Entrevista com Adama Quone PDF Imprimir e-mail
10-Mai-2009
Numa altura em que aguardamos a nova data de realização da CONFINTEA VI, é importante lermos as palavras de Adama Quane. Adama Ouane tem uma larga experiência no campo da educação contínua e é o Director do Instituto da UNESCO para a Aprendizagem ao Longo da Vida, em Hamburgo, desde 2000. Ao longo dos anos, Adama Ouane tem conciliado investigação, política e práticas na área da Educação de Adultos tendo contribuido para o fortalecimento do Instituto da UNESCO para a Educação e para a criação do Centro de Recursos da UNESCO (ALADIN, Adult Learning Documentation and Information Network).
O que é a educação de adultos e porque razão é importante?
Dito de uma forma simples, a educação de adultos é a educação para a idade adulta, mas em alguns países também se chama educação de jovens e adultos. Trata-se de muito mais do que alfabetização. Desde os 15 anos até ao fim da vida, é um longo período de tempo e muito significativo para as nossas vidas, uma altura em que estamos inseridos numa forma diferente de aprender. Para além do ensino formal, obrigatório, precisamos de educação para aprender a desempenhar os diferentes papéis da nossa vida, com maior facilidade e compreensão. Obter competências técnicas é hoje mais valorizado, porque tem a ver com ganhar a vida, mas sabemos hoje, mais do que nunca, que isso não é suficiente. Não somos apenas produtores e consumidores. Somos cidadãos, com família e vidas pessoais. A educação de adultos, que podemos concretizar em casa, no trabalho, através dos meios de comunicação, etc., confronta a vida real. Só pela educação de adultos poderemos enfrentar os problemas reais da sociedade, tais como, distribuição do poder, criação de riqueza e questões de género e de saúde.

A última CONFINTEA realizou-se em 1997. O que mudou nestes 12 anos?
Há 12 anos, a educação de adultos não estava de facto em primeiro plano. Era reconhecida como uma educação de recuperação e baseava-se mais na educação formal. Hoje, constatamos que ainda existem muitas pessoas deixadas à margem e que a qualidade e conteúdos da educação não são aquilo que os tempos actuais exigem. Em muitos lugares, têm-se multiplicado ofertas alternativas e abordagens novas à “ALE – Adult Learning and Education”, Educação de Adultos e ao Longo da Vida. Assim se procura preencher a lacuna gerada pelo sistema educativo convencional.
Ao longo dos anos, transferimos a tónica da educação de base para a educação ao longo da vida, da oferta para a qualidade, procurando responder às necessidades educativas de todos e satisfazer a procura de cada aprendente adulto individualmente considerado. A educação de adultos tem encontrado respostas para a equidade, distribuição de poder, justiça, etc., que são hoje os desafios a enfrentar nesta incansável prossecução do direito à educação para todos.
A tecnologia também entrou neste campo, em grande força, através da internet. Vemos pessoas envolvidas em diferentes modalidades de auto-aprendizagem. Mais do que nunca, torna-se essencial uma auto-orientação. Contudo, os serviços de orientação continuam a ser necessários, porque as pessoas podem estar a aprender coisas erradas.

Não acha que a educação de adultos se tornou uma grande indústria?
A educação de adultos pode tornar-se uma mercadoria, um produto para transaccionar, e é o que está a acontecer, por exemplo, com a internet. Deu-se uma explosão da procura e, em paralelo, um crescimento da oferta. Trata-se, ao mesmo tempo, de um ganho e de um risco. A posição da UNESCO é que o Estado deve ter um papel de regulação, especialmente no que se refere aos grupos mais vulneráveis, garantindo que a educação não está apenas acessível a quem a puder pagar e garantindo, também, que existe educação com qualidade para todos. Este princípio da “educação com qualidade” implica conteúdos relevantes, abordagens inclusivas e valores democráticos e universais.

