Quando cheguei à recepção e disse à recepcionista
que queria falar com um senhor sueco, ela disse-me: Ah! Esse senhor
fala muito bem português. E eu concordo, pode faltar-lhe
algum vocabulário, mas em termos de pronúncia está muito
bem.
Mas pronúncia só, não chega. Vivi em Portugal
entre 78/79, com a minha família. Trabalhei em Braga, depois
continuei a vir cá, por períodos curtos, cerca de
sete anos a trabalhar em Portugal e também nas antigas colónias
portuguesas de África.
Podemos falar da sua experiência em educação
de adultos e depois comparar como é essa educação
em países tão diferentes como a Suécia e Portugal.
O que era a educação de adultos há 30 anos
e o que é agora. Também podemos falar da sua experiência
nas Folk Schools...
Não gosto do termo Folk School porque não diz nada
a ninguém, só aos nórdicos. Também
há nos Estados Unidos, mas parece que quase todas falharam,
apenas houve uma para trabalhadores que teve sucesso. O que aconteceu
nos nossos países, é que tivemos um filósofo
e Bispo (Grundtvig) que foi o grande impulsionador destas escolas.
A grande dificuldade das pessoas que querem escrever sobre as Folk
Schools é elas serem tão variadas, não há uma
igual a outra. Como se faz então para descrevê-las?
Podemos dizer que há tipos de Folk School, com ideologias
um pouco diferentes, mas a ideia base em todos os países
nórdicos é que ela deve ser "outra coisa", em comparação
com a escola formal. Grundtvig também afirmava isso. Ele
detestou a escola, um Bispo que escreveu 2000 hinos, um poeta,
mas com muitas outras ideias.
Em português será ainda pior, porque se diz "escolas
populares".
Exacto. E isso também foi difícil para os ingleses,
no início, e para os americanos, porque eles diziam "não é possível
usar Folk neste caso". Mas nós respondíamos: "vocês
dizem Folk Music, Folk Literature", porque seria aqui impossível
dizer Folk? Por isso, eu passei a usar a denominação
Folk Development Schools - escolas para um desenvolvimento popular,
de todas as pessoas em geral... Agora discute-se também o nome "Universidade Popular".
Isto é contraditório, universidade é um conceito
de elite e popular é povo, acabando assim por não
ser nem uma coisa nem outra.
Realmente é verdade, há algumas dessas escolas querem é aproximar-se
cada vez mais da escola formal. Isso existe, mas eu penso que essas
escolas não são Folk. Temos uma forte tradição
desde o século XIX, muitas Folk Development Schools, (em
todos os países,) mantêm essas ideias básicas,
mas ao mesmo tempo todos esses países mudaram muito. Hoje,
não podemos dizer que as Folk Development Schools na Suécia
são uma escola "Grundtvigiana", porque os dinamarqueses
defendem que as suas Folk Schools é que são puras.
E nós não podemos dizer o mesmo, porque, embora mantendo
algumas ideias básicas, as adaptámos às nossas
necessidades.
Correndo o risco de generalizar, perguntaria
se existem diferenças
significativas a nível das Folk Development Schools entre
os vários países nórdicos? As
escolas norueguesas e as finlandesas foram tomando rumos diferentes. Estas últimas,
por exemplo, ficaram bastante mais formais do que as escolas dos
outros países nórdicos, mas, na Dinamarca, mantiveram
quase todas as ideias de Grundtvig, concentrando-se sobretudo na
cultura (tradicional) dinamarquesa. No início, era essa
a ideia de Grundtvig: criar escolas que fizessem com que a cultura
dinamarquesa se não perdesse, por exemplo, em relação à Alemanha,
que estava muito próxima.
Na Suécia, não era essa a finalidade mais importante,
e o nosso país mostrou-se muito mais prático, e pragmático.
