admin@direitodeaprender.com.pt
 




 

Entrevista com Marie-Christine Josso
As histórias de vida abrem novas potencialidades às pessoas

Texto: Rui Seguro Fotografias: Miguel Baltazar


Marie Christine Josso mostra como as “histórias de vida”
se tornaram um instrumento para poder ajudar as pessoas
a tomar consciência daquilo a que se poderia chamar, em termos sociológicos, as determinações que pesam sobre
a sua maneira de estar no mundo. Descobrindo essas determinações, abrem-se outras potencialidades.


Pelas suas intervenções sentimos que acredita essencialmente nas pessoas, no seu envolvimento emocional com elas. Será consequência da sua experiência e prática das “histórias de vida”?

É um pouco mais complexo… Tive uma envolvência importante com o Partido Comunista Francês. Vivemos os acontecimentos da Primavera de Praga em 1968, fizemos leituras sobre a situação daqueles que chamávamos “países de leste” e também me envolvi no movimento de Maio de 68. O eixo das ideologias da época era fazer crer que são as estruturas que fazem o ser humano. Durante esse período, acreditei sinceramente que, se conseguíssemos mudar a sociedade, emergiria um novo ser humano. Constatei que no interior do PCF havia uma certa exclusão em relação às perguntas sobre o que se passava nos países de leste. Só tínhamos como resposta que era a ditadura do proletariado, etc. Tudo o que eu própria vivi no movimento estudantil mostrou-me que não seriam as estruturas a mudar o ser humano, mas que a mudança deveria vir das pessoas.
Houve, portanto, uma inversão. E, a partir desse momento, comecei verdadeiramente a trabalhar com as pessoas, com a convicção profunda de que, se cada um de nós conseguisse evoluir na sua maneira de pensar, na sua maneira de se relacionar com os outros, poderíamos mudar as estruturas. Foi um momento decisivo para mim. A partir desse instante, as “histórias de vida” tornaram-se um instrumento extremamente rico para poder trabalhar com as pessoas, de maneira a ajudá-las a tomar consciência daquilo que se poderia chamar, em termos sociológicos, as determinações que pesam sobre a maneira de estar no mundo. Descobrindo essas determinações, podem abrir-se outras potencialidades às pessoas.
Houve uma evolução política que se confirmou através de uma prática e reflexão e que, evidentemente, se reconfirmou com a idade. Também pude constatar que, a partir do momento em que conseguimos falar às pessoas das verdadeiras questões da vida, há uma abertura: as pessoas são profundamente sensíveis às ideias que transmitimos e que fazem sentido.

Nos Centros RVCC, as “histórias de vida” são uma maneira de se proceder a um balanço. Julgo que, no seu trabalho, são um meio de formação, um meio de se aprender mais. Será essa a diferença?
É muito importante que, num primeiro tempo, as “histórias de vida” permitam às pessoas fazer um balanço retrospectivo das suas vidas: olhar para todo o caminho percorrido, para os acontecimentos, as situações, as actividades, as pessoas significativas que encontraram.
Este é o primeiro momento. O segundo é considerar nesse balanço os recursos, os projectos e os desejos que são portadores de futuro. No passado, não há somente as coisas que ocorreram, há também todo o potencial que cada indivíduo tem para prosseguir a sua existência no futuro. Para mim, os dois tempos são importantes, não podemos pensar no futuro se não há uma reflexão crítica sobre o que foi o passado e se não pensamos também sobre todos os recursos que acumulámos progressivamente no decurso da nossa vida passada, incluindo também os projectos e os desejos que deixámos e que constituem potencialidades para o futuro.

