Conscientizar/Consciencializar, que diferenças? PDF Imprimir e-mail
10-Jun-2013
Capa do livro de Paulo Freire - ConscientizaçãoSabemos como a conscientização é um conceito importante na Pedagogia de Paulo Freire. Recentemente o escritor português Onésimo Teotónio Almeida, que conheceu Paulo Freire e foi seu tradutor para o inglês escreveu uma crónica a partir de uma pergunta que lhe fizeram: Por que razão se usa termo conscientizar e não consciencializar? Será influência americana?

O verbo conscientizar é mais usado no Brasil e o verbo consciencializar é mais usado em Portugal, mas ambas as palavras estão corretas. Conscientizar segue as regras de boa formação do português, através da adjunção do sufixo -izar ao adjetivo 'consciente', para obter o significado 'tornar consciente' ou 'fazer perceber'. Este verbo é sinónimo de consciencializar, que, por sua vez, se forma pela adjunção do mesmo sufixo -izar ao adjetivo consciencial (adjetivo pouco usado, que designa aquilo que é relativo à consciência).

Segue-se a crónica "What’s in a name?"
por Onésimo Teotónio Almeida para o PNETliteratura em 25/03/2013

Almoço de trabalho com a Leonor numa silenciosa mesa do Campinos. Combinamos não conversar (ideia dela quando tem muito que ler) e cada um tratar do que tem entre mãos. Ela, a emergir da submersão na tese de uma aluna, interrompeu-me: Por que razão há-de esta moça usar termo conscientizar e não consciencializar? Será influência americana?

Não, não existe o termo em inglês. O mais próximo é to become aware. Sobre isso tenho alguns dados acumulados de experiências de desacertos culturais e tentativas de tradução. Os brasileiros dizem conscientizar porque foi Paulo Freire quem criou o termo; o nosso consciencializar é menos dinâmico. E, se o sentido é o uso, ele tinha razão. Em Portugal, nos anos sessenta, passávamos horas infindas a consciencializar problemas sem fazer nada. Paulo Freire insistiu em incluir algo de imperativo na noção de tomar consciência ou de tornar consciente. Conscientizar implicava acção.

Tive experiência disso em directo quando um amigo meu escreveu um livro sobre o autor de A Pedagogia dos Oprimidos para ser publicado em inglês. O próprio Paulo Freire fez o prefácio, mas não gostou nada da versão traduzida. Fui convidado para um almoço em que ele participava e foi-me servida a tradução. Agarrei do original (era coisa curta) e refi-la dentro dos parâmetros conceptuais da linguagem original, obtendo de imediato o acordo pleno do pedagogo.

O ideário de Paulo Freire nada deve à tradição anglo-americana. No fundo, ele era um fenomenólogo. E toda a sua pedagogia vive da convicção alemã (aqui desenvolvida por Edward Sapir e Benjamin Whorf, mas inspirada em Herder e Humboldt) de que a língua cria consciência e determina a acção. Traduzi como ele desejava, na linguagem em que ele se sentia em casa. A verdade é que já naquela altura eu repetia num curso ser essa visão meramente romântica e ter apenas uns grãos de verdade, isto é, de confirmação empírica. E, no entanto, quem usa conscientizar em vez de consciencializar fá-lo (sabendo-o ou não) a partir do conceito de Freire. A verdade é que, na prática, bate no mesmo: as palavras não agem. Não é por se dizer conscientizar que as pessoas são levadas a agir.

Mas isso eu não me atrevi a dizer a Paulo Freire. O senhor tinha direito às suas crenças. E fez um trabalho pedagógico de se lhe tirar o chapéu. Que todavia resultou do seu espírito de militância, e não do uso do termo conscientizar.
Onésimo Teotónio Almeida
Para saber mais sobre Onésimo Teotónio Almeida em:http://pt.wikipedia.org/wiki/On%C3%A9simo_Teot%C3%B3nio_Almeida

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