Eixo 1 - Reconhecimento de Competências
Faltam ingredientes ou muda-se a receita?
Miguel Ribeiro iniciou
o seu comentário com uma história
que ilustra a situação vivida hoje pelo Sistema Nacional
de Reconhecimento, Validação e Certificação
de Competências. Um caso imaginário, mas comum: a
pessoa que chega a casa e resolve cozinhar um esparguete à bolonhesa.
Começa a fazer o molho de tomate e carne, e quando é hora
de pôr a água a ferver, descobre que não tem
esparguete em casa. Fica então diante de hipóteses
de solução: ir ao supermercado; ou improvisar: fazer
um puré em vez do esparguete, por exemplo.
Para Miguel Ribeiro, esta situação traduz a situação
dos profissionais que trabalham no Sistema de RVCC: “Tal
como o nosso infortunado cozinheiro, os técnicos são
constantemente obrigados a fazer esforços suplementares,
que não estavam previstos, ou a tentar improvisar perante
dificuldades.” Que elemento falta no Sistema de RVCC? É a
ANEFA. “A história que já tem cerca de cinco
anos divide-se claramente em dois momentos, um primeiro com a ANEFA
e um segundo sem a ANEFA.”
Mas há sempre a possibilidade de mudar a receita. Diante
da previsão da entrada em força do Sistema Escolar
e do IEFP no Sistema de RVCC, é preciso pôr a possibilidade
de amanhã já não se estar a fazer a receita
que a ANEFA implementou.
Para Miguel Ribeiro, há elementos da receita inicial da
ANEFA, que vai ser muito difícil manter caso haja esta alteração:
Miguel Ribeiro lembrou que quando o projecto do RVCC arrancou,
com os seis centros experimentais, havia uma certa representatividade:
um Centro de Formação Profissional, a Escola Nacional
de Bombeiros, que representaria formas mais profissionais de abordagem à educação
e formação de adultos, duas associações
de carácter mais comercial e empresarial, e duas associações
de desenvolvimento: a Esdime e a ANOP. “Esta multiplicidade
de instituições representava a intenção
de que este sistema fosse alicerçado numa diversidade de
instituições que trouxessem para o Sistema de RVCC
diferentes experiências”. Miguel Ribeiro alertou para
o perigo que traz a entrada no sistema de centros de formação
profissional e escolas: “pode criar uma grande dificuldade,
pois as parcerias fazem-se com base numa comunicação
horizontal.” Com estruturas do peso do sistema escolar e
do IEFP, a comunicação passa a ser de baixo para
cima.
Miguel Ribeiro destacou que há um princípio comum
capaz de orientar de forma clara a actuação de todos
os Centros: é o balanço de competências. Para
ele, é preciso que fique definitivamente esclarecido que
há uma metodologia com fases predefinidas, horas previstas
para cada uma dessas fases, que faz distribuição
entre as horas individuais e as horas colectivas. É uma
metodologia organizada e que pode servir de critério e de
referencial para a actuação dos técnicos e
dos profissionais. Miguel Ribeiro deixou a questão: num
novo quadro de evolução do Sistema de RVCC em que
o Sistema Escolar e o IEFP assumam o protagonismo, o balanço
de competências vai realmente ter espaço para continuar?
Miguel Ribeiro levantou em seguida a questão: o RVCC é efectivamente
de um processo de educação e formação?
Por um lado, o reconhecimento de competências é o
reconhecimento de alguma coisa prévia. Por outro, o sistema
de educação e formação parece exigir
que o reconhecimento de competências tenha efeitos posteriores,
efeitos que remetem também para os restantes eixos.
“Há aqui uma dependência permanente do reconhecimento
de competências relativamente aos restantes eixos. Mas, em
si mesmo, o reconhecimento de competências pode ser um processo
de educação e formação? Penso que sim,
naturalmente. Pode ser e sê-lo-á se for promotor do
auto conhecimento, da auto descoberta, da auto aprendizagem, no
fundo do empowerment das pessoas e das organizações.” Grande
parte da afirmação do eixo de reconhecimento de competências
no âmbito do sistema de educação e formação
passa por valorizar processos que possam ser de auto descoberta
e de auto aprendizagem. A afirmação do eixo de reconhecimento
de competências no âmbito do Sistema EFA no seu todo,
também passa por valorizar a sua relação com
todos os eixos, incluindo o eixo territorial e informal.
