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Conferência e entrevista com Matthias Finger
Adaptar a aprendizagem
aos novos desafios da sociedade

Texto: Rui Seguro Fotografias: Miguel Baltazar

Doutorado em Ciência Política e em Educação de Adultos, Matthias Finger é actualmente Regente da disciplina “Educação Contínua” e professor da disciplina “Gestão de Redes Industriais” na Universidade Federal Suíça de Tecnologia em Lausanne. De passagem por Portugal, falou sobre os paradoxos e o futuro da Educação de Adultos numa Conferência proferida no Anfiteatro da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, no âmbito do Ciclo de Conferências do Mestrado em Ciências da Educação – Educação de Adultos, numa iniciativa conjunta da Faculdade de Psicologia e do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Eis alguma das principais ideias que transmitiu nessa conferência.


Matthias Finger escreveu em 2001, em parceria com Jose Manuel Asun, o livro A educação de adultos numa encruzilhada, aprender é uma saída em que faz o ponto de situação da sua experiência sobre a educação de adultos na Suíça e nos EUA.
“Verifiquei que nos Estados Unidos os departamentos de Educação de Adultos estão em vias de ser fechados e a disciplina em vias de desaparecer”, observou, considerando que este é um grande paradoxo, já que se faz cada vez mais apelo à aprendizagem, esperando soluções milagrosas.
“A minha opinião é que a disciplina da educação de adultos não está à altura dos desafios que a sociedade actual lhe impõe. A questão é a seguinte: o que pode a educação de adultos, nos dias de hoje, oferecer à sociedade?”

Um pouco de história
E Matthias Finger recordou o historial da educação de adultos: “Não é uma disciplina científica, como a economia ou psicologia. A educação de adultos é um movimento social, é uma vontade de mudar a sociedade, como por exemplo a alfabetização, a inclusão de adultos na sociedade, a formação operária, as lutas sindicais, a mudança social, os movimentos de justiça.”
Na opinião do professor suíço, não se aprende por se ter aprendido, aprende-se por ter mudado uma situação, por ter melhorado o nível de vida, aprende-se para ter mais justiça, para se ser mais competente, para participar democraticamente na sociedade. “A educação de adultos é uma consequência lógica dos movimentos sociais nos quais há uma prática educativa, não só política como também social.”
Nos anos 20, 30 e 40, a educação de adultos tornou-se gradualmente reconhecida socialmente. O momento crucial terá sido quando a Unesco, em Paris, começou, a partir dos anos 60/70, a fazer um esforço único e particular na educação de adultos. Essas práticas foram reunidas e codificadas, escritas e promovidas por uma organização internacional com todo o poder simbólico que ela engloba, e a sua terminologia era “Educação Permanente” (Life Long Education).
“A educação permanente era, pois, a junção desses diferentes movimentos. Para a Unesco significava uma ideia clássica, uma espécie de humanização do desenvolvimento. Convém recordar que a ideia fundadora da Unesco era promover a ciência e a tecnologia em todo o planeta, uma ciência única, não várias. A educação permanente tem por função humanizar essa ciência.”
Paralelamente a um desenvolvimento técnico e científico frio, a educação devia, de certa maneira, fazer evoluir as mentalidades, a cultura e a arte, um pouco como se colocássemos um certo verniz cultural sobre o progresso tecnológico e científico que ninguém colocara em questão.
A Unesco promovia o outro lado desse progresso tecnológico e científico através do lado humano, e a educação permanente tinha por função essa missão.

