Moderada por Marta Ferreira, da Direcção
Geral Educação e Cultura da Comissão Europeia,
a mesa redonda “Prospectivas da Educação e Formação
de Adultos” contou com a participação de Fernanda
Marques, da Associação Nacional para o Reconhecimento,
Validação e Certificação de Competências,
de Rui Canário, da Faculdade de Psicologia e Ciências
de Educação de Lisboa e de Licínio Lima, da
Universidade do Minho.
Fernanda Marques começou por fazer um convite a todos os
que estavam na sala para dizerem basta ao conformismo. “Penso
que chegou a hora de agirmos”. E explicou: “Normalmente
temos a tendência de primeiro pensar no caminho, colocar
os perigos todos, equacionar tudo, e às vezes fazemos essa
análise tão bem feita que quando vamos começar
a caminhar já não há caminho para fazer. Acho
que chegou a hora de realmente conseguirmos fazer aqui algum trabalho
de síntese do caminho e das experiências que fizemos
até hoje.”
Para Fernanda Marques, o que unia todos os presentes, na diversidade
de projectos apresentados, de intervenções, de eixos, é a
procura da felicidade. “O que nos une é que todos
nós intervimos socialmente no sentido de induzir factores
que possibilitem às pessoas, às comunidades onde
elas estão inseridas, ser mais felizes e ter maiores níveis
de bem estar.” É a partir desta definição
que se podem articular esforços, fazer sínteses de
experiências e programar acção conjunta.
A outra reflexão deixada por Fernanda Marques foi sobre
a marginalidade a que é votada a EFA. “No fundo, somos
sistematicamente marginais a este grande sistema, à administração,
aos governos.” A relação com o sistema, define, é um
jogo de toca e foge. “Quando é preciso falar da educação
de adultos tocam, quando já não é preciso
falar, fogem. E enquanto eles fogem nós desesperadamente,
no terreno, continuamos a trabalhar, fazemos das tripas coração.
Acho que também aqui temos que dizer um ‘basta’”.
Fernanda aponta para a necessidade de exigir que a educação
de adultos deixe de ser considerada marginal no sistema da educação
e formação de adultos ou no sistema de educação
em Portugal. “É preciso pensar numa estrutura autónoma,
estratégica que contemple as diversas áreas de intervenção
da educação de adultos”. Nela, as experiências
desenvolvidas poderão ser sintetizadas e é preciso
que haja indicadores precisos que garantam a continuidade do trabalho
a partir de 2007.
Por outro lado, a marginalidade também precisa de ser rompida
deixando para trás o sentimento do sentido de sacrifício,
do sentido de quem já fala de todas as dificuldades como
se fossem perfeitamente normais no neste trabalho de intervenção
social em prol do desenvolvimento das comunidades e das pessoas,
um trabalho tão difícil, penoso e sacrificado.
Por último, Fernanda Marques destacou a questão da
dependência. Para ela, é preciso exigir novas formas
de organização, de estruturação e de
financiamento das intervenções para estabilizar uma
rede e pensar em falar a uma só voz na questão das
reivindicações e das políticas para a EFA.
Evolução, no essencial, é negativa
Rui Canário propôs-se fazer um balanço retrospectivo
sobre a educação de adultos, que lhe desse a base
para uma reflexão prospectiva. Citou um texto de Licínio
Lima que se pode sintetizar numa ideia: “nos últimos
30 anos vivemos, em termos de educação e de formação
de adultos, um processo de deslocação de uma lógica
de ‘educação popular’ para uma lógica
de ‘gestão de recursos humanos’. Isto é,
a educação e formação de adultos está,
cada vez mais, subordinada a uma lógica de racionalidade
económica e a uma lógica de mercado e menos a uma
lógica de educação popular.”
Para Rui Canário, esta opção correspondeu
a uma política deliberada. “Tem havido uma política, é esta,
que se acentuou depois da adesão de Portugal à União
Europeia.” Os fundos comunitários que representam
um recurso, e, ao mesmo tempo, um constrangimento, contribuíram
para a realização de escolhas que muitos não
fizeram.
Por isso, Rui Canário considera a evolução,
no essencial, como negativa.
Passando a discutir o futuro desejável, Rui Canário
aponta para uma educação e formação
de adultos que tenha como referência o modelo de educação
popular. Para explicar o que quer dizer, Rui Canário recorreu
a um artigo publicado em 1977 por Alberto Melo na revista francesa
Education Permanente, com o título A educação
dos adultos será obra dos próprios adultos, que aponta
para uma concepção de carácter emancipatório.