Eixo 2 - Contexto Escolar
A escola é importante desde que abandone tentações
totalizantes
Luis Rothes começou por sublinhar o papel das escolas,
designadamente das públicas, na educação e
formação de adultos, que considerou importante, desde
que as escolas compreendam que a aposta na educação
de adultos se tem de fazer em múltiplos planos e não
apenas promovendo a obtenção de diplomas escolares.
“Mas a educação de adultos não se esgota
aí, há outros planos que estão já estabilizados,
e razoavelmente aceites, em que é necessário apostar.” É preciso
pensar que contributo as escolas poderão dar nesses diferentes
planos. Por exemplo, na promoção da posse e uso de
competências de literacia, podendo não conduzir à obtenção
de um diploma escolar. Ou no contributo da escola aos processos
de animação comunitária para o desenvolvimento.
Ainda assim, diz Luís Rothes, há o perigo de cair
em dicotomias empobrecedoras: uma é a idealização
da escola, considerando-a decisiva para se fazer a educação
de adultos, acentuando desta forma a pressão escolarizante
sobre o sistema; a outra é cair no oposto, negando qualquer
contributo das escolas, recusando o papel fundamental de centenas
de milhares de técnicos, de espaços físicos,
de oportunidades disponíveis no sistema escolar público
que podem ser mobilizadas.
“Creio que a escola tem um papel importante a desempenhar
desde que abandone as suas tentações totalizantes,
e na condição de reconhecer que o sistema educativo
não formal sempre teve, tem ainda e continuará a
ter um papel decisivo na educação de adultos.”
Luís Rothes passou então a discutir as inovações
que ocorreram em Portugal, na última década, nas
formas de proporcionar aos adultos a oportunidade de conseguirem
diplomas escolares. Para ele, a ANEFA teve, nesta área,
duas iniciativas importantes: a criação do sistema
de RVCC e o lançamento dos Cursos EFA.
O que foi criado teve o mérito fundamental de tornar a educação
de adultos mais próxima das pessoas. “Conseguiu-se
criar uma rede extensa, heterogénea, uma rede geograficamente
dispersa, com impacte nas zonas urbanas, periurbanas e rurais.
E de uma forma extremamente rápida.”
Outro aspecto sublinhado por Luís Rothes foi ter-se conseguido
uma aproximação às condições
de vida e de trabalho das pessoas.
Um terceiro aspecto destacado por Luís Rothes foi o facto
de ter-se constituído um campo importante de educação
e formação de adultos, com uma rede de pessoas envolvidas
nesta área, em equipas bastante jovens e muito qualificadas. “Hoje
temos, espalhados por todo o país, profissionais qualificados
e jovens que, de resto, se socializaram profissionalmente nesta área
e são um contributo fundamental para o seu futuro.”
Outro aspecto ainda sublinhado por Luís Rothes: conseguiu-se
finalmente desencadear processos de educação que
conduzem ao diploma escolar, que atraem os adultos e lhes criam
uma empatia com a formação. “O mais notável
nas dezenas e dezenas de cursos EFA que visitei é ser confrontado
sistematicamente com a pergunta: ‘Quando é que nos é dada
a possibilidade de fazer o secundário? Eu quero continuar
a estudar’. Quando pensamos naqueles processos absolutamente
inacreditáveis que chamavam os adultos para, à esmagadora
maioria, dizer: ‘Você não é capaz!’,
e fazemos a comparação, verificamos uma diferença
extraordinária.”
Os resultados são compensadores. Na região norte,
nos últimos quatro anos, 83% dos adultos que frequentaram
cursos EFA foram certificados. Nas outras regiões, a situação é próxima.
Para Luís Rothes, é inevitável pensar o que
se pretende para o futuro. E começar a fazer exigências.