Extensão a todos os movimentos sociais
A partir dos anos 68/70 vieram juntar--se à educação de adultos outros movimentos mais culturais e, mais tarde, os ecológicos. A prática estendeu-se a todos os movimentos sociais e não só aos operários e sindicais do início. Entrou no mundo profissional através da formação profissional, através da formação contínua, para estar à altura da velocidade da tecnologia. E gradualmente, a partir dos anos 70/80, entrou também na área executiva e de gestão. Não se nascia gestor por se ser rico, mas tinha de se aprender as técnicas de gestão.
“A educação de adultos”, recorda Matthias Finger, “entrou também na área do lazer, através da 3ª idade, com o ‘explosão’ dos anos 60/70. A sociedade industrial criou outros lazeres, e a educação de adultos entrou também neste mundo. Há uma grande diversidade de práticas, essencialmente a partir dos anos 60. A educação de adultos, através de novas práticas sociais, seguiu a evolução da sociedade.”
Tornou-se um produto de consumo, o que era uma posição totalmente oposta à ideia inicial. Não se consumia educação, dava-se educação para mudar a sociedade.

Os quatro desafios da sociedade
O professor suíço passou depois a abordar alguns desafios da sociedade:
“Há em primeiro lugar uma dimensão liberal, neoliberal, uma aceleração das trocas comerciais, do consumo, da produção industrial, sempre mais rápida, sempre em grande escala, sempre mais barata, mais global. Há aqui um desafio de produção, no sentido em que podemos produzir sempre mais, de maneira sempre mais eficiente, com menos investimento humano.”
O segundo desafio é, para ele, o das desigualdades. Todas as estatísticas mostram que, apesar do crescimento das várias teorias económicas, as desigualdades têm aumentado drasticamente no interior dos países, e entre países ricos e pobres. De uma maneira geral, tudo o que é móvel e lucrativo globaliza-se e tudo o que é estático e não-lucrativo acaba por ficar ao nível local.
“O terceiro desafio é mais cultural: é a junção de diferentes elementos que compõem diferentes áreas culturais, que misturam tudo. A civilização industrial tem tendência à homogeneização e à perda de identidade. Simultaneamente, há uma espécie de reacção a essa evolução. Muito do que hoje chamamos fundamentalismo é uma espécie de reacção cultural a uma civilização indefinida, globalizada, culturalmente com falta de identidade.”
O desafio seguinte, para Matthias Finger, é o ecológico – na sua óptica o mais sério.
Em síntese, os desafios impostos à civilização industrial, são cada vez maiores e mais urgentes, e os mecanismos tradicionais para resolvê-los são cada vez mais limitados.
“É preciso uma mudança qualitativa, pela aprendizagem colectiva, a fim de resolver esses problemas e não esperar por um milagre que os vá solucionar.”
Mas, o que quer dizer, verdadeiramente, essa aprendizagem? As sociedades vão aprender? As organizações vão aprender? Concretamente para além do discurso “aprendizagem, aprendizagem, aprendizagem”, como se pode, verdadeiramente, atacar esse problema actual?

Educação de adultos hoje
No início a “educação de adultos” visava uma mudança social, mas hoje em dia não é certo que vise essa mudança. “Permitam-me fazer uma leitura própria sobre o assunto”, diz Matthias Finger. “Como evolui hoje a educação de adultos?”
E resume a evolução em dois pontos: privatização e instrumentalização. O termo “privatização” tem duplo sentido: há o sentido económico, a saber, que a educação de adultos é cada vez mais uma actividade privada, num sector lucrativo ou não; mas as pessoas também devem aprender porque é da sua própria responsabilidade e não uma necessidade da sociedade no abstracto. Elas são responsáveis pela sua aprendizagem; se não investiram na sua formação contínua e forem para o desemprego, é problema seu.
Mas há o problema organizacional, observa o professor: não devem ser só os indivíduos a aprender, mas também as organizações, para poderem estar à altura. “Hoje em dia encontramos na literatura sobre aprendizagem organizacional toda uma panóplia de teoria de gestão que utiliza o termo ‘aprendizagem’. A Gestão não é verdadeiramente uma ciência, mas ao introduzir o termo ‘aprendizagem’ não vai melhorar as coisas porque, verificando o conceito em que é utilizado, este termo não é muito consistente.
“Já ouviram, com certeza, o termo ‘capital social’. Tenta-se medir os conhecimentos das pessoas, o nível de uma sociedade; tudo isto leva-nos a dizer que a aprendizagem é uma mercadoria que podemos manipular, dirigir, organizar, estruturar. Penso que com esta visão se vai matar a criatividade, o aspecto inovador da aprendizagem. Há verdadeiramente um paradoxo no sentido em que todo o mundo deve aprender, é da sua própria responsabilidade, a sociedade deve aprender, a empresa deve aprender, se não será engolida pela concorrência e, finalmente, uma expressão minha: “em breve, será um crime não aprender”.
Eis o tal paradoxo que Matthias Finger quer mostrar. De um lado, um apelo para desenvolver a aprendizagem contínua, e, de outro lado, a falta de um fundamento consistente. Dai a pergunta: como vamos aprender? “Esta é pois a questão que nos coloca a sociedade. Não será por se fazer uma volta aos ciclos da aprendizagem pragmática que vamos resolver os problemas da poluição e outros.”

