Porque é que
precisamos de saber sempre mais?
Não sei se precisamos de saber sempre mais. Acho até que há certas
pessoas que acham que a ignorância é uma vantagem. Quanto mais
sabemos mais dúvidas temos, mais nos apercebemos de que há muita
coisa que não sabemos. Isso pode criar uma sensação de
insegurança. Há certas pessoas que não lidam muito bem
com ela.
As religiões são muito bem sucedidas porque não transmitem
insegurança, transmitem a noção de que se a pessoa fizer
as coisas como diz que devem ser feitas, ganha o Reino dos Céus. Por
isso para muitos é difícil lidar com a dúvida permanente.
Para outros, e eu incluo-me nesse grupo, é muito saudável que
as pessoas não tenham certezas, é fundamental para podermos viver
numa sociedade tolerante, aberta aos desafios futuros. A falta de certezas é muito
conducente a uma vivência real, não viver na utopia, saber que
na maior parte das questões há sempre dois lados, a maneira de
resolver determinados problemas depende de muitos factores diferentes.
Temos consciência de que a frustração de não saber
como é que as coisas são pode ser desestabilizante. Mas, por
outro lado, também é estimulante, porque nos força a tentar
elucidar determinadas questões sobre as quais não tínhamos
pensado antes.
Quem beneficiou de uma educação ou de um meio onde a curiosidade
era peça fundamental do crescimento não tem medo do desconhecido
e até o acha um estímulo. É uma espécie de feedback:
quanto mais perguntas se faz mais respostas se vai tendo, vai-se conhecendo
mais coisas; mas depois há outras perguntas que aparecem, há certas
certezas que desaparecem. Apercebemo-
-nos que, se calhar, tínhamos uma ideia muito simplista de determinadas
coisas que passaram a ser mais complicadas. Ficamos com a noção
da complexidade da vida, do mundo, do universo.
É saudável e desejável que
as pessoas se questionem. Mas quando vivem num conformismo, numa apatia,
o aprender estimula? Ajuda a ultrapassar a indiferença perante
os problemas do mundo?
Para algumas ajuda a ultrapassar, para outras não. Hoje em dia há informação
a mais e não se sabe como organizá-la. A aprendizagem e a noção
de querer saber mais está intimamente ligada à questão
da curiosidade, que eu considero uma das características inatas dos
animais em geral e também do homem.
Há muita gente que diz que as escolas destroem essa curiosidade. Isso é péssimo,
a função da escola é exactamente o contrário, é estimular
a curiosidade, mostrar que as recompensas de tentar saber mais são de
tal maneira importantes para a nossa vida, enriquecem-na de tal maneira que
não há substituto para a curiosidade. É dramático
ver-se as pessoas a saírem dos sistemas educativos menos curiosas do
que quando entraram. Eu não queira acreditar nisso, mas se calhar é verdade.
O número de pessoas que continua progressivamente curiosa durante toda
a vida é pequeno.
Às vezes as pessoas fazem cursos para colmatarem a solidão, não é só por
uma questão de curiosidade, é uma mistura das duas coisas. Eu gostaria
que fosse principalmente para matar a curiosidade. Já tenho ido a Universidades
da Terceira Idade e as perguntas mais interessantes que me fazem são nas
discussões, nos seminários que organizam.
Tenho uma experiência muito curiosa: nos Estados Unidos, tive a responsabilidade
de ensinar duas disciplinas; uma delas era Fisiologia Celular que era uma disciplina
chave para os alunos que queriam entrar em medicina. O curso de medicina nos
EUA faz-se depois de acabar o bacharelato ou a licenciatura. Primeiro fazem
o curso, depois entram em medicina. Há certas cadeiras muito importantes.
Se tiverem boas notas, entram nas melhores escolas de medicina. Tinha cerca
de 120 alunos, era uma disciplina altamente competitiva, muito difícil
de conseguir um lugar. Os alunos estudavam que nem uns loucos, tinham notas
altíssimas, quando um deles faltava a uma aula e pedia os apontamentos
a outro, este dava-lhos errados de propósito.
Eu dava uma outra disciplina, Fisiologia para não-cientistas, pessoas
que estavam interessadas em saber como é que funciona a respiração,
a circulação, etc. Tinha cerca de mil alunos, falava num grande
anfiteatro para alunos que não vinham das ciências, vinham de
Direito, de Línguas, Arquitectura, variadíssimas áreas.