Uma primeira é qualificar o trabalho que nele é desenvolvido.
O que significa, antes de mais, consolidar e qualificar os promotores
EFA. “Temos de estabilizar equipas, estabilizar financiamentos,
temos de criar projectos que permitam conciliar a candidatura a
formações com a estabilidade de um projecto institucional,
o que significa obviamente garantir a estabilidade do financiamento
dessas iniciativas.”
Um outro aspecto fundamental é que haja entidades com projecto
de educação e formação de adultos. “Uma
entidade que se envolve tem de ter um compromisso claro com este
campo, tem de ter uma reflexão programática sobre
a educação de adultos, não pode apenas fazer
um trabalho que acha giro e interessante, para o qual até há financiamentos…” É preciso
consolidar o projecto educativo e isto significa clarificar referências
programáticas e sobretudo assumir compromissos com a democracia,
com o desenvolvimento, com a justiça social, com a participação. “Se
não, vamos ter entidades que respondem a tudo o que tem
financiamento: há financiamento ali, vamos ali, tem financiamento
acolá, vamos acolá… E isto é indiscutivelmente
um risco.”
Luís Rothes apresentou uma última preocupação:
a intervenção do Ensino Superior nesta área.
Sublinhou um risco: quando as universidades e os politécnicos
começam a ter dificuldades em ter alunos, surge uma repentina
apetência pelos novos públicos. Para Luís Rothes,
as Universidades e os Politécnicos são equipamentos
públicos que existem espalhados por todo o território
nacional e é fundamental que apostem na educação
e formação de adultos. Mas se o Ensino Superior quiser
responder a estes novos públicos vai ter de pensar novos
processos de acesso, vai ter que pensar novos processos de organizar
a formação, novos dispositivos de acompanhamento
pedagógico, novos processos de classificação
e de avaliação dos seus alunos.
Para concluir, Luís Rothes reafirmou que o novo impulso
que é preciso dar ao campo da educação e formação
de adultos necessita de uma agência pública central
capaz de mobilizar todo este campo. Mas ou é uma agência
estritamente ligada às questões da educação
de adultos, ou é abafada pelas suas outras áreas
de intervenção. Ou assume o papel de pensar novas
soluções ou, então, vai tornar-se apenas em
mais um dispositivo burocrático que só complica e
que não facilita, de maneira nenhuma, o trabalho que desenvolvemos.
Eixo 3 - Contexto Profissional
Cada vez mais trabalhamos em colectivo
José Cardim começou por esclarecer ser um observador
externo do sistema. Para ele, num plano mais geral, e que é comum
ao ensino, à formação profissional e à área
da educação e formação de adultos,
há três grandes objectivos incontornáveis que
têm a ver com aquilo que designamos hoje por competências.
Têm a ver com as capacidades ou competências instrumentais,
com o psicomotor, têm a ver com as capacidades cognitivas
e também com as competências de carácter comportamental
ou relacional, como normalmente se designam.
O que é hoje notável nas sociedades modernas, que
têm evoluído muito rapidamente, é que a composição
relativa destas competências no nosso trabalho, na nossa
vida, nas nossas profissões tem-se alterado drasticamente,
diz José Cardim. Se as competências instrumentais
há 30 ou 40 anos em Portugal eram razoavelmente essenciais,
hoje a mudança dos conteúdos profissionais, a mudança
dos próprios conteúdos sociais nas nossas relações
como cidadãos e como pessoas alterou-se de tal forma que
as últimas têm, de certo modo, um carácter
predominante.
O que é que isto significa, em termos práticos? Significa
que as pessoas trabalham cada vez mais e vivem cada vez mais como
cidadãos, com maior exigência de autonomia. As pessoas
têm de ter e de assumir cada vez mais responsabilidades,
como cidadãos, como pais, como profissionais também. “Isto
significa que de cada vez mais as pessoas têm de se orientar
para o cliente, uma expressão do marketing que aqui tem
um sentido muito geral, pode ser a orientação para
os nossos filhos, para o utente. Temos de cada vez mais sair da
nossa própria vida e do nosso próprio interesse muito
individual e muito limitado e olharmos para o outro, para o exterior”,
observa.