Trata-se de um programa que se pode traduzir em três planos:
num plano filosófico, pela superação de uma
lógica de alienação para uma lógica
de expressão de si. Num plano económico, significa
passar de um sistema social baseado no lucro, na mercadoria, na
exploração do trabalho, para uma associação
livre de produtores que usa ferramentas e modos de organização
conviviais (para utilizar a terminologia de Ivan Illich). No plano
político, significa passar de uma lógica de heteronomia
para uma lógica de autonomia, em que a educação
de adultos é obra das próprias pessoas e portanto
coincide com modalidades de autogoverno, o que corresponde a um
terceira referência histórica no campo de formação
de educação de adultos - o princípio da participação.
Rui Canário lembrou que em todo o século XX em Portugal é possível
encontrar exemplos de tradução prática destas
grandes orientações de uma educação
popular, autónoma, virada para a emancipação
social e baseada numa perspectiva criativa da pessoa humana. Na
Monarquia Constitucional, todo o movimento operário e associativo
que vem do séc. XIX e tem essa tradição. Na
1ª República e também durante a Ditadura Fascista,
o movimento cooperativo fundado por António Sérgio,
mas também outros movimentos, como os cineclubes, que eram
expressões associativas do que pode ser uma educação
popular. “É possível encontrar nesse regime
muitas manifestações autênticas disto que chamamos
educação popular e que não é nenhuma
utopia”. Também no regime democrático constitucional
não têm faltado exemplos de iniciavas que se podem
integrar neste paradigma. “Mas o ‘período de
ouro’ da educação popular em Portugal ocorreu
no regime de 74/75, e nessa altura houve pessoas como o Alberto
Melo e a Ana Benavente que tiveram um papel importante. Ele consistiu
em, do ponto de vista do poder público, utilizar esse poder
como um poder facilitador da iniciativa popular de base.” Foi
dessa memória e desse património que o país
se afastou para chegar à situação actual.
Rui Canário não concebe que o futuro da educação
de adultos, entendida como educação popular, possa
ser tutelada e da iniciativa do Estado. “Isso seria uma contradição
nos seus próprios termos. O que o Estado e o poder público
podem fazer é ter um papel facilitador.” Julga que é fundamental
haver uma separação de águas entre o que é da
iniciativa do Estado e o que é a iniciativa autónoma,
que tem que ser sustentada por movimentos sociais. “De certo
modo, aquilo que está em causa é tentar inverter
a orientação que se tornou dominante nestes últimos
30 anos.”
“O caminho a seguir está sinalizado com a realização
deste Encontro, com a publicação da revista Aprender
ao longo da vida e com a possibilidade de as pessoas organizarem
e darem sequência à ideia da construção
de uma rede que não fique confinada às fronteiras
nacionais.”
Finalmente, qual o papel dos poderes públicos? Eles têm
um papel decisivo, que é o de saber como aproveitar de uma
maneira mais útil os recursos dos fundos comunitários,
sem que se transformem num constrangimento que acabe por ditar
políticas.
Outro alerta deixado por Rui Canário é o não
reduzir a educação e a formação de
adultos aos públicos pouco escolarizados. “A educação
e a formação de adultos não são pensadas,
ou não devem ser pensadas, para colmatar um défice.
A educação e a formação de adultos é algo
que não é para pessoas pouco escolarizadas, essa é,
apenas, uma das suas vertentes, mas não é isso que
dá pertinência à educação e formação
de adultos.”
Rui Canário apontou ainda para a importância da construção
de políticas territoriais integradas que constituíram
referências em determinados momentos. “Algumas das
coisas que hoje são consensuais, a importância dos
cursos EFA ou a importância dos centros RVCC, não
foram pensadas no vazio. Foram pensadas em articulação
com outras medidas, como por exemplo os Clubes Saber Mais, como
os Organizadores Locais de Educação e Formação
e, portanto, tinham uma dimensão territorial que se lhe
for retirada reduz tudo à qualificação individual
de recursos humanos.”
Sobre a ANEFA, Rui Canário disse que alguns esperavam mais
dela, mas a sua própria criação representou
efectivamente um passo positivo, destacado pelo próprio
Presidente da República e por Alberto Melo na abertura do
Encontro. “Se estivermos de acordo com isso, há que
retirar consequências, porque se o governo que criou a ANEFA
a deixou, de alguma maneira, numa situação frágil
e à beira do abismo, porque estava numa situação
de instalação, o Ministro David Justino deu o passo
em frente. Nós, agora, vamos ficar a chorar lágrimas
de crocodilo?” A questão está nas mãos
dos actuais responsáveis políticos porque é a
eles que compete tomar decisões sobre esta matéria.
