Já não é a
primeira vez que está em Portugal por períodos
longos. Onde tem trabalhado?
Tive a oportunidade de, por duas vezes, ter permanecido algum tempo em Portugal.
A primeira vez na Universidade do Porto, onde fiz a minha licença sabática.
Aí estudei as questões da pesquisa que os investigadores do Centro
de Investigação e Intervenções Educativas dessa
Universidade faz sobre a questão da interculturalidade, o multiculturalismo.
Foi um momento importante exactamente para descobrir que Paulo Freire não
considera ainda o mundo multicultural. Diferente da maioria dos sociólogos,
que dizem que o mundo já é multicultural, Paulo diz: nós
vivemos numa universidade cultural muito grande, há várias culturas
presentes no mesmo espaço, mas ainda não há o que poderíamos
chamar multiculturalidade enquanto convivência de diferentes culturas,
um enriquecimento mútuo, uma colaboração, uma construção
conjunta na qual se mantenham as singularidades das culturas. Um trabalho árduo,
político, histórico de procurar formas de conviver entre as diferenças
no mesmo espaço mas de forma colaborada, através da colaboração,
onde cada um se afirma e ao mesmo tempo busca pontos comuns. Nós temos
uma pluralidade de culturas, é verdade, mas o que se tem por vezes são
guetos, indiferença, a justaposição mas não uma
presença activa de uma cultura com a outra de maneira que todos se possam
enriquecer tanto intelectual, espiritual quanto simbolicamente mas também
materialmente. Do ponto de vista conceptual, ele faz essa pressão que
ajuda no debate, que ajuda na organização das diferentes actividades.
Cada grupo cultural tem de se afirmar nas suas singularidades, na sua riqueza
mas, ao mesmo tempo, ser capaz de interagir com outros, cooperar, colaborar,
ser solidário, etc.
A cultura dos media tende a normalizar,
homogeneizar essas culturas.
É isso que tem vindo a acontecer, mas multiculturalidade não pode
ser isso. Pelo contrário, desenvolve cada vez mais a própria riqueza.
A partir da diferença, a pessoa afirma-se; mas é incapaz de interagir
com outros, de trazer para a sua cultura a cultura dos outros que interessa que
enriquece a sua própria cultura ao mesmo tempo que enriquece a do outro.
A ajuda resolveu uma série de debates que ficam determinados: se é multiculturalismo
benigno, se é discriminação. A partir disso, também
fui vendo que quando se fala de diversidade cultural, é preciso ter
cuidado porque não se trata só de celebrar essa multiplicidade,
mas também de ver que há diversidades que são perversas,
o resultado de situações perversas. Por exemplo: as diferenças
de classes, de rendimento económico, criam uma diversidade na sociedade,
mas uma diversidade que tem de ser combatida. Ao passo que a diversidade gerada
pelas diferenças de orientação sexual, de religião,
ideológicas, tem de ser promovida, é uma riqueza. Quando se fala
de diversidade, tem de se saber quais são as origens dessas diferenças,
se são originadas nas desigualdades se nas particularidades de cada
grupo cultural.
E como se consegue separar o que é diversidade
boa e diversidade má?
Não é só a questão de separar, mas de como lidar
com essas questões. Aquelas em que a diferença promove a igualdade
na diferença, são bem vindas, mas aquelas diferenças que
me inferiorizam, que me discriminam, têm de ser combatidas. Fazer essas
distinções ajuda a lidar com as situações, não
resolve, mas é um instrumento importante.
Analisei a actuação da unidade de educação de adultos
da Universidade do Minho, o trabalho do centro de pesquisas da Universidade
de Barcelona que trabalha com adultos e tem um debate sobre a superação
das desigualdades, as teorias e as práticas superadoras das desigualdades.
E foi muito interessante descobrir que, a partir do nosso trabalho no Recife,
Universidade de Pernambuco, é possível a universidade — mesmo
com toda essa estrutura burocrática, e com a tendência cada vez
maior de comercializar a universidade — há espaços de actuação
que podem ser muito positivos inclusive para questionar a própria mercadorização
da educação.
