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Entrevista com Johan Norbeck
Folk School:
uma alternativa à escola formal

Entrevista: Rui Seguro # Fotografias: Paulo Figueiredo

É sueco mas fala português fluentemente. Levou a ideia das Folk School à Tanzânia e a Moçambique, mas hoje, se voltasse a Portugal (onde esteve entre 1978/79) não viria missionar com base nas experiências de outros países. Preferia tornar-se membro de um grupo de portugueses para discutir situações e necessidades, e o que se poderia formar (uma escola ou qualquer outra coisa), quais iriam ser os traços dessa escola e que nome lhe dar. Mas um nome realmente português.

 

Quando cheguei à recepção e disse à recepcionista que queria falar com um senhor sueco, ela disse-me: Ah! Esse senhor fala muito bem português. E eu concordo, pode faltar-lhe algum vocabulário, mas em termos de pronúncia está muito bem.
Mas pronúncia só, não chega. Vivi em Portugal entre 78/79, com a minha família. Trabalhei em Braga, depois continuei a vir cá, por períodos curtos, cerca de sete anos a trabalhar em Portugal e também nas antigas colónias portuguesas de África.

Podemos falar da sua experiência em educação de adultos e depois comparar como é essa educação em países tão diferentes como a Suécia e Portugal. O que era a educação de adultos há 30 anos e o que é agora. Também podemos falar da sua experiência nas Folk Schools...
Não gosto do termo Folk School porque não diz nada a ninguém, só aos nórdicos. Também há nos Estados Unidos, mas parece que quase todas falharam, apenas houve uma para trabalhadores que teve sucesso. O que aconteceu nos nossos países, é que tivemos um filósofo e Bispo (Grundtvig) que foi o grande impulsionador destas escolas. A grande dificuldade das pessoas que querem escrever sobre as Folk Schools é elas serem tão variadas, não há uma igual a outra. Como se faz então para descrevê-las? Podemos dizer que há tipos de Folk School, com ideologias um pouco diferentes, mas a ideia base em todos os países nórdicos é que ela deve ser "outra coisa", em comparação com a escola formal. Grundtvig também afirmava isso. Ele detestou a escola, um Bispo que escreveu 2000 hinos, um poeta, mas com muitas outras ideias.

Em português será ainda pior, porque se diz "escolas populares".
Exacto. E isso também foi difícil para os ingleses, no início, e para os americanos, porque eles diziam "não é possível usar Folk neste caso". Mas nós respondíamos: "vocês dizem Folk Music, Folk Literature", porque seria aqui impossível dizer Folk? Por isso, eu passei a usar a denominação Folk Development Schools - escolas para um desenvolvimento popular, de todas as pessoas em geral...

Agora discute-se também o nome "Universidade Popular". Isto é contraditório, universidade é um conceito de elite e popular é povo, acabando assim por não ser nem uma coisa nem outra.
Realmente é verdade, há algumas dessas escolas querem é aproximar-se cada vez mais da escola formal. Isso existe, mas eu penso que essas escolas não são Folk. Temos uma forte tradição desde o século XIX, muitas Folk Development Schools, (em todos os países,) mantêm essas ideias básicas, mas ao mesmo tempo todos esses países mudaram muito. Hoje, não podemos dizer que as Folk Development Schools na Suécia são uma escola "Grundtvigiana", porque os dinamarqueses defendem que as suas Folk Schools é que são puras. E nós não podemos dizer o mesmo, porque, embora mantendo algumas ideias básicas, as adaptámos às nossas necessidades.