“Evidentemente que a questão que o meu colega Licínio
Lima colocou que é a de saber se vamos dar continuidade à política
anterior, ou se vamos pretender fazer uma ruptura com ela é a
questão mais pertinente. E, se optarmos pela segunda via,
mantemos os mesmos instrumentos? Não retiramos consequências
nenhumas dos erros que foram feitos? É esta a questão
que vos deixo”, concluiu.
Alguns avanços e por
fortes recuos
Licínio Lima começou por citar alguns dos pressupostos
de que parte quanto à Educação e Formação
de Adultos. O primeiro é o de que a educação
de adultos é actualmente o sector mais crítico de
um sistema de educação ao longo da vida em Portugal.
Apesar de reconhecer que há problemas noutros níveis, “a
educação de adultos é o sector mais problemático,
mais crítico, um sector que tem sido objecto de orientações
políticas intermitentes, que tem sido marcado por alguns
avanços e por fortes recuos.” O segundo pressuposto é que
a educação de adultos, assim como a educação
de base e a educação popular vêm sendo desvalorizadas
como utopias progressistas, ou antiguidades modernistas. Como se
o país já não precisasse delas. “Ninguém
fala dos 9% de analfabetos literais, uma média, pois há concelhos
do país com 20% de analfabetos literais (não estamos
a falar de literacia)”, observa Licínio Lima.
Para ele, é profundamente criticável a ideia de que
a formação vocacional, a formação profissional
serão os sectores educativos decisivos para o país. “O
nosso problema é muito maior do que o da falta de qualificação
de recursos humanos; o nosso problema é mais o da falta
de retaguarda educativa e cultural, relativamente a um povo que
não teve oportunidades históricas de uma escolarização
minimamente longa, de processos educativos sistemáticos.
Esse é que é o problema de que nós temos que
recuperar rapidamente.”
O próprio Encontro fez Licínio Lima observar o considerável
capital de experiências, de conhecimentos, de iniciativas
inovadoras, e observar que há uma grande criatividade e
capacidade de experimentação social face à intermitência
das políticas públicas e até face a alguns
erros das políticas educativas. “A questão
que se coloca aqui é a de saber quais são as consequências
desta descontinuidade das políticas públicas de educação
de adultos em Portugal? Ou se, por outro lado, dado que os projectos
e as experiências são tão interessantes, se
de facto nós não precisamos mais de políticas
públicas nesta área.”
Licínio Lima não crê que a sociedade civil
ou o mercado de aprendizagem substituam as políticas públicas. “Eu
creio que precisamos de prioridades definidas por uma política
pública, que não tem de ser exclusivamente estatal,
e que não tem de controlar as iniciativas de educação
de adultos pela simples razão que as financia.”
Mas o que é que as políticas públicas vão
querer fazer com as iniciativas em curso no terreno? “Esta é uma
questão fundamental. Quem está ao serviço
de quem, quem aprende o quê e com quem?”, questiona
Licínio Lima, observando que muitas realizações
sócio-educativas apresentam em geral mais continuidade,
mais qualidade e mais clareza de propósitos do que as políticas
governamentais.
Para concluir, Licínio Lima lembrou que entre 1985 e 1995
houve uma situação de forte investimento no ensino
recorrente e na formação profissional. “Mas
a educação de adultos foi evacuada do discurso político.” O
ciclo governativo seguinte, dos dois governos presididos por António
Guterres, foi um ciclo político que conseguiu recolocar
na agenda a educação de adultos, com comissões,
com grupos de trabalho, com documentos relevantes, com a criação
da ANEFA. “A verdade é que nós saímos
desse ciclo político há bem pouco tempo, com os XV
e XVI governos constitucionais, dele herdando a extinção
da ANEFA... Durante os XV e XVI governos não se falou mais
de educação de adultos.”
Para o professor da Universidade do Minho, uma questão a
colocar ao governo actual é: A educação de
adultos continuará subordinada à lógica vocacional
de uma Direcção Geral de Formação Vocacional?
Vai o actual governo retomar alguns dos aspectos mais interessantes
do ciclo político anterior protagonizado pelo PS? Se vai,
como é que vai? Se não vai, por que razões
não vai? |