A educação que queremos e a complexidade do presente PDF Imprimir e-mail
24-Jun-2012
A Educação vem sendo despojada de seu profundo conteúdo político e, particularmente, de seu potencial para formar cidadãos e cidadãs capazes de pensar uma ordem económica e social diferente, de superar o complexo de profundas crises que vivemos.
Uma educação pertinente, relevante, transformadora e crítica deve ter como fim máximo a promoção da dignidade humana e a justiça social e ambiental. Estas são algumas das conclusões inseridas no caderno “Outro Futuro é Possível!”, que surge em contraposição ao documento proposto pelos negociadores da ONU para a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).

“Outro Futuro é Possível!”
O caderno “Outro Futuro é Possível!” consolida muitos dos documentos produzidos a partir dos trabalhos realizados por mais de duas dezenas de Grupos Temáticos do “Fórum Social Temático, Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental”, preparatório para a Cúpula dos Povos da Rio+20, ocorrido em Porto Alegre em janeiro deste ano.
Com o intuito de acolher a multiplicidade de experiências e contribuições dos diversos sujeitos que lutam por outro modelo de sociedade, alicerçado na justiça social e ambiental, os Grupos Temáticos dialogaram com milhares de ativistas sobre temas mobilizadores relacionados com a agenda da sustentabilidade e da justiça social e ambiental, capazes de estabelecer conexões e aprofundar reflexões para a construção de paradigmas alternativos.
Reunidos depois de outubro de 2011, os Grupos procuraram estabelecer um processo que ajudasse a fortalecer a atuação da sociedade civil na Cúpula dos Povos na Rio+20, respeitando o tempo de elaboração de cada grupo-tema e viabilizando discussões e formulações coletivas prévias à realização do Fórum Social Temático. E, ainda que possam ser sementes para processos futuros, este trabalho foi aprofundado no próprio Fórum e, em alguns casos, teve seguimento após ele.

Transcrevemos o capítulo referente à educação inserido neste caderno
A educação que queremos e a complexidade do presente
A crise global é também uma crise de educação – assumida como educação ao longo da vida – de seu conteúdo e seu sentido, pois gradualmente deixou de conceber-se como um direito humano e converteu-se num meio privilegiado para satisfazer as necessidades dos mercados, demandantes de mão-de-obra para a produção e o consumo.
Não somente se abandonou a formação de pessoas capazes de pensar os importantes problemas políticos, ambientais, económicos e sociais de ordem global, como também a Educação vem sendo despojada de seu profundo conteúdo político e, particularmente, de seu potencial para formar cidadãos e cidadãs capazes de pensar uma ordem económica e social diferente, de superar o complexo de profundas crises que vivemos.

Resulta fundamental repensar os fins e práticas da educação no contexto da disputa de sentidos, caracterizado pela subordinação maioritária das políticas públicas ao paradigma das necessidades humanas e, em sentido contrário, pela emergência deste movimento social, de paradigmas alternativos que buscam restituir o caráter de direito e de projetos éticos e políticos na prática educativa. Neste sentido, é urgente resgatar a noção de Educação como direito humano, em suas dimensões formais e informais, abrir o horizonte à democratização das sociedades para formar cidadanias críticas, capazes de vincular-se a movimentos que reclamem uma transformação da ordem social, visando uma maior justiça social e ambiental, com a intenção de entender e discutir soluções aos problemas de escala planetária.
O desenvolvimento de uma “subjetividade” crítica é um aspeto central na construção de uma pedagogia cidadã na atual conjuntura. Trata-se de restabelecer um sentido emancipador dos processos de empoderamento, entendidos como o desenvolvimento de recursos da comunidade para fazer política, gerar conhecimentos, potenciar os saberes e aprendizagens que se produzem nas lutas democráticas e que necessitam de lideranças inclusivas, organizações participativas, alianças com organizações democráticas da sociedade civil e a permanente e necessária “ponderação radical-pragmática” (inédito-possível, diria Paulo Freire) nas definições de acordos, consensos e associatividade entre a diversidade de atores que participam da política.
Tudo isto implica uma reviravolta política e cognitiva, uma mudança paradigmática na maneira de entender a educação, uma abertura a novos pontos de vista sobre as finalidades sociais, como os do bem-viver, o dos Bens Comuns, o da ética do cuidado, entre outros, sobre os quais se deve abrir um grande espaço de discussão e socialização na Rio+20 e, mais além, afirmados no sentido de uma educação para a mudança e a transformação pessoal e social.

Esses novos paradigmas e pontos de vista não somente devem ser mapas para mover-se nos novos contextos, mas também conteúdo para as finalidades que buscamos como movimento cidadão, capaz de envolver os distintos atores do processo educativo, como as trabalhadoras e trabalhadores de ensino, os estudantes, os pais e as mães de família, e mais amplamente todas e todos os cidadãos que precisam e lutam por uma mudança profunda na educação, para gerar uma mudança radical na sociedade, rumo a uma maior justiça social e ambiental. Tudo isso é consistente com a conceção libertadora da educação popular, que se alimenta de múltiplas experiências pedagógicas para formar outra cidadania.
A mudança paradigmática na educação – como condição para avançar rumo às sociedades sustentáveis, com justiça social e ambiental, onde a economia seja um meio para isso e não um fim em si mesmo – deve supor uma mudança nos enfoques tecnicistas e economicistas das políticas educativas vigentes. É preciso reivindicar o direito a aprender “durante toda a vida”, um lema que não deve ser entendido como a expressão de um tipo de capacitação permanente para satisfazer as necessidades dos mercados e as demandas das velhas e novas indústrias.
Esta aproximação sobre a educação que queremos parte de construir múltiplas “educações” em suas dimensões formal e informal, para desenvolver capacidades humanas, incluindo as capacidades cognitivas e de participação social, de conviver com outros na diversidade e na diferença, de cuidar e planificar a própria vida, de conviver entre seres humanos em harmonia com o meio ambiente.

Uma educação pertinente, relevante, transformadora, crítica, deve ter como fim máximo a promoção da dignidade humana e a justiça social e ambiental. A educação, direito humano promotor dos demais direitos, deve incluir crianças, jovens e pessoas adultas como sujeitos desse direito, promover a interculturalidade, a igualdade, a equidade de género, o nexo entre cidadania e democracia, o cuidado e relação harmónica com a natureza, a eliminação de toda e qualquer forma de discriminação, a promoção da justiça e a construção de uma cultura de paz e de resolução não violenta dos conflitos.
A educação que queremos requer promover estrategicamente uma educação que contribua para uma redistribuição social dos conhecimentos e do poder (levando em conta o género, a raça-etnia, a idade, a orientação sexual), que potencialize o sentido de autonomia, solidariedade e diversidade que expressam os novos movimentos sociais. Trata-se de promover uma educação crítica e transformadora que respeite os direitos humanos e os de toda a comunidade de vida a que pertence o ser humano, que promova especificamente o direito à participação cidadã nos espaços de tomada de decisões.
PDF do Caderno “Outro Futuro é Possível!”

Mais informações consultar o site: http://dialogos2012.org/

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