Projecto Zé Peão alfabetiza operários no local de trabalho PDF Imprimir e-mail
18-Dez-2011
O projecto “Escola Zé Peão” foi criado em 1990, no Brasil e tem vindo a alfabetizar desde 1991 inúmeros trabalhadores, sobretudo da construção civil, possibilitando assim a operários que não podem ir à escola a aprendizagem da leitura e da escrita. A Escola Zé Pião visa contribuir para a educação básica do trabalhador da construção civil, inspirando-se na constatação de que um alto índice de analfabetismo entre os operários deste sector constitui um obstáculo ao desenvolvimento de um sindicato democrático e eficaz, e também uma negação dos direitos do trabalhador como cidadão.

Este projecto de Educação e Formação de Adultos foi criado em 1990, no Brasil, pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário da Prefeitura de João Pessoa, Paraíba, e por professores do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. Desde Abril de 1991, o Projecto abriu as suas primeiras salas de aula em estaleiros de obra da cidade. Iniciada como um projecto de alfabetização, a Escola Zé Pião rapidamente passou a englobar um programa de pós-alfabetização, em resposta às solicitações dos operários já alfabetizados que queriam continuar os seus estudos. Assim foram criados os programas Alfabetização na Primeira Laje e Tijolo sobre Tijolo. Nos anos subsequentes, foram criados mais 4 programas: um programa de vídeos, chamado Varanda Vídeo; uma Oficina de Arte, um programa de visitas e actividades culturais e uma Biblioteca Volante, por se acreditar que “a educação é um processo que se não restringe à sala de aula”. A Escola também edita um jornal – “A Voz da Escola” – que circula pelos estaleiros das obras.

As aulas ocorrem de segunda à sexta-feira, durante duas horas, no período da noite. “Eles trabalham muito, então não adianta oferecer mais do que duas horas, porque aí eles saem, vão embora”, explica Maria José Moura Araújo, uma das coordenadoras pedagógicas do projecto. Os participantes são, em maioria, homens, entre 18 e 56 anos, muitos vindos do interior do Estado. Mais de 7 mil pessoas já foram alfabetizadas desde 1991. Para este ano, a expectativa é alfabetizar mais 300 que já estão matriculadas em 13 turmas. Os professores-alfabetizadores são todos alunos dos diversos cursos da Universidade.
A metodologia de ensino baseia-se em três princípios: a contextualização, que consiste em trabalhar dentro da realidade em que o aluno está inserido; a significação, que é dar significado àquilo que ele aprende e a especificidade escolar. Segundo a coordenadora pedagógica, o sucesso do projeto deve-se à motivação e mobilização dos trabalhadores. Segundo ela, há actualmente uma grande pressão nas empresas para que os operários voltem a estudar, mas nem sempre foi assim. “No início, a gente teve muita dificuldade até de convencimento da importância de eles estudarem. As empresas queriam nos ver longe, porque achavam que era um projecto do sindicato, mas aos poucos ele foi-se afirmando como um projecto escolar de facto e hoje já tem empresas que solicitam.”