Diferentes tendências
Historicamente, a educação de adultos queria uma mudança social mas vemo-la cada vez mais como uma actividade de reparação; desempregados, drogados, deficientes vão ser educados ou reeducados para conseguirem recuperar e integrar ou reintegrar na sociedade.
Nesta visão, não há mais mudança social: é preciso controlar pela educação e formação um certo desfuncionamento da sociedade. A educação de adultos vai orientar certos grupos de risco.
“Na Suíça, a educação de adultos dirige-se aos emigrantes que devem aprender o francês, o alemão, devem ser integrados na sociedade, não para mudá-la mas para os fazer funcionar no interior dela. Caso contrário, são um grupo de risco. Há também o cenário social dos que não têm uma ocupação. Mas este grupo está sempre dependente dos dinheiros públicos e se houver um interesse político-social.”
Quanto ao cenário da sociedade de lazeres, está ligado à conjectura económica, com os seus altos e baixos. É uma educação privatizada, cuidada, as pessoas educam-se divertindo-se e divertem-se educando-se. “Os americanos criaram vários termos”, recorda Matthias Finger, “entre os quais entertainement. É uma tradição lúdica que vemos evoluir com as novas tecnologias.”
Apesar de tudo, o professor suíço conclui com uma mensagem de esperança: “digo-vos que penso que a educação de adultos tem algum futuro, não como actividade reparadora ou de negócios, mas somente através da responsabilidade social, onde ela deverá visar a melhoria e a mudança da sociedade. Não será uma ciência por definição, a ciência é neutra, e ela terá de ser participativa e prática. Se a educação de adultos for por esta via, e este é o ponto de vista do livro, ela não poderá somente regressar aos anos 20 e 30, baseando-se na tradição da educação de adultos, mas talvez em ideias mais adaptadas aos tempos modernos.”
“Não podemos voltar simplesmente aos movimentos operários dos anos 20 e 30 e reactivá-los para ter uma perspectiva da responsabilidade social – esta é a minha crítica à política de esquerda. Já não vivemos no mesmo contexto. Temos os desafios culturais, ecológicos, é preciso adaptar a responsabilidade social a esses novos desafios da sociedade."

Entrevista com Matthias Finger

Ficámos com a ideia que o senhor é muito crítico e por vezes céptico em relação à educação de adultos?
Talvez. Abandonei a educação de adultos, escrevi o meu livro para observar e justificar-me, pois eu próprio queria fazer outras coisas. Poderei ser muito crítico, mas de outro lado não vejo alternativa. Penso que na minha teoria “encontrar uma saída” há elementos pragmáticos pois há pontos positivos no pragmatismo, há também uma tradição filosófica crítica das “luzes”, talvez seja mais céptico em relação à teoria da psicologia humanista. Tomei o pragmatismo e a filosofia das luzes e misturei-os a fim de tentar encontrar o ideal, embora seja crítico sobre a psicologia humanista, apesar de não ser agressivo, antes clarificador.

