Matthias Finger escreveu em 2001, em parceria
com Jose Manuel Asun, o livro A educação de adultos numa encruzilhada,
aprender é uma saída em que faz o ponto de situação
da sua experiência sobre a educação de adultos
na Suíça e nos EUA.
“Verifiquei que nos Estados Unidos os departamentos de Educação
de Adultos estão em vias de ser fechados e a disciplina em vias de desaparecer”,
observou, considerando que este é um grande paradoxo, já que se
faz cada vez mais apelo à aprendizagem, esperando soluções
milagrosas.
“A minha opinião é que a disciplina da educação
de adultos não está à altura dos desafios que a sociedade
actual lhe impõe. A questão é a seguinte: o que pode a educação
de adultos, nos dias de hoje, oferecer à sociedade?”
Um pouco de história
E Matthias Finger recordou o historial da educação de adultos: “Não é uma
disciplina científica, como a economia ou psicologia. A educação
de adultos é um movimento social, é uma vontade de mudar a sociedade,
como por exemplo a alfabetização, a inclusão de adultos
na sociedade, a formação operária, as lutas sindicais, a
mudança social, os movimentos de justiça.”
Na opinião do professor suíço, não se aprende por
se ter aprendido, aprende-se por ter mudado uma situação, por ter
melhorado o nível de vida, aprende-se para ter mais justiça, para
se ser mais competente, para participar democraticamente na sociedade. “A
educação de adultos é uma consequência lógica
dos movimentos sociais nos quais há uma prática educativa, não
só política como também social.”
Nos anos 20, 30 e 40, a educação de adultos tornou-se gradualmente
reconhecida socialmente. O momento crucial terá sido quando a Unesco,
em Paris, começou, a partir dos anos 60/70, a fazer um esforço único
e particular na educação de adultos. Essas práticas foram
reunidas e codificadas, escritas e promovidas por uma organização
internacional com todo o poder simbólico que ela engloba, e a sua terminologia
era “Educação Permanente” (Life Long Education).
“A educação permanente era, pois, a junção
desses diferentes movimentos. Para a Unesco significava uma ideia clássica,
uma espécie de humanização do desenvolvimento. Convém
recordar que a ideia fundadora da Unesco era promover a ciência e a tecnologia
em todo o planeta, uma ciência única, não várias.
A educação permanente tem por função humanizar essa
ciência.”
Paralelamente a um desenvolvimento técnico e científico frio, a
educação devia, de certa maneira, fazer evoluir as mentalidades,
a cultura e a arte, um pouco como se colocássemos um certo verniz cultural
sobre o progresso tecnológico e científico que ninguém colocara
em questão.
A Unesco promovia o outro lado desse progresso tecnológico e científico
através do lado humano, e a educação permanente tinha por
função essa missão.
Extensão a todos os movimentos
sociais
A partir dos anos 68/70 vieram juntar--se à educação de
adultos outros movimentos mais culturais e, mais tarde, os ecológicos.
A prática estendeu-se a todos os movimentos sociais e não só aos
operários e sindicais do início. Entrou no mundo profissional
através da formação profissional, através da formação
contínua, para estar à altura da velocidade da tecnologia. E
gradualmente, a partir dos anos 70/80, entrou também na área
executiva e de gestão. Não se nascia gestor por se ser rico,
mas tinha de se aprender as técnicas de gestão.
“A educação de adultos”, recorda Matthias Finger, “entrou
também na área do lazer, através da 3ª idade, com o ‘explosão’ dos
anos 60/70. A sociedade industrial criou outros lazeres, e a educação
de adultos entrou também neste mundo. Há uma grande diversidade
de práticas, essencialmente a partir dos anos 60. A educação
de adultos, através de novas práticas sociais, seguiu a evolução
da sociedade.”
Tornou-se um produto de consumo, o que era uma posição totalmente
oposta à ideia inicial. Não se consumia educação,
dava-se educação para mudar a sociedade.