Tanto nos serviços de Barcelona quanto nos de Braga há uma tendência
forte de transformar a educação superior em mercadoria, em serviço.
Mas vendo todo o risco dessa situação, há grupos na universidade
que fazem um trabalho muito sério de interacção com as
empresas, com os bairros, com as escolas, com as diferentes situações,
como os grupos culturais, que alimentam a esperança de que mesmo o rolo
compressor da mercadorização da educação não é absoluto,
há espaços de actuação que podem fazer a diferença
mesmo seguindo esse discurso único que se tenta impor no mundo inteiro.
Essas experiências são mais
no campo da sociologia da educação?
Da sociologia da educação, também da antropologia, muitas
pessoas que vêm do campo da arte, da cultura como arte. Um outro aspecto
importante é a actuação multidisciplinar, essas intervenções,
sejam da unidade de educação de adultos no Minho sejam no CREA
de Barcelona ou no NUPEP no Recife, são de equipas multidisciplinares — uma
outra aprendizagem importante que se tem feito sem diluir as especificidades
das disciplinas. Temos clareza do campo específico, mas, ao mesmo tempo,
estabelecemos diálogos e temos a clareza de que nenhuma disciplina dá conta
da complexidade da realidade. Sobretudo no campo da educação,
não se pode actuar a partir de um único ângulo disciplinar,
toma-se os grupos humanos, as pessoas na sua totalidade, na sua situação
multifacetada. Não se pode, a partir de uma única ciência,
de uma única disciplina, dar conta dessa complexidade. Obrigatoriamente
temos de procurar formas de actuação conjunta, de trabalhar os
diferentes campos disciplinares num diálogo fecundo que nos possa dar
uma visão mais aproximada dessa complexidade.
Neste triângulo, Recife, Braga, Barcelona,
há diferenças entre as realidades?
Estou a convencer-me de que somos tão diferentes, tão diferentes,
que somos quase iguais. Claro que há singularidades, na história
da Península Ibérica, na história do Brasil, da própria
trajectória das universidades, mas quando se mergulha nos interstícios
das actuações institucionais, dos grupos de trabalho, das pessoas,
vemos que as questões centrais da vida humana explodem de uma maneira
muito forte. As questões do sentido da vida, do meu posicionamento no
interior dos debates económicos, políticos, as invejas, os ciúmes,
as competições, eu diria que são taras humanas que pouco
importa que se diga bons dias, buenos dias, muito bom dia, good morning. É claro
que as feições próprias de cada situação
são muito importantes, mas mesmo essas modulações humanas
são tentativas, esforços para responder às questões
mais fundamentais da existência. E eu começo a perguntar se não é preciso
redescobrir o existencialismo na sua complexidade e retomar esse debate tanto
na vertente ateia como na religiosa, seguido por Gabriel Marcel, por Sartre,
por Camus, porque realmente a grande questão é o que a gente
faz da nossa vida, que é o tempo que nos compete manejar e viver bem,
viver dignamente, viver com prazer porque esse é o grande desafio. O
grande problema é que acho que 80% da população mundial
vive incomodada com a sua própria vida, sem prazer, sofrendo, trabalhando
exclusivamente. Claro que o sofrimento é próprio da vida, não
nos podemos iludir, mas por outro lado há muitos sofrimentos perfeitamente
dispensáveis e poder-se-ia enfrentar aqueles que não são
possíveis de superação de uma maneira mais agradável.
O grande problema aqui e em qualquer lugar do mundo é a nossa realização
como pessoas. É a mulher mal amada, o homem mal amado, o desencontro
das pessoas, o desencontro dos grupos e todo o mundo buscando o que, genericamente,
se poderia chamar felicidade. E como aqui não há nenhum acordo,
cada um cria o seu modelo de felicidade e realização e tem muito
que conversar, muito que se encontrar. Quanto mais se encontra esse convívio,
mais a gente pode trocar, intercambiar e enriquecer-se com esse processo.
Por vezes a existência de problemas
pode ser boa, porque ajuda a superar-nos e a não ficarmos
na rotina.