Para José Cardim, há cada vez mais, a necessidade
de saber trabalhar e cooperar uns com os outros. “A grande
mudança na organização do trabalho e nas sociedades
modernas é o que cada vez mais trabalhamos em organizações.
Aquilo que é absolutamente original nas nossas sociedades é o
facto de cada vez mais trabalharmos em colectivo.”
José Cardim recordou um trabalho que realizou numa região
do país onde existe um centro de formação
e uma escola secundária a 4 quilómetros. A incapacidade
de cooperação entre cursos que têm objectivos
comuns de utilização de equipamentos e de recursos
de professores, entre entidades que são pagas pelo mesmo
orçamento é absolutamente espantosa e não
há praticamente remédio para isto. “Eu era
até capaz de sugerir ao sistema que fizesse uma oficina
de projecto para directores de centros de formação
e de escolas secundárias para ver se começam a entender-se
um pouco melhor.” Para José Cardim, temos de ser capazes
de atribuir outros objectivos, nomeadamente o ensino dos valores.
Mas como se consegue desenvolver o ensino dos valores? “Já foram
hoje aqui focados exemplos nos casos que foram apresentados, alguns
casos que penso que são notáveis de esforço
e de utilização de metodologias nesse sentido. Quais
são as metodologias? Temos que utilizar métodos activos,
temos que rever os métodos tradicionais do ensino não
deixando de ensinar no plano cognitivo, mas mudando os métodos
de tal forma que os valores se possam transmitir através
da própria experienciação das pessoas.”
Passando a analisar os projectos do Eixo 3, José Cardim
chamou a atenção para uma primeira questão
no projecto da Golegã: por um lado, um diagnóstico
claro que leva a que o projecto se tenha orientado para um público
muito especifico, os desempregados, pessoas com falta de confiança
e baixa autoestima, pessoas com relações de vizinhança
más, dependência da subsidiação, necessidade
de vencer a sua inércia. “Quais foram os estímulos
apontados para mudar isto? Estimular a vontade de aprender, ruptura
com o passado de inércia, promover a autoestima e autoconfiança,
superar a agressividade e melhorar o espírito de equipa.
Cá estão algumas das coisas referidas antes, mas
particularmente o espírito de equipa que é obviamente
extraordinariamente importante.”
Apetência para o empreendorismo foi outra questão
avançada. Para José Cardim, o problema do empreendorismo é muito
vasto, mas não se deve tratar de fazer as pessoas darem
saltos impossíveis, passar de uma situação
de quase marginalidade para uma situação de empreendorismo. “Penso
que a expressão apetência está bem utilizada,
porque se trata de estimular a vontade de trabalhar por conta própria
sem abdicar da percepção de que isso pode ser um
desafio excessivamente grande para a maioria das pessoas.”
José Cardim passou então a falar do segundo projecto
(AGADE - A Good Adult Educator in Europe), que prevê a construção
de um dispositivo de educação de adultos, combinando
formação presencial e formação à distância. “Combinar
formação presencial com outras, é particularmente útil
numa visão geral da sistematização do trabalho
na área.” O projecto procura associar promotores diversos,
nomeadamente do norte da Europa: “Todos temos a consciência
que lá já se trabalha há muito tempo nestas áreas.”
Do ponto de vista metodológico o grupo de trabalho é alargado,
juntado a teoria e a prática, destacou José Cardim. “Achei
esta visão de projecto particularmente importante, por quanto
ela combina vários níveis de intervenção,
desde o desenho do currículo e das formas de o desenvolver
até a uma análise das próprias políticas
e critérios de desenho das intervenções em
que foram apontados em particular a questão da ética,
a questão do conhecimento e uma visão que reflecte
também sobre as questões organizacionais.”
