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Livros sobre a Educação de Adultos em Portugal
Num país onde são raras as publicações sobre educação de adultos é com satisfação que vemos surgir uma nova editora – Editora EDUCA, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade Clássica de Lisboa a publicar dois livros relacionados com a educação de adultos - "A Educação Popular e Movimentos Sociais", organizado por Rui Canário, e "As Raízes Históricas dos Modelos Actuais de Educação de Pessoas Adultas" da autoria de Florentino Sanz Fernandéz.

A Educação Popular e Movimentos Sociais contém os textos das comunicações apresentadas ao I Seminário Luso-Brasileiro sobre esta temática. O Seminário realizou-se em Almada, a 7 e 8 de Julho de 2006, com o objectivo de analisar as dimensões educativas dos movimentos sociais, assentando no trabalho de vários investigadores dos dois países e de duas organizações de educação popular e de intervenção local (Instituto das Comunidades Educativas e Museu da Cidade de Almada).
Esta publicação foi organizada por Rui Canário, Professor Catedrático da Faculdade acima referida, que é simultaneamente o autor de uma Nota de Apresentação. Retirámos dessa Nota as seguintes passagens que ajudam a apresentar o espírito e o conteúdo dos textos inseridos.
“Vivemos um tempo em que as políticas de educação e formação, particularmente as que são dirigidas a públicos adultos, ganharam uma clara centralidade no quadro do que se convencionou designar por 'sociedades do conhecimento' e de uma orientação para 'a aprendizagem ao longo da vida'.
É possível verificar que este campo da formação de adultos acompanha as transformações económicas, sociais e políticas, que marcam a transição dos 'trinta anos gloriosos' e do fordismo para as políticas ditas neoliberais, que se afirmaram depois dos anos 80. Transitou-se de uma perspectiva de 'humanização' do desenvolvimento e de promoção social, imagem de marca do movimento de educação permanente impulsionado pela UNESCO, para uma clara subordinação funcional da formação de adultos a uma racionalidade económica, em que impera a lógica e o poder das empresas multinacionais.
O conjunto de textos reunidos neste livro deve entender-se como o resultado de um questionamento e de um contributo colectivo para uma compreensão lúcida, por um lado, desta evolução e, por outro lado, das potencialidades transformadoras e de emancipação social da acção educativa. A produção desse contributo teve como característica principal a de observar criticamente o mundo da educação de adultos, não a partir do ponto de vista da acção do Estado ou dos organismos supranacionais, mas a partir de 'baixo'. Ou seja, interrogando as potencialidades educativas e emancipatórias de movimentos sociais nascidos da base e capazes de gerar e manter uma dinâmica de autonomia.
A realidade portuguesa é abordada com base numa primeira análise das raízes que estão subjacentes ao movimento de educação popular que, em Portugal, coincidiu com o período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. O texto, assinado por Rui Canário, propõe-se elucidar o conceito de educação popular com base na contraposição entre uma acção educativa autónoma e uma acção educativa tutelada pelo Estado, regida por uma lógica de heteronomia.
João Francisco de Sousa, com base num trabalho de pesquisa e de intervenção de décadas, que remonta aos projectos de intervenção educativa no Nordeste brasileiro nos anos 60, inspirados por Paulo Freire, traça-nos um retrato abrangente da evolução e balanço da relação entre educação popular e movimentos sociais no Brasil e na América Latina.
A educação em contexto rural é objecto de abordagens sobre realidades muito contrastantes, embora com pontos de convergência. No caso brasileiro, Célia Vendramini, com base nos trabalhos de pesquisa empírica que vem desenvolvendo no Estado de Santa Catarina, analisa a dimensão e as potencialidades educativas do Movimento dos Sem Terra (MST), enquanto que Marlene Ribeiro aborda as questões da educação no campo, privilegiando uma aproximação pelas pedagogias inspiradas em modelos de alternância. Relativamente ao caso português, Abílio Amiguinho, na sequência de um trabalho de pesquisa de grande fôlego, em vias de publicação, faz incidir a sua análise sobre o Projecto das Escolas Rurais, em particular no modo como ele se desenvolveu, nos últimos vinte anos, na região do Nordeste Alentejano, evoluindo de um projecto de intervenção na educação escolar para um projecto abrangente de intervenção e animação em zonas rurais marcadas por uma tendencial desertificação.
A relação entre a educação e o mundo do trabalho no Brasil, no caso das ofertas educativas dirigidas a públicos jovens e adultos, constitui o objecto de análise do texto apresentado por Sónia Rummert. Nele se procede a uma apresentação e análise crítica das políticas públicas conduzidas neste sector e a sua relação com os problemas e movimentos sociais protagonizados pelas classes trabalhadoras”.

As Raízes Históricas dos Modelos Actuais de Educação de Pessoas Adultas
Com este título fez o Professor Florentino Sanz Fernandéz, em 2004, uma conferência na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, agora publicada pela EDUCA como Caderno Sísifo nº 2. O autor é professor titular na UNED – Universidad Nacional de Educación a Distancia, em Espanha, onde dirige o Curso de Pós-Graduação em “Formação de Pessoas Adultas”.
A partir de uma perspectiva histórica, as 85 páginas do texto apresentam-nos uma reflexão sistematizada e estimulante sobre a contribuição do campo da educação de adultos para pensar a acção educativa. Por outro lado, o autor propõe-nos uma tipologia dos modelos actuais de educação de pessoas adultas.
Alguns dos tópicos analisados:
- O modelo alfabetizador: a luta contra o analfabetismo ao longo da história; os efeitos deste processo alfabetizador nas pessoas adultas.
- Modelo dialógico social: distintos âmbitos da tradição popular como espaço de aprendizagem participativa; o controlo da transmissão social de valores; a tertúlia como plataforma educativa; as características actuais do modelo social de educação de pessoas adultas.
- Modelo económico produtivo: a importância da formação para o sector produtivo; a dualização social no mercado de trabalho; algumas características do modelo produtivo da educação de pessoas adultas; a formação em competências e conhecimentos marginaliza a aquisição de sabedoria; dualiza-se a formação num mundo cada vez mais globalizado.

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