de adultos É a certificação das competências; para o «público» a educação de adultos É cursos EFA. E o resto é silêncio.

Em Dezembro de 2005 a Associação O Direito de Aprender organizou um encontro na Fundação Calouste Gulbenkian, em que estiveram presentes as forças vivas da educação de adultos portuguesa, afirmando publicamente que estavam unidas e apostavam na construção de uma melhor educação de adultos. O evento foi aberto pelo então Presidente da República Dr. Jorge Sampaio e fechado pela Ministra da Educação. Ao longo do dia ficaram bem patentes as direcções estratégicas que os educadores queriam para a educação de adultos em Portugal. Mas do alto do entusiasmo que rodeava o encontro esperava-nos um surpreendente anti-clímax: já à tardinha, a Ministra da Educação apresentou em primeira mão o Programa Novas Oportunidades… que veio, na minha opinião, transformar de forma profunda a paisagem da educação de adultos em Portugal, introduzindo sobre velhos processos novos procedimentos, novas lógicas de gestão e, sobretudo, novas formas de controlo e regulação estatal sobre um campo que desde o 25 de Abril sempre tinha, parcialmente, permanecido à sua margem.
A exposição mediática actual que gozam os quase 500 centros Novas Oportunidades, bem como a filosofia de ver nesses centros a porta de entrada para todos os adultos que desejam beneficiar das ofertas públicas de educação de adultos, trouxe-nos outro tipo de consequências. Para o «público» a educação de adultos É a certificação das competências; para o «público» a educação de adultos É cursos EFA. E o resto é silêncio. À primeira vista o facto não tem muita importância. Mas talvez seja bom recordar que a educação de adultos, como campo teórico e prático, tem vindo a perder terreno, desde os anos 80, para uma versão fechada da aprendizagem ao longo da vida, que de nenhuma forma se pode considerar um equivalente da educação de adultos. Esta versão da aprendizagem ao longo da vida, que se tem vinda a afirmar paulatinamente com o apoio dos aparelhos oficiais do Estado, centra-se numa visão instrumental da aprendizagem, na perspectiva da educação como uma segunda oportunidade e na sua aplicação ao mercado de trabalho. Aproveita ainda uma nova retórica (que parcialmente produziu e que tem vindo a legitimar) à volta do discurso das competências, subjugada pelo mercado livre em que os trabalhadores se devem vergar às necessidades de flexibilização e adaptabilidade das empresas. Se já anteriormente as dificuldades conceptuais do campo eram grandes, este novo consenso sobre a aprendizagem ao longo da vida, erradamente conotada como equivalente à educação de adultos, constantemente invocada por todos a propósito de tudo, é falacioso e extremamente redutor.
Os 500 novos Centros NO trazem uma quantidade apreciável nova de empregos. E isto, no cenário actual de crise é, claro está, uma excelente notícia. O problema é que muitos destes empregos são ocupados por agentes educativos que não entendem os princípios básicos da educação de adultos, não lhe conhecem a história, nem em Portugal nem fora dele, escolarizam-na até ao tutano e desconhecem as suas práticas mais queridas. Não, há, assim, nenhuma evolução positiva no campo. Há, sim, hoje como no passado, a subjugação das instituições e dos actores que mais conhecem, em Portugal, a educação de adultos, e a sua substituição por outros actores e instituições, que perseguem outras finalidades, com uma filosofia diferente e com práticas diversas e confusas.
A criação desta grande bolsa de emprego e de actividade com adultos (não em educação de adultos) canaliza, também, uma grande parte do esforço nacional numa única direcção (onde estão as restantes na nossa sumida e desprezada educação de adultos?), colocando uma série de instituições da sociedade civil ao serviço de objectivos desenhados pelo governo. Esta eventual instrumentalização força-nos a olhar, de novo, para as relações entre o Estado e a sociedade civil, dando força às teses que defendem que, em vez de uma retracção do Estado, podemos estar a assistir a uma expansão do estado, mas desta vez através da sociedade civil.
Neste contexto, acho fundamental que nos concentremos, de novo, nas alternativas críticas deixadas agora em suspenso ou no vazio, que todavia continuam a ser perseguidas por uma série de associações teimosas, afastando-nos das abordagens mainstream que conduzirão, é certo, a uma melhoria significativa nas estatísticas das qualificações Portuguesas. Neste contexto, não sei muito bem onde está a educação de adultos na qual acredito. Mas sei, isso, sim, que os nomes das instituições estatais que têm promovido a educação de adultos oficial em Portugal são certeiros: a ANEFA tentava promover a educação e a formação dos adultos; a DGFV iniciou uma viragem em direcção ao vocacionalismo, com tudo o que isso implica. E a ANQ está preocupada com as qualificações – mesmo quando em toda a literatura se insiste que qualificação é uma coisa; e competências outra. A relação depende de muitos factores.

