Reportagem
O som que a utopia tem
Texto Maria Ribeiro Fotografias Miguel Baltazar

Não é uma receita muito ortodoxa,
mas tocar bombos com os miúdos do Tocá Rufar tem
provocado algumas pequenas revoluções na vida de
muitas pessoas. Conversámos com uma delas, Alexandra Amorim,
de 43 anos, e com um dos ideólogos do projecto, Rui Júnior,
para conhecer mais de perto uma antiga tradição que
teima em não envelhecer.
Como alguns outros pais, Alexandra Amorim
foi arrastada pelos filhos para os levar a tocar bombos no Tocá Rufar. A sua
experiência como mera espectadora durou pouco: bastaram algumas
audições para a encontrar ao lado de Ricardo, então
com 9 anos, e Rita, de 13, a bater nos tachos e panelas. Ela transformara-se
na mais “nova” “rufina” da turma dos iniciados – os
aprendizes que, durante um ano, se dedicam à tarefa de arrancar
sons harmoniosos de um tambor. “De início, achei que
não poderia participar porque não tinha idade para
isso, mas abriram-me os braços e eu entrei para a orquestra”,
relembra.
Um ano depois dos primeiros acordes, Alexandra considera que a
sua vida mudou – para
melhor. No Tocá Rufar, Ricardo, que é hiperactivo, foi induzido
a integrar-se ao conjunto para não destoar. “Ele não pode
ser o elemento que está de fora, precisa de ter muito mais atenção
e concentração”, comenta. O seu relacionamento com a filha
adolescente também foi beneficiado pelo contacto mais próximo,
proporcionado por uma actividade comum. “Actividade em que uma não
sabe mais do que a outra, em que muitas vezes é ela que me ajuda a resolver
situações.”
Mas não foi apenas em relação aos filhos que a vida de
Alexandra melhorou ao integrar-se ao Tocá Rufar: “Fez-me relembrar
muitos dos princípios pelos quais tentei reger-me durante toda a vida,
este respeito pelo próximo, este serem todos diferentes e todos iguais.
Não tenho medo de envelhecer, e acho que estou a envelhecer bem no contacto
com os miúdos”.
Todos iguais
A análise que Alexandra faz da sua experiência na orquestra dos
bombos não soa estranha a Rui Júnior, director do Tocá Rufar. “O
motor do projecto é uma ideologia, uma forma de estar na vida, em que
podemos praticar o bem, tentar ser mais justos, vencer as nossas incompetências
em termos de comunicação geracional”, avalia. Por isso,
descrever o Tocá Rufar como “a orquestra dos miúdos que
tocam bombos” seria uma forma superficial de interpretá-lo. “Eu
e muitas pessoas achamos que os princípios se mantêm até ao
fim da vida. É possível não envelhecermos, não
estagnarmos. Não quero degradar-me como a generalidade dos seres humanos.
Essa é a ideia que nos motiva.”
Uma ideologia que se materializa em muitas das normas escolhidas para reger
o trabalho quotidiano do Tocá Rufar, entre as quais o uso obrigatório
do fardamento pelos rufinas. O objectivo é encobrir as diferenças
sociais e culturais dos integrantes das dez orquestras criadas de Norte a Sul
do país, com ramificações em Malta, Londres, e Liverpool. “Com
a farda, somos todos iguais: não há cor, não há credo,
não há rico e pobre, e também não há idade”,
confirma Alexandra.
É esta massa humana, uniforme e disciplinada, que construirá o
som único de centenas de bombos a rufar em simultâneo. “É o
fenómeno do uníssono, que dá uma satisfação
e uma desconcentração do ego, muito terapêuticas”,
explica Rui. “Estás uma hora a tocar em uníssono, com o resto
da orquestra, e é como se tivesse passado apenas um minuto da tua vida.
O teu ‘eu’ deixou de existir, fazes parte de um ‘eu’ colectivo,
e sentes-te bem.” Essa mais-valia poderia chamar-se magia, segundo Rui,
que é algo difícil de descrever, impalpável, mas que nos
faria “estremecer”.
