Património e educação
popular
Texto: Hugues de Varine*
A educação popular assente no património
torna-se, hoje em dia e no mundo inteiro, um factor essencial do
desenvolvimento local, através da formação
de pessoas conscientes da sua força e das suas capacidades
de iniciativa e de controlo do presente e do futuro.
O desenvolvimento local “sustentável”, enquanto
processo dinâmico de transformação da sociedade
e do meio, assenta em grande parte na participação
activa e criativa das comunidades locais. Sem essa participação,
teremos apenas uma mera execução de programas tecnocráticos,
cuja eficácia depende da combinação conjuntural
e efémera de uma vontade política e da disponibilidade
de meios financeiros e humanos. Como estes dois factores – vontade
política e meios de acção – estão
estreitamente ligados a calendários eleitorais, a programações
de curto ou médio prazo e à presença de personalidades
fortes (os leaders), o desenvolvimento local não participativo
não pode de facto ser “sustentável”.
Contudo, só por si, a vontade de fazer participar a população,
sob a forma de indivíduos, de grupos ou de associações,
ou mesmo da comunidade no seu todo, também não basta para garantir
que essa participação seja real e assegurada no tempo. Isto porque
o cidadão médio, tanto numa democracia como numa ditadura, não é considerado
como pessoa adulta, como sendo capaz de assumir a sua quota de responsabilidade
na “coisa pública”. Admitidos a votar de quando em quando,
frequentemente em candidatos que nem conhecem de facto, na base de programas
e de promessas em que a memória popular reconhece que têm muito
pouca probabilidade de serem aplicados tal como foram anunciados, submetidos
em seguida à autoridade destes eleitos (que representam geralmente muito
menos de metade da população), os cidadãos não têm
qualquer possibilidade de chegar por si mesmos a desempenhar um papel concreto,
seja para exprimir e fazer adoptar ideias ou projectos, seja para contribuir
para a realização dos projectos dos representantes eleitos, e que
no entanto lhes dizem directamente respeito. Educação e desenvolvimento
Nas sociedades mais desenvolvidas, onde a grande maioria da população
recebeu um ensino obrigatório, durante pelo menos dez anos, muitas vezes
seguido de estudos facultativos mais ou menos especializados, a experiência
provou que os conhecimentos adquiridos por ocasião da formação
inicial não permitiram a essas pessoas investir de uma maneira rigorosa
e permanente para participar activamente na produção do seu próprio
futuro e no dos seus descendentes, dentro de um quadro colectivo. Aquilo a
que Paulo Freire chamou de educação “bancária”,
isto é, a acumulação forçada de conhecimentos segundo
um esquema, conteúdos e métodos definidos de cima para baixo
(pelo Ministério da Educação, por exemplo), tem-se revelado
incapaz de formar gerações de cidadãos responsáveis,
excepto quando tais conhecimentos acabam por coincidir com a cultura herdada
por parte de alguns dos alunos, aqueles que pertencem à mesma categoria
socio-cultural dos decisores do sistema educativo.
Para mais, resta sempre, mesmo nas sociedades mais “educadas”,
uma certa percentagem da população que passou ao lado desta educação
bancária, quer se trate de analfabetos, de iletrados ou de abandonados
pelos estabelecimentos escolares, que nem sequer adquiriram os conhecimentos
formais mínimos para fazer o seu caminho na vida segundo as normas da
sociedade que os rodeia. Estes não podem regressar à escola e
a sua única esperança será de entrar num processo educativo
novo, original, adaptado aos seus ritmos, à sua cultura viva, aos
seus interesses reais.
A estas duas categorias de público, que podemos qualificar sumariamente
como “letrados” e “não-letrados”, é indispensável
propor formas de educação não-bancária, a fim de
libertar as suas capacidades de análise, criatividade, iniciativa e
autonomia, que lhes permitam inserir-se, de forma progressiva e eficaz, nos
processos de desenvolvimento (e, ainda, para os não-letrados, de encontrar
o seu lugar numa sociedade de cultura escrita, onde vivem sem se acharem
realmente integrados).
Têm-se dado diferentes nomes a esta educação não-bancária:
educação informal, educação de adultos, educação
popular, educação permanente. Cada termo tem o seu sentido próprio
e não se confunde com os outros, mas pode dizer--se que, no que diz
respeito à participação no desenvolvimento, todos partilham
um mesmo objectivo, o de libertar a capacidade criadora da pessoa e de a levar
a ocupar plenamente um lugar de actor cultural, social e económico,
na sua comunidade e no seu território. Este processo corresponde exactamente à noção
de conscientização em Paulo Freire.
