Escolas secundárias
populares (folk schools)
Um lugar de aprendizagem
para idades diferentes
Texto: Madalena Pinto dos Santos
Professora de matemática, doutorada em Ciências da Educação
pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
No passado mês de Julho visitei a escola Krogerup
Hojskole, na Dinamarca, que era denominada de folk school. Esta
visita confrontou-me com um modo diferente de organizar e pensar
a escola.
Como é que reagiriam se o professor de filosofia
dessa escola vos explicasse que em vez de seguir um currículo
previamente estabelecido, integra quem se inscreve nas suas aulas
na pesquisa e estudo que ele no momento estiver a fazer? Ou seja,
os seus alunos irão acompanhar alguém no estudo de
um autor ou no processo de pensar filosoficamente sobre um tema.
Nesta altura já devem ter perguntado qual o sentido de se falar de ‘escolas
secundárias’ numa revista essencialmente dedicada ao conceito
de Aprendizagem ao Longo da Vida? Talvez a resposta mais imediata seja a de
que Grundtvig, o ideólogo que está na origem das folk school
(ou escolas populares) foi um dos pensadores fundamentais na história
da Educação de Adultos e da Educação Popular. Por
outro lado, porque percebi que, ainda hoje, estas escolas são espaços
pensados e organizados para a aprendizagem mas com um forte sentido de construção
e partilha de saberes entre todos os envolvidos, de forma vivida e co-responsável.
Para Grundtvig, a escola popular tinha de ser um lugar de encontro para idades
diferentes e para participantes de diferentes áreas geográficas,
onde “diferentes formas de responsabilidade partilhada e co-determinação
deviam criar interacção, troca e diálogo entre professores
e alunos” (Nimela, 2004).
Nem grau académico, nem qualificação
formal
A expressão folk school é difícil de traduzir, em especial,
porque ao lermos a palavra ‘escola’ tendemos a procurar fazer sentido
dela à luz da organização escolar que conhecemos. As folk
schools actuais são, em geral, folk high schools ou seja, ‘escolas
secundárias populares’ (denominação utilizada no
site oficial da Noruega em Portugal). Convém, no entanto, alertar desde
já que esta é uma denominação adaptada ao modo
actual de categorizar as escolas mas que elas, de facto, não se enquadram
no que é usual esperarmos das escolas secundárias. Por exemplo,
não conferem nenhum grau académico ou qualquer qualificação
formal, embora sejam hoje bastante procuradas nos países nórdicos
por jovens adultos que já completaram o ensino secundário. Aí,
a maioria dos jovens que as procuram já se encontra em condições
de iniciar os seus estudos universitários; no entanto, preferem fazer
um compasso de espera que lhes permita explorar vias e modos alternativas de
aprendizagem, e é nesse contexto que a vivência de algum tempo
nas escolas populares é procurada pelos jovens.
Durante a visita, uma professora dinamarquesa que nos acompanhava contou-nos
como se tinha sentido surpreendida quando a sua filha mais velha, ao terminar
a escola secundária, manifestou o desejo de se inscrever num curso de
6 meses numa escola popular. No imaginário desta mãe, tais escolas
tinham ficado associadas à educação das classes populares.
Daí o seu interesse na visita, ela queria perceber o porquê destas
escolas continuarem a ser tão atraentes para os jovens de hoje (o que
revela como esta nova faceta das escolas populares não é conhecida
por muitos dos próprios dinamarqueses). No final desse dia, estava de
tal forma convicta da relevância das aprendizagens que os jovens aí podiam
fazer, que desejava que a sua filha mais nova manifestasse o mesmo interesse.
Mas a população que frequenta tais escolas não é só constituída
por jovens adultos. Por exemplo, no dia da visita estava a decorrer um curso
de quatro dias sobre a temática ‘Viver com qualidade’ que
estava a ser essencialmente frequentado por pessoas (homens e mulheres) já adultas.
As actividades versavam aspectos variados, desde a alimentação
até noções de saúde física e de bem-estar
psíquico ou espiritual.
Plataforma de igualdade para a educação
Falar das escolas populares (folk schools) é mais do que falar de um
tipo de escolas, é pensar num conceito e num movimento iniciado no século
XIX pelo bispo e poeta dinamarquês N.F.S. Grundtvig, um nome que talvez
seja familiar a quem está dentro da área da Formação
de Adultos. As folk schools que foram fundadas por este clérigo visavam
criar uma plataforma de igualdade para a educação em que todas
as pessoas – os camponeses e as elites – se sentavam juntos como
iguais em capacidade para discutir as questões e ideias do seu tempo.
