Contribuições do Pensamento Pedagógico de Paulo Freire para a Educação Socioambiental PDF Imprimir e-mail
18-Set-2011
Este estudo escrito por Ivo Dickmann (PG)1, Sônia M. M. Carneiro (PQ) 2, objetiva a trazer uma contribuição para o desenvolvimento de uma pedagogia crítica na Educação Socioambiental, tendo como base o pensamento de Paulo Freire e a Educação Libertadora. Assim, neste estudo buscou-se em Paulo Freire, com base em sua obra Pedagogia da Autonomia, contribuições pertinentes à Educação Socioambiental, tendo como pressupostos suas concepções de ser humano, de mundo e de Educação. Este texto procura trazer os resultados finais da pesquisa e algumas considerações indicativas para a formação de educadores socioambientais.

INTRODUÇÃO
Pesquisar o pensamento de Paulo Freire significa adentrar o emaranhado de conceitos com que ele teceu sua pedagogia e reconhecer sua contribuição à reflexão pedagógica. Os textos freirianos como um todo nos interpelam a discutir e redimensionar a nossa práxis. Mas, ao mesmo tempo, implica dialogar com o autor para reinventá-lo, atualizá-lo, reinterpretá-lo, como era o seu desejo. É buscar estar atento aos temas emergentes com os quais ele se preocuparia. Significa, ainda, partir em direção a temáticas relacionadas com a educação presentes no mundo globalizado em que vivemos.
Nosso interesse, neste trabalho, foi buscar em Paulo Freire algumas respostas a perguntas pertinentes quanto à formação de educadores, tendo como pressupostos as concepções de ser humano e de mundo, no contexto da educação socioambiental dialógica em vista da sustentabilidade da vida no mundo. Para isso, partimos de algumas questões que julgamos importantes: a concepção de ser humano, de mundo e a relação entre eles, tendo como referencial o pensamento de Paulo Freire.

1 PROBLEMA E METODOLOGIA
Muito já se pesquisou sobre o pensamento pedagógico de Freire no que tange à Educação Socioambiental, inclusive, alguns textos de referem à formação de educadores nessa perspectiva. Alguns autores apontam para uma educação ambiental dialógica embasada em Paulo Freire e outros, há mais tempo, transitam nesse campo da relação do ser humano com o mundo na concepção freiriana.
A relação ser humano e mundo é um tema central na pedagogia freiriana, não somente como uma constatação cotidiana, mas como uma relação socioambiental. Assim, no presente trabalho coloca-se a seguinte questão de pesquisa: - quais as contribuições do pensamento pedagógico de Paulo Freire, a partir da relação ser humano-mundo e da dimensão crítica da Educação, para a Educação Socioambiental e a formação de educadores socioambientais?
Para responder esta questão, a pesquisa se pautará pelo seguinte objetivo: investigar a pedagogia de Paulo Freire na sua potencialidade de uma educação socioambiental, como fundamentação específica e diferencial na formação de educadores.
E, para alcançarmos este objetivo, estabelecemos os seguintes objetivos específicos:
 mapear na obra Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, as proposições relativas às questões socioambientais e pedagógicas;
 analisar o conteúdo das proposições mapeadas a partir de categorias e subcategorias geradas com base no pensamento de Paulo Freire;
 explicitar contribuições de Paulo Freire para a Educação Socioambiental Crítica e indicativos para a formação de educadores socioambientais.
A partir da questão e objetivos da pesquisa puseram-se alguns pressupostos que também serviram de base orientadora para o desenvolvimento do trabalho:
a. O ser humano é um ser inacabado, inconcluso, que está sempre se fazendo na relação com o mundo e com os outros. A consciência de seu inacabamento, possibilita a educabilidade, permitindo ir além de si mesmo. Como ser relacional, comunica-se pelo diálogo – exigência fundamental da existência humana (FREIRE, 2003; SIMÕES JORGE, 1979).
b. O mundo é o suporte da vida, da existência humana. É o lugar, o contexto, a realidade objetiva. Ele, como o ser humano, também é inacabado – toda ação humana pode humanizar ou desumanizar o mundo. É no mundo que se realiza a História, que se estabelecem as relações e onde os seres humanos agem e fazem cultura (BRUTSCHER, 2005; FREIRE, 1980; 2003; 2004).
