Os conceitos de Piaget e a Teoria da Diferenciação PDF Imprimir e-mail
22-Jul-2013
Jean Piaget
O construtivismo, uma teoria de aprendizagem em que se apoiam algumas perspetivas da educação de adultos, baseia-se num conceito de aprendizagem decorrente do pensamento de Piaget. Um ponto crítico, no entanto, é que a noção de Piaget não permite qualquer forma possível de comportamento que não seja a adaptação quando se lida com as circunstâncias existentes.
Recentemente foi publicado na INFONET (European InfoNet Adult Education) um artigo de Gertrud Wolf em que reflete sobre a plausibilidade de uma teoria de aprendizagem que seja mais adequada à educação de adultos, complementando os conceitos de Piaget com a teoria da diferenciação.

Eis algumas das ideias chave apresentadas nesse artigo:
A Epistemologia genética de Jean Piaget ainda é de uma importância central quando se olha para a teoria construtivista da aprendizagem. O ponto de partida desta teoria é o ato de adaptação, a modificação cognitiva de esquemas de comportamento quando se confrontam com o meio envolvente. Devido à sua importância para o construtivismo, muitas teorias para a educação de adultos baseiam-se num conceito de aprendizagem decorrente do pensamento de Piaget. Um ponto crítico, no entanto, é que a noção de Piaget não permite qualquer forma possível de comportamento que não seja a adaptação quando se lida com as circunstâncias existentes. No entanto, quando se olha para a educação de adultos deve-se focar nos métodos de comportamento que não são entendidos como realizações resultantes de adaptação, mas sim aquelas que são resultantes da diferenciação. Por essa razão, o seguinte artigo testa a plausibilidade de uma teoria de aprendizagem de adultos que esteja em consonância com o pensamento de Piaget e prolonga-a com a teoria de diferenciação, usando o exemplo do desenvolvimento do Self.

Adaptação na teoria da aprendizagem de Jean Piaget
Com o conceito de adaptação Piaget descreve o processo de aprendizagem, tanto como parte do conhecimento e como o seu pré-requisito genético e, com isso, distingue-se de um entendimento behaviorista de aprendizagem. A adaptação aqui, no que diz respeito ao desenvolvimento e uso de padrões de atividade, é vista como a interação de dois mecanismos, nomeadamente, o uso de padrões existentes adquiridos através de assimilação e a mudança desses padrões através de acomodação. A capacidade de adaptação desenvolve-se cedo a partir de invariantes biológicos inerentes representados por reflexos, tais como chupar ou agarrar. Segundo Piaget, a adaptação só conduz a um sistema estável quando o equilíbrio entre a acomodação e assimilação foi alcançado (cf. Piaget, 1975, 1989).
A adaptação é entendida como a modificação de uma coisa para as condições existentes de outra coisa. Ao procurar por um processo complementar ao da adaptação, a diferenciação, ou a distinção de uma coisa da outra, pode ser útil. A diferenciação é adequada para utilizar numa teoria de aprendizagem, porque pode ajudar a construir uma relação com a qual se pode basear a aprendizagem de adultos em modelos de aprendizagem juvenil e simultaneamente transcendê-los. Além disso, a noção de diferenciação já surgiu noutros contextos nos quais foi implicitamente atribuída uma função na psicologia de aprendizagem que parece especialmente apropriada para se ligar tanto com Piaget, como com a educação de adultos.

A teoria de diferenciação
Desde o início os seres vivos estão sujeitos a momentos de tensão, que resultam do grau de diferentes estados internos e/ou externos do ser e que podem ser regulados pelas diferentes atividades reativas do organismo. De acordo com Piaget esta regulação consiste num ato de adaptação com o objetivo de alcançar o equilíbrio entre a acomodação e a assimilação. A teoria de diferenciação inicia-se na etapa anterior e assume que, quando a tensão ocorre a energia mental é construída e acumulada inicialmente e depois fica disponível para ser usada na adaptação quer seja na acumulação ou na assimilação. É assumido um tipo de força mental que pode então ser transformada em energia mental. A primeira função de construção de estrutura que utiliza essa energia é a adaptação. No entanto, também é possível que o indivíduo não converta imediatamente a tensão em comportamento de adaptação, mas que lhe resista e a deixe crescer até que uma crise energética ocorra. Quando essa crise atingir um ponto alto o indivíduo é capaz da transcendência, pode superar-se e ao enfrentar a pressão para se conformar cria algo de si próprio e, com isso, torna-se mais um indivíduo. Falando metaforicamente, podem ser criadas estruturas no cérebro que mostram a não existência de pontos de conexão anteriores coerentes e que não podem ser entendidas como um mero desenvolvimento de estruturas existentes, mas como uma autêntica criação nova. No seguinte modelo de desenvolvimento de um Self autónomo, que vai desde o juvenil ao adulto, a adaptação e a diferenciação podem ser entendidas como as funções básicas de aprendizagem.

Resumo
A educação de adultos significa mais dentro da biografia adulto do que simplesmente voltar aos livros e aprendizagem de adultos mais do que simplesmente continuar a aprender. A aprendizagem de adultos pode agora ser atribuída a uma qualidade individual a partir da qual derivam os interesses e motivações individuais e estes se tornam relevantes para os processos de aprendizagem. Se a aprendizagem de adultos for entendida como um ato de diferenciação e não como um alargamento da aprendizagem da criança, podem-lhe ser atribuídos outros efeitos dentro da biografia do adulto. Os cursos que lidam com alterações consideráveis e muitas vezes perturbadoras da personalidade e auto-conceito do aluno são olhados por um prisma diferente conforme se veja o processo de aprendizagem como um ato de adaptação ou de diferenciação, 
Uma teoria de aprendizagem do adulto pode ser uma ajuda para os educadores se prepararem de forma diferente para o seu trabalho, equacionando os adultos em processos de aprendizagem como adultos e não como estudantes. É de esperar que os educadores que continuam a forçar os alunos em atos de adaptação e, portanto, não os abordando no nível adulto, provavelmente, provoquem maior resistência em aprender do que aqueles que se orientam para a utilização de processos de aprendizagem com base na diferenciação.
Com a ajuda da diferenciação a compreensão da aprendizagem de Piaget pode ser expandida para incluir uma função importante e pode distinguir a aprendizagem de adultos da aprendizagem de uma criança. A adaptação e a diferenciação são vistos nesta teoria como duas funções básicas da aprendizagem humana em que a adaptação é a base sobre a qual se desenvolve a diferenciação. Para o avanço da teoria, é necessário pesquisa empírica. Depois de desenvolver a formulação teórica o próximo passo lógico será fazer investigação recolhendo informação em diferentes graus de diferenciação e da sua possível ampliação por efeito de intervenções pedagógicas utilizando, para tal, métodos qualitativos e quantitativos. Em resumo, a teoria de diferenciação abre uma linha de perspetivas de investigação nova e inovadora para a educação de adultos.

A autora deste artigo - Gertrud Wolf é professora na Justus Liebig University Giessen Pode ler o artigo completo em inglês aqui: http://www.infonet-ae.eu/en/articles/the-theory-of-differentiation-for-adult-learning-positioning-adult-learning-following-piaget-1336
 

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