António Fragoso
Equiparado a Prof-Adjunto da ESE/Ualg

» 5 Comentários
5"Os consensos do momento"
em Terça, 10 de Março de 2009 16:42por Vera Carvalho
A perspectiva crítica do António deverá ser tida em conta, obviamente que se correm esses riscos, entre outros, poderemos correr o risco de os CNO's se transformarem a médio/longo prazo em centros de auscultação de necessidades de formação local para jovens e adultos, no que isso poderá ter de redutor na perspectiva de direccionar a educação e a formação para as necessidades do mercado, seja na perspectiva nacional, seja na perspectiva local (ver discussão teórica Professor Doutor Licínio Lima).
4"Os consensos do momento"
em Terça, 10 de Março de 2009 16:43por Vera
Na perspectiva do Professor Doutor Licínio Lima existem duas articulações bastante discutíveis: educação e formação + necessidades do mercado. Nesta linha de reflexão receio que os CNOs se possam transformar em centros de formação por módulos, estando estes módulos subjugados às qualificações necessárias para a empresa A ou B competir e não às reais apetências/necessidades dos adultos.
3"Rede de Centros NO (1)"
em Quarta, 18 de Fevereiro de 2009 11:52por Ana Canelas
Independentemente de algumas críticas ao processo de operacionalização da iniciativa Novas Oportunidades, como a expansão demasiado rápida e, consequentemente, pouco apoiada da rede de Centros, penso que a estratégia de divulgação, mediatização e de apoio financeiro à Rede de Centros NO, tem o mérito de mobilizar muito do que chamamos não público para (re)iniciarem processos de aprendizagem e conseguiu mesmo trazer para o campo da formação de adultos muitos parceiros. (continua)
2"Rede de Centros NO (2)"
em Quarta, 18 de Fevereiro de 2009 11:51por Ana Canelas
Parceiros que, até agora, não têm apostado na melhoria das qualificações (e também das competências) dos seus colaboradores - falo sobretudo das empresas. Evidentemente que o investimento até agora feito na formação e no apoio de proximidade a todos os que, por via do alargamento da rede, entraram neste mundo complexo da identificação, do reconhecimento, da certificação de competências e mesmo da organização de formação para o desenvolvimento de competências, é muitíssimo insuficiente (continua)
1"Rede de Centros NO (3)"
em Quarta, 18 de Fevereiro de 2009 11:52por Ana Canelas
Até porque se recorre sobretudo a docentes, cuja tendência natural é a reprodução das práticas pedagógicas que conhecem e utilizam no ensino. 
Há, um aspecto que eu discordo: é a convicção de que só o que o estado financia existe e que é obrigação dos governos promover, ou mesmo assegurar a subsistência de dinâmicas e estratégias de intervenção que deviam afirmar-se local, ou nacionalmente por força dos que, independentemente do estado, militam e trabalham na Educação de Adultos. (conclusão).
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