c. O mundo é o mediador do processo educativo. Como realidade objetiva ele é cognoscível. O diálogo entre educadores e educandos é fundamental para construir novos conhecimentos e se compreendendo, nesse processo, como seres sociais e habitantes do mesmo Planeta (FREIRE, 1983; 2003).
d. A Educação Ambiental é uma dimensão educativa crítica que possibilita a formação de um sujeito-aluno cidadão, comprometido com a sustentabilidade socioambiental, a partir de uma apreensão e compreensão de mundo complexo (JACOBI, 2003; LEMOS; MARANHÃO, 2008; LOUREIRO, 2003).
e. A formação continuada, permanente e sistemática de educadores socioambientais é fundamental para pensar uma nova práxis pedagógica, na busca da transformação social e na construção de um mundo sustentável (GOUVÊA, 2006; GUIMARÃES, 2004).
Quanto à metodologia da pesquisa, o presente estudo se enquadra nas características de uma pesquisa qualitativa, que tem a finalidade de interpretar uma variedade de materiais empíricos (DENZIN; LINCOLN, 2006) e, no caso deste trabalho, a contribuição de texto e produção de Paulo Freire, para elucidar a Educação Socioambiental Crítica. Em vista do objeto de estudo da pesquisa, esta é uma análise documental (BARDIN, 1977; LÜDKE; ANDRÉ, 1986) do livro Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e focaliza, a partir de algumas categorias de análise, como seu pensamento pode dar suporte a uma Educação Ambiental Crítica. A partir da leitura da obra, foi realizado um mapeamento, tendo como base o tema central na obra de Paulo Freire – a relação ser humano e mundo, entendendo que essa relação é o que liga a Pedagogia de Paulo Freire à Educação Socioambiental; outro tema básico de análise é a dimensão crítica da educação, que é fundamental para se pensar uma Educação Ambiental Crítica. Desses temas foram levantadas categorias de análise da obra selecionada. No primeiro tema abordamos a concepção freiriana de ser humano, de mundo e relação sociedade-natureza. No segundo tema, aprofundamos a dimensão formativa do ser humano, a questão do conhecimento e metodologia e a concepção de educando e educador.

2 DISCUSSÃO TEÓRICA
Antes de adentrarmos na análise da obra Pedagogia da Autonomia é necessário conhecer o referencial teórico, que embasa este estudo quanto à Educação Ambiental. Assim, primeiramente é enfocada a ética da responsabilidade como um dos pilares da Educação Ambiental, essência do ato educativo e condição indispensável para a formação do sujeito-aluno (ORDÓÑEZ, 1992; GADOTTI, 2000). Nessa questão da ética estão imbricados temas como a cidadania socioambiental, o desenvolvimento dos sujeitos-alunos para participar politicamente na transformação da sociedade e a práxis do educador ambiental. Portanto, a ética da responsabilidade é enfatizada sob a perspectiva de uma ética cidadã planetária.
Nesse prisma, a sustentabilidade socioambiental torna-se parte integrante da base teórica do estudo sobre a Educação Ambiental Crítica (JACOBI, 2003; LOUREIRO, 2006). A sustentabilidade socioambiental, que se problematiza na educação, enquanto processo formativo e método interpretativo, está relacionada aos princípios básicos de uma interação entre sociedade e natureza que propicie condições de vida viáveis nas distintas escalas espaciais e temporais. Essas dimensões dizem respeito às questões: (i) ecológica – educar para preservar e potencializar a diversidade natural e cultural; (ii) econômica – pensar processos que respeitem as diferentes realidades sociais e dos ecossistemas, minimizando os impactos; (iii) política – promover a participação cidadã nas tomadas de decisões coletivas, a partir de práticas democráticas, diminuindo as desigualdades; (iv) social – assegurar o acesso igualitário aos bens naturais e culturais, inter e intrageracionais (ACHKAR, 2007).