Os quatro desafios da sociedade
O professor suíço passou depois a abordar alguns desafios da
sociedade:
“Há em primeiro lugar uma dimensão liberal, neoliberal, uma
aceleração das trocas comerciais, do consumo, da produção
industrial, sempre mais rápida, sempre em grande escala, sempre mais barata,
mais global. Há aqui um desafio de produção, no sentido
em que podemos produzir sempre mais, de maneira sempre mais eficiente, com menos
investimento humano.”
O segundo desafio é, para ele, o das desigualdades. Todas as estatísticas
mostram que, apesar do crescimento das várias teorias económicas,
as desigualdades têm aumentado drasticamente no interior dos países,
e entre países ricos e pobres. De uma maneira geral, tudo o que é móvel
e lucrativo globaliza-se e tudo o que é estático e não-lucrativo
acaba por ficar ao nível local.
“O terceiro desafio é mais cultural: é a junção
de diferentes elementos que compõem diferentes áreas culturais,
que misturam tudo. A civilização industrial tem tendência à homogeneização
e à perda de identidade. Simultaneamente, há uma espécie
de reacção a essa evolução. Muito do que hoje chamamos
fundamentalismo é uma espécie de reacção cultural
a uma civilização indefinida, globalizada, culturalmente com falta
de identidade.”
O desafio seguinte, para Matthias Finger, é o ecológico – na
sua óptica o mais sério.
Em síntese, os desafios impostos à civilização
industrial, são cada vez maiores e mais urgentes, e os mecanismos tradicionais
para resolvê-los são cada vez mais limitados.
“É preciso uma mudança qualitativa, pela aprendizagem colectiva,
a fim de resolver esses problemas e não esperar por um milagre que os
vá solucionar.”
Mas, o que quer dizer, verdadeiramente, essa aprendizagem? As sociedades vão
aprender? As organizações vão aprender? Concretamente
para além do discurso “aprendizagem, aprendizagem, aprendizagem”,
como se pode, verdadeiramente, atacar esse problema actual?
Educação de adultos
hoje
No início a “educação de adultos” visava uma
mudança social, mas hoje em dia não é certo que vise essa
mudança. “Permitam-me fazer uma leitura própria sobre o
assunto”, diz Matthias Finger. “Como evolui hoje a educação
de adultos?”
E resume a evolução em dois pontos: privatização
e instrumentalização. O termo “privatização” tem
duplo sentido: há o sentido económico, a saber, que a educação
de adultos é cada vez mais uma actividade privada, num sector lucrativo
ou não; mas as pessoas também devem aprender porque é da
sua própria responsabilidade e não uma necessidade da sociedade
no abstracto. Elas são responsáveis pela sua aprendizagem; se
não investiram na sua formação contínua e forem
para o desemprego, é problema seu.
Mas há o problema organizacional, observa o professor: não devem
ser só os indivíduos a aprender, mas também as organizações,
para poderem estar à altura. “Hoje em dia encontramos na literatura
sobre aprendizagem organizacional toda uma panóplia de teoria de gestão
que utiliza o termo ‘aprendizagem’. A Gestão não é verdadeiramente
uma ciência, mas ao introduzir o termo ‘aprendizagem’ não
vai melhorar as coisas porque, verificando o conceito em que é utilizado,
este termo não é muito consistente.
“Já ouviram, com certeza, o termo ‘capital social’.
Tenta-se medir os conhecimentos das pessoas, o nível de uma sociedade;
tudo isto leva-nos a dizer que a aprendizagem é uma mercadoria que podemos
manipular, dirigir, organizar, estruturar. Penso que com esta visão se
vai matar a criatividade, o aspecto inovador da aprendizagem. Há verdadeiramente
um paradoxo no sentido em que todo o mundo deve aprender, é da sua própria
responsabilidade, a sociedade deve aprender, a empresa deve aprender, se não
será engolida pela concorrência e, finalmente, uma expressão
minha: “em breve, será um crime não aprender”.