Nas linhas que se seguem, falarei apenas de educação popular,
para sublinhar o que aqui nos interessa, o facto de que se trata de uma educação
que se destina ao conjunto da comunidade, associando-a e envolvendo-a no seu
todo, com todos os seus membros e os recursos do território.
Dos públicos à população
A educação popular para o desenvolvimento visa criar ou reforçar
a comunidade e o seu controlo sobre o respectivo território, fornecendo-lhe
os necessários instrumentos para a concepção, expressão
e formulação de projectos, assim como para a sua concretização
e para a cooperação interna e externa.
Nesta abordagem, não se pode falar de públicos específicos,
tal como se fala no ensino clássico ou na acção cultural
e artística. É certo que cada um deve poder aí encontrar
respostas às suas necessidades próprias, em função
do grau de desenvolvimento pessoal a que chegou: o analfabeto procurará adquirir,
ao seu ritmo, os conhecimentos de base que lhe permitam poder ir mais longe
de seguida, o erudito ou técnico pedirá para aceder ao conhecimento
do seu quadro de vida ou a técnicas que lhe não são familiares,
o imigrante ou o recém chegado quererá ligar-se ao passado e às
línguas do seu novo quadro de vida, enquanto os autóctones desejarão
valorizar-se graças aos contributos destes diferentes vizinhos, etc.
A educação popular não visa, portanto, apenas a satisfação
de “públicos” específicos; deve, sobretudo, constituir
a fonte de uma cultura comum construída a partir dos contributos de
todos os membros da comunidade, acrescentando contributos exteriores destinados
a ajudar à integração desta comunidade em comunidades
mais largas: regional, nacional, internacional.
É, com efeito, apenas através do domínio da sua própria
cultura que uma população pode pretender tornar-se parceiro activo
e responsável do seu presente e do seu futuro. As equipas locais da Associação “In
Loco”, que trabalham no seio das populações no interior serrano
do Algarve, em Portugal, produziram recentemente um notável trabalho de
síntese e de metodologia, que inclui nomeadamente a formação
para o desenvolvimento pessoal1. Este trabalho retoma, actualizando-o, o dos
movimentos de educação popular activos na Europa em reconstrução,
após a II Guerra Mundial. Todavia, na sua prática quotidiana, onde
geralmente a educação popular de ontem procurava fornecer meios
de formação ou de animação trazidos principalmente
do exterior (formadores, animadores, artistas, conferencistas), os técnicos
da “In Loco” procuram, antes de mais, dentro da própria comunidade
os recursos e os materiais da formação.
É de constatar que qualquer comunidade é constituída por
sub-conjuntos, cujos diferentes papeis no desenvolvimento são deveras
importantes: os jovens (o futuro), os idosos (a experiência), as mu-lheres
(a educação no quotidiano e a gestão da família),
os profissionais (quadros da vida cultural, económica e social). Esta
distribuição por papéis e funções na comunidade é essencial
para a organização da estratégia e do método da educação
popular, em que cada um deve simultaneamente dar e receber. Os
recursos do território
A educação popular, tal como o desenvolvimento no seu conjunto,
assenta principalmente nos meios disponíveis no próprio território:
estruturas, pessoas, saberes, bens materiais e virtuais. Das estruturas
Deixando de lado as escolas de qualquer tipo, cuja função natural é a
educação “bancária”, pelo menos aos olhos
de todos, encontramos instituições públicas (bibliotecas,
museus, centros culturais ou de animação, igrejas e outros santuários
de diferentes religiões, espaços com vocação desportiva,
etc.) que podem ser utilizadas, quer para a sua função central,
quer como lugares públicos que podem ser desviados dessa função
para actividades de natureza educativa. Pensemos também nas associações
e noutros grupos organizados, que têm uma finalidade social, cultural
ou educativa, e podem ser legitimamente mobilizados para acções
de educação popular. Citarei naturalmente aqui os novos museus,
de comunidade ou de território, que possuem, desde o momento da sua
concepção, uma explícita vocação de educação
popular e se apresentam oficialmente como parceiros dos processos de desenvolvimento.
Podemos encontrar um exemplo no projecto de Ecomuseu das Serras do Algarve
ou no que está agora a emergir no Norte de Portugal, na pequena região
do Barroso. A educação popular é mencionada aqui explicitamente
como umas das dimensões do programa. Das pessoas
Trata-se de pessoas-recurso, que se encontram em qualquer comunidade,
mas também
e potencialmente, em dado momento, todo e qualquer membro dessa comunidade.