No seu livro, faz uma apologia muito precisa e rigorosa da metodologia das “histórias de vida”. Ela não pode ser mudada, banalizada, transformada num fait divers ou voyeur. Queria saber a importância desse rigor, como é que o formador pode adquirir essas competências?
Penso que o formador ou professor que acompanha o relato da história da sua formação tem uma função mais difícil que a do professor clássico, porque somos obrigados a trabalhar no multidisciplinar. Quer dizer que, na minha própria formação, não é suficiente eu ser socióloga para fazer este trabalho, pois, se sou apenas socióloga, vou propor referenciais unicamente sociológicos. Enquanto acompanhante de um grupo de “histórias de vida”, tenho de ter uma cultura científica muito mais vasta que a minha disciplina de origem. Ter conhecimentos em psicologia, em antropologia, em história, em saúde (dimensão psicossomática). O meu trabalho é alargar em cada caso o campo das interpretações possíveis.
Cada vez que trabalhamos sobre um relato de vida, as pessoas envolvidas trazem um ponto de vista que, na maior parte do tempo, pertence a uma disciplina. O meu trabalho é o seguinte: mesmo do ponto de vista dessa mesma disciplina, podemos ter várias interpretações em função das diversas teorias. Para além disso, temos de ter outras leituras que enriquecem a interpretação, de maneira a restituir à pessoa todas as dimensões do seu ser no mundo. Há uma dimensão psicológica, sociológica, antropológica, histórica, etc.
O meu trabalho é extremamente exigente, pois sou obrigada a ter uma cultura muito mais vasta que a cultura cientifica do formador clássico e que ultrapassa a fronteira das diferentes faculdades. Isso cria, por vezes, fricções com colegas que se perguntam o que faço, porque ultrapasso as minhas competências iniciais. Para mim, é justamente essa visão multidisciplinar que permite ultrapassar o ponto de vista subjectivo e os limites da cada disciplina. Isso é o mais importante: é preciso que se tenha uma formação de formador para praticar as “histórias de vida”. E essa formação não pode ser somente teórica, tem de ser também prática. Desde há cerca de 20 anos que trabalho com as “histórias de vida”, formei, através da prática, um certo número de pessoas que trabalham comigo para aprender como eu trabalhava com as “histórias de vida”. Lentamente, na minha presença, elas começaram a tomar iniciativas sobre o trabalho de acompanhamento. Após as sessões, trabalhamos sobre as suas intervenções, onde eu achava que poderiam ter intervido doutra maneira, onde foram excelentes. Há uma espécie de formação de supervisão presencial.
Há pois esta dupla formação: a teórica, tendo de conhecer o máximo sobre a documentação de “histórias de vida”, mas igualmente uma formação acompanhada na prática.

Mas, em termos de metodologia, há consenso, entre as pessoas que trabalham na área das “histórias de vida”, que se deve em primeiro lugar fazer o discurso oral, depois escrever. É prática comum cumprir todas estas fases?
Não obrigatoriamente.

Lembro-me, sobretudo nos casos portugueses, de pessoas com um grau baixo de escolaridade para quem todo o acto de lidar com a escrita é penoso.
Exactamente. Há, segundo o tipo de pessoas com quem trabalhamos e o seu nível de escolaridade, uma metodologia diferente que é utilizada consoante os casos.
Com pessoas que têm grande dificuldade de escrita, vamos trabalhar com a parte oral. Como? Vamos gravar o seu relato e vamos trabalhar, ouvindo-o. Com as pessoas que não têm problemas de escrita, haverá uma fase oral para facilitar a construção do relato e a fase escrita. Tenho colegas que não utilizam a fase oral, não muitos, mas alguns, os quais pedem imediatamente o relato escrito e, algumas vezes, um segundo relato. É outra maneira de trabalhar em termos de metodologia mas com o mesmo rigor. A fase oral é importante, pois a memória não funciona num ápice, é necessário criar condições que facilitem a rememorização da sua história, é muito importante fazer este trabalho em pequenos grupos, pois as pessoas estão a contar as suas histórias. Digo, por exemplo: “é engraçado, eu própria já não me lembrava que tinha vivido algo igual”, ou então faço surgir outras recordações que estão mais ligadas ao que me conta. Há um estímulo à rememorização durante a fase oral, e é por isso que temos muito cuidado nessa fase.