Sob essa perspectiva, enfoca-se a necessidade de raciocinar sobre o mundo sob o olhar da complexidade do mesmo; e, nesse sentido, o presente estudo coloca a complexidade como base epistemológica da Educação Ambiental. Assim, a idéia de um mundo separado entre sociedade e natureza – entre seres humanos e os outros seres vivos – não encontra mais sustentação; pois não há sociedade fora da natureza – ela é constituída na e com a natureza, sofrendo influências dela e influenciando-a. Há necessidade de uma interpretação do mundo complexo – em suas interrelações, conexões e dinâmicas. Nesse sentido, os problemas socioambientais constituem uma soma conexa e articulada de processos interrelacionais, hipercomplexos e mutáveis, situando “[...] a espécie humana perante uma mudança global de conseqüências imprevisíveis” (CARIDE; MEIRA, 2001, p. 37).
Nessa linha de orientação, é urgente avançar para uma metodologia interdisciplinar nos processos educativos, que possibilite refletir sobre a complexidade da realidade ambiente, o contexto dos educandos e da escola, a problematização dialógica, a construção de conhecimentos que projetem decisões e ações locais, sem perder de vista os acontecimentos e fatos globais, enfim, uma metodologia que colabore para a práxis de uma Educação Ambiental Crítica (FLORIANI; KNECHTEL, 2003; FREIRE, 1980).

3  RESULTADOS DO ESTUDO A PARTIR DA ANÁLISE DOS DADOS
Neste momento do trabalho, são focalizadas as contribuições do pensamento freiriano, a partir da obra Pedagogia da Autonomia, para uma Educação Socioambiental Crítica, como fundamentação específica e diferencial na formação de educadores, em torno de duas temáticas: a relação ser humano-mundo na conexão entre os seres humanos e esses com o meio natural e a dimensão crítica da Educação.
  
3.1 A RELAÇÃO SER HUMANO-MUNDO
3.1.1 Concepção de ser humano: no homem e na mulher, como entende Freire, há uma identidade com os princípios constitutivos da Educação Socioambiental que vimos estudando, pois estes só podem ser concebidos integrados ao contexto, ao mundo onde vivem. Isso reafirma o princípio da indissociabilidade entre ser humano e natureza, entre sociedade e ambiente. Esta é uma das grandes contribuições freirianas, a pertença do ser humano ao mundo-natureza como unidade interdependente, superando a visão dicotômica entre ser humano e natureza. Outra contribuição de Freire está relacionada à concepção de ser humano inacabado e, nesse sentido, Freire enfoca a busca de ser mais humano, via uma educação permanente; pois, por meio dela, ele tem condições de tomar consciência do mundo, o qual também é inacabado e, sob essa ótica, posicionar-se diante do mesmo para transformá-lo num mundo mais humano, a partir de uma responsabilidade ética.
Também é importante na visão de Freire, o ser humano enquanto ser relacional, com o mundo e no mundo – um ser-em-comunicação. É nessa comunicação dialógica que ele vai fazendo a história e a cultura, vai transformando o mundo e a si mesmo, de forma ativa e política, buscando responder a seus inquietamentos e problematizando a realidade de vida. Para tanto se torna fundamental, na educação crítica, refletir sobre as questões-problema em conexão com as circunstâncias histórico-culturais, para possibilitar ao ser humano criar de maneira crítica, dialógica e responsável sua história e cultura, buscando ser mais nos lugares de vivência.
Isso impõe à Educação Socioambiental a necessidade de valorizar a dimensão histórico-cultural dos fatos contemporâneos na teia complexa de suas relações, proporcionando mudanças de comportamento das pessoas, individual e socialmente, em vista de sociedades sustentáveis – o que implica processos de construção da cidadania socioambiental, que são processos políticos transformadores das realidades de vivência.
Todas essas relações que o ser humano estabelece com o mundo e com os outros precisam estar pautadas numa ética – característica intrínseca aos seres humanos – e, segundo Freire, em conformidade com a liberdade, pois quanto mais livres formos, maior a nossa eticidade. Nesse sentido ele enfoca a “ética universal”, que se contrapõe à pseudo-ética do mercado do lucro, da ganância, que inferioriza as pessoas em detrimento do capital. Nesse contexto, Freire corrobora a finalidade da Educação Socioambiental Crítica, enquanto formadora de uma ética de responsabilidade das pessoas entre si e no uso dos bens naturais renováveis e não-renováveis, em prol da sustentabilidade no mundo: um outro mundo possível, onde as relações e ações se pautem pela busca permanente do equilíbrio ecológico dinâmico para a vida com qualidade.