Correndo o risco de generalizar, perguntaria se existem diferenças significativas a nível das Folk Development Schools entre os vários países nórdicos?
As escolas norueguesas e as finlandesas foram tomando rumos diferentes.   Estas últimas, por exemplo, ficaram bastante mais formais do que as escolas dos outros países nórdicos, mas, na Dinamarca, mantiveram quase todas as ideias de Grundtvig, concentrando-se sobretudo na cultura (tradicional) dinamarquesa. No início, era essa a ideia de Grundtvig: criar escolas que fizessem com que a cultura dinamarquesa se não perdesse, por exemplo, em relação à Alemanha, que estava muito próxima.
Na Suécia, não era essa a finalidade mais importante, e o nosso país mostrou-se muito mais prático, e pragmático. Procurámos organizar cursos que ajudassem as pessoas de uma forma muito concreta. Por exemplo, no início, ajudar os filhos dos agricultores e os trabalhadores rurais a encontrar possibilidades de mudar a agricultura. Para outros grupos, como os empregados de escritório ou os operários industriais, essa ajuda consistia em encontrar vias para construir um outro tipo de indústria, um outro tipo de relação entre os patrões e eles próprios. Tudo isto era de molde a alterar muito a situação dos trabalhadores em geral.
O que há de mais interessante, acho, para quem se interessa pela educação de adultos, aqui em Portugal e nos outros países, é a independência destas escolas relativamente ao Estado. O Estado sueco, por exemplo, foi apreciando cada vez mais as Folk Schools, porque tinham uma atitude activa em relação ao desenvolvimento político destes países. As escolas mostravam que tinham ideias, que podiam defender e apoiar o mesmo tipo de desenvolvimento que o governo procurava. Por isso, ao fim de algumas décadas, o Estado começou a subsidiá-las. No início não, no início foram, por exemplo, os agricultores e as associações populares1 que apoiaram a criação e o crescimento das escolas.
A situação, passado algum tempo, era que o Estado dava a maior parte do dinheiro, mas não influenciava quase nada... Muitas pessoas que trabalham em educação de adultos noutros países não percebem como isto pode ser possível. As escolas e as associações não terem a maior parte do dinheiro e não haver praticamente regras nenhumas prescritas pelo Estado; as escolas não têm sequer um currículo, não têm nada a constrangê-las. A única coisa que aconteceu, penso que na década de 20, nas nossas escolas na Suécia, foi a exigência de haver língua sueca e música. Essa foi a única regra, o que para muita gente deve parecer muito estranho.
As pessoas pensam sempre: "se nós damos o dinheiro, temos que controlar, temos que exigir". Naturalmente, que a língua sueca é muito importante, para quem vive e trabalha no país, mas não apresentar mais nada como exigência é um pouco estranho. É uma situação que ocorre muito raramente noutros países, mas acontece aqui; sobretudo, na Dinamarca, Suécia e Noruega, já que na Finlândia é um pouco mais formal.

Actualmente, quem frequenta as Folk Schools são mais os jovens que os adultos?
Sim, mas começaram só com jovens, de 18 anos de idade, o que teve uma importância enorme no nosso país, exactamente por causa desse pragmatismo, tentando que uma nova geração pudesse receber uma nova educação capaz de estimular as grandes mudanças. E estas eram necessárias, especialmente na agricultura, de onde milhares de pessoas tinham já emigrado para os Estados Unidos e os que ficavam tinham que integrar-se nessa mudança.
Politicamente, todos os operários industriais de então viviam situações difíceis, eram todos muito pobres e com condições de trabalho muito pesadas. Foi necessário trabalhar muito com os patrões, de maneira a poder criar um ambiente melhor para os trabalhadores. E, assim, estes trabalhadores acabariam por ter um papel vital na história da Suécia. Eles próprios pensavam que não bastava ter conhecimentos sobre política, sobre questões sociais e económicas, mas queriam saber mais sobre tudo. Os trabalhadores sentiam que deviam adquirir uma parte da cultura das classes mais altas e por isso pensavam que as Folk High Schools deveriam ter essa função.

Mas, quando fala de trabalhadores, é a nível dos sindicatos?
Sim, mas não só, sindicatos e outros grupos de trabalhadores. Para as escolas, foi uma coisa muito natural entender que educação, erudição, não tinha só a ver com especialização, mas realmente com conhecer toda a vida, sob todos os seus aspectos. Por isso, tentaram sempre ter cursos que combinassem, dentro do mesmo tema, por exemplo, aspectos de arte, música, literatura, sociologia, etc. Isso foi e é uma das forças das Folk Schools.

