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Ettore Gelpi - Um utópico com os pés na terra Foi educador toda a sua vida, desde a escola experimental, à animação comunitária, até à formação de quadros sindicais e à docência universitária. Entre 1972 e 1993, foi responsável pela Unidade de Educação Permanente na UNESCO. Um verdadeiro agitador de ideias e explorador da educação e formação informais, abriu inúmeras pistas sobre as novas modalidades de acesso ao conhecimento, que foi promovendo pelos cinco continentes. Esteve em Portugal por várias vezes, participando em seminários e colóquios, geralmente organizados por organizações cívicas e solidárias; em 1975, esteve na base de um Exame da situação educativa em Portugal promovido pela UNESCO, tendo participado na equipa internacional de peritos constituída para esse efeito.
Deixamos aqui extractos dispersos do seu pensamento, retirados, por um lado, de uma comunicação que enviou a um colóquio de educadores e, por outro, de uma entrevista com Philippe Morin (publicada no nº 61-62 da revista francesa Ressources, Abril/Maio de 2001). Se a leitura deste texto lhe sugerir alguma reacção que deseje partilhar com os outros leitores do site pode fazê-lo enviando-nos as suas ideias num texto com o máximo de cinco mil caracteres em ficheiro Word para: admin@direitodeaprender.com.pt
Abramos as janelas a um novo ar educativo Tenho examinado com preocupação os conteúdos de centenas de colóquios sobre educação, pois tenho a sensação de que andam sempre à roda no que se refere a conteúdos, a participantes e a finalidades. Como poderemos atingir novos paradigmas na educação se, nestes colóquios, os participantes pertencem sempre às mesmas categorias, geralmente, professores universitários preocupados com a sua carreira e com o respeito pelos níveis da sua hierarquia? Como atingir esses novos paradigmas se os formadores profissionais não forem suficientemente humildes para aproveitar estes encontros como oportunidades de formação, em vez de repetirem exaustão as mensagens do poder sobre adaptabilidade, educabilidade, etc.? E se as finalidades provêm do poder, sem qualquer forma de participação das populações na renovação da educação? Nos momentos de crise não podemos continuar a repetirmo-nos. Os novos paradigmas da educação estão assentes em participações e em conteúdos de natureza inédita. Não podem desenvolver-se em circuitos fechados, asfixiados, sem espaço aberto à inovação educativa e também à cultura e a novos projectos de justiça, de comunicação e, sobretudo, de renovação da produção, que não se pode limitar ao lucro financeiro. Com frequência, uma outra forma de refúgio, para evitar as novas urgências educativas, é a museificação da educação: o passado, que poderia ser um estímulo para o futuro, torna-se ocasião para esquecer o presente. As publicações, multiplicadas ao infinito, já não têm leitores. As actas dos colóquios raramente são lidas, até pelos participantes nesses colóquios. Não há um manifesto novo para a educação, nem a nível local nem nacional ou internacional. É com inquietação que se constata que se trata antes de palavras de ordem, que circulam, que se repetem e se cruzam aos diferentes níveis geográficos. Passando em revista as obras especializadas, actas de colóquios em vários países europeus, verifico que há uniformidade relativamente aos comportamentos dos responsáveis. Geralmente progressistas nos anos 70, evoluíram suavemente, nos anos 90, para posições de adaptação às mensagens educativas dos poderes, sem uma análise crítica. Sendo eu hoje principalmente investigador e universitário, constato uma demissão das nossas funções. Não cabe à investigação universitária mudar o curso da história, mas cabe aos investigadores e aos professores analisarem, numa perspectiva crítica, a evolução dos processos educativos. Pergunto-me porquê. Tratando-se de pessoas integras, não penso que se trata de corrupção intelectual, mas antes de uma adaptação às novas linhas impostas, sem dor mas de forma inflexível, por aqueles que pretendem transformar a educação num produto de mercado, privatizá-la e retirar-lhe qualquer função crítica. A todas estas pessoas que conheço dirijo um convite para retomarem as funções que são próprias dos críticos: observar tudo, mas ao mesmo tempo, a fim de formularem um dado juízo. Um verdadeiro cientista não pode deixar-se influenciar, nem por jogos universitários, nem por pequenos poderes, que só têm por resultado umas verbas para macro-congressos ou para revistas em papel de luxo. Convido-os a afirmar, clara e fortemente, que os seus projectos educativos não estão em contradição com a sua filosofia educativa, nem com as suas opções de fundo quanto à sociedade. Para matar o pensamento