3.1.2 Concepção de mundo: o mundo para Freire é lugar da presença humana – uma realidade objetiva que engloba tanto o mundo natural-biofísico quanto o mundo cultural e dos quais o ser humano faz parte, pelos seus aspectos biológicos e pelo seu poder criador. Portanto, o mundo não é apenas suporte natural para a vida humana, mas o lugar onde o ser humano faz história e faz cultura. E, nesse contexto, o mundo é lugar da existência das relações, das interdependências, tanto entre os seres humanos como destes com o mundo. Tal concepção de mundo, em Freire, é de importância constitutiva na Educação Socioambiental, no sentido de fundar e possibilitar a reflexão e desvelar as relações entre o ser humano e o mundo – aspecto central a uma educação voltada ao meio ambiente.
Nessa linha de pensamento, as questões de intervenção humana no mundo são fundamentais para problematizar temas emergentes socioambientais da vida cotidiana dos educandos (impactos da tecnologia, globalização da economia neoliberal, pobreza e miséria, lixões, exploração do trabalho humano, etc.), que necessitam ser pensados numa perspectiva de realidade-mundo dialética, sistêmico-complexa, em constante mudança e transformação versus uma visão ingênua de mundo, algo dado, imutável e fragmentado. Por isso, uma visão interdisciplinar torna-se fundamental para a apreensão da interconectividade complexa dos problemas da realidade-ambiente.
A percepção do mundo como realidade dinâmica e dialética, em Freire, nos mostra que é necessário construir uma nova mentalidade no que tange à relação sociedade-natureza, visto que o equilíbrio dinâmico desta relação nunca esteve tão abalado como atualmente. Cabe ao ser humano a responsabilidade ética de cuidar da vida do Planeta como um todo, pensar um novo modo de vida – produção e consumo –, mais sustentável, enxergando os problemas socioambientais como sendo de ordem complexa, ética, social e política, enfim, repensando a vida em sociedade, a partir de um novo padrão civilizatório.

3.2 DIMENSÃO CRÍTICA DA EDUCAÇÃO
3.2.1 Dimensão formativa do ser humano: a transitividade da consciência no pensamento de Paulo Freire é um dos temas centrais quanto à formação humana e constitui um movimento da consciência ingênua, acrítica – explicação da realidade-mundo como destino dado – para a consciência transitivo-crítica, isto é, compreensão da realidade-mundo, a partir das causas e efeitos dos fatos. Esse processo chamado de conscientização é muito tem agregado ao trabalho da Educação Socioambiental, pois caracteriza uma busca dinâmica de conhecer criticamente a realidade para transformá-la.
Por isso, o processo de conscientização é epistemológico, está relacionado ao conhecimento da realidade para projetar mudanças e, sob o ponto de vista sócio-pedagógico, para instituir uma práxis. E, nesse contexto, o processo de conscientização é relacional entre educadores e educandos, no diálogo em torno da realidade concreta, na construção de alternativas de melhores condições de vida para o lugar onde vivem, desenvolvendo, assim, a experiência do potencial emancipatório das temáticas socioambientais – tornando a Educação um espaço para a construção da cidadania socioambiental e, nesse processo, o educando vai-se percebendo como sujeito transformador da realidade, como ser político pela presença no mundo.
Portanto, do pensar de Paulo Freire para o acontecer da Educação Socioambiental, educar torna-se um ato cognitivo e gnosiológico, de reflexão construtiva do conhecimento, em direção à formação integral do ser humano em vista do desenvolvimento de sujeitos-alunos responsavelmente éticos, cidadãos politizados para com a realidade-mundo, tendo por base um conhecimento libertador, ou seja, um conhecimento problematizado e referenciado. A dimensão gnosiológica da educação compreende também a dimensão política do ato educativo, que qualifica a educação como intervenção social para a transformação da sociedade, com posicionamento crítico. Nesse sentido, a formação integral converge para uma educação que supere a visão hegemônica, autoritária do mercado de acúmulo da riqueza, em vista da justiça socioambiental pela garantia dos direitos de cidadania, nos quais está o direito de todos a um ambiente sadio. Assim, uma Educação Socioambiental comprometida com a formação integral do ser humano encontra, na teoria freiriana, contribuições significativas para sua práxis, pois busca de forma integrada a libertação do ser humano, a conscientização política e a formação ética da responsabilidade para com os outros e com o Planeta.