Têm conhecimentos e saber-fazer, uma memória, experiência,
competências profissionais, tempo, relações e redes locais
ou exteriores, motivações sociais ou outras que as tornam disponíveis,
dentro de circunstâncias variáveis, para uma utilização
colectiva. Serão intervenientes, referentes, conse-lheiros, enquadradores,
informadores, etc. Podemos observar, no Norte de França, agrupamentos
de pessoas, no âmbito de movimentos de economia solidária, que
põem em comum as suas competências, relações e meios
financeiros, a fim de suscitar e facilitar a iniciativa económica
por parte de pessoas desprovidas de meios mas portadoras de projectos pessoais. Dos saberes
Qualquer comunidade é um banco de saberes, uns formais e explícitos,
outros informais ou virtuais, que podem ser úteis mais tarde ou mais
cedo, quer a uma dada pessoa, quer ao conjunto da comunidade ou a uma determinada
categoria dos seus membros. Estes saberes podem valorizar-se em tempos normais
ou por ocasião de crises. Os portadores destes saberes são as
pessoas-recurso de que falámos acima. Em França, as Redes de
Trocas Recíprocas de Saberes (“Réseaux d’échanges
réciproques de savoirs”), em centenas de lugares, vêm criando
laços entre indivíduos de origens socio-económicas e socio-culturais
muito diferentes, para gerar solidariedades activas que fazem dos seus membros
actores imediatamente úteis aos processos locais de desenvolvimento,
no interior dos bair-ros, das empresas, das relações interpessoais. Dos bens materiais
Tudo o que existe, com duas ou três dimensões, sobre o território
e no seio da comunidade, pode ser utilizado para a educação popular,
para a observação, o conhecimento do meio, a análise,
a aprendizagem, o consumo, o controlo da técnica, a identidade, o conhecimento
do passado. A sua principal qualidade é ser uma realidade tangível
que multiplica a sua virtude pedagógica. Organizei pessoalmente, em
vários locais do Norte (Compiègne e arredores) e do Oeste (Bouguenais,
perto de Nantes) de França, “passeios de descoberta” do
património, destinados a formar militantes e animadores do desenvolvimento,
oriundos da população local, levando-os a ganhar consciência,
ao mesmo tempo, dos materiais à sua disposição e das suas
responsabilidades na respectiva preservação e utilização.
Mencionarei também as exposições participativas e os inventários
participativos, deveras eficazes, não só para (re)criar a identidade
local, mas também para identificar as pessoas-recurso que poderão
tornar-se actores voluntários do desenvolvimento.
Dos bens virtuais
O mesmo sucede quanto à memória, tradição oral,
costumes, particularidades linguísticas, que apelam à imaginação
e à sensibilidade e que ilustram as diferenças entre as pessoas
e os grupos, permitindo-lhes fortalecer interacções e cooperações. É o
caso, entre outros, da “Abordagem Bairros” (“Démarche
Quartiers”), da cidade de Saint-
-Denis (próximo de Paris) ou da compa-nhia “Samirami Métropole
Théatre”, em Roubaix (Norte de França): a memória
oral dos residentes, via de regra ocultada pela vergonha de uns e pelo desprezo
de outros, torna-se um factor dinâmico de construção da
identidade, da vontade de reagir, de participar na melhoria do quadro e das
condições de vida. No primeiro caso, emprega-se a técnica
do conto colectivamente narrado; no outro, é a encenação
teatral na tradição do Teatro do Oprimido que serve de veículo
para a expressão pública da memória.
Será apenas quando todos estes meios se encontrarem inventariados e
mobilizados que se torna necessário apelar a outros materiais e a outros
meios, importados ou criados especialmente “in loco”. Em todo o
caso, é de constatar que o conjunto dos meios próprios da comunidade
constitui ao mesmo tempo o seu património, natural e cultural, material
e humano. A pedagogia da educação
popular
A educação popular não é nada de novo, mas, para
além de um período inicial de prática militante, manteve-se
vezes demais nas mãos dos docentes, membros de uma corporação
de técnicos da pedagogia. A verdade é que os hábitos dos “clientes” potenciais
da educação popular já não são os mesmos
de há 50 anos. Os não-letrados recusam o quadro escolar e os
constrangimentos da educação bancária, sobretudo quando
o conheceram e dele saíram sem qualquer bagagem cultural utilizável.
