Cursos EFA
O Sol da Terra
Texto: Manuela Garcia # Fotografias:
Paulo Figueiredo
Os cursos de Educação e Formação
de Adultos realizados na associação Vale do Ave vieram
resolver o problema dos formandos que recebiam formação
profissional mas não obtinham qualquer certificação
escolar. Agora, há os que dizem que os cursos foram uma
das poucas coisas boas que lhes aconteceram.
"Sinceramente, é-me indiferente se no final da formação
vou ou não ser colocado. Com este curso já aconteceu
uma coisa espantosa: eu voltei a acreditar em mim mesmo”.
E as palavras são ditas com tal confiança que quem
ouvisse Jorge Carvalho, a frequentar um curso EFA em Guimarães,
na associação Sol do Ave, desde Abril, mal poderia
imaginar os pesadelos por que passou por causa de duas situações
de desemprego consecutivas. Primeiro, a falência da empresa
têxtil onde trabalhava no armazém; depois, quando
o empresário para o qual trabalhou como vendedor comissionista
fugiu para o Brasil e jamais lhe pagou o devido. Nem ao subsídio
de desemprego tinha direito, por ter trabalhado à comissão.
São situações como esta e outras igualmente difíceis,
quase todas de desemprego de longa duração, que a Sol do Ave
tem tentado inverter através dos cursos de Educação e
Formação de Adultos, implementados em 2001. “Era disto
que estávamos à espera” afirma Marta Coutada, da direcção
daquela entidade. “Desde 1995 que promovíamos variadíssima
formação profissional e, com o decorrer dos anos, detectámos
que os formandos até poderiam sair daqui com alguma formação
profissional mas sem qualquer certificação escolar. Isto era
uma fragilidade, já que alguns só possuíam o 4º ano
de escolaridade”. Com a chegada do III Quadro Comunitário de Apoio
vieram os cursos EFA. “Isto veio trazer uma inovação tal
que mesmo a nível organizacional encontrámos alguma resistência”,
confessa a interlocutora.
Importantes são os formandos
O segredo para o sucesso destas iniciativas está na mudança radical
que estes cursos trouxeram consigo. Para trás deixou-se o método
escolar em que os formadores “davam as matérias”, como era
designado, e os formandos iam para casa com um certificado de aprovação
na área específica. Agora é o formando que está no
centro de tudo, ficando os formadores com “o papel de orientadores”,
no dizer da formadora Cristina Oliveira.
Mal tenha os planos de formação aprovados, a Sol do Ave faz a
publicitação e promove a inscrição nos cursos através
dos órgãos de comunicação social da região.
No entanto, a estas inscrições juntam-se-lhes mais algumas feitas
por pessoas que, ao longo do ano, passam por aquela associação à procura
de emprego em UNIVAs – onde são entrevistadas por uma técnica
da associação, recebem ajuda para elaborar o currículo
e é feito um balanço para averiguar se o candidato está ou
não apto à candidatura a uma UNIVA ou terá de começar
por fazer uma acção de formação. Após o
fecho do prazo de inscrições, é feita a distribuição
dos candidatos pelas áreas escolhidas, confrontando-os com a oferta.
E é curioso que 80% das mulheres escolhe a formação em
técnicas administrativas ou em auxiliar de acção e educação.
Já os homens revelam preferência pelas técnicas comerciais
e, ultimamente, a área da electricidade – onde para 15 vagas houve
centena e meia de candidatos a concorrer.
Terminada a selecção, os formandos entram no processo de Reconhecimento
e Validação de Competências (RVC) colectiva. E é aqui
que reside a principal novidade. O formando passa a ser o centro de toda a
formação. Em grupos que não excedem a dezena e meia de
frequentadores, orientados por uma mediadora com formação em
Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho.