3.2.2 Dimensão do conhecimento: conhecer para Paulo Freire é entender o mundo a partir da totalidade da vida humana, na perspectiva de superação da fragmentação da realidade. Esse conhecimento dá-se por uma comunicação dialógica entre sujeitos a respeito de um determinado objeto; pois, para Freire, todo ser humano tem uma bagagem de conhecimento chamado “saber da experiência feito” – é o conhecimento imediato aprendido na vida. Por isso, o conhecimento é um processo dialógico e intersubjetivo, mediatizado pelo mundo, relacionado a um contexto espacial e temporal concreto.
Essa concepção de conhecer, portanto, é um ato sócio-político – além de epistemológico e cognoscitivo –, ampliando a perspectiva de problematização da realidade-mundo no ato educativo, visto que potencializa o conhecimento crítico na conscientização dos educadores e educandos, para sua libertação a partir do descobrimento do mundo.
Tais pressupostos, a partir de Freire, são fundamentais para a Educação Socioambiental, em vista da construção de um conhecimento potencialmente crítico e conscientizador. Nessa direção, há possibilidade do educador realizar uma leitura dialogal de mundo com seus educandos, visando à compreensão de natureza, das relações entre os seres humanos e natureza, dos problemas socioambientais – sob o ponto de vista das questões econômicas, políticas, culturais, tecnológicas, sociais, éticas e desumanizantes; enfim, das situações-limites, na perspectiva de construir conhecimentos que desenvolvam uma consciência crítica em vista da cidadania socioambiental, como um inédito-viável. O diálogo entre sujeitos cognoscentes implica uma concepção dialética, em que cada ser humano é detentor de conhecimentos significativos, permitindo, a partir de diferentes saberes, refletir sobre o meio ambiente e sua transformação para a sustentabilidade da vida no Planeta. A questão por trás do diálogo é a curiosidade epistemológica, que transita da espontaneidade à rigorosidade, da ingenuidade à criticidade, tornando-se uma busca metódica por mais conhecimento e que se valida historicamente no diálogo problematizador entre os sujeitos.
Esta perspectiva freiriana da historicidade e contextualização da produção do conhecimento e sua validação na comunicação intersubjetiva, mediatizada pelo mundo, é fundamental à Educação Socioambiental, pois, nessa orientação, os sujeitos cognoscentes tem possibilidade de refletir concreta e criticamente sobre as questões socioambientais, ultrapassando visões simplistas e ingênuas da realidade-ambiente.
3.2.3 Dimensão metodológica: o Método Paulo Freire, verdadeira reviravolta pedagógica, é a maior contribuição freiriana à Educação contemporânea. Nele, Freire faz opção radical pelo diálogo entre educadores e educandos, como meio para educar, a partir da realidade espacial, social e histórica de vida; problematizando-a, indo além dos conhecimentos livrescos, trazendo uma nova maneira de ler, de analisar e raciocinar sobre a realidade, desvelando-a criticamente no processo dialógico. Por isso, a contribuição de Paulo Freire não é centralmente de conteúdo em si, mas fundamentalmente de método e finalidade da Educação. Isto possibilita aportar à Educação Socioambiental um novo jeito de dialogar sobre as questões socioambientais, seus entraves e suas alternativas de superação dos problemas, maximizando seu potencial formativo e crítico na busca da conscientização cidadã em relação ao meio ambiente – finalidade de uma Educação Ambiental Crítica.