Na época, o seu maior investimento era a educação das
classes camponesas como resposta às necessidades emergentes das modificações
sociais da época. Dedicavam-se, por exemplo, à sua alfabetização,
mas também à tomada de consciência dos seus direitos democráticos
enquanto cidadãos, num sentido próximo das ideias de Paulo Freire.
Actualidade das folk schools
Este tipo de escolas continua a ter, actualmente, uma forte implantação
nos países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia)
mas também existem noutros locais do mundo como, por exemplo, nos Estados
Unidos da América. Hoje, encontram-se em pleno funcionamento e com popularidade
86 escolas na Dinamarca, 77 na Noruega, 90 na Finlândia e 147 na Suécia.
O conjunto de áreas de formação e de acção
que hoje apresentam é bastante diferente das existentes nos primeiros
anos do movimento. Podemos encontrar, por exemplo, música, artes do
espectáculo, vida ao ar livre, meios de comunicação social,
cinema, fotografia, informática, artes e ofícios, solidariedade
internacional, ao lado de sociologia, filosofia, antropologia, política
internacional, astronomia, ecologia. Também são notórias
as diferenças entre as escolas nórdicas e as que ainda hoje subsistem
nos EUA, como H. Stubblefield salienta num artigo em que analisa o impacto
do conceito das escolas populares dinamarquesas nos EUA, em particular, no âmbito
da Educação de Adultos. Discute algumas das razões pelas
quais este conceito de educação teve pouco impacto nos EUA afirmando,
por exemplo, que, “possivelmente não foi encontrada uma base cultural
Americana comum” (http://www-distance.syr.edu/stubblefield.html).
Nesta diversidade encontram-se um conjunto de características comuns
que decorrem dos princípios básicos desenvolvidos por Grundtvig,
o que permite continuar a reconhecê-las, ainda hoje, como folk schools.
E um desses princípios, defendidos pelo próprio Grundtvig, fomenta
que a escola deve re-interpretar a ideologia em que se integra. Assim, as diferenças
que encontramos entre elas revelam a forte integração de cada
uma dessas escolas na comunidade local que se concretiza, hoje, pela intervenção
activa dos vários agentes dessa comunidade (desde as autoridades locais
aos agentes produtivos) na direcção da escola. Eles podem ter
um papel activo em várias decisões relativas, por exemplo, à gestão
da escola, à escolha dos seus professores, à definição
das áreas e tipos de cursos a proporcionar. Esta característica,
associada à forte orientação para o encorajamento do desenvolvimento
individual dos alunos, a par com o seu desenvolvimento social, pode continuar
a exprimir-se pela ampla liberdade que, ainda hoje, é reconhecida a
cada uma destas escola (no seu todo) quanto ao desenho dos seus cursos.
A primazia “à palavra vivida” é uma orientação
de Grundtvig, em que se procura que, mesmo a palavra falada, por exemplo nas
aulas expositivas, seja proporcionada de modo a que todos consigam relacionar
a mensagem da fala com o que acontece nas suas vidas aqui e agora (mais uma
proximidade forte com as ideias de Paulo Freire). Esta preocupação
de Grundtvig com a ‘palavra vivida’ (e não só com
a ‘palavra escrita’) interliga-se com a ideia de que mais do que ‘ensinar
conhecimentos’ ou do que dar soluções às pessoas, é importante
ajudá-las a adquirir uma base educacional que lhes permita tomar controlo
das suas próprias vidas, ou seja, predispô-las para mudanças
estruturais. E isso passa pelo envolvimento de todos cooperativamente na vivência
da aprendizagem. A educação é aqui encarada como algo
mais que o resultado de uma transmissão e aquisição de
conteúdos, e o enriquecimento de ‘saberes’ específicos
decorre em paralelo com o desenvolvimento de um sentido de orgulho pelas competências
que desenvolve. A rede de conexões pessoais intensas que se podem estabelecer
nessa conjugação de vivências e aprendizagem constitui
um enquadramento para o desenvolvimento do indivíduo como um membro
não só respeitado mas que se auto-respeita.