A rotina é um outro risco fundamental da vida. Fica-se numa repetição,
e vai-se perdendo o movimento, a dinâmica, desaparece o desafio, as coisas
estão todas prontas, você já sabe como nasce, como desenvolve,
como morre. Não tem piada essa vida rotineira e repetitiva.
Essas questões não aparecem nos documentos, o debate do neoliberalismo,
a condenação da exploração, o desaparecimento dos
centros, mas ao mesmo tempo, eu diria que há uma ansiedade muito grande
de auto-encontro, um encontro consigo mesmo e com o outro e aí, como
não posso encontrar-me comigo mesmo sem encontrar o outro, estou condenado
a conviver. Vamos ver se se transforma essa condenação na salvação,
tornar a vida mais agradável. Se essas coisas forem tomadas como o conteúdo
de educação de adultos e da educação escolar, podíamos
dar outra perspectiva para a vida.
Se imaginarmos o que conseguimos de avanço em termos tecnológicos,
uma tecnologia que nos permite entrar em contacto uns com os outros mas mantendo-nos
incomunicados, cada um no seu casulo, cada um sem abrir os flancos ao outro...
e isso torna-se a grande questão, faz falta o encontro profundo um com
o outro. Se os processos educativos, não só informais, não-formais
mas mesmo os formais, os escolares formassem a vida como conteúdo da
educação e todos os outros conteúdos como instrumentos...
As linguagens verbais, as linguagens artísticas, as linguagens matemáticas,
não são mais do que instrumentos para a vida, não é a
finalidade da vida da gente. Tenho que dominar bem a língua do ponto
de vista escrito e oral para interagir com os outros. O que a escola até hoje
considerou como conteúdo é conteúdo instrumental; conteúdo
educativo, substantivo, é compreender a vida, compreender as relações,
os desafios para uma vida mais agradável - isso reorientaria muito essas
dinâmicas que parecem não ter solução.
A escola no Brasil, nos EUA, na França, em Portugal é improdutiva,
reprova, não dá perspectiva de vida para a maioria da população.
No final, há a grande frustração por que se apresenta
a escola como a solução e ao mesmo tempo se fecha as possibilidades
para a maioria. Quando temos sucesso na escola, é porque já temos
sucesso de alguma maneira social, não é a escola que é o
sucesso social, o sucesso já vem de um sector social. Você tem
várias oportunidades e a escola legitima, confirma e amplia os horizontes,
mas não cria coisas novas. Os outros que vêm sem essas condições
não saem do 4º ano. Há uma questão da vinculação
sociedade/educação que é muito séria, é um
desafio para todos nós. Pouco importa o campo de actuação
do assunto.
Mas há diferenças significativas
entre os projectos?
Se se tomar as três experiências que analisei, cada uma delas tem
a sua singularidade. Barcelona coloca uma ênfase muito grande na questão
dos movimentos sociais, de bairros, de vizinhos, e arma toda a questão
da convivência a partir dos diferentes grupos muçulmanos, os budistas,
os cristãos que estão ali em Barcelona, aqueles bairros onde
eles têm a experiência concreta com os cursos de literatura, profissionalização,
artes, preparação para os estudantes irem à universidade;
e o grande debate é o que eles chamam de aprendizagem dialógica.
Tomando a própria multiplicidade de situações vividas
no bairro, essas questões são trabalhadas seja do ponto de vista
da leitura, da escrita, seja do ponto de vista da arte, seja do ponto de vista
de projectos de apoio para a melhoria das condições económicas,
para a aprendizagem de línguas. Mas a grande chave do processo é o
bairro, é a situação de vizinhança.
Já o grupo do Minho da unidade educação de adultos optou
por se especializar e desenvolver as suas actividades pedagógicas com
trabalhadores inseridos na produção económica, com a vida
regular, com emprego em grandes empresas: há todo um trabalho sobre
as condições de aprendizagem na actividade económica.