Custos da igualdade
Manter o ideal igualitário do projecto implica não cobrar jóia
aos seus 5700 sócios, dar aulas de percussão gratuitas, fornecer
refeições aos miúdos em viagens internacionais e passeios
locais ou manter um autocarro alugado que vai a Loures todos os sábados
buscar quatro participantes para os ensaios. “O projecto é muito
difícil em termos financeiros porque tudo é gratuito”,
diz Rui.
Para mantê-lo, junto com Fernando Molina e Sandra Guerreiro, os outros
dois que integram o seu núcleo duro, organizaram uma estrutura sofisticada
e quase auto-suficiente, que inclui uma associação, a Associação
dos Amigos do Tocá Rufar, e um Centro de Artes e Ideias Sonoras. São
eles que asseguram tarefas que vão da contabilidade ao grafismo, da
divulgação dos eventos à construção dos
instrumentos. Os recursos financeiros provêm dos espectáculos
e das oficinas de percussão, a funcionar actualmente em quase 50 escolas.
Um protocolo com a Câmara do Seixal, onde fica a sede do Tocá Rufar,
garante 400 oficinas por ano, e ainda há as contratações
realizadas pela Câmara de Lisboa. “Conseguimos duas, três
orquestras a actuar em simultâneo e ocupamo-nos da divulgação,
para não sermos uma associação vítima das carências
do sistema”, explica. O projecto não recebe qualquer apoio dos
ministérios da Educação e da Cultura.
Actividades para adultos
Entre as actividades geradoras de recursos, há uma destinada exclusivamente
aos adultos. São as acções de formação realizadas
pelos monitores do Tocá Rufar, no interior das empresas, para centenas
de funcionários. O método é simples: depois de dividir
os participantes em grupos menores, em que são transmitidas as noções
básicas da percussão, torna-se a agrupá-los para que exibam
em conjunto os conhecimentos recém-adquiridos. Os resultados apresentados
até agora, segundo Rui, têm sido excelentes: “Quando o gestor
máximo de uma empresa se encontra com a telefonista a tocar bombos,
dilui-se uma série de tensões e de barreiras de comunicação”,
exemplifica. “As pessoas deixam de tratar-se mecanicamente. O contacto
torna-se mais personalizado porque tiveram uma experiência comum que
foi agradável”.
Não terminaram aí as experiências destinadas a adultos.
Já estacionaram em frente à sede do Seixal pelo menos três
autocarros repletos de candidatos a “rufinas” da terceira idade. “Para
essas pessoas, tocar bombo é a coisa mais natural do mundo, não
há qualquer estranheza. Toda gente sabe tocar o malhão e a chula”,
diz Rui. O mesmo não aconteceria com os mais jovens, que pouco conhecem
dos grupos tradicionais de bombos, como os zé-pereiras, do Minho, que
ainda somam cerca de 200, mas têm vindo a desaparecer em várias
locais.
Apesar de não haver qualquer restrição à participação
dos adultos nas oficinas e orquestras do Tocá Rufar, que ninguém
se engane: o projecto é destinado aos jovens e os seus integrantes são
cada vez mais novos e mais preparados. “Talvez como resultado do nosso
trabalho nas escolas, já se vê miúdos com 10, 11 anos que
vêm quase prontos para entrar na orquestra. Os professores ficam abismados
com a capacidade deles: como é que tão novinhos conseguem tocar
tão bem ou melhor que a geração anterior, que correspondia
a jovens de 15, 16 anos.”
Bons resultados
Pode participar-se no Tocá Rufar com qualquer idade, mas é só a
partir dos 6 anos que, em termos logísticos, a equipa da sede se responsabiliza
por tomar conta dos miúdos. Com menos idade, recomenda-se aos pais que
os acompanhem. Nas escolas, as oficinas de percussão também são
dadas na pré-primária, para crianças a partir dos 2 anos.