Horas felizes e descontraídas
Hélder Correia é outro dos que frequenta, desde Abril, o curso
EFA em electricidade. Por não ter o 9º ano completo nem a carteira
profissional de electricista, os trabalhos que arranjava na área eram
escassos e precários. Na Sol do Ave, quando ficou a saber que tinha
sido um dos 15 seleccionados, uma questão logo o preocupou: “Será que
isto vai ser como a escola, um bocado pesado?”. Este vimaranense explica
porque, aos 26 anos, se questionava desta maneira: “Nós já chegámos
a uma rotina de vida em que uma pessoa como eu já não se conseguia
adaptar a um ‘sistema’ como uma escola”. Mas o RVC deitou
todos esses pensamentos por terra. Jorge Carvalho, outro dos formandos, não
hesita em qualificar as horas do RVC como as mais felizes e mais descontraídas
que passou em toda a formação recebida até agora: “Éramos
levados a falar e eu dava por mim a dizer: eu sei fazer isto e não lhe
dava valor absolutamente nenhum, já fazia mecanicamente”. E dá um
exemplo prático: “Se eu estivesse em Coimbra, ligava para casa
e dizia que a tal hora poderiam contar comigo para jantar. Calculava: de Coimbra
a Guimarães são X Kms e em determinado tempo consigo lá chegar.
Isto é matemática, mas eu nunca dei por ela”.
Por detrás destas descobertas está um trabalho de proximidade
feito pela mediadora. Magda Cunha, que trabalha com o grupo a que pertencem
Hélder e Jorge, reconhece que por vezes tem de tomar posturas diferentes
consoante os grupos, embora sublinhe preferir “uma postura descontraída
e solta” para conseguir pôr os formandos à vontade e para
que percebam que têm nela um apoio ao longo de toda a formação. É por
isso que opta pelos jogos pedagógicos para fazer passar técnicas
de trabalho em grupo e promover o auto-conhecimento. Por outro lado, sublinha
a mediadora, “é nesta fase de RVC que eles desenvolvem competências
de relacionamento com outras pessoas, ganham hábitos e passam a cumprir
horários, passam a conseguir estar sentados numa sala de formação,
o que de início era complicado porque já não tinham essas
regras básicas”.
Na fase de aprendizagem, onde desenvolvem com os formadores quatro áreas à escolha
(linguagem e comunicação; cidadania e empregabilidade; matemática
para a vida e TIC, tecnologias de informação e comunicação),
o Hélder não deixou de sublinhar um ponto que para ele é muito
positivo: “A forma como eles (os formadores) lidam com o todo e com cada
um: há pessoas ali que têm diferentes ‘entenderes’,
umas têm mais dificuldades que outras e isto funciona porque se utilizam
exemplos práticos de modo a que todos entendam”. “Isso acontece
porque o grupo funciona e há muita entre-ajuda”, remata Jorge
Carvalho. A formadora Cristina Oliveira revela ainda um outro dado importante.
Como é da responsabilidade dos formandos a escolha dos temas de vida,
o que querem tratar e o que querem saber, isso “coloca-os a discutir
certos assuntos, o que os faz sentir mais integrados. Outro dado relevante é que,
quem frequenta estes cursos, na sua maioria, já deixou de estudar há 15
ou 20 anos, o que se torna muito difícil de ultrapassar. Estas discussões
dão-lhes confiança para falar em público”.
Por participarem nos processos de RVC, por programarem uma formação
personalizada e adaptada o mais possível a cada um dos formandos, fazendo
reuniões em equipa pedagógica para melhor estruturar os cursos,
não é raro para Cristina Oliveira ouvi-los “relatar incessantemente
que este curso foi das poucas coisas boas que lhes aconteceu”. Esta formadora
não tem dúvidas: “para muitos, isto é um porto de
abrigo”.
De agora em diante
Até Novembro de 2005 Hélder e Jorge, juntamente com mais outros
onze colegas, vão continuar a frequentar este curso EFA na área
de electricidade na Sol do Ave. Findo esse percurso, ficam com habilitação
escolar e com a carteira profissional. “No final da formação
vemos que para os adultos é o melhor, é uma segunda oportunidade
que lhes é dada”, afiança Marta Coutada. O grau de empregabilidade
após o curso EFA ascende aos 70%, embora nem todos consigam colocação
na área em que receberam formação.
A Sol do Ave aposta nesta altura nas áreas da avaliação
e da construção de material pedagógico, manuais. Por outro
lado, continua a fazer-se o trabalho de diagnóstico das necessidades
formativas na região do Vale do Ave.
A voz do Helder e do Jorge
Texto: Rosa Madeira, Departamento de Ciências
de Educação da Universidade de Aveiro
Travessia de velhos abismos?
Vivemos um tempo em que vamos assistindo à naturalização
de políticas e de práticas sociais substitutivas
de outras, que, há muito poucas décadas ainda, consagramos
como requisitos fundamentais para a superação histórica
de regimes de separação entre grupos sociais.