Mas não é apenas a pressão do mercado que leva os operários a voltarem a estudar, muitos retornam à escola pela realização pessoal. “Eles têm esse motivo que é a pressão do mercado, mas outros dizem que têm desejos, que sonham, que querem ajudar os filhos, que os filhos já estão passando eles no saber”, conta Maria José. Além da alfabetização, há algumas acções paralelas, como a biblioteca volante, que circula nas salas e empresta livros para os alunos, e actividades extra-classe. “Sempre que possível, a gente leva os alunos para alguma actividade fora da aula, como conhecer espaços que foram construídos por eles e historicamente negados pelo poder económico”, afirma a coordenadora. Em 1998, a contribuição do Projecto à formação cidadã do operário da construção civil foi reconhecida a nível nacional, quando recebeu o Prémio “Educação para a Qualidade do Trabalho”, concedido pelo Ministério da Educação e Ciência e outras organizações.
Recentemente, por ocasião das comemorações do XX Aniversário do “Projecto Escola Zé Peão”, Tim Ireland, Professor na Universidade Federal da Paraíba e grande animador desta iniciativa, pronunciou um discurso, de que retiramos as seguintes frases:
“Em 1990, António Sobrinho era Reitor da UFPB e Fernando Collor Presidente da República. O Brasil estava caminhando para a hiperinflação. O índice nacional de analfabetismo era em torno de 20% e a Paraíba ainda amargava índices de mais de 38%. Em 1990, o celular quase não existia e o computador era uma conquista de poucos. Frente às cifras mundiais alarmantes de analfabetismo, a Assembleia Geral da ONU proclamou 1990 como Ano Internacional de Alfabetização e incentivou os seus Estados-Membros a envidar esforços especiais no sentido de garantir o direito de milhões de jovens e adultos a educação. 1990 foi também o ano da Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien (Tailândia), em que se lançou a estratégia da Educação para Todos com metas audaciosas para a educação primária e a alfabetização de adultos.  Inspirado pelo apelo da ONU, o Governo Collor criou o Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania - PNAC, com uma Comissão Nacional designada pelo Presidente da República e presidida pelo Ministro da Educação.

O Projecto Escola Zé Pião nasceu nessa conjuntura perversa e contraditória e como resultado, em parte, do próprio plano nacional, que lançou um edital para projectos que buscavam criar novas metodologias para a alfabetização de jovens e adultos. O Sindicato almejava contribuir para a formação e escolaridade do operário da construção civil. Encontrou na UFPB um grupo de professores, quase todos do programa de pós-graduação em Educação, motivados a elaborar e desenvolver uma proposta de Alfabetização, no sentido amplo, para o operário da construção. E, assim, nasceu em 1990, o Projecto Escola Zé Pião. Nasceu como um projecto de educação popular, visando a escolarização do aluno trabalhador, a formação de professores-alfabetizadores e a criação de um espaço de pesquisa.
Ao longo dos 20 anos contribuiu para a alfabetização de mais de 5 000 operários da construção em João Pessoa – sem esquecer algumas empregadas domésticas que também participaram no projecto. Contribuiu para a formação de mais de 400 professores-alfabetizadores, o que, por sua vez, tem contribuído de uma forma muito significativa para promover a educação de jovens e adultos na Paraíba. Inspirou dezenas de dissertações de Mestrado, teses de doutoramento, trabalhos de final de curso, artigos científicos. Inspirou outros projectos, programas e políticas de educação de jovens e adultos. Foi reconhecido regionalmente, nacionalmente e internacionalmente. Serviu de inspiração em certos momentos para o Programa Brasil Alfabetizado, do MEC.

Na realidade, se as promessas governamentais tivessem sido cumpridas, não haveria necessidade hoje para um projecto Zé Peão, da forma em que foi concebido. Porém, o PEZP continua existindo hoje porque a procura existe e o Projecto sempre se pautou pela demanda e não pela oferta. Claramente, o PEZP de agora não é o mesmo de 1990, mas deve os seus princípios metodológicos e filosóficos e o seu compromisso pedagógico-político à proposta original. Não é o mesmo e não pode ser o mesmo em 2011. O Brasil mudou. Houve avanços significativos no campo social. A educação também, mas de uma forma mais lenta e tímida do que gostaríamos. Ao comemorar os 20 anos do Projecto Escola Zé Peão, gostaria de lembrar todas as pessoas que contribuíram de forma brilhante para a escola - da UFPB e do SINTRICOM, todos os professores e coordenadores, todos os operários que passaram pela escola e todos os que acreditavam na importância do projecto. Torcemos pelo futuro de um PEZP diferente, em que todos terão o direito a uma educação gratuita e de qualidade. Viva o Projecto Escola Zé Peão!”

Para saber mais sobre Projecto Escola Zé Peão:

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