Fala muito da diferença entre a América e a Europa...
Há pouca compreensão entre os dois lados. Os Europeus são anti-americanos e os americanos não são anti-europeus, mas não os compreendem. É mais uma questão de indiferença. Faço parte das pessoas que são fascinadas pelos dois lados do assunto. Quando estou nos EUA tento ser europeu e quando estou na Europa apercebo-me da série de coisas excelentes existentes nos EUA. Durante vários anos fiz a ponte entre EUA/Europa duas vezes por mês. Penso que há muito a ganhar absorvendo o melhor de cada lado. A minha única crítica é que talvez ninguém faça ou queira fazer esse esforço. Há muitos europeus nos EUA, mas quando lá estão esquecem a Europa. Os americanos vêm à Europa pelo turismo, pela história, pelos castelos franceses. Os dois sistemas têm muito a dar um ao outro.
Convém relembrar que a educação de adultos é, antes de tudo, uma disciplina de origem americana. A maior parte da literatura e da prática da “educação de adultos “ na Europa foi absorvida dos conceitos americanos, mesmo se não os tenhamos assimilado completamente; trabalhamos com termos facilitation, learning psicology, learning site. Deveríamos reflectir seriamente para ver o que poderíamos adaptar do sistema americano.

Mas, quais são mais concretamente essas diferenças?
Na Europa há uma visão muito racionalista na qual, através da análise, podemos compreender e tendo uma compreensão podemos mudar o comportamento. Os europeus pensam que é suficiente parar, fechar-se, ter todos os parâmetros, analisar bem o problema, ter uma boa teoria e só aí vamos agir, e vai funcionar bem porque estudamos o problema em questão. Se falharmos na acção, é simplesmente porque não fizemos bem a análise, devíamos ter tido em conta mais parâmetros, mais recuo, maior reflexão.
Os americanos veem este assunto de um modo totalmente diferente.
O pragmatismo americano é muito simplista. Se não agirmos não aprendemos. Se não fazemos qualquer coisa que resulta em reacções que são necessariamente erros, não podemos aprender. Portanto, agir é indispensável à aprendizagem.

Qual a importância que dá ao papel do grupo?
Não sou um psicólogo social. No meu entender, o ponto forte da teoria pragmática, e onde ela teve bons resultados foi no grupo. O pragmatismo não teve grande sucesso ao nível individual nem ao nível das organizações. Ao nível do grupo e das equipas de trabalho foi excelente. Temos de reconhecer que na Europa não há muito a oferecer. Mas a minha crítica mantém-se: a mudança dos grupos não é ainda a mudança das organizações.

Qual a sua abordagem pessoal e profissional da vida?
Se não aprendo nada, sinto-me infeliz. Tenho que fazer sempre algo de novo. Comecei pela educação de adultos, depois fui professor, etc, etc. Penso estar na minha terceira carreira académica.

Existe alguma ligação entre ambas?
Não. Logicamente, há uma ligação implícita, mas não obrigatoriamente explícita. Trabalhei muito sobre histórias de vida. Sei que no final há uma ligação. Mas, ainda não cheguei ao fim. Fiz carreira na educação de adultos, de professor, tendo chegado ao topo na Columbia University. Em seguida, fiz carreira na área da gestão pública, reformas do sector público, onde me tornei célebre. Parei tudo, escrevi um livro sobre a educação de adultos e a minha experiência. Actualmente estou numa outra área, gestão de tecnologias, inovação e outras no género. Farei isso ainda durante alguns anos, mas sei que não o vou fazer eternamente.
Tem razão, não sei como interligar tudo isto. Vejo ligações, interligações, mas não posso, actualmente, encontrar essa interligação global. Ainda não posso utilizar 80% do que sei. Obriga-me a aprender.

Na educação de adultos há uma similitude cultural, social, profissional… é uma espécie de mistura?
É verdade, está tudo misturado. A aprendizagem é muito rica e penso que devo colocar-me numa posição de constante aprendizagem. Quando ensino algo que não conheço profundamente, tenho que me formar para poder transmitir algo aos estudantes. Se eu não estiver consciente deste ponto, evidentemente, não sou bom naquilo que faço. O facto de me interrogar, estimula-me. Como colocar tudo isto conjuntamente? Honestamente, ainda não sei.