Do ponto de vista pedagógico, diz Cardim, este projecto
chama a atenção para a análise do sujeito
e das suas experiências, evita as visões escolarizantes,
foca temas e não conteúdos, e põe a ênfase
nas questões mais relacionais e menos nas cognitivas o que
parece adequado. Finalmente, explora as virtualidades da formação à distância. “Vimos
que foi posto neste conjunto de projectos o acento tónico
na importância da liderança dos projectos, tem de
ser forte e extremamente capacitada, isso significa que a questão
que da estabilidade organizativa é extremamente importante.
As organizações só adquirem esta capacidade
de liderança se tiverem estabilidade e se tiverem continuidade
ao longo do tempo.
Outra questão destacada foi que a reflexão teve invariavelmente
três níveis: o estratégico, o nível
organizativo e o nível metodológico e pedagógico. “Penso
que pela visão externa de uma pessoa que não é da área,
estão criadas muito boas condições para se
evoluir no futuro.”
Eixo 4 (Contexto Territorial)
Reflectir criticamente sobre a realidade
e as possibilidades de mudança
José Manuel Henriques começou por abordar o tema
dos recursos. Para ele, em Portugal estamos sempre muito preocupados
com a falta de recursos, mas reflectimos muito pouco sobre a forma
como os esbanjamos. Referindo-se aos projectos do eixo de que era
relator, disse que houve um bom exemplo de como os recursos também
se produzem e criam através da própria iniciativa,
imaginação e determinação. “Nos
dois projectos apresentados, há um propósito de agir
a nível territorial no sentido da indução
de uma mudança no contexto de intervenção,
designada como de desenvolvimento. Num caso enfatizando-se o desenvolvimento,
noutro caso a competitividade territorial, mas sempre esta ideia
do desenvolvimento.” José Manuel Henriques lembrou
que se dá uma mudança significativa de paradigma
nos finais dos anos 70, princípios dos anos 80, quando se
trata de promover o desenvolvimento a partir de um determinado
contexto territorial. “Verificamos que isso depende mais
da nossa capacidade de iniciativa e organização do
que qualquer efeito que venha através do aumento da acessibilidade,
de algum sistema de incentivos, de alguma zona industrial.” Ou
seja, é necessário deixar de pensar que os problemas
de desenvolvimento das regiões periféricas, das áreas
urbanas em crise se resolvem rápida ou automaticamente através
do crescimento económico do país sem que se organize
a comunidade no sentido da determinação activa, de
se organizar para poder beneficiar das mudanças que o país
viva globalmente.
Esta ideia, disse, começou a afirmar-se a partir das teorias
de desenvolvimento regional endógeno no princípio
dos anos 80. “Depois veio a ter muitos nomes diferentes,
mas que radicam sempre nesta ideia de que a mudança que
podemos desejar ter naquele contexto depende mais da capacidade
de iniciativa e organização que lá se possa
constituir do que qualquer efeito produzido na sociedade algures
automaticamente ou espontaneamente e se venha a traduzir nessa
localidade”. José Manuel Henriques diz sempre ter
colocado a ideia de que a constituição desta capacidade
de iniciativa surgir sempre combinada, inevitavelmente, com a educação
e formação de adultos. “Porque há uma
mudança nas comunidades que, para poder ser assumida como
um projecto colectivo, pressupõe também uma capacidade
acrescida de reflexão crítica sobre a realidade e
sobre as possibilidades de mudança.”
Quanto aos projectos, José Manuel Henriques, escolheu três
temas. Um primeiro, relacionado com as propostas de mudança
dos projectos de desenvolvimento. “São projectos de
esperança, mas muito associados, também, às
formas organizativas, às condições de implementação
que possam depois vir a protagonizá-los no futuro.”
O projecto Aldeias Vivas tentou reflectir sobre o papel da competitividade
territorial mas entendido na ligação estreita entre
a micro iniciativa empresarial e a mudança do contexto global,
ligando as questões da competitividade empresarial com as
questões da coesão social e com o desenvolvimento
pessoal.
O segundo tema prende-se com as questões económicas.
Para José Manuel Henriques, a dimensão económica
muito associada à questão do emprego ou da criação
de rendimentos, é muito interessante. No projecto Aldeias
Vivas, o não dissociar a micro iniciativa empresarial com
a competitividade territorial permite que estes dois aspectos tenham
que ser vistos de uma forma associada, que permite reflectir sobre
o papel da inovação nos produtos para que, com base
na valorização das competências adquiridas
possam constituir-se iniciativas empresariais viáveis.