Tomaram uma das maiores empresas da região e desenvolvem junto desses
trabalhadores, dos quadros médios da empresa, os círculos de
estudo, para inclusivé perceber, do ponto de vista social, como é que
eles aprendem no dia a dia da fábrica. A opção deles é trabalhar
com quem já está muito bem inserido economicamente.
No Recife trabalhamos mais a partir da própria escola, o nosso grande
foco de trabalho é o professor, porque acredita-se que a escola só vai
ter outra perspectiva se o professor compreender o seu próprio trabalho
de uma maneira distinta. Se ele se entender como reprodutor de textos de livros,
se só dá o conteúdo formal do livro ao aluno, desconhecendo
toda a realidade multifacética do aluno nas complicações
da vida, da família, não tomando a vida como objecto, essa escola
não muda.
Mas está a referir-se a jovens,
não a adultos?
Estamos a trabalhar nos dois níveis, tanto privilegiamos o adulto, mas
também vemos que hoje no Brasil o jovem aos 15, 16 anos já é um
adulto, já tem uma vida de trabalho ou de não trabalho e do ponto
de vista escolar também sem fins. Então optámos estrategicamente
por nos especializarmos na formação do educador. Fazemos convénios
com as prefeituras, com os governos locais para desenvolver todo um processo,
portanto são questões muito diferentes. Aí vem a nossa
aproximação: são tão diferentes que são
quase iguais, os grandes temas são exactamente os da intervenção
para dar outro sentido à vida, para dar uma outra forma de convivência
nessa multiplicidade de situações: como é que as pessoas
manejam a vida no bairro, na escola, na fábrica, de tal maneira que
elas se tornem personalidades expansivas, que sejam capazes de dialogar com
a diferença, afirmar-se na sua singularidade mas que sejam capazes de
compreender e entrar no convívio com a singularidade do outro, aí reorientando
essa forma de estar juntos; não estar só justaposto mas interagindo
e enriquecendo-se mutuamente, tanto do ponto de vista simbólico e intelectual
como mesmo do ponto de vista material.
As questões da vida são as mesmas, claro que com ângulos
distintos, com perspectivas diversas, há diferenças muito grandes
entre a situação económica do Brasil, de Barcelona ou
de Portugal, mas os problemas de como manejar essa situação são
muito similares. Há singularidades extraordinárias, mas os dramas
humanos são muito similares.
Só se começa a pensar noutras
questões quando as básicas estiverem satisfeitas.
Eu acho é que tem de se fazer isso simultaneamente. Se eu quero satisfazer
as necessidades de alimentação, de habitação, de
lazer, tenho de pensar na forma de responder de tal maneira que me torne cada
vez mais capaz de usufruir do belo, do bom, do verdadeiro. Acho que a busca
da construção das condições básicas de vida
não dispensa a transcendência social, a transcendência individual.
Há várias formas de buscar a resolução de necessidades
básicas, posso fazer isso mais solitariamente e usando os expedientes
mais esdrúxulos e desonestos, ou de uma maneira organizada, cooperando,
trabalhando junto com os outros e ao mesmo tempo buscando outro sentido para
a vida.
Eu não separaria: a mudança das condições de exploração,
de subordinação, de dominação tem de ser feita
com o crescimento da subjectividade, da minha qualidade pessoal; na própria
busca disso eu já vou me reconstruir, me reinventar, dando um outro
sentido para a minha convivência, para o meu estado com o outro.
A questão pedagógica vem junto com as questões do poder,
da concentração e distribuição da riqueza. Eu tento
ter um posicionamento político muito claro, mas é preciso que
haja um processo para que esse posicionamento político possa ser não
meu mas construído colectivamente. Tudo não é só política,
mas sem a política a gente não faz, não é tudo
só educação mas sem educação também
esse questionamento dos valores das formas de convivência não é feito.
Se eu gero um processo em que as pessoas se sentem excluídas, não-amadas,
se as necessidades básicas não são satisfeitas, elas têm
todo o direito de me incomodar, no mínimo bater à minha porta
e pedir uma esmola, uma ajuda. Termina perdendo o que julgava que era o seu
bem-estar individual, porque o outro está a incomodar.