Também acontece que as pessoas não tenham noção de que determinadas vivências são potencialmente ricas e quase as menosprezem. Os portugueses têm o hábito de achar que certas vivências não são importantes.
Evidentemente. Tudo o que é dito é importante. Não há coisas menores e outras mais importantes. Tudo o que é dito pode ser trabalhado posteriormente para se descobrir a riqueza no interior da experiência. Podemos mesmo fazê-lo com os jovens. Há jovens entre os 20-25 anos que pensam que não têm nada para nos contar e quando começamos a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas, eles próprios ficam surpresos ao perceber que tinham tanto para contar. Ou então, certas pessoas dizem: “casei, mas toda a gente casa, tive filhos mas todos têm”. Não se apercebem da singularidade do que eles viveram, no encontro com o seu companheiro, na vida do casal, na vida de família com as crianças. O nosso trabalho é dar valor a tudo, de uma maneira sistemática. É muito importante este pormenor.

O pós-“histórias de vida” implica um percurso individualizado pois, no fundo, todas as vidas são diferentes. Logo, pessoas diferentes, percursos diferentes. Isso não é difícil de concretizar num contexto hoje em dia totalmente massificado?
Penso que dá instrumentos às pessoas para terem uma melhor orientação, para fazerem escolhas que estão mais de acordo com elas próprias, consoante as tomadas de consciência que fizeram. Dá-lhes uma maior autonomia de decisão, de análise da situação, por um lado na escolha das orientações e, por outro, mesmo durante os cursos, podemos ver que as pessoas são capazes de melhor definir os seus interesses e não somente esperar que o professor lhes explique o que interessa saber. As pessoas têm as suas próprias perguntas, definem os seus interesses de conhecimento. Há uma dialéctica muito interessante entre o que os sistemas educativos oferecem, e, do outro lado, personalidades que são muito melhor definidas, que sabem melhor o que querem, o que lhes interessa e porquê, que sabem para onde querem ir. Essas pessoas podem escolher, no interior dos cursos, as temáticas a desenvolver.
Vemos isso muito bem nas teses de doutoramento e de licenciatura. De repente aparece a sua própria originalidade, enquanto que há pessoas que não fizeram o percurso da sua “história de vida” que vêm procurar-nos, a nós professores, e dizem: “tenho que fazer a minha tese de licenciatura mas não tenho nenhuma ideia. Que acha que devo fazer?” A essas pessoas digo apenas: “não sei!” Esta é a minha primeira resposta, talvez um pouco provocadora. “Como querem que eu saiba o que é interessante para vocês fazerem, não sei absolutamente nada” Há um momento de espanto e posso perguntar-lhes: porque vieram estudar? Querem ter um diploma? Para quê? Qual a área onde gostariam de trabalhar?” De certa maneira, é uma parte do trabalho que posso fazer com as “histórias de vida”. Sou obrigada a fazê-lo parcialmente com essas pessoas, um frente-a-frente para as ajudar a se autodefinirem.

Para terminar, uma questão pessoal. Vai continuar a trabalhar entre a Suiça e Portugal?
O meu primeiro contacto com Portugal foi através dos portugueses exilados na Suiça e na Universidade de Genebra. Vim a Portugal logo a seguir à Revolução dos Cravos. Há em Portugal um clima relacional que me toca profundamente. Penso que há na cultura portuguesa uma atitude profundamente humana, com uma dimensão afectiva que é muito forte e que me toca.
Pelo lado materno, tenho origens italianas e encontro algo muito profundo, muito mediterrânico em Portugal. Há também um aspecto cultural, uma arquitectura magnífica, uma poesia extraordinária, grandes filósofos e escritores. Fico sempre muito triste quando, no estrangeiro, me apercebo do desconhecimento total da cultura portuguesa, como se a visão que têm de Portugal fosse a dos trabalhadores portugueses emigrantes.
Há uma riqueza fabulosa que, na minha opinião, não é suficientemente divulgada, explorada, mostrada no exterior do país Fui muito bem acolhida, com muita amizade. Observei que me sentia à vontade na cultura portuguesa, e descobri que amava muito a vossa língua. Há histórias de amor que não se explicam. Quis aprender o português imediatamente. Pedi às pessoas com quem trabalhava para falarem em português e, como havia os da minha geração que compreendiam o francês, ajudavam-
-me a traduzir.
Acho que há uma arte de viver em Portugal que espero não se perca e que é muito envolvente.