Em S. Brás de Alportel, as questões económicas
surgem muito associadas também a uma forma inovadora: convida-nos
a reflectir sobre o papel das trocas, como moeda alternativa, e
a possibilidade da sua conversão. “É um domínio
interessantíssimo que abre perspectivas principalmente quando
associado à rede de solidariedade que também pensam
valorizar, criar ou animar. No fundo seria um modelo de desenvolvimento
que, no plano económico, constituiria uma alternativa segura
aos modelos mais convencionais de conceptualização
do económico.”
O último tema tem a ver com a forma como em ambas as perspectivas é colocada
a questão da interacção entre contextos territoriais
diferentes. Na opinião de José Manuel Henriques,
no projecto Aldeias Vivas é desbaratada a ideia das redes
de cooperação interaldeias com possibilidade de alargamento
ou aprofundamento através da incorporação
de mais experiências. Em S. Brás Solidário,
somos convidados a reflectir sobre os desafios e as vantagens que
se colocam à interacção em contextos territoriais
translocais, atravessando os países e os continentes. “Temos
aqui desafios que se colocam no plano, em termos de educação
e formação de adultos, que se põem, possivelmente
do ponto de vista teórico enquadrados na questão
da aprendizagem situada, na produção de competências
a partir da interacção social e seguramente também
ligados à comunicação translocal no que isso
envolve nas Línguas à utilização das
novas tecnologias da informação e da comunicação,
mas quem sabe são domínios privilegiados face aos
desafios contemporâneos.”
José Manuel Henriques concluiu uma nota breve. “Reencontraram-se
hoje, nesta sala, pessoas que aqui estão juntas não
pelos obstáculos que viveram no domínio da educação
de adultos mas pela sua determinação em se manterem
vivos, actuantes e determinados a agir. Estamos perante um notável
número, em termos quantitativos, e uma qualidade diferenciada
de profissionais neste domínio que constituem seguramente
uma experiência e um potencial endógeno ao país
que de modo algum podemos desperdiçar. Isso e a partir das
experiências, por exemplo, de envolvimento em milhares de
projectos locais que se têm desenvolvido no nosso país
desde meados dos anos 80, constitui um património de experiência
que merece ser reconhecido, valorizado, não sei se certificado
mas, seguramente, aprofundado.”
Eixo 5 (Contexto Informal)
Há aprendizagens informais que são acidentais, mas
há muitas que são intencionais
António Fragoso começou por citar dados disponíveis
no site do INE sobre um estudo realizado em 2003. “Neste
inquérito, entenderam que as aprendizagens informais, eram
aquelas que decorrem de actividades relacionadas com o trabalho,
a família, a vida social o lazer etc., mas que decorrem
geralmente fora do estruturas institucionais, num ambiente em que
as pessoas podem organizar, de uma forma livre, e estruturar também
livremente as suas aprendizagens sem nenhum tipo de imposição.” Para
António Fragoso, é disto que falamos, quando falarmos
de aprendizagens informais. “É óbvio que há muitas
aprendizagens informais que são perfeitamente acidentais
mas que também há muitas que são intencionais.” António
Fragoso cita alguns dados interessantes: 51% das pessoas utilizaram
pelo menos um dos métodos de aprendizagem informal. Trinta
e cinco por cento dessas pessoas solicitou ajuda e/ou esclarecimento
a familiares, amigos ou colegas mas intencionalmente com o objectivo
de melhorar conhecimento, 33% das pessoas procurou apoio em material
impresso como livros técnicos, jornais, revistas especializadas,
etc, 24,8% para o mesmo fim utilizaram CDrom ou outros materiais
educativos de difusão, 18% utilizaram a Internet como fonte
de pesquisas várias, o que é um número razoável,
19,4% visitaram lugares destinados à transmissão
de conteúdos educativos, e por último 10,5% participaram
em actividades cívicas ou de voluntariado.
