Quebrar as rotinas sociais PDF Imprimir e-mail
03-Jan-2010
Motivar para a educação quem abandona a escola precocemente é um dos maiores desafios para a educação de adultos. Um estudo recente mostra que a educação de adultos não-formal criou, na Dinamarca, contextos educativos capazes de quebrar as rotinas sociais, graças a abordagens pedagógicas especiais.

“Inscrevi-me porque estava com uma depressão. Nunca realmente me adaptei a lado nenhum. De facto, na maior parte do tempo, ficava na cama e não fazia nada. A certa altura, ouvi falar deste lugar. E pensei: OK, se não for tudo à volta de leituras, pode ser fixe. E, pela primeira vez na vida, tive a experiência de ser compreendido e aceite tal como sou. Havia uma atmosfera fantástica. Agora, estou a avançar. É verdade, vou receber no Verão um certificado de nível secundário superior”.
São as palavras de um participante num dos 5 cursos de educação de adultos não-formal que foram objecto do referido estudo.
Neste trabalho, Steen Elsborg e Steen Høyrup, da Escola de Educação Dinamarquesa, Universidade de Aarhus, aplicaram aos cinco casos um quadro teórico de aprendizagem.
À margem:
Várias instituições de educação de adultos não-formal organizam cursos destinados aos que abandonaram a escola sem qualquer sucesso e a outros cidadãos que se alhearam do ensino formal. Nas palavras destes autores, são pessoas que se encontram “à margem da sociedade de conhecimento”.
De acordo com o estudo, estes tipos de cursos têm o potencial de exercer um impacto essencial sobre os participantes:
- Elevação de auto-estima, auto-conhecimento e auto-confiança
- Motivação para criar um novo conteúdo de vida
- Abertura a novos desafios
- Desejo de desenvolver novas competências
A razão destas realizações é a capacidade que possuem as escolas de educação de adultos não-formal para criar contextos educativos, através da aplicação de cinco elementos de uma pedagogia especial, afirmam Elsborg e Høyrup. A saber:
1. Focar cada participante como um actor rico em recursos e abordá-lo(la) com respeito e compreensão. “Não falo com eles com ideias preconcebidas ou reserva mental. Abordo estas pessoas com um espírito aberto, “uma tela em branco” e um só ponto de vista: eu acredito em ti”, diz um dos formadores citados no trabalho. Outro afirma o seguinte: “Eu concentro-me sobretudo no que são os seus trunfos, os seus sonhos e os seus desejos para o futuro, naquilo que realmente os entusiasma”.
2. Um ambiente social que dá a cada pessoa força e energia para agir. Os participantes criam vínculos entre si e tornam-se uma comunidade, o que gera um contexto educativo muito positivo. “Fixe, há outras pessoas como eu. Não sou só eu a ser estranho, bizarro ou diferente. É isso que, com frequência, os participantes descobrem. O que cria um sentimento de normalidade, segurança e confiança. Não é mais do que isso”, diz um formador.
3. Organização flexível e focalizada do programa educacional. Os formadores estão sempre prontos para aproveitar o momento em que os participantes estão motivados para aprender e para receber orientação. Assim, vão mudando os seus planos em conformidade com esses momentos. O aconselhamento concentra-se no auto-conhecimento e em novas possibilidades de acção. No entanto, os formadores não fazem compromissos no que se refere a competências e exigências. “Reflectindo sobre o curso, um dos aspectos mais positivos foi a forma como os participantes nos colocavam permanentemente novos desafios”, refere um formador.
4. Ensinar e aconselhar são actividades interligadas.
Uma das características de um contexto educativo motivador é a relação particular que se estabelece entre participantes e formadores/conselheiros, baseada, entre outros factores, na coerência dinâmica entre orientação e ensino. Um participante faz a seguinte descrição: “A formadora estava sempre disponível para mim. E abriu-me novas possibilidades. Agora, já posso ver um bom futuro à minha frente”. Outro participante declara: “Algumas vezes, um de nós descarrila e ela fica furiosa e dura. Desapontámo-la e entristecemo-la. Isso mostra que ela quer o melhor para nós.”
5. A educação é dirigida à sociedade.
Os formadores assumem a responsabilidade de mediação e tradução entre as pessoas e a sociedade. Os participantes vivem o curso e a escola como uma base para entrarem numa sociedade que, até agora, lhes parecia perigosa e hostil. “Normalmente, utilizamos a metáfora de nos movimentarmos na auto-estrada da vida, mas onde existem muitas rotundas. Por isso, andamos à roda, em círculos. Ou então, viramos à direita e descobrimos que se trata de uma estrada sem saída. Por isso, é preciso regressarmos a uma sala segura, onde se encontram pessoas em quem confiamos. É assim que poderemos seguidamente viajar outra vez em frente”, explica um formador/conselheiro.
As constatações do estudo de Elsborg e Høyrup fazem parte da construção de um novo conceito de educação de adultos intitulado Educação Preparatória à Medida de cada Pessoa (em dinamarquês, IFU).

Michael Voss, in InfoNet.

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