Analfabetismo não é ignorância PDF Imprimir e-mail
30-May-2013
A língua escrita não é o único meio de informação e de conhecimento. O sistema escolar não é o único sistema de aprendizagem. Aprendemos ao longo da vida e, na maioria das vezes, fora da língua escrita e do sistema escolar. Uma criança analfabeta não é ignorante e, muito menos, um adulto analfabeto. Quem não lê nem escreve, aprende de muitas maneiras e sabe muitas coisas. Este é um artigo que a escritora, linguista e especialista na área de leitura e escrita, equatoriana Rosa Maria Torres disponibilizou no seu Blog.

Analfabetismo não é ignorância
(Do lat. Analphabētus, e este do gr. Ἀναλφάβητος).
1 - adj. Quem não sabe ler nem escrever. U. t. c. s.
2 - adj. Ignorante, sem cultura, sem conhecimentos de qualquer assunto.
É assim que a Real Academia Espanhola (RAE) define “analfabeto/a". Não sabemos desde quando, mas permanece em vigor no século XXI e depois de muitos anos de pesquisa, análise e debate sobre o analfabetismo, a alfabetização e a cultura escrita.
"Quem não sabe ler ou escrever" é uma descrição concisa da condição da pessoa analfabeta. Mas surpreende e preocupa o segundo ponto: "Ignorante, sem cultura, sem conhecimentos de qualquer disciplina"

Ignorante?
"O homem mais sábio que conheci na minha vida não sabia ler nem escrever” - José Saramago
A língua escrita não é o único meio de informação e de conhecimento. O sistema escolar não é o único sistema de aprendizagem. Aprendemos ao longo da vida e, na maioria das vezes, fora da língua escrita e do sistema escolar. Uma criança analfabeta não é ignorante, e muito menos um adulto analfabeto. Quem não lê nem escreve, aprende de muitas maneiras e sabe muitas coisas. Muito desse conhecimento tem base científica e é socialmente válido. Graças a ele sobrevivem, vivem, trabalham, constroem uma família, socializam, divertem-se, resolvem os problemas do quotidiano, ensinam a outros e continuam a aprender.
As pessoas analfabetas não são ignorantes, do mesmo modo que as pessoas alfabetizadas não são necessariamente iluminadas. Há sábios analfabetos e tolos com título. Todos nós temos saberes e ignorâncias específicas, em vários domínios, pois ninguém pode ignorar tudo e saber de tudo.

Sem cultura?
"A cultura é o conhecimento de quem não tem de se recordar. Ele flui espontaneamente” - Diógenes
"Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido" (André Maurois)
"A cultura não é o que os artistas fazem, mas o que as pessoas fazem em espaços públicos, na vida quotidiana” - Jesús Martín Barbero

Não há pessoas "sem cultura" ou "incultas", a menos que se entenda cultura de uma forma restrita e elitista, como "alta cultura", como cultura de elites. A cultura é uma dimensão transversal da vida e da(s) política(s). Todas as pessoas pertencem a uma ou mais culturas, independentemente do nível de escolaridade e do nível da utilização da língua escrita. Os analfabetos movem-se predominantemente na cultura oral e participam passivamente na cultura escrita. Quem não sabe ler nem escrever, como todas as pessoas, tem uma língua(s), saberes, crenças, tradições, histórias, códigos culturais, preferências, estilos de vida, e de comunicação, métodos de conhecimento, etc.

Desconhecimento de qualquer assunto?
Estender o termo analfabetismo para lá do campo da leitura e da escrita, associando-a com "ignorância" ou "desconhecimento" em geral, é uma decisão arbitrária que tem levado a desvirtuar o próprio conceito e a multiplicar os analfabetismos (e as alfabetizações) aplicados praticamente qualquer campo: "politicamente analfabetos", "analfabetismo emocional", "analfabetismo tecnológico", "analfabetismo digital", "analfabetismo ecológico", etc.
A associação errada de analfabetismo = ignorância, analfabetismo = incultura, solidificou alguns dos entendimentos mais retrógrados e discriminatórios da condição de analfabeto. Muitos usam "analfabeto", no âmbito doméstico e público, como um insulto, como um substituto de ignorante, inculto e até mesmo bruto.

Muitos especialistas e pesquisadores passaram a vida a lutar contra os preconceitos sobre o analfabetismo e as pessoas analfabetas, tentando avançar e alimentar o campo de investigação e do conhecimento científico, sem saber que - no caso do espanhol, é a própria Real Academia Espanhola que continua a sustentar os velhos preconceitos e conceções.

Peço de uma forma educada à RAE para rever e atualizar urgentemente a entrada "analfabetos" e outras entradas relacionadas.

OTRA∃DUCACION – É um blog em espanhol de “educación ciudadana sobre educación, aprendizaje y política: http://otra-educacion.blogspot.pt/   

Artigo “Analfabetismo não é Ignorância” em: http://otra-educacion.blogspot.pt/2013/01/analfabetismo-no-es-ignorancia.html 

Rosa María Torres é escritora, linguista e especialista na área de leitura e escrita
Ver o seu Curriculum em: http://otra-educacion.blogspot.pt/p/me.html   

Julgamos que em Portugal o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências não comete o mesmo erro que o dicionário da Real Academia Espanhola.
Ver este esclarecimento no Ciberdúvidas:
 
Inumerismo ‘vs.’ inumeracia
[Pergunta] Na sequência das perguntas de outros consulentes sobre os conceitos de “analfabetismo”, “iliteracia” e “iletrismo”, dirijo-me ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, a fim de solicitar aos vossos colaboradores um parecer sobre o melhor modo de traduzir para português o vocábulo inglês “innumeracy” (o qual, noto de passagem, já ganhou carta de alforria na Internet com o surgimento de uma página que lhe é especificamente dedicada: http://www.innumeracy.com).
À guisa de intróito, permito-me salientar que encontrei o termo “inumerismo”, quer no Dicionário da Academia, quer nos títulos das traduções dos ensaios de John Allen Paulos, Inumerismo: o Analfabetismo Matemático e as suas Consequências, trad. Raul Sousa Machado, Mem Martins, Europa-América, 1991, e O Circo da Matemática: para além do Inumerismo, trad. Carlos Fernandes e Florbela Fernandes, Mem Martins, Europa-América, 199Não parece, todavia, que o termo tenha colhido o favor da generalidade dos falantes (mesmo, ou sobretudo, cultos) do português europeu. Será a expressão do subtítulo do primeiro ensaio, “analfabetismo matemático”, a (melhor) alternativa? Ou deverá preferir se o vocábulo “inumeracia”, formado por decalque do inglês e por analogia com “iliteracia” (ao qual, aliás, prefiro “analfabetismo”)?

[Resposta] É verdade que, de entre os dicionários recentes, só o da Academia das Ciências de Lisboa é que regista a palavra inumerismo, definindo-a como «falta de domínio das operações aritméticas fundamentais». Da soluções propostas pelo consulente, penso que inumerismo ainda é a melhor, porque segue um modelo já disponível, o de analfabetismo e evita o modelo de literacia, que é claramente importado. No entanto, tendo-se já adotado literacia e iliteracia em português (ver Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), para designar um grau de domínio das competências da leitura e da escrita que não são propriamente os mesmos designados por alfabetismo e analfabetismo, «capacidade/incapacidade de ler e escrever», compreendo que seja forte a tendência para usar inumeracia, aportuguesamento do termo inglês “innumeracy”. A expressão «analfabetismo matemático» pode ser outra solução, mas tem o problema de analfabetismo estar habitualmente ligado ao processo de aprendizagem de um sistema gráfico de representação da língua materna.

 

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