Por seu turno, os letrados não vêem a utilidade de uma abordagem
que não considere até certo nível os seus próprios
adquiridos culturais e intelectuais. Para mais, já não se procura
ocupar de forma inteligente os tempos de lazer, mas sobretudo aceder a um estatuto
socio-cultural e socio-económico reconhecido ou adquirir o controlo
dos meios de expressão e de criação, tendo em vista uma
plena participação na construção do futuro. Em
ambos os casos, a procura das pessoas coincide com a dos agentes de desenvolvimento
e da acção comunitária, que pretendem interagir com
actores locais conscientizados e formados.
Esta situação pressupõe a invenção e a aplicação
de uma nova pedagogia interactiva, em que o educando terá igual valor
e igual contributo que o educador, podendo este último beneficiar até,
por sua vez, da posição de educando.
É aqui que os recursos culturais e patrimoniais do território,
da comunidade e dos seus membros, entram em jogo, porque irão ser suporte,
pretexto e matéria-prima desta pedagogia. De facto, cada pessoa, independentemente
do seu estatuto social, possui um património que lhe é próprio
e é, ao mesmo tempo, co-proprietário moral do património
da comunidade a que pertence. Poderá, assim, aprender a partir de algo
que “é seu”, que conhece como seu ou como fazendo parte
do seu contexto, algo que vai poder re-conhecer, aprofundar e, por fim, utilizar.
O património (no sentido mais global do termo, evidentemente, natural
e cultural, material e imaterial, reconhecido publicamente ou desconhecido)
vai fornecer, muito especialmente, à educação popular
os meios de atingir quatro grandes objectivos, que são os mais úteis
para o desenvolvimento participativo da comunidade e do território:
a formação da consciência da sua identidade, do seu território
e da comunidade humana de pertença;
a auto-estima e uma maior confiança nos outros, condição
da participação e da cooperação ao serviço
do desenvolvimento;
o despertar da capacidade de iniciativa e de criatividade, para se deixar de
ser consumidor e assistido e tornar-se empreendedor e promotor;
o domínio da expressão e dos instrumentos da negociação,
que permitem intervir eficazmente na esfera pública. Dois
exemplos me vêm à mente para ilustrar esta abordagem
pedagógica.
Em primeiro lugar, o do ecomuseu da Comunidade Urbana Le Creusot-Mont-ceau
(Bourgogne, França), nos anos 70. Os dois primeiros objectivos tinham
sido definidos à partida para assegurar a transformação
de uma população operária, que saía de mais de
um século de paternalismo autoritário, numa comunidade de actores
adultos, protagonistas de um desenvolvimento que se tornava cada vez mais plural
e territorialmente significativo. Contribuímos eficazmente para isso,
a partir de uma abordagem essencialmente patrimonial, em que os técnicos-mediadores
que constituíam a equipa do ecomuseu se apoiavam quase exclusivamente
nos recursos patrimoniais do território e dos seus habitantes.
Da mesma forma, e mais recentemente, os promotores do projecto de desenvolvimento
em Maestrazgo (Ara-gão, Espanha) prosseguiram os dois últimos
objectivos e conseguiram utilizar o património a fim de organizar progressivamente
uma população rural desvalorizada e a envelhecer para investir
no ordenamento do território, organização social, desenvolvimento
económico, aco-lhimento turístico, domínio e utilização
corrente das novas tecnologias. Como
pôr em prática esta nova pedagogia?
Existem, obviamente, tantos métodos quantos os lugares de aplicação.
Alberto Melo, um português que foi encarregado em 1998, pelo seu governo,
de conceber e de lançar uma nova política e novos programas de
educação de adultos, tentou inventar um modo de organização
(a nível nacional) adaptado às condições do Portugal
de hoje. E, muito naturalmente, porque isso lhe pareceu evidente, designadamente à luz
da sua experiência de agente de desenvolvimento no Algarve, recomendou,
como um dos elementos essenciais do novo dispositivo, a criação
de redes desconcentradas de estruturas locais de apoio, a partir das bibliotecas
e dos pequenos museus que são espaços familiares para a comunidade,
geralmente geridos e animados por voluntários da própria comunidade.
Do mesmo modo, os mexicanos fazem do museu comunitário, que é uma
primeira abordagem da reapropriação do património pela
comunidade, um espaço indiscutível de educação
popular.
Mas não se trata apenas de museus: eu pratico pessoalmente, no âmbito
de missões sobre desenvolvimento local, o método dos “passeios
de descoberta”, que acima já referi, e que constituem uma pedagogia
de formação partilhada, através da qual os habitantes
comunicam reciprocamente os seus conhecimentos sobre o património e
decidem assumir alguns problemas ou adoptar certas soluções resultantes
da associação das suas competências. Chega-se assim, e
de forma algo surpreendente, a passar muito rapidamente da tomada de consciência à tomada
de confiança em si mesmo, em seguida à iniciativa, e daí à organização
colectiva.