O percurso normal de um “rufina” começa na turma dos iniciados,
sem idade definida, onde, durante cerca de seis meses a um ano, os recém-chegados
adquirem a técnica básica que os habilita a integrar a orquestra.
São três horas de treino semanal.
Ao ingressar numa delas, os novatos são logo enviados aos “leões”,
isto é, participam de alguma actividade pública, para aprender
a vencer as dificuldades e o nervosismo iniciais. O supra-sumo do Tocá Rufar,
o sonho de todos os “rufinas”, é a companhia Wok, uma formação
profissional com apenas dez integrantes, que mistura a música dos bombos
com teatro, dança e efeitos visuais.
De qualquer maneira, sejam artistas do Wok ou “rufinas” iniciantes,
o facto é que os miúdos adoram o Tocá Rufar. Há vários
testemunhos de pais a relatar a mudança dos filhos depois que começaram
a tocar bombos, com reflexos não só no comportamento em casa
como no rendimento escolar. As notas sobem, na mesma proporção
em que o relacionamento familiar se torna mais fluído. Rui aponta algumas
razões para esses bons resultados: os efeitos terapêuticos provocados
por uma forma de expressão primária. “Provocar som é uma
coisa natural, é como respirar”, avalia.
De qualquer forma, há mais especialistas debruçados sobre o fenómeno.
De 1996, quando Rui foi convidado a apresentar o espectáculo de bombos
que deu origem ao projecto na Expo 98, até hoje, o Tocá Rufar
motivou três teses de Mestrado e tornou-se objecto de estudo de vários
psicólogos e psiquiatras.
Rui Júnior não se espanta, pelo contrário: garante que
previa a dimensão que o projecto ia tomar. O seu sonho, para os próximos
50 anos, é transformá-lo numa espécie de Casa Pia no sector
das artes e espectáculos, uma fundação com ensino profissional
de qualidade. “A maior parte dos humanos desistiu da utopia com aquele
discurso de sempre: veja lá que ele é novo, mas isso depois passa.
Eu acho que não. Acredito na moral, no bem-fazer. Acredito na utopia.”
Uma história exemplar
Rui Júnior costuma contar uma história que
ilustra bem o que é o Tocá Rufar e os efeitos que
provoca no comportamento dos jovens. Era o início do projecto,
quando estavam a formar uma orquestra de 300 componentes para apresentar-se
no palco da Praça Sony, na Expo 98. Havia entre os inscritos
o Adelino, “um jovem muito agradável, muito amável,
mas que lá fora, na sociedade, era uma peste”. Ele
e um colega, provenientes de um bairro social, já estavam
na fase de desistir da escola, destruir e roubar. “Era um
aprendiz de gangster”, avalia Rui.
Nos ensaios da orquestra para a apresentação na Expo 98, a dupla
fazia-se acompanhar por amigos que não integravam o grupo e roubavam
t-shirts e lanches para eles. “Sabíamos disso, mas nunca dissemos
nada. Até valorizámos o Adelino, levando-o à gala na televisão”,
relembra. “Ele manteve-se durante quase dois anos na orquestra sendo
um marginal.” Quando se foi embora, meteu, um pouco à força,
o irmão mais novo no Tocá Rufar, e nunca permitiu que ele faltasse
a um ensaio sequer. “É aqui que vais aprender a ser um homem”,
dizia ele.
Isso passou-se em 1998. Actualmente, Adelino é um jovem trabalhador,
que conseguiu superar um percurso negativo, e o irmão, Milton Moura, é a
estrela da companhia. Por isso, quando alguns familiares dos “rufinas” sugerem
que não se deveria admitir a presença de alguns rapazes no Tocá Rufar,
por serem má companhias para os seus filhos, Rui conta esta história.
Diz que se o jovem possuir uma educação sólida não
será prejudicado, pelo contrário: a diversidade existente só pode
ajudá-lo a adquirir outro tipo de sensibilidade, estar mais pronto para
entender a vida.
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