Dentre os princípios metodológicos da pedagogia de Freire, que corroboram a discussão das questões socioambientais, são centrais os temas geradores em torno de questões concretas dos sujeitos envolvidos, local e globalmente, problematizando o atual padrão de vida civilizatório, a ideologia dominante (as situações-limites) e construindo premissas para uma sociedade sustentável e solidária – no horizonte do inédito-viável. Entretanto, esse diálogo precisa ser feito a partir de uma rigorosidade metódica no sentido do “pensar certo”, em vista de se alcançar a inteligibilidade da realidade-mundo; isso envolve o pensar crítico, criativo, aberto, desafiador e problematizador dos lugares de vivência dos educadores e educandos, da comunidade do entorno da escola, aumentando o potencial emancipatório de constituição da cidadania, como próprio da Educação Socioambiental. Portanto, a rigorosidade metodológica é um desempenho sócio-profissional responsável, por parte do educador, na construção de conhecimentos consistentes; nesse sentido, segundo o próprio Freire, o papel do educador não é encher os educandos de conhecimento, mas, por meio da relação dialógica e da práxis, orientá-los a desenvolverem um pensamento correto.
3.2.4 Educador e educando – concepção e relação: de início, destaca-se que educador e educando são inacabados, pois, como humanos estão em permanente processo de ser mais humano. Ao educador cabe a condução responsável do processo educativo, visto que a Educação, para Freire, é um processo diretivo, que precisa ser conduzido com competência profissional. Para tanto, compete ao educador engajar-se como testemunha e agente de mudanças sociais – por isso, um agente político, nunca neutro.
Freire mostra aos educadores socioambientais que é possível suplantar práticas conservadoras, estimulando o educando a relacionar-se e interagir ética, crítica e curiosamente com o mundo, com os outros habitantes do Planeta de forma sustentável, como sujeito histórico e protagonista de um mundo mais humano. Nesse sentido, destaca-se a relação dialógica – superação da dicotomia educador-educando –, pela qual, todos os envolvidos no processo educativo fazem-se sujeitos na construção do conhecimento. Sob esse foco, o educador deve ir além de transmissor de conhecimentos e atuar como conhecedor em relação às problemáticas socioambientais em suas múltiplas e complexas dimensões.
Essa perspectiva educacional demanda um enfoque interdisciplinar superador da visão fragmentada da realidade, possibilitando aos educandos compreenderem os problemas em vista de ações coerentes e responsáveis com o mundo; como o próprio Freire enfoca, os educandos são potencialmente sujeitos transformadores do contexto e da realidade onde vivem, desde que tenham condições para aprenderem a tornarem-se cidadãos socialmente críticos e engajados. Esse pressuposto favorece uma Educação Socioambiental Crítica, na urgência hodierna de sociedades que assumam responsabilidades cidadãs protagonistas, transformadoras, criadoras e sonhadoras, em vista da sustentabilidade socioambiental no Planeta.
Para tanto, é importante superar uma concepção “bancária” de prescrição e transmissão de conhecimentos, em prol de uma educação conscientizadora que possibilite à Educação Socioambiental uma relação horizontal entre educador e educandos, mediante o diálogo, a reflexão, a diretividade, o planejamento e a ação, numa dinâmica epistemologicamente curiosa em relação ao mundo e seus temas-problemas. Essa postura de educadores e educandos corrobora uma visão sócio-pedagógica crítica, que não aceita apenas a técnica como resolução dos problemas socioambientais, mas entende que, pela complexidade da realidade-mundo, é importante o diálogo entre os múltiplos saberes – populares e científicos –, das diversas áreas do conhecimento, para se construir respostas históricas mais consistentes com as situações-problemas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Depois do levantamento das contribuições de Paulo Freire à Educação Socioambiental, seguem algumas considerações indicativas referentes à formação inicial e continuada de educadores socioambientais, quais sejam:
(i) que essa formação permita a reflexão sobre a teoria e a prática pedagógicas, na linha da superação da dicotomia sociedade-natureza, possibilitando uma compreensão unitária de mundo e de vida no Planeta;
(ii) ser um processo de formação que fomente vivências de diálogo e partilha de experiências, construção de outras práxis sócio-pedagógicas e de aprendizado mútuo, superando com essas vivências os limites e maximizando as potencialidades;