Quais são os principais tópicos na agenda da CONFINTEA?
Passámos por um longo processo preparatório, em que os Estados Membros elaboraram e submeteram 151 relatórios nacionais, que adoptam directivas desenvolvidas pelo Instituto para a Aprendizagem ao longo da Vida da UNESCO (UIL). E organizaram-se 5 conferências regionais, que sublinharam os temas centrais, inovações, desafios e recomendações.
Como vivemos actualmente tempos sem precedentes, todos falamos hoje da crise, questionamos o nosso modo de vida, a nossa organização da produção, os nossos valores e os nossos sistemas educativos. São linhas comuns de preocupação, que se encontram no cerne da educação de adultos. Que conteúdos adoptar? Em que modalidades?
Ainda nos confrontamos com um vasto problema de analfabetismo, perante cerca de 774 milhões de adultos que não sabem ler nem escrever. Temos que enfrentar esta questão e construir alicerces para que as pessoas continuem a aprender ao longo da vida. Temos que armar as pessoas adultas, não só com competências de vida, mas também com capacidades que vão para além da sobrevivência: para se tornarem cidadãos críticos, saberem arriscar e antecipar. E é preciso tratar estas questões de uma forma holística. Existem provas hoje de que investir na educação de adultos torna possível, não só melhorar a produtividade, mas também a coesão e o equilíbrio sociais, assim como a auto-estima individual.

Que resultados positivos se observam por todo o mundo em matéria de Aprendizagem ao longo da Vida?
Estão a efectuar-se reformas políticas abrangentes baseadas na aprendizagem ao longo da vida, em muitas partes do globo. E estão a dar bons resultados, ao criarem condições para que todos possam aprender, promovendo assim a inclusão e a participação. E observamos esta tendência, não só na Europa, como também na Namíbia, Botswana, África do Sul, Uruguai e outros países. Sem mencionar, claro está, os países já bem conhecidos nesta matéria, como os da Escandinávia, a Coreia e o Japão.
Obviamente, onde existem políticas sistémicas desta natureza também se disponibilizam fundos específicos. Há estudos que comprovam que investir na educação de adultos é investir no futuro. Até há pouco, só se utilizava este argumento relativamente à educação das crianças, mas de facto investir na aprendizagem ao longo da vida tem um enorme impacto positivo, não só na vida de cada pessoa, mas também no desenvolvimento da sociedade. E, aqui, os efeitos são imediatos, não são diferidos. A questão é saber porque razão não têm os educadores de adultos, até agora, conseguido convencer os decisores políticos, quando abundam os exemplos que demonstram os benefícios da educação de adultos.
Também observámos exemplos de inovações que resolvem com êxito questões de paridade de género ou de igualdade, e como a educação de adultos tem sido utilizada para promover sociedades mais justas, que integrem as minorias, as pessoas que vivem em áreas rurais remotas, povos indígenas, reclusos, etc.
É claro que estamos a observar atentamente a qualidade dos programas, a avaliação de resultados e os sistemas de reconhecimento e validação de tipos diferentes de aprendizagem. São assuntos de uma importância crucial para a educação de adultos. Precisamos de dispositivos de certificação que dêem valor às aprendizagens assentes na experiência e não apenas em contextos formais de ensino. Sistemas de validação deste tipo já foram criados em muitos países e estão a promover novas estratégias políticas, a apoiar os adultos aprendentes e a gerar motivação para aprender mais.

O que espera desta 6ª Conferência?
Se a comunidade internacional afirmar com toda a firmeza que a educação de adultos é um investimento válido para ajudar a construir melhores sociedades e se pudermos colocar esta declaração no cerne das políticas educacionais, ou, por outras palavras, se passarmos a tratar a educação de adultos, a alfabetização e a educação não-formal como instrumentos valiosos, e não como parentes pobres, nas nossas decisões políticas, então penso que teremos dado um enorme passo em frente.
Já temos preparado um documento final provisório, um plano-quadro de acção, que foi enviado aos Estados-Membros e contém recomendações adequadas que se baseiam, quer nos relatórios nacionais quer nas conferências regionais.
Até hoje falhámos em conseguir ganhar a atenção dos decisores políticos sobre a dimensão holística da educação de adultos. Se, desta vez, conseguirmos que nos ouçam, teremos tido um excelente resultado.

(in UNESCOPRESS, 01.05.2009)

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