Muitas associações ambientais adoptam processos idênticos
para educar jovens e adultos sobre o conhecimento da Natureza, do ambiente,
das consequências do consumo e dos hábitos modernos, o necessário
respeito de regras e normativos, etc. Neste caso, deve partir-se, é evidente,
do património, mas a experiência demonstrou que as explicações
puramente teóricas, mesmo sustentadas por argumentos de elevado valor
científico, não são suficientes para fazer face a más
práticas individuais e colectivas.
A região autónoma de Aragão, em Espanha, adoptou, em 3
de Dezembro de 1997, uma lei dos parques culturais, sublinhando claramente
a função educativa destas instituições territoriais,
onde se incluem entre os objectivos o de “promover actividades pedagógicas
sobre o património cultural junto das crianças das escolas, das
associações e dos residentes em geral” (o património
cultural abrange aqui espaços naturais, paisagens e o conjunto dos bens
e fenómenos que derivam da Natureza). O primeiro destes parques culturais,
o de Maestrazgo, já levou à constituição de inúmeros “Grupos
de Acção sobre o Património”, que actuam ao nível
das aldeias para mobilizar os residentes e elevar a tomada de consciência
sobre a identidade local.
Um amigo meu, o professor V. H. Bedekar, museólogo indiano, lançou
um combate corajoso para pressionar gradualmente os milhares de grupos étnicos
e culturais do seu imenso país, uns atrás dos outros, a ganharem
consciência do valor da sua identidade, através da reconquista
dos seus patrimónios próprios. Começando no sudoeste,
em Chaul, um território indo-português em plena decadência
económica e cultural, está a conseguir construir uma rede de
colegas extremamente envolvidos por todo o país (uma experiência
destas está a emergir agora em Assam, um Estado do nordeste). Em todos
estes lugares, o património local, sob as suas mais diversas formas,
serve de matéria-prima para um processo formativo no seio da população,
na sua própria língua, tendo em consideração a
respectiva religião e o contexto socio-económico específico.
Além disso, o prof. Bedekar quer levar as populações locais
a criarem uma oferta de eco-turismo, um método original de educação
popular, visando formar os visitantes no conhecimento e no respeito pelas
culturas que encontram2.
Neste mesmo espírito, os animadores do Centro Cultural dos “Viajantes
Irlandeses” (ou “Irish Travellers”, uma população
autóctone de nómadas, que sofrem preconceitos racistas ou até graus
de marginalização semelhantes aos que afectam os ciganos da Europa
continental) utilizam sistematicamente o seu património, largamente
imaterial, para os levar a fortalecer a capacidade de agirem como cidadãos
responsáveis e a ser como tal reconhecidos. Conclusão
Como no Brasil e noutros países da América Latina, talvez com
um relativo atraso no reconhecimento do fenómeno, a educação
popular assente no património torna-se, hoje em dia e no mundo inteiro,
um factor essencial do desenvolvimento local, através da formação
de pessoas conscientes da sua força e das suas capacidades de iniciativa
e de controlo do presente e do futuro; capacidades que brotam do conhecimento
do respectivo património cultural e natural. Só podemos lamentar
que as instituições públicas, e em especial os museus
e o conjunto das estruturas de ensino, não se tenham dado conta ainda
da utilização educativa que pode fazer-se do património,
muito para além duma mera abordagem como instrumento complementar da
educação “bancária”.
1 “Formação para o Desenvolvimento. Formação
/ Inserção Profissional Territorializada”. Associação “In
Loco”, Fevereiro de 2001. Apartado 158, 8150-022 S. Brás de
Alportel. Tel: 289 840 860. E-mail: inloco@mail.telepac.pt. www.in-loco.pt
2 “Para as pessoas locais, Ecoturismo significa um diálogo aberto
e contínuo entre os de fora e os de dentro; ao explicarem aos visitantes
aquilo que são, as comunidades indígenas descobrem o que realmente
são” <em inglês no original”>. * Ex-Director do ICOM, Conselho Internacional dos Museus.
Viveu e trabalhou vários anos em Portugal, ligado à acção
cultural da Embaixada francesa. Actualmente dirige uma associação
de desenvolvimento local e é consultor internacional nesta mesma área,
tendo efectuado frequentes missões no nosso país.
Contacto: 21360 Lusigny-sur-Ouche, França.
E-mail : hdevarine@interactions-online.com
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