Eis o tal paradoxo que Matthias Finger quer mostrar. De um lado, um apelo para
desenvolver a aprendizagem contínua, e, de outro lado, a falta de um
fundamento consistente. Dai a pergunta: como vamos aprender? “Esta é pois
a questão que nos coloca a sociedade. Não será por se
fazer uma volta aos ciclos da aprendizagem pragmática que vamos resolver
os problemas da poluição e outros.”
Diferentes tendências
Historicamente, a educação de adultos queria uma mudança
social mas vemo-la cada vez mais como uma actividade de reparação;
desempregados, drogados, deficientes vão ser educados ou reeducados
para conseguirem recuperar e integrar ou reintegrar na sociedade.
Nesta visão, não há mais mudança social: é preciso
controlar pela educação e formação um certo desfuncionamento
da sociedade. A educação de adultos vai orientar certos grupos
de risco.
“Na Suíça, a educação de adultos dirige-se
aos emigrantes que devem aprender o francês, o alemão, devem ser
integrados na sociedade, não para mudá-la mas para os fazer funcionar
no interior dela. Caso contrário, são um grupo de risco. Há também
o cenário social dos que não têm uma ocupação.
Mas este grupo está sempre dependente dos dinheiros públicos e
se houver um interesse político-social.”
Quanto ao cenário da sociedade de lazeres, está ligado à conjectura
económica, com os seus altos e baixos. É uma educação
privatizada, cuidada, as pessoas educam-se divertindo-se e divertem-se educando-se. “Os
americanos criaram vários termos”, recorda Matthias Finger, “entre
os quais entertainement. É uma tradição lúdica
que vemos evoluir com as novas tecnologias.”
Apesar de tudo, o professor suíço conclui com uma mensagem de
esperança: “digo-vos que penso que a educação de
adultos tem algum futuro, não como actividade reparadora ou de negócios,
mas somente através da responsabilidade social, onde ela deverá visar
a melhoria e a mudança da sociedade. Não será uma ciência
por definição, a ciência é neutra, e ela terá de
ser participativa e prática. Se a educação de adultos
for por esta via, e este é o ponto de vista do livro, ela não
poderá somente regressar aos anos 20 e 30, baseando-se na tradição
da educação de adultos, mas talvez em ideias mais adaptadas aos
tempos modernos.”
“Não podemos voltar simplesmente aos movimentos operários
dos anos 20 e 30 e reactivá-los para ter uma perspectiva da responsabilidade
social – esta é a minha crítica à política
de esquerda. Já não vivemos no mesmo contexto. Temos os desafios
culturais, ecológicos, é preciso adaptar a responsabilidade social
a esses novos desafios da sociedade."
Entrevista com Matthias Finger
Ficámos com a ideia que o senhor é muito
crítico e por vezes céptico em relação à educação
de adultos?
Talvez. Abandonei a educação de adultos, escrevi o meu livro
para observar e justificar-me, pois eu próprio queria fazer outras coisas.
Poderei ser muito crítico, mas de outro lado não vejo alternativa.
Penso que na minha teoria “encontrar uma saída” há elementos
pragmáticos pois há pontos positivos no pragmatismo, há também
uma tradição filosófica crítica das “luzes”,
talvez seja mais céptico em relação à teoria da
psicologia humanista. Tomei o pragmatismo e a filosofia das luzes e misturei-os
a fim de tentar encontrar o ideal, embora seja crítico sobre a psicologia
humanista, apesar de não ser agressivo, antes clarificador.
Fala muito da diferença entre a
América e a Europa...
Há pouca compreensão entre os dois lados. Os Europeus são
anti-americanos e os americanos não são anti-europeus, mas não
os compreendem. É mais uma questão de indiferença. Faço
parte das pessoas que são fascinadas pelos dois lados do assunto. Quando
estou nos EUA tento ser europeu e quando estou na Europa apercebo-me da série
de coisas excelentes existentes nos EUA. Durante vários anos fiz a ponte
entre EUA/Europa duas vezes por mês. Penso que há muito a ganhar
absorvendo o melhor de cada lado. A minha única crítica é que
talvez ninguém faça ou queira fazer esse esforço. Há muitos
europeus nos EUA, mas quando lá estão esquecem a Europa. Os americanos
vêm à Europa pelo turismo, pela história, pelos castelos
franceses. Os dois sistemas têm muito a dar um ao outro.