Voltando à questão da prática.
Quais foram as práticas que viu nestes três lugares
que mereça realçar?
No Minho essa prática com a fábrica chamou muito a minha atenção,
porque no Brasil temos deixado, de um modo geral, o lugar do trabalho como
um espaço de reflexão, estamos muito mais voltados para a área
rural, para o bairro, achando que no lugar do trabalho não havia muito
espaço para um processo educativo mais rico. No entanto, essa experiência
do Minho demonstra que é possível. Mesmo dentro da fábrica
pode abrir-se espaço onde as pessoas possam reflectir, interagir, discutir
o próprio processo de trabalho e a relação da sua vida
no trabalho e na família, do bairro, da responsabilidade social. Isso
ajudou-me muito a perceber outros âmbitos possíveis e importantes
de actuação. É claro que o mundo do trabalho hoje em dia
está muito modificado, não há mais nenhuma segurança
no trabalho, todo o mundo é trabalhador temporário, há uma
grande precarização mas ainda há espaços importantes
e onde se pode ter uma actuação.
O trabalho não é encarado apenas como um trabalho individual
mas sim em equipa.
A fábrica abre espaço exactamente porque percebe que o trabalho é em
equipa, que uma relação agradável entre os trabalhadores
aumenta a produtividade. Desde que se criem condições, a liberdade
pessoal continua sendo e deve ser objecto de debate, essa história de
que o poder não tem o centro não é tão verdade,
na fábrica isso fica bem claro, para você entrar passa por tantos
portões, tem tanta autorização, tem sempre um que diz
sim ou não. Esse poder não está tão diluído,
não podemos ter essa ingenuidade. Esse trabalho com situações
formais de economia me parece que é um campo interessante.
Em Barcelona, no bairro de La Verneda (http://www.edaverneda.org/) o que me
chamou a atenção foi a gestão democrática da escola,
eles conseguiram um avanço extraordinário. Há um espaço
onde estão os professores universitários, professores primários,
donas de casa, aposentados, jovens e eles conseguiram a dinâmica de gestão
daquele espaço de forma verdadeiramente democrática. A decisão é por
consenso, as discussões colectivas não são só um
princípio e uma teoria, a maior contribuição da escola
de adultos do grupo da Universidade de Barcelona é esse, é um
processo de gestão extraordinário. Há 15 anos, desde as
8 da manhã às 22 horas, numa sincronia, numa cooperação,
uma decisão colectiva, aquilo já foi incorporado no trabalho
da casa, mesmo que algumas actividades ainda sejam muito tradicionais. Por
exemplo, o processo de alfabetização deles, é um dos mais
tradicionais, mas o clima de cooperação, de ajuda mútua
supera qualquer técnica.
Gerou-se um processo dialógico entre os diferentes componentes, o professor
universitário, o doutor e o analfabeto. Escutam-se, argumentam, contrargumentam
e não há aquela concessão, é realmente um confronto
de ideias, de posições, de emoções de iguais. Esse
clima de Barcelona é realmente uma contribuição extraordinária.
No Recife, eu digo que conseguimos com os professores nos últimos cinco
anos já alguma coisa, mas não estamos ainda à altura do
grupo. Ao mesmo tempo, avançamos muito no debate pedagógico,
na forma de propor as situações de vida como conteúdo
para os processo educativos. O diálogo entre as três instituições é mutuamente
enriquecedor: como cada um dá ênfase a um aspecto, isso pode fazer
chegar a uma compressão mais completa das formas de actuar junto dos
diferentes grupos sociais.
É POSSÍVEL CONSTRUIR UMA SOCIEDADE MULTICULTURAL?