E as perguntas mais difíceis que alguém alguma vez me colocou,
incluindo todos os congressos internacionais em que estive presente, foi nessa
cadeira, porque eram pessoas que não precisavam dela para a sua carreira.
Um exemplo: na aula tinha estado a falar de evolução. A teoria
da evolução diz que uma das vantagens da reprodução
sexual é que se misturam genes, há a possibilidade de as pessoas
terem vantagens quando misturam genes. Chegámos ao final e uma jovem
aluna de Francês veio ter comigo e disse-me que tinha achado a aula muito
interessante, nunca tinha pensado nas vantagens da reprodução
sexual mas que não percebia porque é que, se havia tantas vantagens,
porque é que não havia quatro sexos ou mais, porque é que
só havia dois? Se trazia tantas vantagens para a evolução,
que tem tantos milhões de anos, já devia haver outra maneira
de se reproduzir. E eu fiquei a olhar para ela como um burro a olhar para um
palácio. Nunca tinha posto essa pergunta a mim próprio, e disse-lhe,
não sei, vou tentar saber e você também vai. Depois vim
a descobrir que nos fungos há casos em que há quatro sexos, mas
que são compatíveis dois a dois. Portanto, continua a ser dois
a dois, mas já há quatro, a evolução já descobriu
uma maneira de ter mais do que dois.
A curiosidade de sabermos como é que o corpo, ou o universo, ou o ambiente
funcionam – é uma coisa que nos vicia. A curiosidade é uma
espécie de vício.
Li uma intervenção que fez
na Gulbenkian onde falou sobre as Comissões Public Understanding
of Science. Existe este tipo de comissões em Portugal?
Não. Em muitos sítios, as comissões de Public Understanding
of Science têm uma visão muito restrita. Muitas delas são
comissões que fazem propaganda à ciência para convencer
as pessoas de que essa é a única forma de chegar ao conhecimento.
Não é para debater, para discutir, para dialogar – é para
convencer. Isso é uma forma perversa.
É claro que felizmente há muitas dessas comissões que são
a sério, querem um debate entre as áreas do conhecimento das ciências
mais naturais, teóricas, matemáticas e as ciências sociais
e as ciências humanas. O mais interessante nas Public Understanding of
Science é quando há esse diálogo entre os que vêm
das ciências mais exactas e os que vêm das ciências menos exactas. É difícil
de fazer, porque as pessoas falam linguagens diferentes.
E aqui há outra vez a questão da aprendizagem. Temos de aprender
duas coisas: a transmitir conceitos que possam ser algo complexos, de forma
que uma pessoa que não é especialista perceba e compreenda; e
também tem de perceber que há uma série de conceitos com
os quais não estamos ainda familiarizados em termos da ginástica
mental que é exigida para trabalhar com essas ideias. Considero as Public
Understanding of Science muito positivas quando a palavra science engloba o
conhecimento das ciências, desde as ciências humanas até às
ciências sociais.
Vejamos, por exemplo, a questão do “Risco”, que me interessa
muito. A maneira como percebemos o risco tem muito a ver com a maneira como
o risco é representado, a maneira como é descrito no livro, num
filme, numa obra de arte. Se reparar, todas as discussões do “Risco” e
a maneira como as sociedades o encaram têm muito a ver com a sua representação.
Se vemos o mundo como uma estrutura muito elástica, capaz de se adaptar
a muitas imposições, temos uma maneira de estar muito diferente.
Se acharmos que o mundo é uma coisa muito frágil, onde se se
altera uma coisinha aqui o mundo nunca mais recupera, as nossas posições
políticas em relação ao risco social são muito
diferentes.
Isso faz com que as pessoas tenham maneiras de estar muito diferentes umas
das outras. Há um exemplo clássico: se for você a conduzir
um carro tem muito menos problemas em andar com velocidade do que se for um
amigo seu, porque julga que tem o controlo da máquina e portanto se
for a 120 até acha ridículo que o seu amigo ache que está a
exagerar, mas se for você sentado ao lado e ele for a 100, você já começa
a reclamar.
As revistas de divulgação
vão parar às mãos das pessoas que já estão
despertas e são sempre um número muito reduzido.
Como é que se resolve esta necessidade de chegar a mais
gente?
Em Portugal a situação é talvez ainda mais grave. São
sempre as mesmas pessoas que compram todos os jornais e todos os livros. É uma
população de cerca de 100.000 pessoas – se formos bem intencionados.