crítico independente, mesmo no campo educativo, construem-se redes, alianças, estruturas extremamente dispendiosas, o que significa ou exclusão ou dependência para todos os que não detêm poderes económicos. Os educadores são submersos com afirmações sobre educação em geral assentes em bases conformistas e conservadoras. Nesta altura, tal como para os cineastas independentes, os educadores independentes devem recusar participar nessas alianças. O resultado, tanto no comércio como na educação, é o esmagamento. Outrora as revistas eram actos voluntaristas de compromisso. Será possível retomar esta tradição? Poderão as revistas voltar a ser verdadeiros porta-vozes dos cientistas que querem dar a conhecer, sem manipulações, os resultados das suas investigações? Podem as revistas tornar-se incubadoras dos novos manifestos? É óbvio que hoje em dia só de forma muito limitada é que a comunicação passa pelas revistas; o que conta é ter acesso aos meios de comunicação de massa. O pessimismo persuasor que invadiu o campo educativo europeu, nos últimos anos, enfraqueceu o desejo de comunicar. O educativo parece agora limitar-se a uma série de estatísticas trágicas, sem que se associem a estas estatísticas as estratégias necessárias para superar tais bloqueios. O analfabetismo existe, e até progride na maioria dos países europeus. Em lugar de disponibilizar meios, que são significativos na Europa, para organizar colóquios que vão repetir à exaustão que o analfabetismo aumenta, poderia contactar-se os movimentos educativos que continuam a existir, e reforçar a sua capacidade de intervenção, na condição de colocarem à disposição a informação relativa aos seus projectos, a sua metodologia e os seus resultados. Não podemos baixar os braços e aceitar. Os nossos investimentos vão no sentido de trabalhar novos manifestos da educação, associando o número máximo de pessoas, quer pertencem ou não às instituições educativas, e colocando abertamente o problema da comunicação como objectivo prioritário da acção educativa. Sempre que exista experimentação, novidade, criatividade, é necessário procurar os meios de dar a conhecer todo este novo património. O novo ar educativo significa que circula nos espaços em que se reflecte sobre educação. Basta uma só pessoa, num colóquio de 300, para informar os congressistas que estão a trabalhar sobre pistas já traçadas e sem perspectivas. Basta uma pessoa que, numa emissão televisiva, não corrobora com os coros pré-ensaiados. Não precisa mais do que observar o que se passa no seu bairro ou no seu local de trabalho. Basta um internacionalista generoso e bom cientista que se ponha em contacto com um pequeno núcleo de colegas prontos a entrar consigo na luta. O educativo é ainda uma bela aventura. Ninguém pode reduzi-lo a um produto de mercado ou académico destinado ao bem estar discutível dos novos ricos da pedagogia. A pedagogia faz-se também de ironia, de sarcasmo benévolo e de crítica amorosa, de jogo e porque não? – também de alegria. A Formação e a Cultura perante o desenvolvimento tecnológico e a globalização Encontro três paradoxos no campo da educação e formação. O primeiro é que só os privilegiados do planeta, os que se encontram em posição de serem “filósofos de Atenas”, é que podem colocar a questão;de redefinir o paradigma da formação; e, de uma maneira geral, não a colocam. Os diversos excluídos – majoritários nos países do Sul e minoritários nos países do Norte – não se permitem tal questionamento, porque a formação lhes é imposta, embora o possam sentir. A este propósito, quero frisar a separação sistemática que se faz, na formação, entre pessoas que têm emprego e pessoas desempregadas. Ora, aqui, o que é criativo é juntar estes públicos. O 2º paradoxo, quando nos colocamos num ponto de vista humanista, é que actualmente 90% das formações estão direccionadas exclusivamente para a produção. Parece-me que devemos então alargar a noção de produção, para que abranja, para além da produção mercantil, a produção artística, estética, do cidadão, da pessoa colectiva, social, capaz de viver com os outros e de comunicar. O desenvolvimento da pessoa, a sua formação geral, é a meu ver indissociável da formação profissional. Quanto ao 3º paradoxo tem a ver com o facto de o tempo e o espaço educativos serem infinitos, podendo dar-se a qualquer espaço e a qualquer tempo uma dimensão educativa e cultural. Contudo, a avaliação das formações é geralmente circunscrita a aprendizagens efectuadas em tempos e espaços muito limitados. No mundo educativo, é necessário preconizar o reforço da ideia de bem público. Outrora, os quatro elementos fundamentais – ar, água, terra e fogo – eram bens públicos. Pouco a pouco, estes bens foram sendo privatizados. Primeiro, as