Extractos da comunicação de João
Francisco de Souza no Quarto Encontro Internacional do Fórum
Paulo Freire “Caminhando para uma Cidadania Multicultural” na
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação
da Universidade do Porto realizado entre 19 e 22 de Setembro de 2004
Modernidade versus Pós-modernidade
... Paulo Freire tematiza as questões relativas à modernidade
x pós-modernidade ao debater os problemas da diversidade cultural
ou pluriculturalidade, da multiculturalidade e da interculturalidade,
bem como suas implicações para os processos educativos,
com clareza meridiana, em Pedagogia da Esperança (Freire, 1992). É nesse
campo e nesse debate que se posiciona pelas possibilidades de uma pós-modernidade
crítica. A posição de Freire dimensiona a seriedade
e as preocupações necessárias ao tratamento dessa
problemática assumindo-se como pós-moderno crítico.
Esse posicionamento pós-moderno crítico face à diversidade
cultural na busca da construção da interculturalidade e
multiculturalidade é desafiante e necessita de uma criteriosa
análise e uma prática conseqüente a fim de que não
se confunda justaposição de culturas ou dominação
de uma cultura sobre várias com uma situação multicultural,
de multiculturalismo ou multiculturalidade construída pela interculturalidade.
A necessidade de retomada da radicalidade, da criticidade e sua prática,
a distinção entre uma pós-modernidade progressista e uma
conservadora, neoliberal - rejeitando essa última - a reafirmação
da opção pelos excluídos, subordinados (Freire, 1992)
que orienta a crítica e lhe dá direcionalidade, não dão
margem a nenhuma dúvida. Como afirma inicialmente,
A Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido é um
livro assim, escrito com raiva, com amor, sem o que não há esperança.
Uma defesa da tolerância, que não se confunde com a conivência,
da radicalidade; uma crítica ao sectarismo, uma compreensão da
pós-modernidade progressista e uma recusa à conservadora, neoliberal
(Freire, 1992: 12).
Nessa perspectiva, encontramo-nos atualmente em uma situação
de diversidade cultural ou pluriculturalismo, não ainda em uma situação
de multiculturalidade, enquanto uma configuração social consolidada
e caracterizadora da pós-modernidade/mundo.
Ele pensa que a multiculturalidade não pode existir “como um fenômeno
espontâneo”, mas apenas se for “criado, produzido politicamente,
trabalhado, a duras penas, na história” (Freire, 1992: 157). Estamos
diante de um fato social: a diversidade cultural ou a pluralidade de culturas
(pluriculturalidade). Essa pode ser tomada como uma das características
da pós-modernidade/mundo, fruto dos processos de globalização
vividos, sobretudo, nos últimos cinqüenta anos, os quais provocaram
as diferentes e novas transculturações em toda a Terra. Mas,
essas diferentes culturas ou traços culturais de uma mesma cultura nacional,
ainda se encontram, majoritariamente, justapostas/os ou em situações
de dominação e subalternidades. O desafio é transformar
essa pluriculturalidade ou diversidade cultural, através da interculturalidade
(diálogo crítico entre as culturas e das culturas), numa multiculturalidade.
A multiculturalidade só acontecerá como resultado de uma construção
desejada política, cultural e historicamente. É diferente da
pluriculturalidade que não é resultado de uma ação
intencional, voluntária e politicamente construída. A multiculturalidade,
como resultado de um processo consciente de diálogo entre culturas ou
de traços culturais numa mesma cultura (interculturalidade), se caracterizará como “invenção
da unidade na diversidade. Por isso é que o fato mesmo da busca da unidade
na diferença, a luta por ela, como processo, significa já o começo
da criação da multiculturalidade” (Freire, 1992: 157).
As transculturações, resultantes dos processos de globalização,
que configuraram a pós-modernidade/mundo, não caracterizam per
se um mundo multicultural nem intercultural. Indicam apenas uma situação
de diversidade cultural ou uma pluriculturalidade, além de configurar
um desafio à convivência dessas diferentes culturas ou traços
culturais em presença. Segundo Freire (1992: 157),
É preciso reenfatizar que a multiculturalidade como fenômeno que
implica a convivência num mesmo espaço de diferentes culturas não é algo
natural e espontâneo. É uma criação histórica
que implica decisão, vontade política, mobilização,
organização de cada grupo cultural com vistas a fins comuns. Que
demanda, portanto, uma certa prática educativa coerente com esses objetivos.
Que demanda uma nova ética no respeito às diferenças.