Que conselho daria para melhor se implementar a metodologia das “histórias de vida”?
O que falta é desenvolver seminários sobre “histórias de vida” com uma certa regularidade. Já fiz três, é pouco. Seria preciso que todos os anos houvesse dois ou três.
Tenho um projecto com a escola Fernanda Resende, em termos de pós-graduação, para um seminário de “histórias de vida”. Mas há outras pessoas que são capazes de desenvolver muito mais esta dimensão. Estou a falar das “histórias de vida” na formação. Talvez a universidade portuguesa tenha ficado fechada nos seus paradigmas tradicionais, que faz com que se fale de “histórias de vida”, fique-se contente em ouvir falar… mas não há envolvência para desenvolver verdadeiramente um movimento como em França, Itália, Suiça, Brasil e Quebec, onde há associações nacionais que desenvolvem essas práticas.


Porque temos as ideias que temos?
Extractos da conferência de Christine Josso
Professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade
de Genève e uma das principais especialistas no campo das Histórias de Vida e Formação, Marie-Christine Josso esteve em Portugal em Junho para proferir a conferência “Formação de Adultos: aprender a viver e a gerir as mudanças” na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, na Alameda da Universidade, em Lisboa.

O que é para mim educação?
Para mim, a educação é exclusivamente a acção de uma sociedade através das diversas instituições que essa sociedade põe em funcionamento através das instâncias políticas, dos governos, a fim de se assegurar a transmissão dos conhecimentos, a transmissão dos valores, a transmissão do “savoir-faire”, dos comportamentos que vão, em primeiro lugar, assegurar a integração na vida social, cultural, económica, política das novas gerações – ou de gerações mais velhas, mas que estiveram no desemprego e que devem reencontrar uma integração nova na sociedade depois de a terem perdido.
Ou então são instituições criadas pelos governos que existem para promover a formação contínua, quer seja nas escolas, nas universidades ou nos institutos especializados, para dar acesso ao novo saber, ao novo “savoir-faire”, que se tornaram indispensáveis, tendo em conta o desenvolvimento das técnicas, das novas regras do jogo na produção dos bens e serviços e nas trocas internacionais, ou também nos novos modos de comunicação.
A educação é essencialmente a acção de uma sociedade prevista pelas instâncias políticas. Isto significa que a educação é profunda e, essencialmente, dependente dos políticos: temos que ter consciência disso. Das políticas nacionais, da política europeia. E também, em certos aspectos, da política internacional, como por exemplo da UNESCO, que dá as grandes orientações em termos de educação.
Sob este ponto de vista, a educação é, por definição, conservadora, porque ela deverá assegurar a continuidade da vida da sociedade. Não é um defeito absoluto ser conservador, é necessário. Ela é ao mesmo tempo inovadora, para facilitar a adaptação das pessoas à evolução da sociedade. Por definição, embora possa parecer provocador, a educação não pode ser um espaço de liberdade para as pessoas. Não é essa a sua missão.

Somos todos agentes duplos
Nessa perspectiva de educação, eu própria, vocês todos aqui presentes, professores e formadores, são agentes do governo, somos todos agentes dos nossos governos. Nesse sentido, enquanto agentes do poder político, temos um papel preponderante a desempenhar no processo de transformações.
De um lado, somos agentes do governo, de outro somos pessoas que acompanham outras pessoas no seu próprio percurso em relação às suas próprias dificuldades quando elas estão no contexto educativo.
Do lado do formando, somos vistos como estando ao serviço do governo, das políticas. Do lado dos políticos, somos vistos como estando demasiado à escuta dos nossos estudantes, não sendo suficientemente severos, controladores.
Há pois, na nossa própria profissão, algo que é profundamente desconfortável e que faz com que, embora sejamos actores sociais da mudança e da continuidade, somos sempre confrontados entre o momento em que devemos escolher; preservar um certo número de valores, um certo “savoir-faire”, irmos ao encontro de certas inovações que, efectivamente, podem trazer contribuições necessárias no contexto onde nos situamos hoje em dia. É banal dizermos que somos uma sociedade em mutação, mas penso que não estamos suficientemente conscientes, ainda hoje, das profundas mutações que estão a surgir constantemente no mundo e, em consequência, temos nós próprios que mudar, teremos que ajudar a acompanhar as pessoas que terão que mudar e penso que será à volta dessas perguntas que as “histórias de vida” vão poder ajudar-nos.