terras, depois o fogo (e as energias), a seguir e cada vez mais, a água; e agora o ar, pelo menos em certos lugares do planeta; por exemplo, se viveres na Cidade do México e quiseres respirar livremente, terás que habitar nas colinas elevadas e, para isso, tens que ser rico. Assistimos hoje a uma degradação constante do bem público. É por isso que a educação tem que manter-se acessível e gratuita para todos até aos 18 anos e não pode obedecer a uma lógica de mercado. O acesso à universidade também não pode ser limitado por razões financeiras. A formação profissional, por seu lado, deve ser um direito, correlativo ao direito ao trabalho. Neste contexto, a intervenção pública tem, pois, um papel importante a desempenhar, para facilitar o acesso, fornecendo os meios (ajuda financeira aos aprendentes, acesso aos equipamentos e à sua utilização, etc.). A lógica do lucro não pode ser imposta contra os interesses da saúde ou da educação, individuais e colectivos, de cada um de nós. Propor prestações que não servem para nada, se não para ser vendidas (e tornarem-se assim fontes de lucro) é um absurdo. Isto exige portanto uma vigilância e formas de regulação pública, que visem, por exemplo, proteger as pessoas e assegurar-lhes uma função de garantia. Para mim, a globalização tal como hoje existe não é mais que uma forma nova de um regime imperial. E a realidade da concorrência não é tão evidente como se pretende fazer crer. A concorrência verdadeira significa, antes de mais, permitir que toda a gente aproveite as mesmas oportunidades. Veja o fenómeno da emigração: para um europeu, emigrar para um país do Sul não coloca problemas de maior, o contrário já não é verdade. (Como dizia um amigo meu, senegalês, “Se vocês vierem à nossa terra, são peritos, se nós formos à vossa, somos imigrantes”). O mesmo sucede com as chamadas “empresas educativas”. Hoje, os países do Norte enviam produtos “educativos” através das TIC, mas alguns países do Sul, como o Brasil ou o México, poderiam também propor produtos de qualidade, mas a comunicação não é assim tão fácil. São os sistemas dos mais poderosos que impõem os seus modelos de organização e de regulação educativas. As linhas políticas de organismos internacionais, como o Banco Mundial e a OCDE, vão também nesse sentido, uma situação que não reflecte realmente uma verdadeira dinâmica de concorrência. Ora, o conhecimento científico foi construído pela acumulação do conjunto dos saberes da humanidade e, por conseguinte, pertence ao conjunto da humanidade. Consideram-se os aprendentes ou estudantes como clientes, beneficiários ou utilizadores, no melhor dos casos, como actores da sua educação ou formação. Insisto sobre o facto de que devem ser, antes de mais, os autores da sua formação, isto é, devem contribuir para definir as finalidades, os conteúdos, os métodos. Devem ser autores, ao mesmo tempo, num modo individual e num modo colectivo. Outro ponto para mim importante: as reflexões sobre as motivações para aprender parecem-me sem sentido. A única questão a colocar é a da criação de condições que facilitem a aprendizagem. Constato que esta noção de motivação para aprender marca a fronteira entre o Norte e o Sul. No Sul, não se coloca esta questão, mas acima de tudo a de encontrar os meios materiais que assegurem o funcionamento das estruturas educativas. Parece-me que esta noção demotivação está associada à de “marketing”, procura de clientes e estímulo ao consumo. Para mim, formar-se é, primeiro que tudo, aprender a desaprender, a viver em conjunto, a criar, a resistir, a amar, a lutar de forma não violenta. São aspectos fundamentais para a educação e formação das pessoas do século XXI. E tanto mais fundamentais quanto, a meu ver, nos encontramos hoje e à escala planetária num momento de grande evolução. Quando observo o que se passa em países como a China, a Argélia, as Filipinas, o México, o Brasil, a África do Sul, etc., tenho a impressão de que nos dirigimos para uma espécie de “maio de 68 mundial”, para grandes tumultos sociais e das relações internacionais. Contudo os movimentos sociais que agitam os povos destes países não se referem aos mais desfavorecidos e marginalizados. Provêm sobretudo de grupos da população com possibilidades de desenvolvimento, que beneficiaram de um bom nível de educação, mas que vivem de forma dramática as contradições da globalização e contêm em si uma fortíssima carga explosiva. Referências
e alguns sites aconselhados Mecano International - Ettore Gelpi http://www.ettoregelpi.org/ CEDEFOP - Formação Profissional Nº 25 http://www2.trainingvillage.gr/download/journal/bull-25/25-PT.pdf Ettore Gelpi http://catedradh.unesco.unam.mx/EttoreGelpi/ |
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