Por um lado, parece que a educação de adultos nasce do levantamento de determinados problemas que é preciso 'solucionar', e para isso vocês demonstram bastante 'pragmatismo'. Mas, por outro lado, estamos a falar de escolas em que há uma 'liberdade' quase total, o que parece contraditório com esse pragmatismo, porque ligada ao pragmatismo vem sempre a ideia de que é preciso obter resultados. Há contradição ou não?
Há contradição, sim. No início, os alunos não tinham muito a dizer, mas os professores e os reitores eram humanistas e tinham a ideia de que os alunos também deviam ser activos relativamente aos estudos. Por isso, fomentaram uma forte cooperação entre professores e desenvolveram a ideia de que os estudantes deviam formular, eles próprios, os conteúdos dos estudos, uma abordagem que foi sempre evoluindo até agora. Em todos os tipos de estudos nestas escolas, os estudantes tinham muita margem para influenciar, e realmente influenciaram. Deste modo, os estudos e as próprias escolas tornaram-se mais pragmáticos. E, passado algum tempo, também os estudantes se tornaram mais pragmáticos.

Uma das palavras-chave que encontro no que escreveu é 'motivação', envolvimento. É isso que faz a mudança na educação, o facto de não se aprender por obrigação, será essa a grande diferença?
Penso que sim. Os estudantes notaram imediatamente que a relação entre reitor e professor é aqui totalmente diferente. Neste aspecto, Grundtvig teve uma ideia, que ainda hoje se mantém, que é a importância essencial do diálogo permanente. Isso é muito diferente da escola antiga, formal.
Por causa desta liberdade, muitas escolas começaram a inventar, a criar um carácter próprio. Hoje ainda é assim, e cada vez mais, porque agora há novos grupos de estudantes que chegam de todo o mundo, e na escola querem aprender música, ou estudar arte, ou qualquer outra coisa. O que dá uma variedade enorme a este sistema e, ao mesmo tempo, muitos dos estudantes têm como objectivo, depois de estarem nesta escola, entrar, por exemplo, numa academia de arte, ou numa academia de música, ou numa universidade, etc.
Mas tudo isto também mudou várias vezes ao longo dos anos. Temos grupos que vêm do liceu e vão directamente, não para a universidade, mas para uma Folk School, porque dizem que no liceu aprendem factos, mas ali concretizam e percebem a ligação entre muitas coisas deste mundo, e também aprendem a conviver, a comunicar com outras pessoas. Embora ainda existam muitos estudantes que vão directamente do liceu para a universidade, quando se fazem comparações entre eles, os que vão primeiro para as Folk Schools consideram que foi muito melhor esse seu percurso. Saem mais maduros como pessoas, eles próprios dizem que isso é importante para o resto da vida.

Agora uma pergunta algo provocatória, acha que era viável uma Folk School em Portugal?
Estou convencido que seria muito bom, mas à luz da experiência do meu trabalho aqui, não vou dizer muito sobre isso. É difícil e não é bom, é mesmo muito mau, tentar missionar com base no que se passa nos nossos próprios países. Neste aspecto, tive alguns sucessos, mas também fracassos. Saí da Suécia porque me foi pedido para fazer isso, e no início, naturalmente, pensei, "vou ser missionário". Agora, estou convencido de que, se fosse possível, trabalhar mais uma vez em Portugal, só quereria tornar-       -me membro de um grupo de portugueses, para discutir quais as situações e necessidades aqui em Portugal e o que poderíamos formar ou construir (uma escola ou qualquer outra coisa), quais iriam ser os traços dessa escola e como poderíamos criar um nome para lhe dar, mas um nome realmente português.

Texto completo na revista Aprender ao Longo da Vida