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Dez anos de ausência de Freire, mas nunca sem Freire No dia 2 de Maio de 2007 fez dez anos que morreu Paulo Freire. Tania Maria de Melo Moura a realizar uma pesquisa pós-doutoramento na Faculdade de Filosofia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, recorda essa data.
Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava em casa sozinha, em um retiro forçado, a escrever a tese de doutoramento em que ele era um dos principais referenciais e um dos sujeitos da investigação.
Mesmo não sendo ele o orientador do trabalho, conhecia de perto o objecto de estudo, porque o projeto foi discutido no Núcleo dos Excluídos do Programa de Mestrado e Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, do qual ele era o coordenador. De repente o telefone toca, era uma colega paulistana me informando de seu falecimento. A distância, chorámos juntas a sua partida definitiva. Chorámos porque sabíamos que ele não queria partir, não queria deixar o mundo que os homens criaram, como dizia ele. Mesmo afirmando também – em um dos momentos dos nossos encontros do Núcleo, às terças-feiras - que seu corpo já não acompanhava a sua mente. Mas chorámos principalmente porque sabíamos que ele, vivo, ainda teria muito a contribuir e que sua partida definitiva seria uma perda irreparável para o Brasil e para o mundo. Aos poucos fomos concluindo que ficaram as saudades, mas a perda era suavizada através do legado que deixou ao mundo, impossível de resumir em algumas linhas porque são quase quatro décadas de produção teórico-prática dele e sobre ele espalhadas pelo mundo inteiro.
O pensamento, produção teórica e prática pedagógica de Freire tem um caminhar bastante dialéctico, acompanha a sua própria história de vida, marcada pela convivência com as contradições, com as dualidades e com a luta pela sobrevivência, mas sobretudo pela “amorozidade” e pela “paixão de aprender o mundo” e “transformá-lo”.
Sua leitura de mundo, de início ingénua (como ele dizia), nascida da revolta pelas suas próprias necessidades materiais e pela miséria observada no quotidiano da população com quem convivia nas favelas das cidades e na zona rural do Nordeste, vai crescendo e conduzindo-o a buscar explicações teóricas para o fenómeno das desigualdades e sua consequente solução. A necessidade de explicações o conduz a diversas leituras de cariz marxista, cujos resultados permitem que sua visão cristã e ingénua se transforme em reflexão consciente, aguçando o desejo de inserção em práticas que ajudem a transformar a consciência dos educadores, dos trabalhadores, enfim, de todos os oprimidos da sociedade.
Em toda a sua trajectória como educador, procurou ser coerente em relação às suas concepções de homem, mundo e sociedade. Procurou fazer uma leitura da sociedade capitalista a partir das suas contradições, desvelando o nível de exploração a que as classes exploradas são submetidas e a barbárie a que as elites do terceiro mundo têm levado a grande maioria da sua população.
Segundo Moacir Gadotti (“Paulo Freire: uma bibibliografia”. 1996, pp. 74-78), o seu pensamento pode ser dividido em duas fases distintas e complementares: o Paulo Freire latino-americano das décadas de 1960-1970, autor da Pedagogia do Oprimido, e o Paulo Freire cidadão do mundo, das décadas de 1980-1990, dos livros dialogados, de sua experiência pelo mundo e de sua actuação como administrador público em São Paulo. A universalidade da sua obra decorre da aliança teoria-prática. Daí ser um pensamento vigoroso. Ele não pensava abstractamente. Pensava a realidade e a acção sobre ela. Trabalhava teoricamente a partir dela. É metodologicamente um pensamento sempre actual e vem ganhando mais força nos últimos anos pela sua compreensão da política que nunca foi orientada por qualquer cartilha.
Já na década de 1960 Freire dizia: não me sigam, não me copiem, me recriem. Hoje, se vivo estivesse, continuaria dando esses mesmos conselhos a todos aqueles que o lêem e o tomam como referência teórico-prática. Seus princípios e concepções de mundo e de homem, sua indignação em relação à barbaridade opressora e excludente da sociedade capitalista, cada vez mais cruel e perversa face à ganância da política neoliberal, continuam sendo actuais. Em seus escritos, deixou muito claro que cada vez mais a educação das classes populares é uma necessidade, cada vez mais ela deve se fazer política e cada vez mais os homens e mulheres devem-se reconhecer como sujeitos de cultura e responsáveis pela transformação dessa sociedade injusta e excludente.
Ficamos com um alerta de Carlos Alberto Torres (In GADOTTI, op. cit. p. 147): “[...] é possível concluir que há boas razões pelas quais, na pedagogia da actualidade, podemos ficar com Freire ou contra Freire, mas não sem Freire”. Freire continua presente entre nós em todas as áreas e campos do conhecimento. Sua voz continua ecoando e se faz ouvir e sentir nos Colóquios Internacionais Paulo Freire que acontecem em Recife-Pernambuco-Brasil e em vários outros eventos e localidades do Brasil e do mundo.
Tania Maria de Melo Moura é Professora Emérita da Universidade Federal de Alagoas – Brasil. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas. Mestra em Educação Popular pela Universidade Federal da Paraíba. Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora Emérita da Universidade Federal de Alagoas, membro do quadro permanente do Mestrado em Educação Brasileira da mesma universidade. Líder do Grupo de Pesquisa Teorias e Práticas em Educação de Jovens e Adultos.
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