A Educação foi de facto uma das formas de acção
e de mediação social e cultural, acreditadas publicamente para
reunir, em torno do mesmo projecto de bem comum e a partir do reconhecimento
mútuo de uma mesma identidade estatutária, diversos grupos sociais
que, nas suas comunidades de origem ou de inserção eram discriminados
e se encontravam divididos e hierarquizados segundo o seu meio de origem e
de pertença social e cultural, seu sistema de crenças religiosas,
políticas e/ou ideológicas.
A Escola pública ou as Instituições de Ensino encadeadas
entre si por níveis de aquisição de conhecimentos tendencialmente
universais e universalizáveis fazem ainda parte do nosso imaginário
colectivo, enquanto “sede” de processos de ensino e de aprendizagem,
a serem legítima e intencionalmente investidos nas suas potencialidades
de reestruturação de relações sociais presentes
(representadas) no interior das escolas. Diferentes teóricos? do currículo
legaram-nos instrumentos que nos capacitam hoje a percepcionar a divergência
das duas ordens de conhecimento que circulam no interior das escolas para definir
cognitiva e moralmente “quem é quem” e “quem poderá ser
o quê e como” à saída do que corresponde a uma entrada,
não apenas no mundo da produção e do emprego, mas também
na esfera da cidadania.
Todas estas reflexões me acompanhavam no caminho que me levou ao Fórum
Picoas num dia de Novembro, atendendo a um convite para comentar duas comunicações
sobre a experiência de duas entidades de natureza muito distinta, sobre
o Processo de RVC - Reconhecimento e Validação de Competências – em
cursos de Educação e Formação de Adultos.
Ao chegar ao momento do encontro, me encontrava neste estado interno que me
parecia consequente com a progressiva fragilização das certezas
e esperanças na Educação pública como garantia
de democratização social, tanto mais quando se trata da educação
de segunda oportunidade de grupos sociais cujo reconhecimento político-social
e respectiva construção identitária na esfera da cidadania
mais tem sido condicionada pelas suas condições de integração
subordinada e/ou exclusão na esfera da produção.
Foi assim que me encontrei, depois de uma leitura muito atenta, das linhas
e entrelinhas, do Relatório anual dos Cursos EFA, implicada, entusiasmada
mas também preocupada no papel de comentadora.
Depois de uma curta introdução por duas psicólogas, uma
responsável pelo curso e outra como mediadora, pudemos escutar dois
jovens adultos, o Jorge e o Helder, no papel de sujeitos do processo de educação
e formação que, naquele caso, poucas afinidades pareciam ter
com a relação que institui o estatuto e a função
tradicional de “aluno” .
Pude acompanhar a emergência da palavra do Jorge, que tinha, entre as
mãos um tanto trémulas, um texto formal de agradecimento pela
oportunidade de participação e alguns tópicos sobre o
que não poderia omitir como aspectos relevantes do seu processo de aprendizagem.
Entre o texto oral que sustentava a sua comunicação imediata
com o grande público e o texto escrito que deveria estruturar e sustentar
a formalidade da sua relação social naquele contexto, parecia
haver uma discrepância que ele parecia vencer através da mobilização
simultânea de memórias pessoais e de informações
objectivas, cuja relevância era procurada não apenas no contexto
em presença, mas também no pacto que parecia manter com o grupo
de pares que ali representava.
Recordo a minha surpresa no momento em que vendo a sua possibilidade de comunicação
encurtada pela emoção, contida nas memórias do processo
de formação que ele queria dar conta, se organizou de forma a
poder ainda sublinhar o papel do grupo, como base social fundamental para o
processo pessoal de descoberta de experiências de vida que poderiam ser
apropriadas como factores de acreditação de saberes e competências
de formação pessoal, social e profissional.
Fiquei duplamente surpreendida quando naquele preciso momento, o outro jovem,
Helder, sem se deixar intimidar pela formalidade do contexto, começou
a sua comunicação estabelecendo uma rela-ção de
complementaridade (e não de concorrência, sublinho) com o seu
parceiro, atestando aquilo a que o outro havia podido ainda enunciar, ou seja
a co-responsabilidade do grupo, que segundo eles foi sendo construída
durante o processo de (auto) formação ou de desenvolvimento pessoal
e social, como eles próprios qualificaram em alguns momentos.