Aí há um papel fundamental que devia ser preenchido pelos professores
das escolas primárias e secundárias, se calhar até mais
as primárias que as secundárias. É aí que se forma
a tal necessidade de curiosidade, de saber mais. A única maneira que
vejo de o fazer é envolver as pessoas que ensinam neste desafio. É ir às
escolas falar com os miúdos, com os professores. O programa “Ciência
Viva” fez coisas muito boas em relação a chamar os professores
a desenvolver projectos, pôr os alunos a fazer experiências nas
escolas com financiamentos muito pequeninos. Trazer e responsabilizar os professores
das escolas e dar-lhes prestígio pela qualidade do trabalho que fazem
nestas áreas é fundamental, é reconhecer isto como um
trabalho importante.
O trabalho da escola não é só transmitir informação,
mas é também transmitir curiosidade. Enquanto que a informação é muito
fácil de transmitir, a curiosidade é muito mais difícil,
e portanto não se pode esperar que todos sejam capazes de fazê-
-lo da mesma forma. Temos de ter uma estratégia que envolva a comunidade
daqueles que tiveram o luxo de poder aprender a ser curiosos, e dar às
gerações seguintes um pouco dessa aprendizagem. Não sei
se é através de revistas – elas têm um papel específico,
mas para atingir esta grande massa é muito importante envolver os professores
a todos os níveis.
Estava a pensar explicitamente nos adultos que
já saíram da escola e a quem ela possa ter matado essa
curiosidade. Neste caso, como agir?
Às vezes através de problemas concretos, de questões ecológicas,
de discussões genéticas. A melhor maneira de estimular a curiosidade é por
exemplos específicos. As pessoas ficam por vezes chocadas pela sua própria
posição em determinadas áreas.
Continua a haver uma discussão enorme sobre a clonagem, se é para
fins terapêuticos ou se para fins de reprodução. Eu costumo
dizer que, apesar de haver muita gente que está bastante a favor da
clonagem terapêutica para substituir as células estragadas do
cérebro, há muito pouca gente que esteja de acordo com a clonagem
humana reprodutiva, acham isso uma coisa um bocado assustadora.
Em geral pego nessa questão de propósito, costumo dizer o seguinte:
quando as pessoas se aperceberem que um clone não é uma coisa
idêntica porque nós sabemos que os gémeos do mesmo ovo
não são a mesma pessoa, e um clone em geral é menos parecido
com um gémeo do que o gémeo. Quando se perceber isso, o fascínio
da clonagem reprodutiva vai desaparecer, a pessoa não vai pensar: “agora
vou substituir um filho meu, vou substituir uma avó”. Porque não é:
a clonagem não é criar um ser igual ao que existia.
A maior parte das pessoas hoje em dia usa o método clássico de
reprodução, chama-se ter relações sexuais e depois
ter um filho. E a maior parte das pessoas até parece que gosta, que
a reprodução sexual dá algum prazer, 85% das pessoas vão
continuar a fazer isso. Aquelas que têm dificuldades em se reproduzir
por esses métodos têm os métodos de reprodução
assistida que funcionam relativamente bem, portanto são mais 5%. Depois,
há muita gente à espera de adoptar crianças.
O número de pessoas que algum dia vai pensar em se clonar para se reproduzir
vai ser mínimo. E não percebo porque estamos com tantas preocupações
em relação à clonagem genética quando a coisa pior
que existe no nosso universo é a clonagem cultural e que funciona muito
bem. No século passado, através da clonagem cultural, havia os
que julgavam que a raça ariana era a melhor e portanto mataram 50 milhões;
houve outros que acharam que a ditadura do proletariado iria resolver os problemas
todos, mataram outros 50 milhões. Antes disso tínhamos a Inquisição
e as limpezas étnicas... A clonagem cultual não só funciona
muito bem como é um factor destruidor extraordinário. Portanto,
porque é que estamos preocupados com a clonagem genética? Quando
apresentamos os argumentos desta maneira, as pessoas dizem: é curioso,
eu nunca tinha pensado nisso.
Quando se confronta as pessoas com determinado tipo de informação,
ficam com menos certezas. E querem saber mais. Você disse que o clone
genético é menos parecido do que o gémeo idêntico
- o que é que isso quer dizer? Acho que quando as pessoas já são
mais velhas, a maneira de estimular a curiosidade é confrontá-las
com contradições internas, quando a pessoa se apercebe que numa
situação reage de uma maneira completamente diferente quando,
no fundo, as situações são análogas. Isso estimula
muito a curiosidade de saber mais.