Procurámos organizar cursos que ajudassem as pessoas de
uma forma muito concreta. Por exemplo, no início, ajudar
os filhos dos agricultores e os trabalhadores rurais a encontrar
possibilidades de mudar a agricultura. Para outros grupos, como
os empregados de escritório ou os operários industriais,
essa ajuda consistia em encontrar vias para construir um outro
tipo de indústria, um outro tipo de relação
entre os patrões e eles próprios. Tudo isto era de
molde a alterar muito a situação dos trabalhadores
em geral.
O que há de mais interessante, acho, para quem se interessa
pela educação de adultos, aqui em Portugal e nos
outros países, é a independência destas escolas
relativamente ao Estado. O Estado sueco, por exemplo, foi apreciando
cada vez mais as Folk Schools, porque tinham uma atitude activa
em relação ao desenvolvimento político destes
países. As escolas mostravam que tinham ideias, que podiam
defender e apoiar o mesmo tipo de desenvolvimento que o governo
procurava. Por isso, ao fim de algumas décadas, o Estado
começou a subsidiá-las. No início não,
no início foram, por exemplo, os agricultores e as associações
populares1 que apoiaram a criação e o crescimento
das escolas.
A situação, passado algum tempo, era que o Estado
dava a maior parte do dinheiro, mas não influenciava quase
nada... Muitas pessoas que trabalham em educação
de adultos noutros países não percebem como isto
pode ser possível. As escolas e as associações
não terem a maior parte do dinheiro e não haver praticamente
regras nenhumas prescritas pelo Estado; as escolas não têm
sequer um currículo, não têm nada a constrangê-las.
A única coisa que aconteceu, penso que na década
de 20, nas nossas escolas na Suécia, foi a exigência
de haver língua sueca e música. Essa foi a única
regra, o que para muita gente deve parecer muito estranho.
As pessoas
pensam sempre: "se nós damos o dinheiro, temos
que controlar, temos que exigir". Naturalmente, que a língua
sueca é muito importante, para quem vive e trabalha no país,
mas não apresentar mais nada como exigência é um
pouco estranho. É uma situação que ocorre
muito raramente noutros países, mas acontece aqui; sobretudo,
na Dinamarca, Suécia e Noruega, já que na Finlândia é um
pouco mais formal. Actualmente, quem frequenta as Folk Schools
são mais os
jovens que os adultos?
Sim, mas começaram só com jovens, de 18 anos de
idade, o que teve uma importância enorme no nosso país,
exactamente por causa desse pragmatismo, tentando que uma nova
geração pudesse receber uma nova educação
capaz de estimular as grandes mudanças. E estas eram necessárias,
especialmente na agricultura, de onde milhares de pessoas tinham
já emigrado para os Estados Unidos e os que ficavam tinham
que integrar-se nessa mudança.
Politicamente, todos os operários industriais de então
viviam situações difíceis, eram todos muito
pobres e com condições de trabalho muito pesadas.
Foi necessário trabalhar muito com os patrões, de
maneira a poder criar um ambiente melhor para os trabalhadores.
E, assim, estes trabalhadores acabariam por ter um papel vital
na história da Suécia. Eles próprios pensavam
que não bastava ter conhecimentos sobre política,
sobre questões sociais e económicas, mas queriam
saber mais sobre tudo. Os trabalhadores sentiam que deviam adquirir
uma parte da cultura das classes mais altas e por isso pensavam
que as Folk High Schools deveriam ter essa função.
Mas, quando fala de trabalhadores, é a nível
dos sindicatos?
Sim, mas não só, sindicatos e outros grupos de trabalhadores.
Para as escolas, foi uma coisa muito natural entender que educação,
erudição, não tinha só a ver com especialização,
mas realmente com conhecer toda a vida, sob todos os seus aspectos.
Por isso, tentaram sempre ter cursos que combinassem, dentro do
mesmo tema, por exemplo, aspectos de arte, música, literatura,
sociologia, etc. Isso foi e é uma das forças das
Folk Schools.