(...)
Multiculturalidade e interculturalidade
Fica claro, portanto, que, para Freire, a multiculturalidade e a interculturalidade
não são situações espontâneas, não
são fatos sociais, não são dados estatísticos,
pelo menos, não se trata ainda da condição predominante
da pós-modernidade/mundo. São ainda desejos, utopias, metas de
alguns poucos grupos sociais, especialmente dos novos movimentos sociais. Não
se pode ainda identificar como sendo a situação caracterizadora
da pós-modernidade/mundo. Poderá e deverá constituir sua
utopia, sua esperança para uma nova configuração da convivência
humana (em suas dimensões econômica, política e gnosiológica),
nos novos cenários mundiais. Isso só será possível,
porém, se forem construídas de acordo com as exigências
acima indicadas.
A globalização atual, provocadora das diversas transculturações
que vêm se verificando nos últimos quinhentos anos, especialmente,
ao longo dos últimos 50, não provoca uma unidade na diversidade
de culturas, mas provoca uma diversidade cultural ou pluriculturalidade que
tende, predominantemente, à fragmentação cultural como
tem sido identificada por vários pesquisadores, entre eles, Wallerstein
(1996), Weviorka (1999), Ianni (2000), o próprio Paulo Freire (1992,
1993, 1996). Os diferentes movimentos sociais têm denunciado permanentemente
essa problemática. Vejam-se os protestos que têm se dado por ocasião
de diferentes reuniões internacionais.
Clima democrático e educativo
As atitudes de diálogo necessárias à instalação
de um clima democrático e educativo, nas diferentes sociedades, devem
ser cultivadas nas práticas pedagógicas, escolares ou não.
Essas atitudes, enquanto exigem a reflexão, o debate, a criticidade,
o discernimento, a tomada de decisões, são formas de avançar
na construção de processos democráticos, inclusive nos
espaços educativos ao tomá-los como conteúdos básicos
de aprendizagem(...). Assim, os processos educativos estão contribuindo
para a vivência democrática em todos e quaisquer espaços
societários desde que tomem como seus conteúdos básicos
de aprendizagem a compreensão, interpretação, explicação
e expressão da vida, da existência humana e do planeta em todas
as suas implicações. Conteúdos a serem construídos
pelo confronto entre o saber cientifico e o saber do senso comum, construindo
sínteses provisórias que apoiaram a intervenção
transformadora sobre essas mesmas realidades e situações.
Esses conteúdos programáticos que conformarão os programas
de estudo e de pesquisa em torno dos quais, segundo Paulo Freire (1975: 87), “os
sujeitos exercerão a sua ação gnosiológica não
podem ser escolhidos por um ou por outros dos pólos dialógicos,
isoladamente. Se assim fosse, e infelizmente assim vem sendo com a exclusividade
da escolha que cabe obviamente ao educador, começar-se-ia o que fazer
educativo de forma vertical, doadora, ‘assistencialista’”.
Por isso, todo processo educativo, escolar ou não, teria nício
pela identificação dos temas geradores de interesse das crianças,
dos adultos, homens e mulheres, adolescentes ou jovens, em cuja compreensão
intervirão os conhecimentos científicos dos quais os educadores
são portadores e o senso comum dos educandos. Pois, o conhecimento da
visão de mundo dos educandos “que contem os seus ‘temas
geradores’ que captados, estudados, colocados num quadro científico
a eles são desenvolvidos como temas problemáticos implicam uma
pesquisa. (...). Pesquisa do ‘tema gerador’ e educação
gnosiológica são momentos de um mesmo processo” (Id. p.
:88)
Os temas geradores, identificados mediante um processo de pesquisa-ação
participante, já ele mesmo educativo, ademais de estarem cheio de significado
para os educandos e que serão fecundados pelo significado acadêmico
através da interação com o educador, se tornarão
provocadores da nova construção gnosiológica de ambos,
constituindo-se conteúdos básicos de aprendizagem e contribuindo
para a construção de sua cidadania multicultural que superar
o cidadão como hipótese do modelo cívico moderno. |