Enquanto escutava a comunicação do segundo, que foi progressivamente
se abrindo ao diálogo com o parceiro, numa confluência de produção
de sentido para a experiência que estavam a comunicar, me dei conta do
quanto aquela situação era especial naquelas circunstâncias
e contexto de comunicação. O conceito de empowerment tem entrado
na nossa linguagem profissional, mas raras vezes temos a oportunidade de percepcionar
os seus efeitos e de compreender o seu impacto sobre as relações
sociais estabelecidas entre grupos sociais.
Durante a escuta sensível e a leitura crítica que procurei fazer
quer do contexto e do processo, quer dos conteúdos da comunicação
daquele grupo, fui fortemente interpelada pelo pensamento de Paulo Freire,
enquanto referência teórica que partilho com muitos dos que se
atrevem a assumir a convicção e alimentar a esperança
de que a superação das relações históricas
que opõem opressores e oprimidos possa acontecer, a partir da emancipação
dos segundos, e não dos primeiros, que segundo as teorias das elites,
somos nós, inevitavelmente constituídos como concorrentes na
reprodução das nossas posições e privilégios.
Num dado momento pude mesmo imaginar as potencialidades de transformação
social que poderiam encontrar espaço de actualização ou
realização em outros contextos educativos em que também
fosse possível que a vida vivida por sujeitos concretos, que se reconhecem
diferencialmente posicionados diante das oportunidades sociais, pudesse ir
sendo reapropriada narrativamente, como recursos de um conhecimento a construir
continuadamente, por diálogos mediados pela realidade-mundo lida como
processo histórico e portanto inacabado.
Pude imaginar escolas e universidades a proporem processos de educação
e formação, baseados em processos intencionais (não necessariamente
burocráticos e administrativos) de reconhecimento e validação
de saberes acumulados e adquiridos nas trajectórias de vida de sujeitos
pertencentes a diferentes grupos nelas representados, como recursos de desenvolvimento
curricular orientados para a realização de projectos de educação
e formação que tornassem os sujeitos mais competentes para lidar
com a própria vida, que se tece entre raízes e opções.
Pude imaginar que neste contexto seria mais possível que o senso comum,
que dá sentido à vida das nossas comunidades, nas suas formas
actuais, pudesse ser re-apropriado subjectiva e colectivamente como recurso
de um conhecimento problematizador das divisões que são naturalizadas
pelas leituras do mundo que temos interiorizadas e que estão e são
continuamente reificadas na palavra dita por cada um de nós.
Ficou em mim a esperança de que esta entrada da escola da vida na vida
de “escolas”, que vão sendo relacionalmente construídas
fora dos lugares instituídos para a educação e formação
neste período da vida que antecede e prepara a inserção
profissional de adultos, pudesse um dia fazer parte das alternativas encontradas
por outras escolas. Recordo-me que, nos anos 70, as cooperativas para a educação
de “crianças inadaptadas” abriram um espaço para
inovações pedagógicas que mais não foram do que
a reacção a tudo quanto na escola regular limitava a possibilidade
de escuta e de respeito pelas diferenças, ou que turvava ou inibia a
sensibilidade dos educadores a formas atípicas de comunicação
e aos processos relacionais significativos e/ou restringia a valorização
do vivido ao que pudesse ser rentabilizado no mundo da produção
económica.
O vivido, o tempo presente e o grupo puderam ser reconhecidos como dimensões
estruturantes do desenvolvimento, das aprendizagens mas também como
uma mais-valia humana dos contextos e das organizações educativas.
Da mesma forma que, naquele período, a educação separada
das pessoas com dificuldades de inserção em escolas conformadas
pelo currículo e critérios dominantes puderam dar lições
sobre contextos, processos e conteúdos de aprendizagem social que hoje
são consagrados pela escola inclusiva, esperamos que no futuro esta
separação dos espaços de educação e formação
dos adultos possa trazer outras visões de educação e formação
mais inclusivas de grupos sociais em instituições que hoje resistem
a reconhecer a vida quotidiana e as subjectividades como fontes fundamentais
de conhecimento a problematizar e reconstruir colectivamente através
do diálogo genuíno entre pares que se reconhecem como iguais.
Penso que em todo este movimento de reconhecimento de contradições
e de incompletudes é que se vão criando os instrumentos que precisamos
para viabilizar o processo de emancipação social, que tem ocultado
historicamente a participação dos grupos a que têm faltado
alguns “andaimes” que tornam possível o exercício
de direitos de cidadania que só retoricamente podem ser afirmados como
universais. |