Por um lado, parece que a educação de adultos nasce
do levantamento de determinados problemas que é preciso 'solucionar',
e para isso vocês demonstram bastante 'pragmatismo'. Mas,
por outro lado, estamos a falar de escolas em que há uma 'liberdade'
quase total, o que parece contraditório com esse pragmatismo,
porque ligada ao pragmatismo vem sempre a ideia de que é preciso
obter resultados. Há contradição ou não?
Há contradição, sim. No início, os
alunos não tinham muito a dizer, mas os professores e os
reitores eram humanistas e tinham a ideia de que os alunos também
deviam ser activos relativamente aos estudos. Por isso, fomentaram
uma forte cooperação entre professores e desenvolveram
a ideia de que os estudantes deviam formular, eles próprios,
os conteúdos dos estudos, uma abordagem que foi sempre evoluindo
até agora. Em todos os tipos de estudos nestas escolas,
os estudantes tinham muita margem para influenciar, e realmente
influenciaram. Deste modo, os estudos e as próprias escolas
tornaram-se mais pragmáticos. E, passado algum tempo, também
os estudantes se tornaram mais pragmáticos.
Uma das palavras-chave que encontro no que
escreveu é 'motivação',
envolvimento. É isso que faz a mudança na educação,
o facto de não se aprender por obrigação,
será essa a grande diferença?
Penso que sim. Os estudantes
notaram imediatamente que a relação
entre reitor e professor é aqui totalmente diferente. Neste
aspecto, Grundtvig teve uma ideia, que ainda hoje se mantém,
que é a importância essencial do diálogo permanente.
Isso é muito diferente da escola antiga, formal.
Por causa
desta liberdade, muitas escolas começaram a inventar,
a criar um carácter próprio. Hoje ainda é assim,
e cada vez mais, porque agora há novos grupos de estudantes
que chegam de todo o mundo, e na escola querem aprender música,
ou estudar arte, ou qualquer outra coisa. O que dá uma variedade
enorme a este sistema e, ao mesmo tempo, muitos dos estudantes
têm como objectivo, depois de estarem nesta escola, entrar,
por exemplo, numa academia de arte, ou numa academia de música,
ou numa universidade, etc.
Mas tudo isto também mudou várias vezes ao longo
dos anos. Temos grupos que vêm do liceu e vão directamente,
não para a universidade, mas para uma Folk School, porque
dizem que no liceu aprendem factos, mas ali concretizam e percebem
a ligação entre muitas coisas deste mundo, e também
aprendem a conviver, a comunicar com outras pessoas. Embora ainda
existam muitos estudantes que vão directamente do liceu
para a universidade, quando se fazem comparações
entre eles, os que vão primeiro para as Folk Schools consideram
que foi muito melhor esse seu percurso. Saem mais maduros como
pessoas, eles próprios dizem que isso é importante
para o resto da vida.
Agora uma pergunta algo provocatória, acha que era viável
uma Folk School em Portugal?
Estou convencido
que seria muito bom, mas à luz da experiência
do meu trabalho aqui, não vou dizer muito sobre isso. É difícil
e não é bom, é mesmo muito mau, tentar missionar
com base no que se passa nos nossos próprios países.
Neste aspecto, tive alguns sucessos, mas também fracassos.
Saí da Suécia porque me foi pedido para fazer isso,
e no início, naturalmente, pensei, "vou ser missionário".
Agora, estou convencido de que, se fosse possível, trabalhar
mais uma vez em Portugal, só quereria tornar- -me
membro de um grupo de portugueses, para discutir quais as situações
e necessidades aqui em Portugal e o que poderíamos formar
ou construir (uma escola ou qualquer outra coisa), quais iriam ser
os traços dessa escola e como poderíamos criar um nome
para lhe dar, mas um nome realmente português.
Texto completo na revista Aprender
ao Longo da Vida
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