O que sabemos sobre a formação das pessoas?
Sabemos muito sobre o que é educar, a psicopedagogia da matemática, da música, da criança etc. Mas que sabemos sobre a formação das pessoas? Temos imensos conhecimentos sobre como podemos trabalhar sobre uma matéria a apresentar aos alunos, mas não sabemos praticamente nada sobre o que passa para o aluno quando ele está numa situação educativa. Nunca nos pusemos essa questão. Quando perguntamos se perceberam o que estamos a explicar, a pessoa responderá: Não. E o que fazemos? Tentamos uma nova estratégia, mas sempre no mesmo sentido: vou explicar de outra maneira, vou tentar outro caminho para compreenderem o que estou a tentar ensinar-lhes. Mas devemos pôr-nos a pergunta; como é possível que a pessoa não compreenda? É muito fácil dizer que não compreendeu porque não tem nível intelectual para compreender. Mas, raciocinando desta maneira, eliminamos progressivamente crianças, adolescentes e adultos de certas formações, sob o pretexto que não tinham capacidade de compreender.
As “histórias de vida” iniciaram-se com o objectivo de saber o que é a formação do sujeito aprendiz. Como aprendemos? E como é que o trabalho, através da história da nossa formação, nos pode ajudar a ensinar-nos como aprendemos? Esta aproximação ao assunto tem como objectivo ambicioso compreender os processos de formação, de conhecimento e de aprendizagem, do ponto de vista do sujeito aprendiz. Os processos de formação são, no fundo, as dinâmicas gerais e globais que animam as nossas existências e que fazem com que tenhamos feito um certo número de escolhas e que nos levaram a ser, progressivamente, o que somos hoje.
Há aprendizagens que podem ser extremamente rápidas, há outras que podem ser longas, mas, independentemente do objectivo próprio da aprendizagem, que pode necessitar mais ou menos tempo, é muito importante conhecer como aprendemos, como nos desenvencilhamos para aprender e, desde o início, desenvolvemos estratégias para aprender, para nos ensinar a aprender.
O trabalho sobre as “histórias de vida”, sobre o relato da nossa formação, quando tomamos alguns exemplos de situações de aprendizagem onde nos encontramos, permite-nos colocar em evidência as nossas estratégias de aprendizagem. Enquanto professores e formadores é extremamente incómodo fazer isso, podia ameaçar a nossa maneira de trabalhar, temos sempre uma estratégia de aprendizagem a propor às pessoas com quem trabalhamos, vamos começar assim, vamos fazer isto ou aquilo, etc. Se conseguirmos conhecer as estratégias de aprendizagem das pessoas com quem trabalhamos, podemos acompanhá-los melhor em vez de tentarmos impor-lhes a nossa psicopedagogia.

Um exemplo pessoal
Tenho uma mentalidade de autodidacta. Se estou numa situação em que sou confrontada com um professor, vou ouvi-lo para saber o que ele me diz, mas, em seguida, vou fazer à minha maneira. Não consigo seguir a metodologia que o professor me propõe, preciso captar um certo número de conhecimentos, de “savoir-faire” e, em seguida, inventar o meu próprio percurso. É por isso que sempre fui uma má aluna. Na escola era terrível, na universidade comecei a respirar, pois na universidade estamos em situação de autonomia na maior parte do tempo; temos que desenvolver as nossas próprias maneiras de trabalhar. Vou ainda falar-vos sobre alguns apoios de “histórias de vida” para a compreensão da formação.
Com toda a convicção e experiência de 30 anos de trabalho no campo da educação penso que a formação, do ponto de vista do aluno, só pode ser experiencial. Se ela não é experiencial, não há formação. Haverá tudo o que quiserem, excepto formação. Todas as “histórias de vida” nos explicam que só haverá formação quando houver experiência, e experiência quer dizer uma dimensão afectiva, uma reflexão sobre o que foi vivido. Enquanto professores e formadores, devemos desenvolver pedagogias que ofereçam experiências possíveis aos alunos com quem trabalhamos. Para mim, isso é a transformação mais radical que poderíamos oferecer no campo da educação em termos de pedagogia. Não temos controle, não podemos obrigá-los a fazer experimentar, mas podemos oferecer contextos que lhes permitem viver experiências. Isso é fundamental.