A outra grande área é, quando já se tem uma certa idade,
quando os nossos direitos individuais se confrontam com os direitos da comunidade.
Dá para discussões muito interessantes. Até que ponto
a minha liberdade começa a afectar a comunidade em que vivo? A construção
da identidade é muito do mundo ocidental. Achamos que ela é o
valor principal da nossa cultura, temos o direito de construir quem somos e
ninguém tem nada a ver com isso.
Tive uma conversa muito curiosa com um participante de um curso de Bioética
que organizamos todos os anos na Europa. Estávamos a falar de quais
eram os valores principais na vida quando esta se aproximava do fim. Ele não
percebia duas coisas. Como é que no mundo ocidental nós dávamos
uma importância demasiada ao individual versus a comunidade. No Oriente
era o contrário, mas mesmo no Oriente há grandes diferenças:
enquanto na China o valor principal da vida é a qualidade da vida, no
Japão, nas comunidades japonesas, é a honra. A vida tem que ser
vivida com honra, quem perde a honra comete haraquiri. É a questão
do relativismo dos valores vs. o pluralismo dos valores. Essas são discussões
que envolvem as pessoas, querem saber mais sobre cultura diferentes e a maneira
como culturas diferentes construíram a sua vida.
A sua vivência passou por três
continentes. Isso marcou-o?
Muito. Eu costumo dizer que a minha alma,
se é que eu a tenho, é muito
claramente africana. Tenho muito receio de ir a África porque fico muito
emocionado com os cheiros, as cores, os sítios. Vivi em África
até aos 24 anos, nasci, cresci e formei-me em África. Acabei
o meu curso universitário na África do Sul, a escola primária
e o liceu em Moçambique. A minha vida de realização profissional,
a minha vida científica foi toda nos Estados Unidos. E não foi
bem nos Estados Unidos, foi em Berkeley, que é uma espécie de
ilha, muito particular e um reduto dos direitos humanos. Fala-se de 68 em Paris
mas a revolução estudantil começa em 64 em Berkeley, quando
ocorreram os confrontos contra a guerra do Vietname. Foram as primeiras reacções
dos jovens contra uma estrutura montada e de grande poder.
Mudei de área de trabalho, fiz um doutoramento em Física, depois
fui para Biologia, agora estou interessado na Teoria do Risco. Nunca tive nem
tempo nem disponibilidade para andar a fazer uma espécie de autópsia
daquilo que se passou. Posso dizer que, em cada uma dessas experiências,
o que aprendi sobre mim próprio, sobre o mundo foi o que me construiu,
que construiu o que eu sou hoje, sou um produto dessa vivência.
Sou um bocado rebelde, sou um pouco contestatário e tenho uma certa
desconfiança das ideias das pessoas que têm a certeza de como é que
as sociedades devem ser construídas, de como é que a educação
deve ser feita. Cada vez mais o sistema educativo diz que para seres bem sucedido
tens de ter boas notas, tens de passar o tempo todo a estudar. Tem também
muito a ver com a alteração na maneira como a sociedade está hoje
em dia. Quando entrei para a universidade, nunca passei um minuto a pensar
se aquela área de trabalho me iria dar emprego ou não. Hoje em
dia não é assim. Há muitos jovens que quando entram para
a faculdade têm que ter na mente se aquela é uma formação
que lhes vai permitir ter um salário.
Bem sei que em 62, quando acabei o liceu, estava em África, era branco,
era uma elite. A maior parte das pessoas que entrava na universidade na minha
geração achava que aquilo era um cartão de visita para
depois ter a sua vida garantida. Hoje já não é assim.
Não se pode ter a mesma inocência em relação a que
a educação deve ser feita só para desenvolver a curiosidade.
Não se vive só de curiosidade. A educação tem que
ter esses dois aspectos, um muito importante que é a transmissão
de conhecimentos para que a pessoa possa ser um bom padeiro, um bom advogado,
um bom arquitecto, um bom carpinteiro; e a outra é o estímulo
da curiosidade. O primeiro, transmitir conhecimentos, é mais fácil.
O outro é mais difícil; por isso, em geral, não é tão
desenvolvido.
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