“Pessoalmente”, diz António Fragoso, “o
que acredito é que temos dado pouca importância a
este tipo de aprendizagens informais. E, como lhe damos pouca importância,
muitas vezes por não nos apercebemos do significado que
isto possa ter para as pessoas que se cruzam todos os dias connosco
nos autocarros, nas ruas, etc.”
António Fragoso passou a falar sobre as vantagens das aprendizagens
informais e como é que elas podem ajudar os cidadãos.
“Em primeiro lugar, há sempre que realçar que
quando as aprendizagens são informais, elas estão
totalmente imersas nas estruturas do quotidiano e portanto não
colocam muitos dos obstáculos que têm que ver ou com
a separação de certas formas de criar conhecimento
ou com as eternas situações de separação
entre teoria e pratica que têm sido problemas recorrentes
da educação formal e até de certo ponto de
vista nalgumas actividades não formais.“
O segundo e mais importante factor para António Fragoso, é que
as situações de aprendizagem informal respeitem os
ritmos e as formas mais adequadas para cada pessoa. “A pessoa
pode fazê-lo ao seu próprio ritmo sem prejuízo
de sentir qualquer tipo de imposição nesse sentido
criando assim um contexto que funciona como uma espécie
de espaço livre onde as pessoas se podem organizar e aproveitar
cada uma dessas formas mestras de aprendizagem, de acordo com a
sua situação particular e de acordo com a sua situação
de vida.”
António Fragoso não concorda com a ideia de que tudo
o que é aprendizagem é bom. É como se não
houvesse más aprendizagens. Se as pessoas aprendem, isso,
quase que per si, é uma coisa fantástica. “Não
partilho desta opinião, acho que há muitas aprendizagens
que fazemos no dia a dia que não facilitam a construção
de pessoas criticas, pessoas mais emancipadas. Muitas aprendizagens
mostram que não reclamar os nossos direitos é mais
sensato. Como chamaremos nós a estas aprendizagens? Com
certeza nada de muito positivo mas apenas aprendizagens que forçadas
pelos contextos sociais económicos, culturais, etc. não
nos tornam nem pessoas mais críticas nem mais humanas.” Há aqui
um desafio fundamental para as instituições que trabalham
nesta lógica: ao mesmo tempo que conseguem trabalhar em
contextos informais, conseguem mesmo assim atingir alguns objectivos
de propiciar às pessoas aprendizagens que funcionem como
uma mais valia, seja no sentido humano seja no sentido de melhorar
a qualidade de vida das pessoas.
Para António Fragoso, a cidadania é uma área óptima
para trabalhar em termos informais. Falar sobre a cidadania pode
ser importante nalguns contextos, mas basicamente é uma
questão de vivências e é todos os dias e no
quotidiano que se sente na pele os problemas que existem ou não
existem de cidadania. Porque não trabalhar a cidadania a
partir de um contexto informal quiçá depois tentando
atingir dimensões mais sistémicas?
Para finalizar, António Fragoso perguntou: quem são
ao agentes ou as pessoas que sistematicamente têm desenvolvido
este tipo de projectos? “Basicamente, creio que todas as
associações que, tentando desenvolver as suas acções
em contextos que podem ser até não formais, vão
compreendendo que podem juntar imensas dimensões, algumas
das quais de carácter puramente informal, e com isso construir
um projecto que possa, globalmente, contribuir para o desenvolvimento
local, ou que possa melhorar a vida das pessoas ou ter alguns intuitos
de transformação estrutural. E é óbvio
que grande parte das associações que conheço
experimenta neste momento grandes dificuldades e que na maioria
das vezes são quase forçadas a inventar exercícios
de criatividade fantásticos para descobrir fontes de financiamento
onde elas não existem. Não sou apologista da velha
ideia de termos que reclamar por mais intervenção
estatal. Mas gostava que o Estado ao menos reconhecesse em alguém,
nalguma estrutura a competência para ser parceiro, e para
ser dialogante. Eu gostaria que deste Encontro saísse alguma
coisa com legitimidade para exigir que nós sejamos ouvidos.”
|