Competências genéricas, transversais
“As histórias de vida” permitiram pôr em evidência que todos nós temos competências genéricas, transversais. No fundo, sempre as tivemos ao longo da nossa existência, de contrário não estaríamos vivos e todo o processo educativo exige que as utilizemos: capacidade de comunicação, de criatividade e habilidade. Finalmente, há três elementos importantes: há tempos diferentes no processo de formação, de conhecimento e aprendizagem. Estes diferentes tempos são muito importantes quando temos de trabalhar na perspectiva de transformação, pois eles permitem-nos respeitar o ritmo de aprendizagem dos alunos, o que pouco fazemos porque os programas são concebidos para durar um certo tempo, para dar um certo dinheiro, para responder a uma certa necessidade.
O último ponto que gostaria de trazer aqui é que não podemos esquecer que temos de aprender a “desaprender”. Vou contar-vos uma anedota que exemplifica o que acabei de dizer: No decurso de uma viagem transatlântica, pedi para ir à cabine de pilotagem do avião. Quando lá cheguei, fiquei cerca de hora e meia a vê-los pilotar o avião. A certa altura perguntei ao comandante o que era mais difícil para eles na formação contínua, em virtude do desenvolvimento das novas tecnologias a que estavam sujeitos. A resposta foi simples e imediata: “O mais difícil é esquecer”.
Respondi-lhes que só podiam desenvolver uma parte dos conhecimentos e ele retorquiu-me: “É muito simples: se temos problemas, tenho que esquecer os procedimentos de ontem para ter imediatamente à disposição os procedimentos de hoje. Caso contrário, morremos todos”.
Acho que este é um exemplo extremamente forte, por mais metafórico que possa parecer, para nos mostrar que temos de ser capazes de acompanhar os outros a “saber esquecer”, pois pode ser extremamente perigoso não saber “desaprender” e de não saber “esquecer”.