Esta mesma preocupação continua viva, actualmente, embora com
modos de o expressar adaptados aos momentos presentes. Por exemplo, ela é visível
quando uma escola secundária popular sueca apresenta no seu site (http://www.sjovik.fhsk.
se/english.phd) como objectivo global de escola “dar uma educação
cívica geral”. A junção da aprendizagem com a vivência
cooperativa de responsabilidades mantém-se como uma prática actual
pelo que a frequência dos cursos implica a experiência partilhada
e comunitária no mesmo espaço físico. Ou seja, tanto professores
como alunos vivem em regime de internato na escola, sendo a capacidade desta
definida pelo número de quartos disponíveis para os alunos. Todos
são responsáveis pela vida quotidiana do colectivo o que inclui,
por exemplo, a gestão dos espaços e recursos (dos locais em que
dormem e daqueles em que trabalham; o modo como organizam e concretizam as
refeições,…). A viabilidade económica destas escolas é garantida
por diversos meios, desde a participação do Estado, das autoridades
locais e até de empresas sendo, no entanto, comum que os alunos paguem
uma mensalidade. Esta co-responsabilização revela a convicção
de que a educação/formação é vista como
algo que não só beneficia o indivíduo mas ela é a
base de uma sociedade saudável.
Um caso exemplar
Gostaria de contar uma pequena história vivida na escola que visitei
e que considero que ilustra estas ideias. Uma das áreas de temáticas
oferecidas era a de Trabalho de Projecto mas que só se concretizava
quando um grupo de pessoas com um interesse comum se candidatava à escola.
Foi o caso de um grupo de jovens interessados em aprender a construir casas
ecológicas. Embora nenhum dos professores da escola fosse perito nesse
tema foi decidido apoiar o propósito desses alunos. Foi definido um
dos professores como o que iria acompanhar e orientar o Projecto, ou seja,
ele seria um professor que, não sabendo do conteúdo, ficava responsável
por apoiar o grupo nas aprendizagens necessárias para a concretização
do seu objectivo – aprender a construir uma casa ecológica. Professor
e alunos tornaram-se, por isso, co-responsáveis por um percurso de aprendizagem
que envolvia a construção de um produto. Mas não se tratava
só de planear a construção de uma casa com determinadas
características, ela teria de ser mesmo concretizada. Todo o processo
teve de ser planeado, pesquisado e realizado por essa equipa em que o professor
não era mais do que um participante, talvez mais experiente no que diz
respeito a gerir esforços em comum e a encontrar vias de pesquisa de
saberes e de apoios (por exemplo, para adquirir os materiais). A equipa de
professores da escola não estava muito convicta inicialmente da capacidade
de se ter sucesso no propósito que os alunos se propunham, mas resolveu
arriscar com eles e o sucesso foi total. Para lá de aprendizagens fortes
e significativas para todos, surgiu uma mais-valia não antecipada quando
alguns dos alunos se lançaram, profissionalmente, a partir daí,
na área da construção de casas ecológicas.
Associar a aprendizagem à experiência e à co-responsabilidade é reconhecer
que o poder (e o direito) de aprender está na mão de cada um
e de todos nós, ou seja, de quem aprende, e que é demasiado arriscado
deixar unicamente na mão de quem tem o poder explícito de ensinar
definir como é que ele deve ser vivido.
Referências e alguns sites aconselhados
Seppo Niemela, 2004, in http://www.vsy.fi/evk/grundtvig/enlighten.html
http://www.hojskolerne.dk (site
das escolas populares dinamarquesas que pode ser lido em inglês
e em que se pode fazer o download de uma brochura informativa)
http://www.noruega.org.pt/education/education/folk/folk.htm
(site oficial da Noruega em Portugal, escrito em português)
http://www.kansanopistot.fi/gb/yhdistys_gb/general.html
(informação sobre as escolas secundárias populares na
Finlândia)
http://www.haapop.fi/sivu/en/
(uma escola secundária popular na Finlândia)
http://www.sjovik.fhsk.se/english.php
(uma escola secundária popular na Suécia)
http://www-distance.syr.edu/stubblefield.html (com
uma comparação das escolas populares dinamarquesas e as dos EUA)
http://www.vsy.fi/evk/grundtvig/enlighten.html (com
um trabalho profundo sobre a herança pedagógica de Grundtvig) |