Convém relembrar que a educação de adultos é, antes
de tudo, uma disciplina de origem americana. A maior parte da literatura e
da prática da “educação de adultos “ na Europa
foi absorvida dos conceitos americanos, mesmo se não os tenhamos assimilado
completamente; trabalhamos com termos facilitation, learning psicology, learning
site. Deveríamos reflectir seriamente para ver o que poderíamos
adaptar do sistema americano.
Mas, quais são mais concretamente
essas diferenças?
Na Europa há uma visão muito racionalista na qual, através
da análise, podemos compreender e tendo uma compreensão podemos
mudar o comportamento. Os europeus pensam que é suficiente parar, fechar-se,
ter todos os parâmetros, analisar bem o problema, ter uma boa teoria
e só aí vamos agir, e vai funcionar bem porque estudamos o problema
em questão. Se falharmos na acção, é simplesmente
porque não fizemos bem a análise, devíamos ter tido em
conta mais parâmetros, mais recuo, maior reflexão.
Os americanos veem este assunto de um modo totalmente diferente.
O pragmatismo americano é muito simplista. Se não agirmos não
aprendemos. Se não fazemos qualquer coisa que resulta em reacções
que são necessariamente erros, não podemos aprender. Portanto,
agir é indispensável à aprendizagem.
Qual a importância que dá ao
papel do grupo?
Não sou um psicólogo social. No meu entender, o ponto forte da
teoria pragmática, e onde ela teve bons resultados foi no grupo. O pragmatismo
não teve grande sucesso ao nível individual nem ao nível
das organizações. Ao nível do grupo e das equipas de trabalho
foi excelente. Temos de reconhecer que na Europa não há muito
a oferecer. Mas a minha crítica mantém-se: a mudança dos
grupos não é ainda a mudança das organizações.
Qual a sua abordagem pessoal e profissional
da vida?
Se não aprendo nada, sinto-me infeliz. Tenho que fazer sempre algo de
novo. Comecei pela educação de adultos, depois fui professor,
etc, etc. Penso estar na minha terceira carreira académica.
Existe alguma ligação entre
ambas?
Não. Logicamente, há uma ligação implícita,
mas não obrigatoriamente explícita. Trabalhei muito sobre histórias
de vida. Sei que no final há uma ligação. Mas, ainda não
cheguei ao fim. Fiz carreira na educação de adultos, de professor,
tendo chegado ao topo na Columbia University. Em seguida, fiz carreira na área
da gestão pública, reformas do sector público, onde me
tornei célebre. Parei tudo, escrevi um livro sobre a educação
de adultos e a minha experiência. Actualmente estou numa outra área,
gestão de tecnologias, inovação e outras no género.
Farei isso ainda durante alguns anos, mas sei que não o vou fazer eternamente.
Tem razão, não sei como interligar tudo isto. Vejo ligações,
interligações, mas não posso, actualmente, encontrar essa
interligação global. Ainda não posso utilizar 80% do que
sei. Obriga-me a aprender.
Na educação de adultos há uma
similitude cultural, social, profissional… é uma
espécie de mistura?
É verdade, está tudo misturado. A aprendizagem é muito rica
e penso que devo colocar-me numa posição de constante aprendizagem.
Quando ensino algo que não conheço profundamente, tenho que me
formar para poder transmitir algo aos estudantes. Se eu não estiver consciente
deste ponto, evidentemente, não sou bom naquilo que faço. O facto
de me interrogar, estimula-me. Como colocar tudo isto conjuntamente? Honestamente,
ainda não sei.
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