Histórias de vida e formação
Texto de Margarida Belchior*
Existe actualmente uma rede internacional que se debruça sobre as «Histórias de Vida e Formação», em que Histórias de Vida e a ideia de projecto se desenvolvem em torno de dois eixos que interagem entre si: o desenvolvimento do projecto de conhecimento – o projecto teórico de uma compreensão biográfica da formação e, consequentemente, da autoformação, através das perspectivas da investigação-formação; o uso das abordagens biográficas ao serviço de projectos tais como projectos de expressão, projectos profissionais, projectos de reinserção, de formação, de transformação de práticas, projectos de vida.
O interesse que as Histórias de Vida têm suscitado no seio da investigação nas Ciências Humanas resulta de uma «reabilitação progressiva do sujeito e do actor», em que a «hegemonia do modelo de causalidade determinista que caracterizou as concepções funcionalista, marxista e estruturalista do indivíduo» vai progressivamente perdendo terreno.
Hoje com a importância que a informação adquiriu nas sociedades modernas através da ciência e do peso dos media, adquire especial pertinência o questionamento sobre o que é o conhecimento, ou seja, o saber moderno. Como diz Finger (1988), «uma informação não tem significado em si mesma, para a compreender temos que lhe dar um significado, temos que a integrar num saber outro», temos que a transformar em conhecimento. (p. 13).
Foi a partir destas reflexões e de interrogações sobre a natureza de um outro tipo de saber, sobre o seu valor epistemológico e as suas limitações, que estes investigadores, adoptaram como prática de investigação social o «método biográfico», uma prática capaz de valorizar esse outro conhecimento, o das vivências e das experiências que foram ocorrendo ao longo da vida das pessoas.
Estudar a experiência e o seu potencial formador exige que se reclame a respectiva integridade, no seu sentido holístico e global, rompendo com as tendências formais que se manifestam através da abstracção e da hegemonia da organização e da estrutura social, ou que a reduzem a competências técnicas ou tácitas. São estas tendências que acabam por negar a natureza heurística da própria experiência.
Este tipo de conhecimento construído a partir da experiência é um outro tipo de saber, mais pessoal e humano que parte habitualmente de questões como estas: «Como me tornei no que sou hoje?», «Por que penso aquilo que penso?».
Fazer investigação e formação a partir das Histórias de Vida comporta também em si mesmo como valor, o valor emancipatório do indivíduo. É o que afirmam os autores de um artigo intitulado «A la recherche de nos filiations» (1996), que se debruça sobre a prática das Histórias de Vida levada a cabo pelos elementos da «Association International pour les Histoires de Vie en Investigation et en Formation (ASIHVIF)». Segundo este artigo, as opções teóricas destes investigadores estão em estreita articulação com os seus compromissos sociais, uma vez as suas práticas de investigação e formação se baseiam numa visão emancipatória do indivíduo, quer a nível político quer a nível social. A maior parte dos membros desta Associação fez uma ruptura intelectual com as tradições de investigação nas respectivas áreas do conhecimento. Como exemplos: os historiadores passaram a valorizar o quotidiano e os actores sociais; os psicólogos, desiludidos com os diferentes modelos explicativos do comportamento humano, encaram as histórias de vida como uma forma de estudar a relação dialéctica entre o indivíduo e o social, duas dimensões em permanente interacção.
Estas abordagens, provenientes de campos disciplinares diversos, que vão da filosofia, à antropologia, passando pelas ciências sociais, pelas ciências da linguagem e pelas ciências da educação, cobrindo o conjunto das ciências humanas, em ruptura com o modelo clássico, o da produção de conhecimentos pelos especialistas, abre a possibilidade a um conhecimento outro, diferente, produzido pelos próprios actores sociais (1996).
Para Ferrarotti (1988), um sociólogo italiano, «o método biográfico apresenta-se à partida como uma aposta científica» que comporta «aspectos escandalosos». Por um lado, considera a subjectividade nas múltiplas dimensões em que ela está presente num processo de investigação; por outro lado, o consequente afastamento das metodologias quantitativas, experimentais e racionalista, aquelas que seguem o modelo das ciências da natureza apoiando-se no modelo matemático delineado por A. Comte para a sociologia (Pineau e Le Grand, 1993).
Sintetizando, para Ferrarotti (1988) a aposta epistemológica da biografia e seu consequente valor heurístico assenta na subjectividade e numa exigência anti-nomotética, que por outro lado, definem os limites da sua própria cientificidade.

Referências:
Ferrarotti, F. (1988). Sobre a Autonomia do Método Biográfico. In Nóvoa, A. & Finger, M. (Org.), O Método (auto)biográfico e a Formação. Lisboa: Ministério da Saúde - Departamento de Recursos Humanos
Finger, M. (1988). As implicações sócio-epistemológicas do método biográfico. In Nóvoa, A. & Finger, M. (Org.), O Método (auto)biográfico e a Formação. Lisboa: Ministério da Saúde - Departamento de Recursos Humanos
Gallez, D. et De Villers, G. (1996). A la recherche de nos filiations. Pratiques de Formations (Analyses) - Les Filiations Théoriques des Histoires de Vie en Formation, nº31, pp. 13 – 23
Josso, C. (2002). Experiências de Vida e Formação. Lisboa: EDUCA
Nóvoa, A. (1988). A Formação tem que passar por aqui: as Histórias de Vida no Projecto Prosalus. In Nóvoa, A. & Finger, M. (Org.), O Método (auto)biográfico e a Formação. Lisboa: Ministério da Saúde - Departamento de Recursos Humanos
Pineau, G., Le Grand, J.L. (1993). Les Histoires de Vie. Paris: Presses Universitaires de France

* Licenciada em Ciências da Educação, a terminar o Mestrado em Educação com uma tese intitulada "Desenvolvimento Profissional e Aprendizagem dos Professores do 1º C.E.B. - Contributo para uma reflexão sobre a aprendizagem como prática social"