(iii) ter presente nessa formação a realidade-ambiente concreta e cotidiana dos educandos, tanto local como global, na perspectiva de conexões complexas entre  o tecido social (econômico, político, cultural, ético, tecnológico, etc.) e a teia do mundo natural (dinâmicas ecológicas) e concebendo o mundo como um conjunto de relações históricas, construídas socialmente de forma dinâmica, dialética e inter-relacional;
(iv) tal formação estar fundamentada em uma ética de responsabilidade, de alteridade e de afetividade, na linha de uma Educação Socioambiental para com o cuidado e a sustentabilidade da Vida no Planeta, tanto dos seres humanos, quanto dos não-humanos, superando-se a razão meramente  instrumental em relação à natureza;
(v) desenvolver, nos cursos de formação, valores de auto-estima e dignidade da função social nos educadores e garantir, acima de tudo, sua qualificação profissional, em torno da criticidade, da criatividade, da curiosidade epistemológica, da rigorosidade metódica, da afetividade e da relação dialógica com os educandos, em vista de uma práxis pedagógica socioambiental fundamentada numa ética responsável e na Educação Libertadora;
(vi) conscientizar o educador da importância do processo interdisciplinar na prática educativa –  diálogo entre diferentes conhecimentos, desde o popular ao científico – na discussão dos problemas atuais relativos ao meio ambiente, dada a complexidade dos mesmos, pois são relacionados a múltiplos fatores;
(vii) a formação dos educadores socioambientais acontecer como um processo que lhes possibilite transitar da consciência ingênua para uma consciência crítica, comprometendo-se com a transformação da realidade, mediada pelos seus educandos, enquanto vivenciam sua formação na linha da autonomia e participação cidadã.
A formação de educadores, em geral, assim como a formação de educadores socioambientais é um grande desafio. Depois dessa incursão pelo pensamento pedagógico de Paulo Freire, em relação com outros autores que dialogam e buscam nele suporte para as suas argumentações dentro do campo da Educação Socioambiental, acreditamos que ainda restam contribuições freirianas que necessitam ser aprofundadas e elucidadas – para explicitar mais o que Paulo Freire tem a oferecer a uma Educação Socioambiental Crítica.
 

REFERÊNCIAS

ACHKAR, M. et al. Educación ambiental: una demanda del mundo de hoy. Montevideo: El tomate verde, 2007.
BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
BRUTSCHER, V. J. Educação e conhecimento em Paulo Freire. Passo Fundo, RS: IFIBE/IPF, 2005.
CARIDE, J. A.; MEIRA, P. A. Educação Ambiental e desenvolvimento humano. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FLORIANI, D.; KNECHTEL, M. do R. Educação ambiental: epistemologia e metodologia. Curitiba: Vicentina, 2003.
FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação – uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. 3. ed. São Paulo: Moraes, 1980.
_____. Educação como prática da liberdade. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
_____. Pedagogia do oprimido. 37. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.
_____. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra; Anca/MST, 2004.
GADOTTI, M. Pedagogia da terra. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
_____. A Carta da Terra, o tratado de educação ambiental e a educação para o desenvolvimento sustentável. In: Anais do V Congresso Ibero-americano de Educação Ambiental. Joinville-SC. 2006
GOUVÊA, G. R. R. Rumos da formação de professores para a Educação Ambiental. In: Educar em Revista. Curitiba, n. 27, p. 163-179, jan./jun. 2006.
GUIMARÃES, M. A formação de educadores ambientais. Campinas: Papirus, 2004.
JACOBI, P. R. Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade. In: Cadernos de Pesquisa, n. 118, p. 189-205, março. 2003.
LEFF, E. A complexidade ambiental. São Paulo: Cortez, 2001.
LEMOS, G. N.; MARANHÃO, R. R. Viveiros educadores: plantando vida. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2008.
LOUREIRO, C. F. B. Premissas teóricas para uma educação ambiental transformadora. In: Ambiente e Educação. Rio Grande, v. 8, pp. 37-54, 2003.
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LUDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. 3. Ed. Lisboa: Editora Piaget, 2001.
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SIMÕES JORGE, J. Sem ódio nem violência: a perspectiva da libertação segundo Paulo Freire. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1979.

(1) Ivo Dickmann - Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail   Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE / UFPR.
Rua Vicente Cunha, 356 E, Bairro Santo Antônio, Chapecó – SC.
(2)  Sônia M. M. Carneiro - Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail   Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE / UFPR.

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